terça-feira, 8 de junho de 2010

Marcus Accioly – um poeta nordestinado


Marcus Accioly – um poeta nordestinado
(Neide Medeiros Santos – Professora e Crítica Literária – FNLIJ/PB)

“... nordestinados somos todos nós – nordestinos, brasileiros, latinamericanos – porque este destino de Nordeste é a própria condição de NossAmérica.”
(Marcus Accioly. Capa do disco Nordestinados. A palavra que volta ao canto. Discos Chantecler s/d).

Marcus Accioly é considerado uma das grandes vozes poéticas do Nordeste. A produção literária do autor abrange mais de 10 títulos: Cancioneiro (1968); Nordestinados (1972); Xilografia (1974 – livro de poemas com gravuras do folhetinista e xilógrafo José Costa Leite); Sísifo (1976); Íxion (1978); Guriatã: um cordel para menino (1979- com xilogravuras de Dila); Ó de Itabira (1980); Érato (1983); Narciso (1984); Latinomérica (2001). Accioly ainda escreveu dois pequenos livros para o público infantil – ABC dos Bichos e P (B) ara (ti) nação.
Nas Notas ao Leitor, inseridas no livro Narciso, Accioly divide parte de sua obra poética de acordo com os quatro elementos da natureza. Cancioneiro, Nordestinados e Guriatã: um cordel para menino estariam ligados à terra; Sísifo ao ar; Íxion ao fogo; Narciso à água. Teceremos alguns comentários sobre a fase ligada à terra.
A publicação de seu livro primeiro livro, Cancioneiro, o autor deve ao crítico literário e poeta César Leal, seu orientador poético e, como ele mesmo tem afirmado em diversas ocasiões, pai de sua geração. Com relação à receptividade crítica a esse livro, Nelly Novaes Coelho afirma que é uma tentativa de nomeação do novo Real e revela uma nova consciência épica.
Seguindo as trilhas de Cancioneiro, o segundo livro, Nordestinados, mergulha nas raízes populares e amplia o universo épico narrativo já detectado na obra anterior. Nelly Novaes Coelho saudou esse livro com um brilhante ensaio – Nordestinados: A Palavra que Nasceu do Canto.
A respeito do título Nordestinados, Marcus Accioly apresenta a seguinte explicação para o termo:
O neologismo nordestinado (que inventei no singular e usei no plural como título) deixa de ser espécie para tornar-se gênero: nordestinados somos todos nós – nordestinos, brasileiros, latinamericanos – porque este destino de Nordeste é a própria condição de NossAmérica.
O significado do vocábulo extrapola os limites do regional; ele é bem mais amplo do que parece, seguindo uma gradação que envolve nordestinos, brasileiros e os latinos da América.
Guriatã: um cordel para menino é o último livro ligado à terra. Composto de 91 poemas e cinco notas que explicam a gênese do livro, o poeta procura resgatar a infância perdida, o “país-paraíso” do engenho Laureano. O xilógrafo Dila, o ilustrador, tentou traduzir plasticamente o conteúdo do texto. Modalidades de cantoria (martelos, toada-alagoana, canções suspirosas, desafios, mourões); poemas dialogados e poemas independentes tornam esse livro o mais intrinsecamente preso ao elemento terra.
Accioly revelou, certa vez, que seguia Tolstoi pelo avesso – “procurava pintar o mundo para pintar a sua aldeia”. Acreditamos que, com a saga do engenho Laureano, o poeta conseguiu realizar esse ideal. O locus amoenus da região canavieira não é privilégio da zona da mata pernambucana: está presente na região da Provença, tão bem retratada por Paul Cézanne em seus quadros; nos riachos e rios, num canto da Champagne, povoado de várzeas, na descrição poética de Bachelard; no mundo encantado do Sítio do Pica-pau Amarelo, de Monteiro Lobato e no país de São Saruê, do poeta popular Manoel Camilo dos Santos.
No que se refere à repercussão crítica, este livro conquistou dois grandes prêmios literários – 1º. lugar no Concurso Nacional Prêmio Fernando Chinaglia (1979), União Brasileira de Escritores – Rio de Janeiro e Láurea Altamente Recomendável para o jovem (1980) Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil. Guriatã: um cordel para menino já alcançou cinco edições, é o livro mais editado do autor.
Com esta obra, Accioly tenta recuperar a infância através de um texto que é a junção do épico com o lírico; do erudito com o popular; do real com o imaginário.
Na 5ª. edição (2006) – “Comemorativa dos Vinte e Cinco Anos e mais Um”, como costuma se referir o poeta a esta edição, encontramos, na orelha do livro, trechos do parecer de Stella Leonardos, membro do júri do Prêmio Fernando Chinaglia que julgamos pertinente transcrever:
Sobre o livro classificado em primeiro lugar (Guriatã: um cordel para menino - de Marcus Accioly) registrei em meu relatório:
Mestria verbal. O Nordeste inteiro no que tem de mais significativo e autêntico. Uma saga da infância esquecida. Algo de maravilhoso e de tal força que fez a relatora improvisar esses versos:
Ave, guri guriatã!
do cordel voa canto
tão voz de menino pássaro,
tão asa de voz menina
que o coração se ilumina
de hoje –sol luamanhã.
Qual será o motivo da permanência desse livro? São passados 28 anos da 1ª edição e “Guriatã: um cordel para menino” continua encantando a todos. Atribuímos essa permanência à presença dos mitos (populares e eruditos), a beleza poética do texto e a miscigenação dos gêneros ( é um livro épico, lírico e dramático).
Com Guriatã: um cordel para menino, Marcus Accioly traz à tona um passado perdido, um mundo vivido e sonhado e, principalmente, não deixa morrer a criança-poeta ou o poeta-criança que norteia sua vida.

