sexta-feira, 31 de agosto de 2018

Mulheres de Machado


            MULHERES DE MACHADO
            (Neide Medeiros Santos – Leitora Votante FNLIJ/PB)

            Deve-se ler Machado não para compreender o Brasil, mas para ler grande literatura.
            (John Gledson. Por um novo Machado de Assis)
           
            “Mulheres de Machado” é uma coletânea com 17 contos, entre eles alguns bem conhecidos do leitor, como “Uns braços”, “Missa do galo”, “Miss Dollar”. Há contos que foram escritos no inicio da carreira do escritor e outros da fase da maturidade. O livro foi publicado pela editora SESI-SP, 2017, com apresentação de Hélio de Seixas Guimarães.

            Machado de Assis escreveu cerca de 200 contos. Embora não se negue a qualidade literária de contista do escritor, quando se compara com os romances eles são sempre relegados a um segundo plano.  Essa é a opinião de John Gledson, estudioso da obra machadiana. Lúcia Miguel Pereira,  grande conhecedora da obra de  Machado de Assis, considerava-o melhor contista do que romancista.

            A leitura dos dezessete textos da coletânea revela um traço comum.    As mulheres são sempre vistas sob o olhar masculino e se revelam nos pequenos gestos, na voz contida.  São protagonistas desses  contos, mas atuam de forma discreta, afinal estamos no século XIX e a mulher ainda teria que vencer os obstáculos impostos pela sociedade da época.

              Qual foi a visão que Machado  passou da atuação da mulher perante a sociedade do século XIX e início do século XX?  Através desses breves comentários  tento fornecer alguma luz,   ler o que está nas entrelinhas, o que não foi revelado totalmente, apenas sugerido.

            Como sempre ocorre nas histórias de Machado de Assis, o cenário escolhido é o Rio de Janeiro, capital do Brasil, onde residia a Corte  e  morava o escritor.  O conto “A pianista” retrata a época do segundo império e traz como protagonista Malvina, uma professora de piano que, por sua beleza e candura, desperta interesse em Tomás, filho de Tibério, dono de fábricas no Rio e pessoa de prestígio social.  Filha de uma viúva pobre, Malvina dava aulas de piano para ajudar a mãe nas despesas domésticas. O pai de Tomás, ao saber das pretensões amorosas do filho,  manda-o para Bahia a fim de afastá-lo da namorada indesejada. Queria uma nora rica e não uma simples professorinha de piano. Depois de passar um período na Bahia, Tomás volta para o Rio e sente que seu amor por Malvina não esmoreceu. Luta contra a oposição do pai que promete deserdá-lo caso casasse com a moça. Por fim, tudo se resolve a contento para os dois lados.

            Nesse conto, o escritor explora o preconceito social – uma moça pobre se enamora de um rapaz rico e surge oposição por parte da família do namorado. O final feliz se deve à maneira educada e amável de Malvina que, de forma sutil, acaba conquistando a confiança do sogro. Pode-se também atribuir a um ideal romântico, característica que marca  os primeiros romances e  contos machadianos.   

             “Confissões de uma viúva moça” atrai os leitores pelo título. É um conto  em que a protagonista relata para uma amiga, por meio  de cartas, o motivo de seu refúgio em Petrópolis  após a morte do marido. O enredo envolve uma mulher infeliz no casamento que se sente atraída por um sedutor indigno. Após a viuvez, liberta dos laços matrimoniais, o sedutor desaparece, isso provoca imenso sofrimento na viúva que resolve se retirar para a cidade serrana,  afastando-se da intensa vida social do Rio. Sabendo que, pela ousadia do tema, o conto poderia despertar protestos de uma sociedade dominada pelo puritanismo,  Machado publicou “Confissões de uma viúva moça” com o pseudônimo J.J. O jornal Correio Mercantil dirigiu irados ataques ao Jornal das Famílias, órgão responsável pela publicação deste conto.  Machado de Assis terminou revelando ser o verdadeiro autor do conto e tudo terminou com uma defesa assinada por Sigma (outro pseudônimo) que considerava o conto apenas realista e educativo.   Restou a dúvida: Quem seria Sigma? O próprio Machado ou algum amigo do escritor?

            Para John Gledson (2006, p. 41): “As mulheres, suas vidas, seus amores e frustrações são um dos temas que continuarão a preocupar Machado por toda sua carreira”.

            O leitor poderá se deliciar lendo ou relendo outros contos que se encontram no livro, como “Uns braços” e “Missa do galo”.   Neles irá encontrar personagens femininas que não se revelam inteiramente, elas se escondem e inspiram dúvidas.  Conceição, protagonista de “Missa do galo”,  e D. Severina, de “Uns braços”,  são mulheres sedutoras ou tudo não passou de conjecturas na mente de jovens adolescentes?  A grandiosidade de Machado está também nos pormenores, no pensamento reflexivo, no mínimo e no que está escondido.

            ( Texto publicado no jornal “Contraponto”, 2018) .


