sexta-feira, 30 de abril de 2010

Histórias da África do Sul e outras histórias


Histórias da África do Sul e outras histórias
(Neide Medeiros Santos – Crítica Literária FNLIJ/PB)

[...] Quem és tu? Que esse estupendo
Corpo, certo me tem maravilhado!
[...]
Eu sou aquele oculto e grande Cabo
A quem chamais vós outros Tormentório.
(Luís de Camões. Os Lusíadas. Canto V, 49,50)

A África do Sul é guardiã de muitas histórias. Elas estão presentes em Os Lusíadas, de Camões, nos primeiros escritos de Fernando Pessoa, nos contos africanos.
O Canto V, de “Os Lusíadas”, poema épico de Camões, narra os perigos encontrados pelos navegadores portugueses para contornar o Cabo das Tormentas (ponto geográfico da África do Sul) quando iam para as Índias. Este cabo é antropomorfizado pelo poeta e, de forma simbólica, é representado pelo Gigante Adamastor.
Fernando Pessoa foi alfabetizado em inglês e morou na África do Sul, na cidade de Durban, entre 1896-1905. Escreveu seus primeiros versos na língua de Shakespeare, mas a grandiosidade da poesia de Pessoa está na língua portuguesa.
A aproximação da Copa do Mundo na África do Sul (2010) é um bom motivo para leituras que falam sobre a história, a geografia e os contos africanos. Editoras brasileiras têm se preocupado em apresentar histórias para o público infantil e juvenil ressaltando os saberes africanos. Entre os bons livros publicados, encontramos “Ao Sul da África” (Companhia das Letrinhas: 2008), de Laurence Quentin e Catherine Reisser e “Meus Contos Africanos“ (Martins Fontes: 2009), seleção de Nelson Mandela.
No primeiro livro citado, o leitor trava conhecimento com a história e geografia da África do Sul. É um livro que contém informações sobre os ndebeles, xonas e bosquímanos.
Há um detalhe interessante a respeito dos ndebeles. Com o apartheid, eles foram deportados para uma zona muito árida, perto da cidade de Pretória. Resistiram à miséria, brutalidade, humilhação e suas tradições só foram mantidas graças às mulheres girafas. São mulheres fortes, destemidas e receberam a denominação de mulheres-girafas porque usam no pescoço uma pilha de argolas de metal. Elas têm um pescoço muito longo.
O conto “Modjadji e a mamba” procura dar uma explicação sobre a origem dessas argolas. Seria, assim, um conto etiológico.
Neste livro, o leitor encontra, ainda, histórias de Zimbábue e de Botsuana. São apresentados, também, aspectos religiosos, costumes e tradições desses povos.
O livro “Meus Contos Africanos”, seleção de Nelson Mandela, é formado por contos de diferentes países do continente africano. Mandela é natural da África do Sul, lutou contra o apartheid, defendeu a liberdade de seu país e foi preso político por 27 anos. Solto em 1990, Mandela foi eleito presidente da República da África do Sul em 1994. Em 1993, ganhou o Prêmio Nobel da Paz.
No Prefácio do livro, o autor afirma que reuniu uma antologia de contos africanos antigos que depois de viajarem por muitos séculos são oferecidos às crianças africanas com novas vozes. Ressalta que os contos foram enriquecidos com a essência africana.
32 contos integram a antologia organizada por Mandela. Há predomínio dos contos da África do Sul, mas são encontrados contos da Namíbia, Botsuana, Zimbábue, Moçambique, Zâmbia e de outros países africanos. Mandela recolheu contos de 19 folcloristas e contistas. 17 ilustradores deram beleza a esses contos que remetem a um tempo pretérito. Quase todos contistas e ilustradores nasceram na África da Sul. A ilustradora Véronique Tadjo, francesa, é uma das exceções
A mensagem final do líder sul-africano merece a transcrição. É válida não apenas para as crianças africanas, mas para todas as crianças do mundo.
“É meu desejo que a voz do contador de histórias nunca morra na África, que todas as crianças da África experimentem a maravilha dos livros e que nunca percam a capacidade de ampliar seu local de morada terrestre com a magia das histórias”.
A liberdade dos africanos do sul foi uma conquista árdua. O indiano Gandhi passou uma temporada no país e fundou, em 1894, o Congresso Indiano de Natal com o objetivo de combater a violência contra os seus conterrâneos.
Diferentes grupos étnicos integram a República da África do Sul. São 32 milhões de negros, cinco milhões de brancos, três milhões de mestiços ou colored e um milhão de indianos.
Se você quiser saber mais sobre este país, leia os livros de Laurence Quentin / Catherine Reisser e a seleção de contos de Nelson Mandela. São livros para jovens que contêm informações e saberes para todos.

