quinta-feira, 15 de março de 2012

A lua no cinema:quatro momentos distintos


A lua no cinema: quatro momentos distintos
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB)


Tenho fases, como a lua.
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
(Cecília Meireles. Lua adversa. In: Vaga Música).

Eucanaã Ferraz organizou a seleção de poemas “A lua no cinema e outros poemas” ( Cia. Das Letras, 2011), livro destinado, “preferencialmente, aos jovens”. Vinte poetas integram a coletânea, sendo sete portugueses e treze brasileiros. Apenas duas poetisas – Fiama Hasse Pais Brandão e Sophia de Mello Breyner Andresen. As duas são portuguesas.
Ao todo são 68 poemas. O leitor encontra um índice como o título dos poemas, os nomes dos autores e uma breve nota sobre cada poeta. Aparecem, ainda, informações do exemplar de onde foram retirados os textos.
O título do livro remete ao poema de Paulo Leminski – “A lua no cinema” que se encontra na p. 59. Transcrevemos a primeira estrofe do poema:

“A lua foi ao cinema,
passava um filme engraçado,
a história de uma estrela
que não tinha namorado.” (p.59).

Os poemas estão divididos em quatro momentos distintos. No primeiro, com o subtítulo de “o verbo ser e outros verbos”, encontram-se poemas que mostram o decorrer da vida do homem: nascimento, infância, juventude, maturidade e velhice.
“não sei se isto é amor e outras dúvidas” é o subtítulo do segundo momento e compreende poemas que falam do amor, das incertezas e das dúvidas desse sentimento complexo. O terceiro momento – “na ribeira deste rio e outras paisagens” apresenta poemas voltados para a natureza. Verso de Fernando Pessoa é utilizado no subtítulo. No quarto e último momento – “não coisa e outras coisas”, os poemas selecionados reúnem seres e coisas que se misturam e se transformam, superando limites.
Vamos examinar alguns poemas da primeira parte, eles estão relacionados com as diferentes fases da vida do homem.
O primeiro é uma canção de Caetano Veloso – “Boas-vindas” (LP Circuladô, 1991). O poeta celebra o nascimento do filho e convida-o a conhecer a vida – que é gostosa, tem o sol e tem a lua, tem a poesia e tem a prosa.
O segundo poema – “A um recém-nascido”, José Paulo Paes saúda um bichinho tenro, frágil, o filho do homem. Entre uma estrofe e outra, aparece um refrão que se repete de forma variada – “é o filho do homem”, “é o filho da mulher”, “é o filho da fome,” “é o filho da fartura”, “é o filho do mundo.” Por fim, “É um filho de Deus”. Atente-se para a sutileza poética e a substituição do artigo definido (o) para o indefinido (um).
Manoel de Barros comparece com o poema “Infantil”. Aqui, o poeta explora o lado criativo da criança. Um menino conta uma história absurda à mãe e conclui:

“Olha, mãe, eu só queria inventar uma poesia”.
Eu não preciso fazer razão”. (p. 18)

Manoel de Barros gosta de aproximar a criança do poeta. Os dois são inventivos e não precisam dar explicações lógicas para entender as coisas.
Mário Quintana, no poema “O adolescente”, chama a atenção do jovem para a beleza da vida e alerta que essa beleza pode gerar o medo, mas um medo “fascinante e fremente de curiosidade”.
O poeta português Alexandre O´Neill, com o poema “Amigo”, refere-se à idade adulta do homem e faz uma reflexão sobre o que é um amigo e recomenda que se tenha cuidado com a palavra amigo.
E o que seria amigo?

“Amigo é o erro corrigido,
não o erro perseguido, explorado
é a verdade partilhada, praticada.” (p. 26)

Chega-se à maturidade, à velhice. Para essa fase ingrata da vida só recorrendo a Paulo Leminski e enfrentá-la com uma doce ironia.