             POEMA DA SEMANA

                        SONETO CIRCULAR

                        A bela dama ruiva e descansada
                        De olhos langues, macios e perdidos,
                        C´um dos dedos calçados e compridos
                        Marca a recente página fechada.

                        Cuidei que, assim pensando, assim colada
                        Da fixa tela aos floridos tecidos,
                        Totalmente calados os sentidos,
                        Nada diria, totalmente nada.

                        Mas eis da tela se despega e anda,
                        E diz-me  - “Horácio, Heitor, Cibrão, Miranda,
                        C. Pinto, X. Silveira, F. Araújo,

                        Mandam-me aqui para viver contigo."
                        Ó bela dama, a ordens tais não fujo.
                        Que bons amigos são! Fica comigo.

                        ( Machado de Assis)

            Nota: Este soneto de Machado de Assis traz a data de 18 de abril de 1895 e foi publicado no jornal A Gazeta de Notícias.  Biógrafos do escritor contam a história deste poema: tudo parece ter começado com um quadro que Machado teria ganho de amigos e que pode ser visto por quem  visita hoje o acervo machadiano na Academia Brasileira de Letras. A tela é de Roberto Fontana.  Esta informação é de Marisa Lajolo e se encontra no livro “Histórias de quadros e leitores” ( Ed. Moderna,2006). Já visitei a ABL e vi in loco este belo quadro. Fica o convite para quem visitar a Academia Brasileira de Letras.

terça-feira, 22 de maio de 2018

segunda-feira, 14 de maio de 2018

Filosofia para principiantes


            Filosofia para principiantes
            (Neide Medeiros Santos – Leitora Votante FNLIJ/PB)

            Um livro bom, um livro prazeroso, é aquele que, tendo mais páginas, nos agrada por mais tempo.
            (Mário Sérgio Cortella. Vamos pensar um pouco?).

            O filósofo Mário José Cortella e o ilustrador Maurício de Sousa estão reunidos no livro “Vamos pensar um pouco?” (Ed. Cortez, 2017). Cortella é mestre e doutor em Educação, foi professor universitário por 35 anos, secretário municipal de Educação de São Paulo (1991-1992), ultimamente dedica-se a escrever e publicar livros na área de filosofia para crianças e jovens. Maurício de Sousa é desenhista, ilustrador e quadrinista. Começou publicando tirinhas nos jornais de São Paulo, depois criou revistas, escreveu livros e hoje comanda um universo de personagens infantis que já somam mais de trezentos.  É o criador de personagens famosas como Mônica, Magali, Cebolinha, Cascão, Chico Bento e muitos outros. Algumas dessas personagens ilustram este livro.

            Dividido em 35 pequenos textos, Cortella incita o pequeno leitor a pensar sobre a vida, com “persistência e alegria, com generosidade e liberdade, com inventividade e criatividade”.

            A viagem pelos textos começa com o próprio título do livro: “Vamos pensar um pouco?”. A língua tem muitas sutilezas, vejam que basta uma pequena palavra para modificar tudo. Se eu digo: vamos pensar pouco? É bem diferente de: vamos pensar um pouco? Pensar pouco é pensar sem consciência, é não refletir: pensar um pouco já exige mais cuidado, exige certo esforço para refletir sobre determinados temas e assuntos.

            O que é o saber? É difícil explicar, mas vale a pena tentar. O autor parte do princípio que ninguém sabe tudo, mas devemos sempre querer saber mais, mesmo tendo a consciência de que é impossível saber tudo. A pessoa sábia recusa a mediocridade, ela quer sempre fazer o melhor que pode.

            Será que mudar de opinião diminui a pessoa? Não, pode até engrandecê-la. A liberdade de pensamento permite alterar a maneira como se pensava antes. E citamos um exemplo de mudança.  Dom Hélder Câmara, no início de sua vida sacerdotal foi integralista, ligado ao pensamento da direita, depois fez a opção pelos mais pobres e se tornou um socialista católico.  Boa mudança do padre Hélder!

            E sobre o tempo? O que temos a dizer? Um jovem de 20 anos considera o futuro extremamente distante. Quando se tem 60 ou 70 anos, a ideia de futuro é imediata. A respeito do tempo, o filósofo alemão Schopenhauer (1788-1860), no seu livro “Aforismos”, foi bem claro: “Vista pelos jovens, a vida é um futuro infinitamente longo, vista pelos velhos, um passado muito breve”.  O escritor, poeta e filósofo Bartolomeu Campos de Queirós, no livro “Tempo de voo”, também dialoga sobre a efemeridade do tempo. Uma conversa entre um ancião e uma criança mostra a visão que cada um tem do tempo. Para a criança, o Natal demora a chegar, para o velho parece que foi ontem e já nos aproximamos de um novo Natal.