sábado, 17 de abril de 2010

Pinóquio – da Itália para terras nordestinas


Pinóquio – da Itália para terras nordestinas
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária da FNLIJ/PB)

A mentira tem pernas curtas
e nariz comprido.

Manoel Monteiro é poeta e cordelista pernambucano. Radicado há muitos anos em Campina Grande, vive modestamente em uma casa no bairro de Santo Antônio cercado por livros e uma folheteria bem organizada. Na entrevista que concedeu às pesquisadoras do projeto “Redescobrindo as Trilhas de Augusto dos Anjos”, afirmou que nasceu em Pernambuco, mas que escolheu ser paraibano e se considera paraibano.
Monteiro foi autor do projeto “Paraíba, sim Senhor!” e publicou vários folhetos ressaltando os vultos e as figuras ilustres da Paraíba, com destaque para Augusto dos Anjos – o Poeta Maior. Atualmente, desenvolve um trabalho de divulgação do cordel nas escolas municipais de Campina Grande, proferindo palestras e fazendo doações de folhetos. Seu maior desejo é dotar cada biblioteca escolar de Campina Grande de um acervo de cordéis.
O poeta/cordelista diz que gosta de conversar com as personagens dos contos infantis, confabular com as fadas e dialogar com os duendes. A atração especial pelos contos de fadas tem gerado uma série de cordéis em que o poeta faz uma releitura do “Gato de Botas”, “Branca de Neve”, ”Chapeuzinho Vermelho”. Recentemente, Manoel Monteiro publicou “Pinóquio” por uma editora de São Paulo (Ed. DCL, 2009) com ilustrações de Jô Oliveira.
Jô Oliveira é pernambucano e mora, atualmente, em Brasília. Ilustrou e escreveu inúmeros livros para o público infantil e juvenil. Suas ilustrações trazem a marca das raízes nordestinas. Entre os inúmeros livros ilustrados por Jô Oliveira, pela riqueza ilustrativa, merece registro o “Romance do Pavão Misterioso”.
“Pinóquio”, livro editado pela DCL, apresenta versos de Manoel Monteiro (septilhas) e ilustrações em estilo naïf de Jô Oliveira. Texto e imagem dialogam em perfeita harmonia.
Monteiro declarou que reescreveu esta história atendendo a um pedido de Pinóquio. Esses poetas!
Jô Oliveira considera Pinóquio a personagem mais famosa da literatura infantil ocidental e sempre teve o desejo de ilustrar um livro com o boneco criado pelo marceneiro Gepeto. A oportunidade surgiu e os dois trilharam caminhos bem conhecidos – Monteiro, o cordel; Jô, a ilustração.
Pinóquio, Gepeto, o Grilo Falante e outras personagens que integram o universo de Carlo Collodi encontraram em Manoel Monteiro um narrador inteligente. Utilizando-se do cordel, o poeta vai tecendo um manancial de aventuras e desventuras de um boneco de madeira com emoção e musicalidade.
O ilustrador Jô Oliveira, com seus traços fortes e cores vibrantes, retrata o protagonista como bom pernambucano – um dançarino de frevo, não faltando uma sombrinha colorida que acompanha seus passos nas apresentações circenses.
Pinóquio se assemelha a João Grilo e Pedro Malasarte nas astúcias, fanfarronices. É malandro e mentiroso. Sua história, como a própria vida, é alegre, triste e engraçada.
Carlo Lorenzini, o criador de Pinóquio, escreveu esta história utilizando o pseudônimo de Carlo Collodi e publicou-a em capítulos no “Jornal das Crianças”, na Itália, em 1881. Era costume, nessa época, publicar os romances em capítulos nos jornais e revistas. Somente em 1883 a história de Pinóquio foi publicada em livro.
A universalidade da personagem, com seus desmandos e suas aventuras, conquistou os leitores. Pinóquio foi traduzido para diversas línguas e já foi tema de filmes, peças de teatro, quadrinhos e cordel. Em 1940, Walt Disney fez uma adaptação para o cinema.
Girlene Marques Formiga (CEFET/PB), no ensaio “As Aventuras de Pinóquio: Aspectos das Adaptações na Literatura Infanto-Juvenil”, chama a atenção para as adaptações que objetivam transformar a obra em uma unidade simplista e contrária à intenção do texto literário que é proporcionar multiplicidade de leituras. Pinóquio é um grande livro e não pode ser reduzido a leituras que o torne menor.
Não recontamos episódios do texto recriado por Manoel Monteiro, deixamos para o leitor o sabor da descoberta.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