[quando eu tiver setenta anos]
“quando eu tiver setenta anos
então vai acabar essa adolescência
vou largar da vida louca
e terminar minha livre-docência” (p.44)

Os outros três momentos poéticos permanecem encobertos esperando o leitor.
Resta uma pergunta: Por que as poetisas brasileiras modernas não entraram na coletânea? Onde estão Roseana Murray, Marina Colasanti, Neide Archanjo, Zila Mamede? E Cecília Meireles – que é atemporal e eterna?

sábado, 3 de março de 2012

Hugo Cabret. O filme? Não, o livro


HUGO CABRET. O FILME? NÃO, O LIVRO
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB)

As pessoas usam os computadores mais e mais, algo que apaga a mão do artista. Eu quis fazer algo com o qual fosse possível ver a mão do artista.
Brian Selznick. Nota explicativa sobre a ilustração do livro “A invenção de Hugo Cabret”)

“A invenção de Hugo Cabret” (Ed. SM), texto e ilustrações de Brian Selznick, tradução de Marcos Bagno, ganhou, em 2008, o Prêmio “Melhor Tradução para Jovem” da FNLIJ. O autor nasceu em East Brunswick, Nova Jersey (EUA), é formado em Design, Rhode Island. Marcos Bagno é tradutor, escritor e linguista. Atualmente é professor da UNB.
O livro foi adaptado para o cinema por Martin Scorsese em 3D e tem conquistado o público infantil e adulto. A reunião de texto, imagens, quadrinhos e cinema oferece uma variada experiência de leitura. É um volume de 533 páginas que mescla linguagem verbal e pictórica. As duas linguagens caminham pari-passu.
O colorido da capa contrasta com as inúmeras ilustrações internas que são todas em preto e branco. O ilustrador utilizou lápis (crayon), fez pequenos desenhos que depois foram ampliados. Ao longo do livro, o leitor observa o trabalho de “hachura”. Em desenho ou gravura, este tipo de ilustração produz efeito de sombra ou meio-tom. Os desenhos foram todos feitos com lápis HD, sombreados em preto e branco e apresenta figuras muito bem delineadas. Há páginas inteiras apenas com cenas visuais.
Vamos conhecer um pouco da história de Hugo Cabret.
Estamos em Paris nos anos 30 do século XX. O ambiente retratado é uma estação de trem. Nessa estação mora Hugo Cabret. É órfão e ficou sob os cuidados de um tio que, certo dia, desapareceu. Após o desaparecimento do tio que consertava relógios, Hugo luta sozinho pela sobrevivência. Mora na própria estação em um apartamento secreto construído para o pessoal que dirigia a estação de trem há alguns anos. Por ter apenas 12 anos, poderá ser recolhido a um abrigo de menores abandonados, por isso deve manter-se no anonimato e foge quando avista o inspetor da estação. Ir para o orfanato é a última coisa que Hugo deseja. O menino tem uma missão a cumprir que só poderá ser realizada em liberdade.

Do pai, um relojoeiro, Hugo se lembra das histórias que ele lia à noite – as incríveis aventuras de Júlio Verne e contos de fadas de Hans Christian Andersen, que eram os seus favoritos. O pai gostava, ainda, de levar o filho ao cinema e um dos últimos que viu com o pai foi “um filme com um homem pendurado nos ponteiros de um relógio gigante.” (p.17).
O filme citado se chama “O homem mosca” e foi estrelado por Harold Lloyd.
O tio consertava relógios, era encarregado de manter sempre funcionando os grandes relógios da estação de trem e com ele Hugo aprendeu esse ofício. Quando o tio desapareceu, o menino passou a cuidar dos gigantescos relógios da estação e sentiu-se responsável pelo funcionamento dos mesmos.
Além do tio desaparecido, do pai que morre em um incêndio, aparecem outros personagens que merecem ser citados: o velho Georges e a sobrinha de Georges – Isabelle.
O velho Georges, personagem importante no decorrer da narrativa, é dono de uma loja de brinquedos que fica na estação de trem. Na loja há pequenas peças que podem ter grande serventia para um estranho objeto que Hugo está montando, daí fazer pequenos furtos na loja.
Este personagem foi inspirado no cineasta francês Georges Miélès, considerado o “pai dos efeitos especiais” no cinema. Na juventude, Georges Miélès trabalhou como desenhista e mágico, depois se interessou pelo cinema, virou ator e diretor. Nasceu em 1861 e faleceu em 1938. .
Para escrever este livro, Brian Selznick foi a Paris conhecer o ambiente onde a história se desenrola, tirou muitas fotos e pesquisou sobre a vida do cineasta Georges Méliès.
Isabelle, a sobrinha e afilhada de Georges, é uma menina curiosa e inteligente, mora na casa do tio e compartilha com Hugo Cabret nas suas descobertas e invenções. Aliado a tudo isso, Isabelle carrega no pescoço uma chave que poderá ser muito útil para os trabalhos do menino.
Um desenho enigmático, um caderno de anotações, uma chave roubada e um homem mecânico (um autômato) integram o universo desta intrincada e imprevisível história.
Literatura e Cinema se entrecruzam na história de Hugo Cabret. O convite ao leitor é para ler o livro, deliciar-se com as primorosas ilustrações de Brian Selznick e, se possível, ver o filme..