            O que é conhecimento partilhado? Será que você já parou para pensar que ninguém é só aluno e que ninguém é só professor? Todos podem ser educadores, ensinar algo a alguém, todo mundo aprende alguma coisa com o outro. “Mestre” tem um sentido maior, é aquele detentor de muitos saberes, é mais elevado, está em um patamar mais alto. O mestre dedica seu tempo a partilhar conhecimento. Álvaro de Campos, o heterônimo erudito de Fernando Pessoa, chamava Alberto Caeiro, de meu mestre. Caeiro não era o mais versátil, era o poeta das coisas simples, da natureza, era aquele poeta que falava com as flores, com os regatos, era detentor de saberes ligados à natureza. Para Álvaro de Campos, Caeiro era seu verdadeiro  mestre.

            Não falta nesse livro uma pitadinha de humor. Conta o professor que, certa vez, estava fazendo uma palestra para profissionais da área de enfermagem e tudo decorria muito bem. Quando chegou a hora do debate, uma enfermeira bastante inteligente fez esta pergunta:  “Que comentário o senhor gostaria que fizessem a seu respeito no dia do seu velório?”.  Durante oito minutos, o expositor procurou responder à instigante pergunta. A resposta que deu não foi revelada neste livro. Terminada a explanação, virou-se para a enfermeira e perguntou: “E você, o que você quer que falem sobre você no seu velório?” A resposta não poderia ser mais inteligente: “Nossa, ela está se mexendo!” Foi uma resposta bem-humorada e deixou o professor sem graça. Ele apresentou argumentos filosóficos, ela simplesmente indicou uma vontade que todos temos – não morrer nunca.

            Essas são algumas das lições que o professor Mário Sérgio Cartela procura transmitir a quem está procurando entender os mistérios da vida, os porquês que envolvem tantas indagações.  No terreno da Filosofia, temos muitas perguntas e poucas respostas, mas é bom refletir sobre certas coisas que não sabemos definir, isso nos torna mais humanos, mais humildes e conscientes do nosso pouco saber.
            Esse livro me levou ao encontro de outro que será lançado brevemente – “Diário de um professor de Filosofia do ensino médio”. Aguardemos a chegada desse livro, adianto que o professor é paraibano e durante muitos anos lecionou Filosofia na UFPB e no ensino médio.

(Paraíba. Publicado no jornal “Contraponto”, B3,  11 a 17 de maio de 2018)   

            POEMA DA SEMANA

            MEMÓRIA PRÉVIA

            O menino pensativo
            junto à água da Penha
            mira o futuro
            em que se refletirá na água da Penha
            este instante imaturo.

            Seu olhar parado é pleno
            de coisas que passam
            antes de passar
            e ressuscitam
            no templo duplo
            da exumação.

            O que ele vê
            vai existir na medida
            em que nada existe de tocável
            e por isto se chama
            absoluto.

            Viver é saudade
            prévia.
            ( Carlos Drummond de Andrade)

domingo, 4 de março de 2018

Os trabalhos da mão


OS TRABALHOS DA MÃO  : um ensaio que se tornou uma obra de arte

(Neide Medeiros Santos – Leitora Votante FNLIJ/PB)

A mão é voz do mudo, é voz do surdo  é leitura de cego.
(Alfredo Bosi. Os trabalhos da mão).

            A ilustração em livros para criança é comum em todas as épocas, dos livros mais antigos aos mais modernos.  Nos anos 1930, os romances brasileiros também traziam  ilustrações.  Artistas famosos, como Tomás Santa Rosa, Luís Jardim, Poty e Caribé eram contratados para ilustrar capas e algumas páginas internas dos romances.   Lamento que esta prática não seja mais tão comum em nossos dias.  Na literatura infantil brasileira da atualidade (prosa ou poesia), a ilustração continua tendo um papel preponderante.

 Mas o que dizer do ensaio? Conheço poucos ensaios que receberam a participação de artistas plásticos. “Poética das águas” (Ed. Sebo Vermelho), com textos de Moacy Cirne e Gaston Bachelard, fotografias de Candinha Bezerra, é um bom exemplo de ensaio ilustrado, assim não me causou surpresa quando recebi o livro “Os trabalhos da mão”, (Ed. Positivo, 2017), ensaio de Alfredo Bosi com ilustrações de Nelson Cruz. 

O ensaio de Bosi se encontra no livro “O ser e o tempo da poesia”. É um texto que se aproxima de um poema em prosa.   Como “artista da mão”, para usar uma expressão bachelardiana, o ilustrador  trilhou os caminhos da pintura através de séculos e ilustrou cada parágrafo do ensaio com uma pintura condizente com o texto verbal.

De modo sucinto, segue uma breve biografia dos autores do livro “Os trabalhos da mão”. Alfredo Bosi foi  professor de Literatura Brasileira da USP, é professor emérito por essa mesma Universidade. A partir de 2003 passou a integrar a Academia Brasileira de Letras. Publicou, entre outros livros, “História concisa da literatura brasileira”, “O conto brasileiro contemporâneo”; “O ser e o tempo da poesia”; “Céu e inferno: ensaios de crítica literária e ideológica”; “Dialética da colonização”.