sábado, 5 de junho de 2010

Breves histórias de livros e de leituras


Breves histórias de livros e de leituras
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB)

A casa da ficção não tem uma, mas um milhão de janelas – ou melhor, um número incalculável de possíveis janelas.
(Henry James. A arte do romance)

Lígia Cademartori, ensaísta e tradutora, doutora em Teoria da Literatura (RS), já escreveu vários livros em que a reflexão recai sobre a criança, a literatura e a educação. O Professor e a literatura para pequenos, médios e grandes (Autêntica Editora: 2009), seu último livro, compreende depoimentos de escritores brasileiros e passagens envolvendo personagens ficcionais. Este livro conquistou o Prêmio “Melhor Livro Teórico” da FNLIJ, 2010, produção 2009.
Vamos seguir a trajetória de Lígia Cademartori em alguns desses ensaios, passando por histórias de livros e de leituras. No primeiro ensaio, “Literatura infantil: a narrativa e o tumulto do mundo”, a autora nos fala sobre o livro do jornalista Lloyd Jones: “O Sr. Pip”.
Llody Jones cobriu a guerra civil na década de 1990, na ilha de Bougainville. Esta ilha fica situada entre Papua - Nova Guiné e as ilhas Salomão. Por ordem do governo, os habitantes de Papua ficaram sem rádio, sem jornal, sem eletricidade e sem escola. Foi sobre essa experiência que o jornalista Llody Jones criou uma narrativa ficcional envolvendo o Sr. Watts, um professor improvisado que convoca as crianças da ilha a retornarem à sala de aula.
O professor não dispõe de material didático, mas é apaixonado por literatura e possui um único livro – “Grandes Esperanças”, de Charles Dickens. É através da leitura desse livro que o professor conduz os alunos ao mundo imaginário da ficção.
A professora Magda Soares, no prefácio que fez para o livro de Lígia Cademartori, afirmou que a leitura dos originais da ensaísta brasileira deu-lhe um desejo irreprimível de ler “O Sr. Pip”, adquiriu-o e sentiu-se imersa na própria ilha de Bounganville. (O livro de Llody Jones foi traduzido para o português pela Rocco, 2007).
“O menino e o poeta” é um ensaio que se inicia com o depoimento de Armando Freitas Filho sobre as atividades escolares nos idos de 1948. Na sala de aula, um cavalete era armado e sobre ele “colocavam-se cartazes com cenas coloridas, geralmente rurais” (2009: p.99) e o menino navegava naquelas paisagens e escrevia uma composição de 20 a 30 linhas. Ali estava nascendo o futuro poeta.
A realidade vivenciada por Armando Freitas Filho foi a mesma de muitos meninos e meninas do Brasil nos anos 40 e 50 do século XX. O livro Memórias “Rendilhadas: vozes femininas” (João Pessoa: UFPB, 2006), que reúne depoimentos de 15 mulheres leitoras, é um bom exemplo do ler e do escrever no Nordeste brasileiro na segunda metade do século XX.
Em “A construção e o vazio”, a ensaísta chama a atenção para a distinção entre “literatura infantil” e “mero livro para criança”. No primeiro caso, ela cita a obra de Bartolomeu Campos de Queirós, autor que se destaca pela criação de um mundo próprio, de uma literatura que reage ao mundo fora do texto, que revoga as suas leis naturais, reverte e revisa seus postulados, suas crenças. E vem esta afirmativa:
“... um livro de literatura não serve como porta-voz de nenhuma causa, programa, doutrina, ideologia. Não prega. Não faz propaganda de nada. Não se submete ao politicamente correto. Não representa interesse de ninguém, porque uma de suas funções é construir contra-afirmações às crenças de todo tipo”. (2009: p. 50)
A autora não se detém nos livros considerados “mero livro para criança”, mas por seus comentários sobre “livro de literatura infantil”, tomando como exemplo textos de Bartolomeu Campos de Queirós, deduzimos que seriam aqueles que não privilegiam a fantasia, que doutrinam, diidatizam, não surpreendem o leitor, são por demais plausíveis.
Vamos procurar ler e indicar livros que abram milhões de janelas. A seleção rigorosa feita pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) e a atribuição de prêmios nacionais é um dos caminhos.

sábado, 29 de maio de 2010

A presença das águas em “A Chuva Pasmada”. Mia Couto- Danuta Wojciechowska



A presença das águas em “A Chuva Pasmada”.
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB)

O rio nunca está feito, como não está o coração. Ambos são sempre nascentes, sempre nascendo.
(Mia Couto. A Chuva Pasmada)

Mia Couto, escritor moçambicano, escreveu contos e romances para o público adulto. “Terra sonâmbula” foi considerado um dos doze melhores livros africanos do século XX. É escritor premiado no seu país e no exterior.
Recentemente, participou da coletânea de contos criados a partir de canções de Chico Buarque de Holanda, organizada pelo jornalista Ronaldo Bressane. Mia Couto escreveu o conto “Olhos nus: olhos”, baseado na canção “Olhos nos olhos”.
A vasta produção literária do escritor abrange, ainda, ensaios e livros para o público infantil e juvenil. “O gato e o escuro”, Editora Caminho, 2008, com ilustrações de Marilda Castanha, recebeu o Prêmio de Melhor Livro de Literatura de Língua Portuguesa em 2009 pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil. Este livro foi objeto de artigo publicado na coluna “Livros&Literatura”, no jornal “Contraponto”, 29 de junho de 2009.
Pela mesma editora Caminho, Mia Couto publicou o romance juvenil “A Chuva Pasmada”. Danuta Wojciechowska foi a ilustradora. Danuta é canadense de Québec, radicada em Lisboa desde 1984. É licenciada em Design de Comunicação pela Escola Superior de Design de Zurique, pós-graduada em Educação pela Arte na Inglaterra. Em 2005, recebeu o Prêmio Nacional de Ilustração e foi a candidata portuguesa ao Prêmio Hans Christian Andersen na categoria ilustração.
Danuta já ilustrou os seguintes livros que receberam menções especiais em Portugal : “Fala Bicho”, “O Limpa-Palavras e outros poemas”, “O gato e o escuro”. “Mouschi e o Gato de Anne Frank”. A edição portuguesa do livro de Mia Couto “O gato e o escuro” saiu em 2001. No Brasil, em 2008.
Estamos, portanto, diante de um escritor e de uma ilustradora premiados em Moçambique, no Brasil e em Portugal.