O ler, o escrever e o contar: entre o real e a fantasia


O ler, o escrever e o contar: entre o real e a fantasia
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária da FNLIJ/PB)

A vida real é às vezes muito maior do que a ficção.
(Heloísa Seixas. Uma ilha chamada livro)

“Uma ilha chamada livro. Contos mínimos sobre ler, escrever e contar.” (Galera/Record, 2009), de Heloísa Seixas, reúne 25 pequenos contos que foram publicados na imprensa, primeiro na” Folha de São Paulo”, depois na revista” Domingo” do “Jornal do Brasil”.
O livro é destinado ao público juvenil e constou do catálogo da Feira de Bolonha (março de 2010). Temas apaixonantes e sutilezas estilísticas caracterizam a prosa de Heloísa Seixas.
Os contos estão ligados, em sua grande maioria, ao ofício de escrever. Vamos examinar alguns que vêm marcados pela paixão diante do livro, esse “objeto sagrado”, na opinião de Jean-Paul Sartre.
“Livros” – Este conto fala sobre Alma Mahler, compositora e pintora austríaca que se destacou na Viena do fim do século XIX por sua beleza e inteligência. Ela foi casada com o compositor Gustav Mahler. Heloísa Seixas relata um fato bem interessante sobre Alma Mahler – ela costumava guardar seus livros prediletos em um berço que fora utilizado na sua primeira infância. Quando ia retirar algum livro, o berço balançava e parecia que os acalentava.
“Certeza” – Neste conto mínimo, está presente a figura da escritora dinamarquesa Karen Blixen que utilizava o pseudônimo de Isak Dinesen. Ela morou na África durante muitos anos e expressou seu amor pelo continente africano através de livros que retratam a beleza e o exotismo do Quênia. “Out of África” foi traduzido para o português por Per Johns, com o título “A Fazenda Africana”. É um romance autobiográfico. O livro foi adaptado para o cinema por Sidney Pollack e lançado no Brasil com o título “Entre dois amores”. O filme ganhou sete Oscar em 1985.
Mário Vargas Llosa, na coletânea de ensaios “A verdade das mentiras” (Ed. Arx, 2004), coloca Karen Blixen (Isak Dinesen) entre as suas preferências de leitor. No texto “Os Contos da Baronesa”, a obra e a vida da escritora dinamarquesa são apresentadas com riqueza de detalhes. Remetemos o leitor experiente para o livro de Mário Vargas Llosa.
“A Biblioteca” – É uma reflexão sobre os livros que guardamos nas estantes, o que eles significam para nós. A contista tem um carinho especial pelos livros antigos e gosta de examinar datas, dedicatórias, os livros assinados com “caneta-tinteiro, naquela caligrafia delicada e floreada de outros tempos.” (p.30)
Examinando esses livros, ela sente a presença de Borges, Eça, Lúcio Cardoso e de muitos outros escritores. “Eles estão aqui”. E vem uma observação que merece ser transcrita:
“Gosto de livros usados. Têm alma. Deles se desprendem os eflúvios das pessoas que os tocaram, com suas dores, alegrias, esperanças, inquietações”. (p. 29)
“Síndrome do Claustro” – Relata as andanças da contista pelos sebos e o encontro com um livro há muito desejado –” O escafandro e a borboleta”, do jornalista Jean-Dominique Bauby. Acometido de um derrame cerebral, Bauby ficou completamente paralisado e conseguiu, com o auxílio de uma enfermeira que decifrava um piscar de olho diferente para cada letra, escrever seu último livro – “Síndrome do Claustro”.
“Página em Branco” é o último conto do livro e o último que selecionamos. Mais uma vez, estamos diante de um conto de Karen Blixen recontado por Heloísa Seixas. Vamos navegar por este conto.
Havia, muito antigamente, em Portugal, um convento de freiras carmelitas conhecido por Convento Velho. Neste convento, as freiras teciam o mais afamado linho de Portugal e de lá saíam os mais belos lençóis para as noivas da realeza portuguesa.
Consumado o casamento, a família enviava de volta para o convento a parte central do lençol contendo a mancha que atestava a virgindade da moça. Esses quadrados de linho maculado eram emoldurados e colocados em quadro com o nome da princesa, dona do lençol. A galeria era visitada pela nobreza portuguesa e por reis, rainhas, príncipes e princesas de várias partes do mundo. Mas havia um de um branco imaculado, sem qualquer mancha e que não trazia o nome da princesa. Era este que mais chamava a atenção dos visitantes.
Registramos a opinião de Heloísa com relação ao quadrado imaculado: “ele me fez pensar em quanta coisa está contida numa página não escrita, numa não página, de um não livro. Afinal, o branco é a soma de todas as cores. As possibilidades são infinitas.” (p109)
Com este conto termina o livro e nosso texto. Há muitos outros que não foram revelados, estão à espera do leitor.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Alice no Pais das Maravilhas: um livro com engenho e arte