Nelson Cruz ilustra para o mercado editorial desde 1987. Já conquistou vários prêmios, entre eles FNLIJ, APCA, Jabuti e Octogones, na França. Em 2016, “Haicais visuais” recebeu o Troféu Monteiro Lobato da revista Crescer. Na homenagem aos 150 anos da publicação de “Alice no país das maravilhas”, ilustrou “Alice no telhado”. Os originais deste livro participaram de uma exposição “Tea with Alice”, no Museu de História de Oxford, na Inglaterra, e depois na Fundação Calouste Gulbenkian, em Portugal.  

Na adolescência, Nelson Cruz apreciava as pinturas dos grandes mestres nos livros didáticos e nos livros que consultava na biblioteca da escola,  sorvia suas pinceladas, cores, composições e sentia uma grande atração principalmente pelos artistas que se afastavam da elite e da nobreza e voltavam seus olhares para as classes operárias. Ele cita entre os artistas de sua predileção Jean-François Milliet, Gustave Courbert.

Sempre houve a preocupação dos pintores com o trabalho das mãos e isso está registrado na história da pintura.  O ilustrador pesquisou e reproduziu, com sua marca pessoal, as telas de alguns pintores que se dedicaram a representar artisticamente a tarefa manual, desde as mais simples, como lavrar a terra, lavar roupa, até as mais refinadas – a arte da pintura.  Recriou  telas dos grandes mestres e, de forma muito didática, apresentou um esboço das obras originais que deram origem às ilustrações do livro. A esse trabalho de recriação, Nelson Cruz chamou de  “interpretações de clássicos da pintura”.

  O livro “Os trabalhos da mão”, da Editora Positivo, tanto se adapta  para o público juvenil como  para os adultos. Cada fragmento do ensaio vem na companhia de uma ilustração. Ao manusear o livro, o leitor se depara com VAN GOGH, Vincent – “Estudo de mulher camponesa plantando beterraba”; DEBRET, Jean – Baptiste - “Índios na missão de São José”; COUBERT, Gustav –“ Mulheres peneirando trigo” e muitos outros. O olhar caminha do texto verbal para o pictórico.

Apresento dois exemplos que demonstram a interação entre a ilustração e o ensaio. O primeiro é a tela de FILIPPI, Lucienne – “Retrato de Louis Braille”.  O texto escolhido aparece como epígrafe desta resenha – “É voz do mudo, é voz do surdo, é leitura de cego”. A pintura  de um homem com os olhos fechados vem na companhia de símbolos em braille.

O segundo é o quadro de POTTHAST, Edward Henry – “A lavadeira”. O texto que foi escolhido para ilustrar o fragmento é este: “Ensaboa a roupa, esfrega, torce, enxágua, estende-a ao sol, recolhe-a dos varais, desfaz-lhe as pregas, dobre-a, guarda-a”. E assim acontece com outros quadros –  texto e pintura  se completam.  

  Este livro vem comprovar que a boa literatura deve ser lida por crianças, jovens e adultos.  O gosto pelo belo, pela arte começa na infância. “Os trabalhos da mão” é um livro de arte para ser compartilhado por muitos.   

            POEMA DA SEMANA
            CANÇÃO

            Pus o meu sonho num navio
            e o navio em cima do mar;
- depois abri o mar com as mãos
para o meu sonho naufragar.

Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e cor que escorre dos meus dedos
colore as areias desertas.

O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio,
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio.

Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.

Depois, tudo estará perfeito:
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.

( Cecília Meireles. Viagem)  

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Mulheres Extraordinárias

 MULHERES EXTRAORDINÁRIAS
            (Neide Medeiros Santos – Leitora Votante FNLIJ/PB)

            A pintura, mesmo com o doente calado, permite que você olhe, ainda que pelas frestas, para dentro do interno.
            (Nise da Silveira. O Globo, 1987).

            Duda Porto de Souza e Aryane Carraro escreveram o livro “Extraordinárias: mulheres que revolucionaram o Brasil”, selo da Editora Seguinte, 2017 (Companhia das Letras). Nove ilustradoras fizeram o trabalho de traçar o perfil fisionômico das 44 mulheres que contribuíram para o engrandecimento das letras, das artes, das causas sociais e da história do Brasil. Figuram 40 mulheres e quatro “abrasileiradas”. O livro se destina ao público jovem, mas poderá ser lido de forma prazerosa por todos – mulheres e homens, jovens e adultos.  