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

1822: o que está por trás da História

1822: o que está por trás da História
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB)

Uma sociedade que não estuda a história não consegue entender a si própria, porque desconhece as razões que a trouxeram até aqui.
(Laurentino Gomes. Entrevista concedida à jornalista Rita Barreto)

Em 2011, o jornalista Laurentino Gomes ganhou o Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, em duas categorias: “Melhor Livro-Reportagem” e “Livro do Ano de Não Ficção” com “1822: como um homem sábio, uma princesa triste e um escocês louco por dinheiro ajudaram D. Pedro a criar o Brasil – um país que tinha tudo para dar errado”.(Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2011). Este livro foi eleito o “Melhor Ensaio de 2008” pela Academia Brasileira de Letras. Em maio de 2011, chegou às livrarias uma versão simplificada destinada ao público juvenil com ilustrações de Rita Bromberg Brugger. É sobre esta edição que iremos fazer algumas considerações.
Laurentino Gomes é paranaense de Maringá, formado em jornalismo pela Universidade Federal do Paraná, com pós-graduação em administração de empresas pela USP. Trabalhou em importantes jornais e revistas do Brasil, como “O Estado de S. Paulo”, a revista “Veja” e foi diretor da editora “Abril”.
Na entrevista que concedeu à jornalista Rita Barreto, “Revista Panorama Editorial”, Ano VII, No. 62, o escritor destaca a importância da leitura em sua vida. Explica que a História sempre foi uma paixão paralela ao jornalismo e que a leitura pode proporcionar transformações na vida de uma pessoa. Os pais tinham pouco estudo, mas valorizavam muito a educação, e, em especial à leitura. Foi sempre um leitor voraz – lia tudo: gibis, bulas de remédio, jornais velhos, revistas de consultórios e, naturalmente, muitos livros.
Foi esta paixão pela leitura e História que fez do jornalista um pesquisador da História do Brasil. Os dois consagrados livros do autor – “1808” e “1822” comprovam que estamos diante de um jornalista que gosta de escrever textos sob a ótica da reportagem, como ele mesmo confessa: “em linguagem acessível para um leitor comum não habituado à historiografia acadêmica”.
Laurentino afirma que não se limita a pesquisar apenas nos livros, gosta de ir aos locais dos acontecimentos. Para escrever “1822”, foi à Bahia assistir à festa de Dois de Julho, data da expulsão das tropas portuguesas de Salvador em 1823, e cantada em versos por Castro Alves no poema – “Ao dois de julho”. Foi, ainda, ao município de Campo Maior, no Piauí, local do maior confronto da Independência, a Batalha do Jenipapo, travada no dia 13 de março de 1823. Os tempos mudaram a face das cidades, mas a visita a esses locais foi importante para a reconstituição da história.
A Independência do Brasil está imortalizada no famoso quadro do paraibano Pedro Américo, nas margens do riacho Ipiranga. O desfecho do gesto do príncipe foi mais além do que conta a história oficial. O grito de “Independência ou Morte!” resultou de uma série de acontecimentos, de acasos, de sorte e de improvisação.
Para entender melhor o gesto ousado de D. Pedro I, temos que conhecer duas pessoas intrinsecamente ligadas ao príncipe – Dona Leopoldina, sua mulher, e José Bonifácio de Andrada e Silva, um homem sábio.