“A Chuva Pasmada” é um breve romance em que se entrecruza a narrativa contada por um menino e diálogos entre os personagens. O livro está dividido em 17 pequenos capítulos. Um menino e o avô protagonizam a história. Participam, ainda, o pai, a mãe e uma tia solteira.
O menino que atua como personagem narrador era considerado pelos pais um pasmado. Diziam que ele era lento no fazer, demorado no pensar. E a chuva que não vinha, era clamada e reclamada por todos. Era tão “pasmadinha” como o menino.
Qual seria o motivo da chuva não cair naquela aldeia africana?
Por que o rio estava secando? Seria por causa da fumaça da fábrica?
Essas são perguntas que não podem ser respondidas dentro de um raciocínio lógico, é necessário recorrer às lendas e aos mitos.
E quando o avô revela que vai contar uma história ao neto, é uma história sobre o rio – “A Lenda de Ntoweni”. Esta lenda fala sobre o nascimento do rio que banha aquela aldeia.
Do menino, vêm as observações sobre o avô. Ele definhava cada dia, estava perto do fim. E o avô é associado ao rio: “O rio emagrecera mais do que o avô, os terrenos encarquilharam, o milho amarelecia.” (p.14)
No último capítulo, o avô toma um barquinho e sai deslizando pelo que resta do rio. O menino vê o barquinho se dissolvendo no horizonte, diluindo-se no azul da correnteza e dentro dele está o avô que parte para não mais voltar.
Destino semelhante ao do avô tem o personagem de Guimarães Rosa no conto “A terceira margem do rio”. O pai encomenda uma canoa especial, de pau de vinhático, e sem “alegria nem cuidado”, decide dar um adeus a sua família e embarca naquela canoa. Os anos se passaram e noticia dele não se soube. Assim como o avô, ele parte e não regressa mais.
Além da afinidade temática entre o romance juvenil e o conto de Guimarães Rosa, encontramos traços estilísticos que estão presentes nos dois escritores: linguagem poética, frases curtas e entrecortadas, poucos diálogos. Romance juvenil e conto se associam, também, pela presença do realismo mágico.

sábado, 22 de maio de 2010

Wabi Sabi: uma fábula japonesa



Wabi Sabi: uma fábula japonesa
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária da FNLIJ/PB)

Um velho pinheiro pode ensinar-lhe as verdades sagradas
(Provérbio Zen)

Você sabe o que é Wabi Sabi? Não sabe? Eu também não sei, mas vamos descobrir com a leitura do livro “Wabi Sabi”, de Mark Reibstein, Arte de Ed Young, traduzido no Brasil por Luzia Aparecida e Monica Stahel, com selo da WMF Martins Fontes (2009).
Wabi Sabi é a história de uma gata que vivia em Kioto, no Japão. Um dia, sua dona recebeu visitantes de outro país que indagaram sobre o nome estranho da gata, mas a dona não soube responder. A própria gata resolveu sair pelo mundo à procura do verdadeiro significado do seu nome.
A pesquisa começou dentro de casa. Wabi Sabi consultou à colega Bola de Neve que deu esta resposta:
“– É uma espécie de beleza.”
Esta resposta não a convenceu, procurou, então, o cachorro Rascal que disse:
“– É difícil explicar para alguém como você”.
De forma quase imperceptível, falou baixinho:
“- Isso é Wabi Sabi!
Uma folha amarelada,
seca e tão comum.”
As coisas começaram a se complicar. Rascal havia respondido com um haicai, tudo continuava sem explicação.
Passou um passarinho voando e ela gritou:
“- Alguém pode me explicar o que é Wabi Sabi?”
O passarinho respondeu:
“– É difícil de explicar – Mas sei de alguém que pode ajudá-la. Seu nome é Kosho e ele vive no monte Hiei, no leste”.