            Ao longo dos textos, aparecem explicações com o objetivo de torná-los mais acessível ao leitor.  Nas últimas páginas, encontram-se: “Linha do Tempo. A vida das mulheres no Brasil”, “Glossário” e informações sobre as autoras e as ilustradoras
......
            O livro seguiu uma ordem cronológica temporal.  O primeiro nome que desponta nesse variado universo feminino é o de Madalena Caramuru, a primeira brasileira alfabetizada. Não se sabe com precisão a data de seu nascimento, existe o registro de seu casamento em 1554 com o português Afonso Rodrigues. Madalena era filha do náufrago português Diogo Álvares Correia, casado com a índia Paraguaçu. Somente no século XVIII as meninas brasileiras passaram a frequentar as escolas, mas com muitas restrições. Há um fato relevante envolvendo Madalena, ela escreveu uma carta ao padre Manuel da Nóbrega pedindo o fim dos maus-tratos às crianças indígenas e o início de uma educação feminina com o aprendizado da leitura e da escrita. Esse pedido foi levado à rainha de Portugal, mas não foi colocado em prática. Além de ter sido a primeira mulher brasileira alfabetizada, Madalena lutou pelos direitos da mulher no século XVI.

A matriarca da família Alencar, Bárbara de Alencar, é outra figura feminina de destaque no cenário nacional. Nasceu em Exu (PE) em 1760 e morreu em 1832, em Fortaleza. Foi uma das primeiras prisioneiras políticas do Brasil. Foi presa por lutar contra o domínio português.  Após a independência do Brasil, Bárbara continuou contestando o autoritarismo do governo e opondo-se às políticas centralizadoras da Constituição do Império. O nome de Bárbara Alencar está gravado no Livro de Aço no Panteão da Pátria e da Liberdade Tancredo Neves, na Praça dos Três Poderes, em Brasília. No Livro de Aço, estão gravados os nomes dos heróis e heroínas da Pátria.     

Nísia Floresta é outra nordestina que merece figurar entre as mulheres extraordinárias. Seu nome verdadeiro era Dionísia Pinto Lisboa, depois de adulta resolveu adotar o pseudônimo de Nísia Floresta Augusta Brasileira. Natural de Papari (RN) nasceu em 1810 e morreu em Rouen, na França, em 1885.  Por sua inteligência, sua luta pela educação das mulheres, abolição da escravidão, liberdade para os índios e liberdade religiosa, Nísia Floresta ultrapassou as fronteiras do Brasil. Era um espírito revolucionário e publicou o primeiro livro de caráter feminista no Brasil quando contava apenas 22 anos – “Direitos das mulheres e injustiça dos homens” (1832). Como educadora, batalhou por uma escola igualitária para meninos e meninas. . Com o segundo marido, Augusto, criou um educandário feminino no Rio de Janeiro e oferecia às meninas as mesmas disciplinas que eram ofertadas aos meninos. Em reconhecimento a seu trabalho pioneiro, a cidade de Papari mudou o nome para Nísia Floresta.

A presença da mulher nas artes plásticas do Brasil é recente. Um pouco antes do brilho de Anita Malfatti e Tarsila do Amaral, encontra-se a figura de Georgina de Albuquerque, nascida no interior de São Paulo (1885). Desde pequena, revelava pendores artísticos. Estudou pintura com o pintor italiano Rosalbino Santoro . Aos dezessete anos estava tão confiante da sua arte que enviou uma tela de sua autoria para a ENBA – Escola Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro. O quadro foi considerado excelente e os críticos de arte achavam que se tratava de uma cópia, viram depois que era um trabalho original. Georgina casou com o artista plástico Lucilo de Albuquerque e juntos foram estudar em Paris na École de Beaux-Arts e na Académie Julian. De volta ao Brasil, continuou sua carreira artística e em 1919 ganhou a Medalha de Ouro por seu quadro “Família”. Ela abriu caminho para outras pintoras e foi a primeira mulher a dirigir a Escola Nacional de Belas Artes (ENBA), no Rio de Janeiro.

A caricatura sempre foi a marca forte de Nair de Teffé. Nascida no Brasil, passou a infância e adolescência em diferentes países da Europa. Quando voltou a residir no Brasil estava com dezessete anos e já sabia o que queria fazer – caricatura. Inicialmente utilizou o pseudônimo de Rian em seus trabalhos. Sua estreia como caricaturista aconteceu na revista ilustrada Fon-Fon e colaborou em diversos periódicos e revistas do Rio de Janeiro. Nair foi casada com o Marechal Hermes da Fonseca que foi presidente do Brasil em concorrida eleição com Rui Barbosa.   Uma das charges mais famosas de Nair é a de Rui Barbosa que se tornou ridículo aos olhos da caricaturista. Até hoje são poucas as mulheres que lidam com a caricatura, Nair foi pioneira nessa arte.

Quando se fala em inovação no campo da psiquiatria brasileira aflora o nome da Dra. Nise da Silveira, médica alagoana que foi uma revolucionária nas ideias políticas e na medicina. Presa no governo ditatorial de Getúlio Vargas sob a acusação de comunista, Dra. Nise conviveu com Graciliano Ramos e Olga Benário no período em que esteve presa no Rio de Janeiro.  Adepta da psicologia junguiana, fundou a Casa das Palmeiras e deu início a um trabalho terapêutico em prol dos doentes mentais que foi reconhecido internacionalmente. Ela pregava o tratamento psiquiátrico através da arte, dos trabalhos manuais e da fraterna convivência com cães e gatos.  É autora de vários livros, entre eles “Jung: vida e obra”. No estado de Alagoas, a Medalha Nise da Silveira é concedida a mulheres que se destacam nas letras e nas artes.