Alice no País das Maravilhas: um livro com engenho e arte.
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB)

Alice no País das Maravilhas é um texto que atinge a sensibilidade e a imaginação infantis. Clássico de humor, de imaginação, de fantasia e do pensamento crítico.
( Laura Sandroni. Ao Longo do Caminho)

Ítalo Calvino, no ensaio “Por que Ler os Clássicos”,considera a inesgotabilidade da leitura e da releitura um dos fatores da classificação “obra clássica”.
Partindo desse conceito do estudioso italiano, “Alice no País das Maravilhas”, de Lewis Carroll, pode ser considerado um clássico da literatura infantil. As inúmeras leituras proporcionadas por este livro asseguram o caráter de permanência desta obra. Todos os anos surgem, no mercado editorial, novas edições, traduções e adaptações. A 1ª edição de “Alice no país das maravilhas” é de 1865. O livro continua sendo reeditado em muitos idiomas.
Lewis Carroll, pseudônimo de Charles Lutwidge Dodgson, nasceu em Daresbury, na Inglaterra. Era professor de Matemática na Universidade de Oxford e amigo da família do Reverendo Henry Liddell. Ele gostava de divertir as três filhas de Liddell contando histórias que apresentavam a peculiaridade de um mundo onírico e a presença do nonsense.
Desse contato com as meninas surgiram duas histórias que ganharam o interesse do público infantil e adulto – “Aventuras de Alice no País das Maravilhas” e “Alice através do Espelho”. Alice era o nome de uma das filhas do Reverendo Liddell.
No Brasil, o livro foi traduzido por Monteiro Lobato (1931), depois surgiram outras traduções e citamos: Sebastião Uchoa Leite, Fernanda Lopes de Almeida, Ruth Rocha, Ruy Castro, Ana Maria Machado, Nicolau Svencenko, Maria Luiza Borges.
Ana Maria Machado, em comentário sobre a tradução de Nicolau Svencenko, (Cosac Naify), assim se expressa:
“Entre as boas traduções já existentes, a de Nicolau Svencenko se situa ao lado das mais criativas – não despreza o humor do nonsense original e trata de inventar equivalências para o nosso leitor.” (Contracapa da edição da Cosac Naify, 2009).
Acrescentamos que esta edição recebeu belíssimas e criativas ilustrações de Luiz Zerbini. Cartas de baralho e personagens se entrecruzam em permanente diálogo, criando um clima surrealista, condizente com a própria história de Alice.
Outra boa edição é da editora Jorge Zahar. “Alice: edição comentada” (Zahar: 2002) é uma versão integral de “Aventuras de Alice no País das Maravilhas e Alice Através do Espelho”. Maria Luiza Borges foi responsável pela tradução. O livro inclui introdução e notas de Martin Gardner, considerado um dos maiores especialistas em Carroll, ilustrações originais de John Tenniel e bibliografia selecionada.
Recomendamos a leitura dessas duas traduções. Há outras versões que pecam pelas omissões e descaracterização da história. É necessário ter cautela.
Lenir Fátima de Castro (UFF), no III Congresso Internacional de Leitura e Literatura Infantil e Juvenil, no campus de Presidente Prudente, UNESP, apresentou o trabalho “Leituras de Alice no país das maravilhas: entre o texto original e algumas versões (2006). Neste trabalho, a professora alerta os leitores para os livros que “têm páginas reduzidíssimas e visam tão somente à circulação para fins comerciais, sem servirem ao objetivo de proporcionar algum conhecimento sobre o enredo ou sobre o estudo da obra de Carroll. “
A respeito do texto de Monteiro Lobato, é, ainda, Lenir quem afirma:
“A versão de Monteiro Lobato, dentre muitas adaptações e traduções que examinamos, é a que mais se aproxima do texto de Alice, inclusive com divertidíssimas intervenções de Emília, tia Nastácia, Dona Benta, Pedrinho e todo pessoal do sitio do Pica Pau Amarelo.”
O texto integral de Lenir Fátima de Castro está disponível no site “Dobras da Leitura”, de Peter O´Sagae.
A nova versão cinematográfica de “Alice no país das maravilhas”, de Tim Burton, certamente levará muitas crianças às salas de cinema. É um filme tridimensional com efeitos especiais. Seria muito bom aliar o filme à leitura do livro.
Em alguns países existem organizações sem fins lucrativos que incentivam o estudo da vida e obra de Lewis Carroll. Nos Estados Unidos – Lewis Carroll Society of North America – congrega vários estudiosos que se reúnem e debatem a obra do escritor, organizam exposições e debates.
A organização mais antiga está na Inglaterra e publica um periódico – The Carrollian, editado por Anne Clark.
No Canadá, a sociedade Lewis Carroll Society of Canadá publica um boletim – White Rabbit Tales.
No Japão, país que tem muitos admiradores de Lewis Carroll, circula um boletim em inglês/japonês e cerca de 60 edições dos livros de Alice já foram publicados.
Lewis Carroll, com suas histórias fantásticas e um humor marcado pelo nonsense, conseguiu cativar leitores de todas as idades em diferentes partes do mundo. Escreveu com engenho e arte.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Anne de Green Gables: um clássico canadense


Anne de Green Gables: um clássico canadense
(Neide Medeiros Santos- Crítica literária – FNLIJ/PB)

“(...) o lugar da infância, protegido nas mais caras memórias, permanece como ponto de referência e inatingível modelo a todos os outros, conhecidos apenas na vida adulta.”
(Anna Bajor Ciciliati. Apresentação do livro Anne de Green Gables)