Wabi Sabi agradeceu ao passarinho e continuou a sua peregrinação. Andou, andou, andou... o caminho era longo, teria que atravessar toda a cidade e depois seguir em direção ao monte Hiei.
Kosho era um macaco muito sábio. Quando Wabi Sabi o encontrou, ele estava tomando chá. Diante da indagação de Wabi Sabi, Kosho pediu que ela o observasse enquanto ele preparava o chá e fez a seguinte recomendação:
“– Ouça. Veja. Sinta.”
O macaco se movimentava devagar, com muita graça, parecia que estava dançando, lidava com os objetos de madeira e argila como se fossem de ouro.
Depois de certo tempo, o macaco virou-se para Wabi Sabi e disse:
“– As coisas singelas são belas.”
Olhando para o chá, Wabi Sabi disse por fim:
“- Agora entendi.”
Agradeceu a Kosho, seu novo amigo, e iniciou a viagem de volta para casa. Nessa viagem de regresso, Wabi Sabi descobriu belezas já vistas, mas não sentidas, nem observadas – como os jardins de uma casa que não eram extravagantes nem grandiosos, mas belos.
Quando chegou em casa e descansou em seus aposentos, pôde sentir o calor do ambiente em que estava e o cheiro do vento em seu pelo. Sua dona, ao vê-lo, indagou:
“– Onde você esteve?”
Ela simplesmente respondeu:
“– É difícil de explicar”.
Procurei recontar esta bonita fábula de origem japonesa, mas não disse tudo, muitas coisas estão guardadas nas páginas do livro.
Wabi Sabi é um livro lindo. As ilustrações foram feitas com materiais retirados da natureza – cascas de madeira, colagens, folhas amarelecidas pelo outono. É uma fábula moderna que vai mostrando, pouco a pouco, o verdadeiro sentido da vida que se resume em uma palavra – simplicidade.
O livro é bilíngue – português/japonês e contém muitos haicais de Bashô e Shiki, tudo escolhido por Nane Tamina.
Para os gatófilos, como os poetas Ferreira Gullar, André Ricardo de Aguiar e o casal Cláudio /Yó Limeira este livro caiu do céu.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Senhor Augustin: uma personagem quixotesca


Senhor Augustin: uma personagem quixotesca
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária da FNLIJ/PB)

A expressão quixotismo incorporou-se ao vocabulário de todas as línguas para designar o comportamento daqueles que se sobrepõem a fantasia à realidade, o idealismo ao realismo, o desprendimento às conveniências.
(Ferreira Gullar – Nota de Ferreira Gullar para o livro Dom Quixote de La Mancha).