Entre as quatro mulheres abrasileiradas, desponta Dorothy Stang, uma missionária americana que dedicou quarenta anos de sua vida em defesa do desenvolvimento sustentável da Amazônia e dos direitos dos camponeses. O brutal assassinato de que foi vítima comoveu a todos. Seu nome ficou gravado para sempre entre aqueles que lutaram por um Brasil mais justo, mais fraterno e mais humano.

Há muitas outras mulheres que desempenharam papéis importantes na história do Brasil. Você é convidado a ler este livro e conhecer mais um pouco sobre a vida e o trabalho de outras mulheres extraordinárias.  

( Publicado no jornal "Contraponto". Paraíba, fevereiro de 2018) 


POEMA DA SEMANA
MULHER PROLETÁRIA
MULHER PROLETÁRIA - única fábrica
que o operário tem, (fábrica de filhos)
            tu
na tua superprodução de máquinas humanas
forneces anjos para o Senhor Jesus,
forneces braços para o senhor burguês.

            Mulher proletária
o operário, teu proprietário,
há de ver, há de ver:
a tua produção,
a tua superprodução,
ao contrário das máquinas burguesas
salvar teu proprietário.

( Jorge de Lima. Poemas Escolhidos).






quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Direitos do pequeno leitor

Direitos do pequeno leitor
            (Neide Medeiros Santos – Leitora Votante – FNLIJ/PB)
            O tempo para ler, como o tempo para amar, dilata o tempo para viver.
                        (Daniel Pennac. Como um romance).


            Daniel Pennac escreveu vários livros destinados às crianças e aos adultos, entre eles “Como um romance”, publicado no Brasil pela Editora Rocco. Neste livro de ensaios, o autor apresenta, de maneira agradável e prática,  os “direitos imprescritíveis do leitor”. Professor de francês, Pennac tem uma vasta experiência com o magistério e conhece os meios de cativar o leitor sem forçá-lo para a leitura deste ou daquele livro.

            Quando o livro passa a ser um dever escolar, o jovem tende a se afastar da leitura. Qual seria o grande segredo deste professor de francês que tem atraído leitores de todas as idades?  Pennac é um grande leitor e gosta de ler em voz alta para os alunos, chamando a atenção para determinados aspectos, mas tudo de maneira bem livre, sem as peias da obrigação. Com esse método aberto, conseguiu agradar adultos e adolescentes. Seus livros já alcançaram inúmeras edições e incentivaram outros escritores a seguir o mesmo caminho.   

            No Brasil “Como um romance”, encontrou ressonância no livro “Direitos do pequeno leitor” (Ed. Companhia das Letrinhas, 2017), com texto de Patrícia Auerbach, ilustrado por Odilon Moraes. Convém destacar que tanto Patrícia como Odilon são escritores/ilustradores. Neste livro, Patrícia escreveu o texto e Odilon fez as ilustrações. 

            A respeito do contato com Pennac, a autora revela que conheceu os livros desse autor quando cursava Pedagogia e a leitura dos “Direitos Imprescritíveis do Leitor” passou a ser uma referência maravilhosa, uma verdadeira libertação.

            Para Odilon Moraes, “Comme um Roman” foi um presente que ganhou quando foi morar na França em 1990 e foi nesse livro que aprendeu francês e descobriu os direitos do leitor. O ilustrador vai um pouco além – ele defende a inclusão de mais um direito entre eles: O DE SE DEMORAR NAS IMAGENS.

            É na companhia desses dois autores brasileiros que caminhamos para o encontro com “Direitos do pequeno leitor”.

            Na capa, o título em letras vermelhas, chama a atenção por um detalhe – o (I) de leitor vem representado por uma chave e essa chave, de forma reiterada, também aparece na primeira página do livro na companhia da dedicatória: “Para grandes leitores em começo de carreira”.

            O livro é direcionado para os pequenos leitores, para aqueles que estão entrando no reino encantado das palavras, isso não significa que os leitores graúdos não possam usufruir dessa leitura, eles podem e devem – é um direito imprescritível. 

             O mundo da literatura é rico e fabuloso, o leitor pode se identificar com o herói ou a heroína, pode decidir como e quando quer ler, pode brincar com as palavras, criar novas histórias e tornar “outras mais belas”, contar e ouvir histórias e dar um final diferente do que leu ou ouviu alguém contar. Muitas vezes o leitor se identifica tanto com uma história que sofre as mesmas dores da personagem. Fernando Pessoa já dizia que o poeta finge a dor que deveras sente.