“Anne de Green Gables” é um romance juvenil de Lucy Maud Montgomery, escritora canadense, escrito em 1908, que continua atraindo leitores do mundo todo. É considerado um clássico da literatura juvenil e já inspirou a criação de espetáculos teatrais, filmes, séries de televisão e desenhos animados. Em 2009, a editora Martins publicou a versão integral com tradução de Renée Eve Levié e Maria do Carmo Zanini.
Lucy Maud Montgomery gostava de ser chamada apenas de Maud, nasceu na Ilha Príncipe Eduardo, no Canadá. Perdeu a mãe quando contava apenas dois anos e foi criada pelos avós maternos, sob uma severa disciplina britânica.
Adquiriu o hábito de escrever diários na infância e manteve este gosto durante toda a sua vida. Já foram publicados três volumes de seus diários, outros estão aguardando publicação. A escritora morreu em 1942, estava com 68 anos. Lucy Maud era muito produtiva, mantinha uma rotina diária de escrever histórias e poemas. Costumava responder todas as cartas dos fãs com letra do próprio punho.
“Anne de Green Gables” foi seu primeiro livro. Seguiram-se muitos outros de uma série que inaugurou o ciclo de histórias de uma menina de cabelos ruivos, com temperamento semelhante à Alice, de Lewis Caroll, e à Emília, de Monteiro Lobato. Uma personagem impulsiva, determinada e tagarela (Anne Shirley).
A história de Anne Green Gables começa com um equívoco. Marilla Cuthbert e seu irmão Matthew resolvem adotar um menino órfão para ajudá-los nas tarefas da fazenda. O contato é feito através da Sra. Spencer, e Matthew fica encarregado de buscar o menino na estação de trem Bright River.
No dia combinado, Matthew saiu de casa bem cedo. Quando chegou à estação, encontrou uma menina mal vestida, de olhar assustado, esperando um portador. Ao conversar com o agente ferroviário, ficou sabendo que houve um engano – veio uma menina para ser adotada. Um pouco desapontado levou a pequena Anne para casa, mas já previa a reação da irmã -, ela não iria aprovar a troca.
A tagarelice e a espontaneidade de Anne, durante o trajeto para a fazenda Green Gables, cativaram Matthew. A menina via tudo com um novo olhar – às vezes mostrava uma cerejeira carregada de flores, outras vezes chamava a atenção para o deslizar suave de um regato. Esse olhar para as coisas da natureza com profunda admiração confirma o que disse certa vez o poeta grego Nikos Kazantzakis: “a criança enxerga o mundo sempre como de uma primeira vez.”
Marilla ficou contrariada, ela queria um menino para ajudar nas tarefas do campo. Isso não poderia ficar assim, e resolveu se entender com a Sra. Spencer.