A literatura de todos os tempos está povoada de personagens quixotescas. Senhor Augustin (Ed. Cosac Naify, 2009), de Ingo Schulze, ilustrações de Julia Penndorf, é um bom exemplo deste modelo de personagem.
Ingo Schulze nasceu em Dresden, na Alemanha. Estudou Filologia Clássica em Iena. Trabalhou como dramaturgo e editor de jornais. Seus livros receberam diversos prêmios. Atualmente vive em Berlim e dedica-se a escrever para o público infantojuvenil.
Julia Penndorf nasceu em Altenburg, na Alemanha. Estudou ilustração na Faculdade de Artes Aplicadas de Praga. Recebeu o prêmio de “Mais belo livro alemão de 2008” por suas ilustrações para o livro” Senhor Augustin”.
Julia Pendorf sabe muito bem que ilustrar não significa complementar o texto verbal, mas sugerir possíveis leituras. Neste livro premiado, pingos de chuva coloridos, guarda-chuvas e chapéus se espalham pelas páginas do livro, criando um clima lúdico e cheio de fantasia.
Antes da apresentação de Senhor Augustin, consideramos oportuno registrar a opinião do poeta Thiago de Mello a respeito do livro de Ingo Schulze.
Thiago de Mello apresentou este livro às crianças do rio Andirá, no coração da floresta amazônica, e elas gostaram tanto que lhe pediram para contar a história outra vez.
Se o poeta e as crianças do rio Andirá gostaram, isso prova a universalidade da história. Foi escrita por um alemão, com uma realidade distinta da nossa, mas foi compreendida e amada por crianças que estavam separadas por quilômetros de distância.
Aproximemos do Senhor Augustin. Quem é esse senhor?
Senhor Augustin é um aposentado que gosta de olhar a vida. Uma das suas manias é ficar parado em frente à porta de sua casa observando as pessoas que passam apressadas, crianças que vão para a escola, mães que empurram carrinhos de bebês. Está sempre de chapéu e se utiliza da mesma saudação para cumprimentar as pessoas: “Prazer em vê-lo”
O que mais caracteriza seu Augustin é a distração – às vezes usa meias de cores diferentes, cabo de vassoura no lugar do guarda-chuva, o braço direito na camisa, o esquerdo no casaco. Tem um cacoete: costuma passar a mão na cabeça para comprovar se o chapéu está no devido lugar.
Por suas excentricidades, Senhor Augustin, algumas vezes, é ridicularizado pelas crianças. Quando isso acontece, ele fica bravo e lá vai pedra...
Retratado como uma personagem diferente, Senhor Augustin foge dos padrões convencionais. Está sempre em conflito com o mundo, está próximo de Vitorino Papa-Rabo e de Policarpo Quaresma.
Ingo Schulze se considera parecido com Seu Augustin – é muito distraído, perde as coisas e sempre as encontra em lugares que jamais imaginaria. Perdeu tantas vezes seu guarda-chuva, um guarda-chuva bonito, com cabo de madeira, presente dos amigos, que ele já aprendeu o caminho de casa, volta sozinho. Os dois (autor e personagem) se assemelham a Dom Quixote - são distraídos e sonhadores.
Dom Quixote encontrou um amigo – Sancho Pança. Senhor Augustin encontrou a menina Clara que, depois de insultá-lo e receber uma pedrada tornou-se sua amiga. Não existe um cavalo na história, mas aparece um cachorro que lhe faz companhia.
Concluímos esta breve história de Senhor Augustin com palavras do poeta Thiago de Mello:
Dá vontade de ser um pouco como o Augustinho, pessoa generosa e solidária, mas que sabe jogar pedra contra quem zomba da bondade humana. Ele leva uma queda e aproveita, estirado no chão, para olhar a beleza azul do céu.

domingo, 9 de maio de 2010

Fernando Pessoa – o menino da sua mãe


Fernando Pessoa – o menino da sua mãe
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária da FNLIJ/PB)

NO TEMPO em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
(Álvaro de Campos. Aniversário)