José Bonifácio estudou em Coimbra, era formado em direito, filosofia e matemática. Foi um aluno brilhante e ganhou uma bolsa para estudar química e mineralogia em outros países europeus. Morou muitos anos na Europa. Quando regressou ao Brasil, estava com 56 anos, e pretendia retirar-se da vida pública, mas foi convocado pelo príncipe regente e futuro imperador D. Pedro I para auxiliá-lo no governo. E passou para a história com o título de Patriarca da Independência.
O convite para ser ministro de D. Pedro I a princípio foi rejeitado por José Bonifácio, porém não resistiu aos apelos de Dona Leopoldina. Ela sabia que o marido era inexperiente, impulsivo e precisava do apoio de uma pessoa mais forte. Ao apresentar os filhos pequenos a Bonifácio, disse-lhe: “Estes dois brasileiros são vossos patrícios e eu peço que tenhais por eles um amor paternal”. (p. 110)
José Bonifácio aceitou o cargo de ministro depois que teve um conversa a sós com o monarca, uma conversa “de homem para homem”. Nunca se soube qual foi o teor dessa conversa, mas foi decisiva para Bonifácio aceitar o cargo que lhe era oferecido.
Compara-se José Bonifácio ao americano Thomas Jefferson, patriarca da Independência dos EUA. Laurentino mostra a grande diferença que existe entre os dois homens públicos. Thomas Jefferson apregoava “todos os homens nascem iguais”, mas era dono de 150 escravos. Como bom representante da aristocracia rural do estado da Virgínia, bateu-se até o fim de sua vida contra a proposta da abolição da escravatura. José Bonifácio nunca teve escravos e era um abolicionista convicto e condenava veementemente o tráfico bárbaro e carniceiro dos escravos.
Se Dona Leopoldina e José Bonifácio aparecem nesse livro como verdadeiros heróis, o escocês Thomas Alexander Cochrane desponta como o grande vilão. Alçado a almirante da Marinha de Guerra Brasileira, utilizava métodos carniceiros para vencer o inimigo, no caso os portugueses. Sabendo da vulnerabilidade dos navios, Cochrane utilizava barcos incendiários e espalhava chamas em todas as direções. Era mercenário e gozou de prestígio perante D. Pedro I durante um bom tempo. A história se encarregou de mostrar sua verdadeira face.
Aqui, neste livro, o leitor encontra fatos curiosos e surpreendentes, faz uma viagem ao passado e descobre que a independência do Brasil não foi tão tranquila como pode parecer. Maria Quitéria, a moça guerreira, travestida de soldado Medeiros, o padre carmelita Joaquim do Amor Divino Caneca, Frei Caneca, são alguns vultos da história do Brasil que merecem ser cultuados. Felizmente, os escritores e poetas já cantaram em prosa e verso os feitos gloriosos de Maria Quitéria e Frei Caneca. Joel Rufino escreveu o livro “O soldado que não era” e João Cabral de Melo Neto o “Auto do Frade”, poema para vozes que foi encenado pelas ruas do Recife.
( Publicado no jornal “ Contraponto”. João Pessoa, fevereiro de 2012)
CATÁLOGO
Já saiu no site da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil o catálogo da Feira Internacional de Livros Infantis que se realizará em Bolonha (Itália) de 19 a 22 de março de 2012. O texto, todo em inglês, apresenta breves resenhas dos melhores livros infantis e juvenis publicados no Brasil. A bonita capa é um trabalho do escritor e ilustrador pernambucano André Neves. Para nossa alegria, o livro ilustrado por Veruschka Guerra “A princesa, o pássaro e a sabedoria” consta no catálogo de Bolonha. O leitor poderá consultá-lo no portal www.fnlij.org.br. Onze críticos da FNLIJ participaram dessa seleção. Fizemos a resenha de nove livros para este catálogo com a identificação (NM e NMS).