Na conversa que manteve com a Sra. Spencer, esta revela que se não quisesse ficar com Anne poderia encaminhá-la para a senhora Blewett. A senhora Blewett era uma mulher “terrível na lida e no comando”, assim Marilla muda de opinião – ficará com a menina. Com o passar do tempo, Anne consegue conquistar o coração da solitária Marilla e do solteirão Matthew.
No ensaio a respeito desse livro, Anna Bajor Ciciliati faz estas observações que merecem registro: no início do século XX, a criança era retratada na literatura da época como “figurinha de papel”; Maud Montgomery seguiu os passos de Mark Twain e apresentou uma personagem que fugia dos modelos tradicionais, criou um ser humano dotado de sentimentos próprios e não uma mera cópia de pessoa adulta.
Quanto à boa aceitação desse livro, as palavras de Lucy Maud revelam o porquê do êxito dessa personagem: “Se dentro de mim houvesse apenas uma Anne, seria tão mais confortável, mas por outro lado nem pela metade tão interessante”.
Há livros que não envelhecem. “Anne Green Gables” é um deles, tornou-se, com o decorrer dos tempos, um clássico canadense.

domingo, 21 de março de 2010

Uma vida dedicada à poesia


Uma vida dedicada à poesia

[...] a poesia deste momento

inunda minha vida inteira.

(Carlos Drummond de Andrade. Poesia)

A trajetória poética de Elizabeth Hazin começou nos idos de 1974 com o livro “Poesias”, edição particular. Seis anos depois, publicou “Verso e Reverso” (Edições Pirata, Recife, 1980). Com “Casa de Vidro”, a poeta conquistou o prêmio nacional de poesia Jorge de Lima e o livro foi editado pela EDUFAL (1982). Em 1983, surgiu “Arco-íris”, coletânea de poemas infantis com selo da CEPE, Recife. Seguiram-se muitos outros livros, vários prêmios nacionais, tudo no reino da poesia.

Quem é Elizabeth Hazin?

Elizabeth nasceu em Recife, é formada em Letras. Fez mestrado, doutorado e pós-doutorado em Literatura Brasileira. Foi professora de Literatura Brasileira e Literatura Infantil na UFPE e UFBA. Atualmente é professora da UNB. A poeta e a professora caminharam sempre juntas.

Em 2009, a editora Vieira & Lent, reconhecendo o valor poético de “Arco-íris”, resolveu reeditá-lo. Fernando Leite, artista plástico e designer, foi o responsável pelas ilustrações. Em nota apensa ao livro, pinçamos esta opinião:

“Para criar as páginas coloridas do Arco-íris, fez muita arte com sua filha, Antonia. Testou tintas, pincéis e pinceladas em papéis com texturas diferentes. E fez muitos desenhos: mar, montanhas, árvores, grilos, borboletas, flores e frutos. Depois escaneou tudo e foi montando cada uma dessas 32 páginas.”