Amélia Pinto Pais foi professora de português e francês durante 36 anos em Portugal. Atualmente se dedica à pesquisa sobre Fernando Pessoa, Camões e Gil Vicente. No livro “Fernando Pessoa, o menino da sua mãe,” publicado pela Cia. Das Letras, com ilustrações de Mariana Newlands, a estudiosa da literatura portuguesa relata a vida do poeta Fernando Pessoa, utilizando o ponto de vista de primeira pessoa, semelhante a uma autobiografia. É um livro acessível ao público juvenil.
Com a sábia orientação de Amélia Pinto Pais, vamos dar a palavra a Pessoa e caminhar com o poeta pelos meandros de sua vida.
Nasci em Lisboa no dia 13 de junho de 1888, dia consagrado a Santo Antônio, daí meu prenome – Fernando Antônio. Da primeira infância, passada em Lisboa, relembro das músicas da minha meninice – os sinos da Igreja dos Mártires, as cantilenas infantis que as tias cantavam e que foram por mim rememoradas no grande poema “Ode Marítima”, de Álvaro de Campos.
Meu pai era crítico musical e atribuo o gosto pela música a uma herança paterna. Convivi pouco tempo com meu pai, ele faleceu quando eu tinha apenas cinco anos. Depois de sua morte, senti-me muito sozinho e inventei um companheiro para conversar comigo, surgiu, assim, meu primeiro heterônimo – Chevalier de Pas. Eu estava com seis anos, escrevia cartas para o amigo imaginário.
Alguns anos mais tarde, minha mãe voltou a se casar. Meu padrasto, João Miguel Rosa, era cônsul em Durban, na África do Sul e fomos morar naquela cidade. Lá, fiz os estudos primários e secundários, ganhei até um Prêmio -“Queen Victoria Memorial Prize” num concurso. Estava familiarizado com a língua inglesa. Penso que um dia apenas duas línguas contarão o mundo – o inglês para a comunicação, os negócios,os estudos, os ensaios científicos e filosóficos; o português para a poesia e as emoções.
Os anos se passaram, voltei rapaz para Lisboa, matriculei-me no curso de Letras e fui morar com minha avó Dionísia. Deixei o curso e fui trabalhar como correspondente comercial. Da companhia com a minha avó e minhas tias, recordo-me das festas dos meus anos, elas estão registradas no poema “Aniversário”. É um poema nostálgico, mas vale a pena fazer uma leitura.
Tive amigos que partiram muito cedo, um deles foi Mário de Sá-Carneiro. A respeito desse amigo, escrevi: ”Morrem jovens os que os deuses amam.” Outros, como Almada Negreiros, viveram muitos anos, não sei que rumo tomou após a minha morte, mas como era bom pintor e escritor deve ter alcançado a glória em vida, coisa que não aconteceu comigo.
Criei revistas, escrevi poemas para os jornais de Portugal e me aventurei a entrar em um concurso literário. Inscrevi-me com o livro “Mensagem”. Infelizmente deram-me apenas o segundo lugar. Quem tirou o primeiro?Não me recordo Seu nome perdeu-se na poeira do tempo, não devia ser grande poeta.
“Tive amores e perdi-os”, como disse, certa vez, um poeta brasileiro. Apaixonei-me por Ophélia Queirós, a Ophelinha, mas a literatura falou mais alto. Na carta de ruptura do namoro, escrevi:”O amor passou. Mas conservo-lhe uma afeição inalterável”.
Sempre gostei da multiplicação. Disse em um dos meus poemas: ”Multipliquei-me, para me sentir
Para me sentir, precisei sentir tudo,
Transbordei, não fiz senão extravasar-me,
Despi-me, entreguei-me,
E há em cada canto um altar a um deus diferente”
Criei vários heterônimos, os mais conhecidos são: Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos e Bernardo Soares. Minha imaginação foi muito além – criei 72 heterônimos. Duvidam? Consultem o livro de Amélia Pinto Pais que anotou da estudiosa Teresa Rita Lopes 72 heterônimos.
Grande parte do que está contado aqui vocês encontram no livro de Amélia Pinto Pais, outras coisas surgiram de leituras da colunista que gosta muito de Pessoa e sempre que é possível tira um dedo de prosa com o poeta deTabacaria

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Histórias da África do Sul e outras histórias


Histórias da África do Sul e outras histórias
(Neide Medeiros Santos – Crítica Literária FNLIJ/PB)

[...] Quem és tu? Que esse estupendo
Corpo, certo me tem maravilhado!
[...]
Eu sou aquele oculto e grande Cabo
A quem chamais vós outros Tormentório.
(Luís de Camões. Os Lusíadas. Canto V, 49,50)