            Ângela-Lago, que tinha sensibilidade poética, leu esse livro ainda em 2017, antes de sua partida inesperada, e assim se expressou:
            Eis um livro ilustrado.  As palavras e os desenhos brincam entre si e a poesia acontece, mas que uma declaração de direitos, temos um manifesto, uma comemoração. Um viva à liberdade que existe no mundo dos pequenos grandes leitores. Patrícia e Odilon têm uma chave especial que serve para todos os tamanhos e abre todas as portas.  

            É muito bom começar o ano com a leitura de um livro que leva o leitor a sonhar sempre, a inventar tudo outra vez, a fazer amigos incríveis.

            Um livro bem lido é um “passaporte para a fantasia e o despertar de si mesmo”. “Direitos do pequeno leitor” convida aqueles que estão se adentrando no mundo da leitura para uma viagem inesquecível com novas descobertas e apontando caminhos que devem ser trilhados.

            NOTAS LITERÁRIAS E CULTURAIS

            Três livros de escritores brasileiros integram a Lista de Honra do IBBY 2018. São eles: “A boca da noite”, de Cristiano Wapichana, ilustrado por Graça Lima; “Lá e aqui”, texto de Carolina Moreyra, com ilustrações de Odilon Moraes e “O conto do carpinteiro” de Iban Barrenetxea, tradução de Eduardo Brandão.  Nesta lista são escolhidos os melhores livros de literatura infantojuvenil publicados no Brasil em 2016. É uma referência para o mercado editorial internacional e esses livros circulam em feiras de livros, congressos internacionais de literatura infantil e irão fazer parte do acervo da Biblioteca Internacional de Munique e do Instituto Suiço de Mídia Infantil e Juvenil em Zurique.  (Pesquisa feita no Boletim “Notícias” – FNLIJ, no. 10, outubro de 2017).

            No que se refere ao livro “A boca da noite”, transcrevo a resenha que fiz para a seleção de livros premiados pela FNLIJ e que foi publicada no Boletim “Notícias” (FNLIJ) no. 06, em junho de 2017 (p.2). Este livro ganhou o Prêmio FNLIJ Ofélia Fontes – o Melhor Livro para a Criança.  

A boca da noite: histórias que moram em mim. Cristiano Wapichana. Il. Graça Lima. Rio de Janeiro, Ed. Zit, 2016.
            Os curumins gostam de ouvir histórias dos pais, dos avós, eles consideram que os 
mais velhos são detentores do saber. À noite, depois do jantar, é a melhor hora para a família se reunir e vêm as histórias fabulosas, as lendas. As crianças ficam atentas ouvindo tudo. Na história “A boca da noite”, o curumim Kupai conta o dia a dia na aldeia. Uma travessura dos curumins Kupai e Dum (subir no alto da pedra da Laje do Trovão), motivou o pai a contar a história da boca da noite. Kupai ficou tão impressionado que queria saber o que era a tal da boca da noite.  Não encontrando uma explicação razoável que satisfizesse sua curiosidade, foi dormir e teve um pesadelo terrível. A mãe aflita, diante do choro do menino, procura acalmá-lo. As ilustrações de Graça lima acompanham o clima sombrio da noite, hora de contar e ouvir histórias, hora dos sonhos e dos pesadelos, das assombrações e dos medos. (Neide Medeiros – Leitora Votante FNLIJ/PB).

            FÉRIAS - Aqui estão quatro boas indicações  de leitura para as crianças durante o mês de janeiro – “Direitos do pequeno leitor” (Ed. Companhia das Letrinhas); “A boca da noite” (Ed. Zit); “Lá e aqui” (Ed. Zahar);” O conto do carpinteiro” (Ed. Companhia das Letrinhas). 

            POEMA DA SEMANA
                            I
            Trago dentro de mim
                                               a voz do tempo,
            sonhos de alguém que fui
                                                    e já não sou,
            subterrânea luz ,
                                   dias de vento
            olhos voltados
                        para o que passou.


            Trago dentro de mim
                                               a voz da infância
            acordando o menino  
                                   que ainda sou,
            fazendo adormecer
                                    o homem-criança

            reinventando o tempo
                                          quase-avô.

            ( José Rodrigues de Paiva. Vozes da Infância)


            Nota: José Rodrigues de Paiva nasceu em Coimbra, Portugal e veio morar em Recife quando contava seis anos. Fez o curso de Direito na Universidade Católica de Pernambuco, mestrado e doutorado em Teoria Literária pela UFPE.  É poeta, ensaísta e foi professor de Literatura Portuguesa na UFPE.              

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

O Diário de Anne Frank 1

O Diário de Anne Frank – versões em quadrinhos
            (Neide Medeiros Santos – Leitora votante FNLIJ/PB)

            Erguemos os olhos os olhos para o céu, muito azul.
            Despedidos de folhas e úmidos de orvalho,
            os galhos do castanheiro-da-índia brilhavam.
                        (Anne Frank)

            O Diário de Anne Frank tem me acompanhado em diferentes fases da vida. Cada ano descubro uma nova edição e releio esse livro escrito por uma adolescente judia que não resistiu aos horrores da 2ª. Guerra Mundial. Já li diversas versões: o texto completo (traduzido para português), textos resumidos e adaptados, peça de teatro e sempre descubro alguma coisa que desconhecia, Recentemente recebi três versões em quadrinhos do diário e um livro sobre o castanheiro-da-índia, árvore centenária situada próxima a um dos canais da cidade de Amsterdam, perto do anexo onde Anne Frank ficou com a família por dois anos.  Dos quatro livros recebidos, este último é o mais poético.   