Qual é a proposta desse livro? Brincar com as palavras, as cores e encantar todos aqueles que têm sensibilidade para a poesia e a pintura.

Se a poesia não tem idade, “Arco-íris” condiz com o tempo sem limites. Para a menina Íris, são coisas corriqueiras e possíveis: deslizar no céu, cair nas ondas do mar, pintar os caminhos, admirar os passarinhos, brincar com as borboletas e sair por aí pintando e bordando.

Íris é uma menininha cheia de sonhos e de ânsia. Acompanhemos a pequena, e com as cores do arco-íris vamos dar um passeio pela terra.

O violeta será usado para colorir a asa da borboleta; o anil para representar a mais pura água do rio; o azul simbolizará o mar do norte e do sul; para a floresta, a escolha é a cor verde; o amarelo servirá para pintar o sol; o alaranjado será utilizado para fazer o pó dourado do deserto e o vermelho lembrará o batom do céu em tardes ardentes.

Com o destino traçado, as cores buscam novos caminhos. Em cada página do livro, uma cor se apresenta, agora há mais liberdade e mais espaço. O que a menina deseja da “coramarela”?

“amarelas borboletas

tornem-me feliz a vida

amarelo estou de fome

quero a já amadurecida

fruta amarela do sonho

-miolo da margarida” (p.18)

E o verde?

“Ah que saudades que tenho

dos anos verdes da vida! “(p. 17)

Será que a menina se tornou adulta? Estamos no território da poesia e tudo pode acontecer.

Depois de navegar por todas as cores, chegou a hora do descanso, Iris desliza do céu e só “resta a lembrança/ de sonhos que não serão.” (p.29)

‘“Arco-íris” não termina com a leitura do livro, ele continua na internet. Se o leitor quiser saber mais sobre o livro, recomendamos que faça uma visita à página da editora Vieira&Lent, lá irá encontrar os poemas que foram musicados por César Barreto. Depois dessa visita, irá cantar e dançar ao som dos versos musicados, brincará com as cores e a vida ficará inundada de poesia, de música e de cores.

segunda-feira, 8 de março de 2010

A Presença de Cecília Meireles na educação brasileira



A Presença de Cecília Meireles na educação brasileira

NEIDE MEDEIROS SANTOS

Devíamos poder preparar os nossos sonhos como os artistas as suas composições.

(Cecília Meireles. Escolha seu sonho)


Cecília educadora:

Cecília exerceu, com destaque, a função de educadora ao organizar e dirigir a primeira biblioteca infantil brasileira. A biblioteca funcionou no Pavilhão Mourisco, enseada do Botafogo, no período de 1934 a 1937. Por sua amplitude, passou a denominar-se Centro de Cultura Infantil.

Jussara Pimenta, no ensaio “Leitura e Encantamento: A Biblioteca Infantil do Pavilhão Mourisco” (In: Poética da Educação, 2001) afirma que o Pavilhão Mourisco, um prédio em estilo neopersa, foi criado para servir de café concerto e tornou-se um bar restaurante muito frequentado pela sociedade carioca. Estava um pouco abandonado na época em que Anísio Teixeira, diretor do Departamento de Educação, resolveu transformá-lo em biblioteca infantil.

A inauguração aconteceu no dia 15 de agosto de 1934 e foi muito prestigiada. Contou com a presença de Pedro Ernesto, prefeito do Rio de Janeiro, e do Diretor do Departamento de Educação.

Fernando Correia Dias, o primeiro marido de Cecília Meireles, era artista plástico e ficou encarregado da decoração da biblioteca. Inspirado na arquitetura do prédio criou um cenário das Mil e uma Noites, proporcionando uma atmosfera de encanto e fantasia.

O poeta Geir de Campos foi freqüentador desta biblioteca. Em artigo publicado no “Diário de Notícias (15/11/1964), externou o que a biblioteca infantil representou na sua vida de criança:

“O Pavilhão Mourisco passou a ser o meu divertimento predileto, pois, além do salão de leitura, a biblioteca tinha também um setor de manualidades (modelagem, pintura, desenho), um de brinquedos e jogos (foi onde encontrei o primeiro mecanô), e uma sessãozinha de cinema toda quinta-feira. O dia triste para mim era o Domingo, quando o Pavilhão não abria.