A África do Sul é guardiã de muitas histórias. Elas estão presentes em Os Lusíadas, de Camões, nos primeiros escritos de Fernando Pessoa, nos contos africanos.
O Canto V, de “Os Lusíadas”, poema épico de Camões, narra os perigos encontrados pelos navegadores portugueses para contornar o Cabo das Tormentas (ponto geográfico da África do Sul) quando iam para as Índias. Este cabo é antropomorfizado pelo poeta e, de forma simbólica, é representado pelo Gigante Adamastor.
Fernando Pessoa foi alfabetizado em inglês e morou na África do Sul, na cidade de Durban, entre 1896-1905. Escreveu seus primeiros versos na língua de Shakespeare, mas a grandiosidade da poesia de Pessoa está na língua portuguesa.
A aproximação da Copa do Mundo na África do Sul (2010) é um bom motivo para leituras que falam sobre a história, a geografia e os contos africanos. Editoras brasileiras têm se preocupado em apresentar histórias para o público infantil e juvenil ressaltando os saberes africanos. Entre os bons livros publicados, encontramos “Ao Sul da África” (Companhia das Letrinhas: 2008), de Laurence Quentin e Catherine Reisser e “Meus Contos Africanos“ (Martins Fontes: 2009), seleção de Nelson Mandela.
No primeiro livro citado, o leitor trava conhecimento com a história e geografia da África do Sul. É um livro que contém informações sobre os ndebeles, xonas e bosquímanos.
Há um detalhe interessante a respeito dos ndebeles. Com o apartheid, eles foram deportados para uma zona muito árida, perto da cidade de Pretória. Resistiram à miséria, brutalidade, humilhação e suas tradições só foram mantidas graças às mulheres girafas. São mulheres fortes, destemidas e receberam a denominação de mulheres-girafas porque usam no pescoço uma pilha de argolas de metal. Elas têm um pescoço muito longo.
O conto “Modjadji e a mamba” procura dar uma explicação sobre a origem dessas argolas. Seria, assim, um conto etiológico.
Neste livro, o leitor encontra, ainda, histórias de Zimbábue e de Botsuana. São apresentados, também, aspectos religiosos, costumes e tradições desses povos.
O livro “Meus Contos Africanos”, seleção de Nelson Mandela, é formado por contos de diferentes países do continente africano. Mandela é natural da África do Sul, lutou contra o apartheid, defendeu a liberdade de seu país e foi preso político por 27 anos. Solto em 1990, Mandela foi eleito presidente da República da África do Sul em 1994. Em 1993, ganhou o Prêmio Nobel da Paz.
No Prefácio do livro, o autor afirma que reuniu uma antologia de contos africanos antigos que depois de viajarem por muitos séculos são oferecidos às crianças africanas com novas vozes. Ressalta que os contos foram enriquecidos com a essência africana.
32 contos integram a antologia organizada por Mandela. Há predomínio dos contos da África do Sul, mas são encontrados contos da Namíbia, Botsuana, Zimbábue, Moçambique, Zâmbia e de outros países africanos. Mandela recolheu contos de 19 folcloristas e contistas. 17 ilustradores deram beleza a esses contos que remetem a um tempo pretérito. Quase todos contistas e ilustradores nasceram na África da Sul. A ilustradora Véronique Tadjo, francesa, é uma das exceções
A mensagem final do líder sul-africano merece a transcrição. É válida não apenas para as crianças africanas, mas para todas as crianças do mundo.
“É meu desejo que a voz do contador de histórias nunca morra na África, que todas as crianças da África experimentem a maravilha dos livros e que nunca percam a capacidade de ampliar seu local de morada terrestre com a magia das histórias”.
A liberdade dos africanos do sul foi uma conquista árdua. O indiano Gandhi passou uma temporada no país e fundou, em 1894, o Congresso Indiano de Natal com o objetivo de combater a violência contra os seus conterrâneos.
Diferentes grupos étnicos integram a República da África do Sul. São 32 milhões de negros, cinco milhões de brancos, três milhões de mestiços ou colored e um milhão de indianos.
Se você quiser saber mais sobre este país, leia os livros de Laurence Quentin / Catherine Reisser e a seleção de contos de Nelson Mandela. São livros para jovens que contêm informações e saberes para todos.