            Da editora  Record, chegou “O Diário de Anne Frank”, uma edição oficial autorizada pelo  “Anne Frank Fonds”. O roteirista e diretor cinematográfico Ari Folman e o ilustrador (quadrinista) David Polonsky traduziram muito bem o contexto da época.  Anexaram informações importantes que levam o leitor a compreender  melhor o drama vivenciado por Anne e sua família.

            Esta edição registra o último texto escrito por Anne Frank no seu diário com a data de 1º. de agosto de 1944.  Ela faz uma análise de sua personalidade. Transcrevemos um pequeno texto para demonstrar o grau de maturidade da menina/moça de 15 anos:     
   
            Como já disse muitas vezes, sou dividida em duas. Um lado contém minha animação  exuberante, minha petulância, minha alegria de viver e, acima de tudo, minha capacidade de apreciar o lado mais leve das coisas.
            (...)
            Na verdade, sou aquilo que um filme romântico representa para um pensador profundo - uma simples diversão, um interlúdio cômico, algo a ser logo esquecido; que não é ruim, mas que também não é particularmente bom. Tenho medo de que as pessoas que me conhecem descubram que tenho outro lado, um lado melhor e mais bonito.  (2017: p.150).
 
            “Anne Frank: a biografia autorizada em colaboração com a Casa de Anne Frank” traz o selo da Companhia das Letrinhas. Sid Jacobson foi o roteirista e Ernie Colon o responsável pela quadrinização do texto. A vida de Anne é contada de forma detalhada, desde o seu nascimento, em 1929, a infância passada em Frankfurt, a ida para Amsterdam ,  os anos no esconderijo  até sua morte precoce no campo de concentração de Bergen-Belsen, na Alemanha. Este livro apresenta uma Cronologia com fotos de Anne, de sua família e de outros personagens envolvidos na história.

            O terceiro livro, também em quadrinhos, é da editora Nemo e foi escrito por Mirella Spinelli, uma mineira de São João del-Rey que é autora  do roteiro e  das ilustrações. É uma adaptação resumida do texto original e termina com a prisão das pessoas que estavam escondidas no anexo.

            Mas foi “A árvore no quintal” o que mais me cativou, uma edição da Galera Jovem (Record)  com texto de Jeff Gottesfeld,  ilustrado por Peter McCarty. A tradução para edição brasileira  é de Luiz Antonio Aguiar.    

            A árvore que aparece na história é um castanheiro-da-índia, personificado,  que tudo vê e observa.   As ilustrações são todas em tom sépia. A sensibilidade artística de Peter McCarty atrai os leitores.   Agindo como uma pessoa, o castanheiro faz um relato do que estava acontecendo a seu redor, principalmente o que se passava no anexo situado na Rua Prinsengracht, 263, em Amsterdam. Via uma menina sempre escrevendo em um caderno, isso  despertava muito interesse. O que estaria escrevendo?   Ele adquire personalidade semelhante à amiga imaginária de Anne Frank, Kitty. 

 Jeff Gottesfeld assim descreve a árvore:  “Suas folhas eram estrelas verdes; suas flores,  delicadíssimos cones bancos e rosa.”  As flores floresciam na primavera, no outono, desprendiam  frutos espinhentos e no inverno se cobria de neve. Com o passar dos anos, a árvore adoeceu, injetaram medicamentos, colheram sementes. Em 2010, foi atingida por uma tempestade forte e um raio cortou seu tronco ao meio. Não resistiu. As  sementes colhidas  espalharam-se  por diversas partes do mundo. Mudas dessa árvore foram plantadas nos Estados Unidos em locais famosos por sua relação com a luta pela liberdade e tolerância, como Colégio Central, Little Rock, Arkansas (Luta pelo fim da segregação, 1957), Museu das Crianças de Indianápolis, Indiana (Parque da Paz Anne Frank), Escola Distrital de South Cayuga, Aurora, Nova York (Parque Histórico Nacional dos Direitos da Mulher). Outras mudas e sementes da árvore foram plantadas pelo mundo afora.   

Concluímos com um pequeno excerto do livro “A árvore no quintal”:
A árvore, assim como a menina, entrou para a história. Assim como a menina, ela vive até hoje.

POEMA DA SEMANA

INTENTO

Quero a solidão que entretém
o pássaro altivo que repousa
no ramo de uma árvore.

Quero a mais elevada companhia.
O pensamento desnudo
na mais lata noite sem presságios.
( Rafael Vasconcelos , Ofício)