Também me lembro de que qualquer dificuldade pedagógica ou disciplinar era comunicada a Dona Cecília, uma professora morena, alta, de sorriso para quase tudo, que tudo resolvia e ordenava.” (2001: p. 108)

Nada dura para sempre. Em 19 de outubro de 1937, sob a vigência do Estado Novo, a biblioteca infantil foi invadida pelo interventor do Distrito Federal e teve as portas cerradas com a justificativa: “em seu acervo abrigava um livro de conotações comunistas”. O livro era “As aventuras de Tom Sawyer”, do escritor americano Mark Twain.

A diretora protestou pelo fechamento da biblioteca e a falsa acusação de ter no acervo um livro comunista. Era um absurdo! Os jornais da Europa e Estados Unidos deram destaque à medida arbitrária e descabida do governo de Getúlio Vargas. Tudo foi inútil. A biblioteca foi fechada e serviu depois para um ponto de coleta de impostos. Arrecadar dinheiro é mais importante do que a educar.

Cecília folclorista:

O interesse de Cecília Meireles pelo folclore vem desde a infância. Está presente nas histórias contadas por Pedrina, sua babá, em vários artigos publicados nos jornais e, principalmente, no livro “Batuque, samba e macumba. Estudos de gesto e de ritmo 1926-1934”.

Os desenhos, pinturas e legendas que integram o livro foram utilizados por Cecília em exposições e conferências no Rio de Janeiro e em Portugal. No Rio, a exposição aconteceu em 1933, em Portugal, 1934. Em 1983, sob o patrocínio da FUNARTE e do Banco Crefisul, saiu uma edição luxuosa e restrita abrangendo todo o conteúdo utilizado nas conferências. Ao completar 70 anos da exposição, a editora Martins Fontes brindou os leitores com uma nova edição deste bonito livro.

Em 2004, “Batuque, samba e macumba. Estudos de gesto e de ritmo. 1926-1934” (Ed. Martins Fontes, 2003) conseguiu o prêmio nacional da FNLIJ, na categoria dos teóricos.

Com este texto - “A Presença de Cecília Meireles na Educação Brasileira”, procuramos trazer um pouco da vida e da luta dessa educadora que seguiu os passos de Gabriela Mistral, professora e poeta chilena. Cecília ensinou, educou, escreveu bonitas poesias e projetou o Brasil com suas aulas e conferências em Portugal, nos Estados Unidos e no Oriente.

Não poderíamos deixar de registrar a inclusão de Cecília Meireles no livro, “Mulheres Símbolos”, de Joacil de Britto Pereira (João Pessoa: UFPB; 2007). A respeito dessa grande educadora, o ensaísta assim se expressou:

“Mulher genial, viveu intensamente; era mística e de rara sensibilidade. Uma esteta, escritora de muitos méritos, poetisa de ternura rara”. (p.69)

Conta-se que Cecília, quando visitou Portugal pela primeira vez, marcou um encontro com Fernando Pessoa, mas esse encontro não foi realizado. Para marcar o encontro que não houve, concluímos essas considerações sobre Cecília relembrando o vate português no célebre texto: “Palavras de Pórtico”:

“Viver não é necessário; o que é necessário é criar.”

Cecília Meireles sentia que o necessário não era viver, mas criar. Expôs com bravuras suas ideias e suas opiniões, procurou dar novas diretrizes à educação brasileira, criou a primeira biblioteca infantil no Brasil. Manteve, durante muitos anos, colunas nos principais jornais do Brasil, fez conferências no Brasil e no exterior. Foi uma mulher que deixou seu nome gravado no cenário das Letras e das Artes. É a grande representante da mulher professora, da mulher educadora no Brasil.



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


MEIRELES, Cecília. Batuque, samba e macumba. Estudos de gesto e de ritmo 1926-1934. 2ª Ed. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

__________. Poesia Completa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001.

NEVES, Margarida de Souza, Lobo, Yolanda Lima, Mignot, Ana Chrystina Venâncio. (Orgs). Cecília Meireles e a poética da educação. Rio de Janeiro: Ed. PUC/Rio: Loyola, 2001.

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