domingo, 12 de fevereiro de 2012

O que é qualidade em literatura infantil e juvenil?


O que é qualidade em literatura infantil e juvenil?
(Neide Medeiros Santos – crítica literária FNLIJ/PB)



Educar com qualidade é o exercício de uma competência técnica do educador aliada às suas condições pessoais subjetivas, como generosidade, sensibilidade e muito afeto.
(Elizabeth D´Angelo Serra. Depoimentos. In: O que é qualidade em literatura infantil e juvenil: com a palavra o educador)


“O que é qualidade em literatura infantil e juvenil: com a palavra o educador” é o título do livro organizado por Ieda de Oliveira (DCL, 2011). O livro contém 14 artigos de educadores e 23 depoimentos de escritores e de pessoas envolvidas com a educação no Brasil, em Portugal e na África.
Ieda de Oliveira é escritora e pesquisadora de literatura para crianças e jovens. Na linha dos teóricos, já publicou livros que abordam a qualidade da ilustração e a opinião de escritores sobre o mesmo assunto. Neste último livro, a voz é dos educadores.
O vocábulo educador é abrangente, compreende todos aqueles que se dedicam ao trabalho de contribuir para a formação das crianças e jovens – professores, escritores, pesquisadores da educação, mediadores de leitura.
A professora Nelly Novaes Coelho, uma das educadoras convidadas para integrar essa coletânea, apresentou um detalhado estudo sobre a história da educação no Brasil e o longo caminho percorrido para se chegar ao século XXI. No início da colonização, ela destaca o papel dos jesuítas – Manoel da Nóbrega – “o grande iniciador dessa tarefa civilizadora” e José de Anchieta – que “escolheu a catequese como missão de vida”. Passando pelo período colonial e do império, chega-se à era cibernética e vem este sábio conselho de quem entende de educação, de livros e de leitura: “Num mundo como o nosso, totalmente dominado pela imagem, é preciso redescobrir a letra. Daí a importância que a nova educação vem dando à literatura, arte que é, por natureza, expressão de experiências humanas/vitais; arte cuja matéria é a palavra, o verbo capaz de criar ou destruir realidades. Hoje, uma das maiores tarefas da nova educação é a de redescobrir a literatura como o grande agente civilizador.” (p.42)
Alice Áurea Penteado Martha, doutora em Letras pela UNESP/Assis e professora da Universidade Estadual de Maringá (PR), tem atuação nas áreas de estudos sobre Leitura e Literatura Infantil e Juvenil. A professora se deteve em refletir a respeito das escolhas de obras para leitura em ambiente escolar diante das inúmeras possibilidades do mercado editorial brasileiro e dá este conselho aos professores e educadores: consultem as listas do Programa Nacional de Bibliotecas Escolares (PNBE), os livros agraciados com o selo Altamente Recomendável da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) e os ganhadores do Prêmio Jabuti nessa mesma área.
Sabemos que há livros destinados aos jovens e às crianças que não atravessam as fronteiras regionais, não concorrem a prêmios, mas têm valor literário. É necessário, portanto, saber qual o critério que deve ser adotado. Aqui vão algumas dicas: criatividade, literariedade, linguagem simples, mas não infantilizada, boa diagramação e uma ilustração criativa e artística. De todas essas qualidades, criatividade e literariedade são as mais importantes.
Tânia Mariza Kuchenbecker Rösing é conhecida em todo Brasil pela criação e coordenação das Jornadas Literárias de Passo Fundo (RS). Tânia é doutora em Letras pela PUC/RS e publicou livros na linha de “Leitura e Formação do Leitor”.
Nas sugestões de leitura, a articulista apresenta uma série de livros que estabelece uma relação entre a literatura infantil e a música. Começando com Vinicius de Moraes – “A arca de Noé”, ela cita, entre outros: “De Paes para Filhos”, CD infantil com poemas musicados de José Paulo Paes, e “A orquestra tintim por tintim”, um livro que ensina os pequenos a distinguir os instrumentos musicais de forma muito lúdica
Maria Antonieta Cunha é doutora em Letras pela UFMG e foi professora visitante durante alguns anos da UFPB no Curso de Mestrado em Biblioteconomia. Atualmente é membro do Conselho Diretor da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil e publicou vários livros na área dos didáticos e teóricos da literatura infantil.
O artigo da professora Antonieta versa sobre a poesia e traz um título instigante: “Poesia entre a sedução e o incômodo”. No seu trabalho docente e como consultora em projetos diversos de capacitação de professores ou de aquisição de livros, ela dá o testemunho do disfarçado incômodo que a poesia gera entre professores e pais.
Mas estamos diante de uma defensora da poesia para crianças e os argumentos são convincentes. Em dois momentos do seu texto, Antonieta cita o poeta Manoel de Barros e elegemos esses versos que dizem muito: “Palavra poética tem de chegar ao grau de brinquedo para ser séria” – isso só vem confirmar a ludicidade da poesia e a aproximação poesia/criança.
O artigo de Ana Margarida Ramos, professora doutorada em Literatura da Universidade de Aveiro (Portugal), é uma reflexão sobre as últimas tendências da literatura para a infância em Portugal e a constatação de que nunca se editou tanto para crianças e jovens em Portugal como nos últimos anos do século XXI.
Rosa Helena Mendonça, Vera Teixeira de Aguiar, João Luís Cecantini, Maria Teresa Gonçalves Pereira, Graça Graúna, Rui Marques Veloso, Leonor Riscado, Simone Caputo Gomes e Maria Celestina Fernandes complementam os articulistas da coletânea.
Nos depoimentos, destacamos os textos de Elizabeth D´Angelo Serra (Secretária-Geral da FNLIJ com vasta experiência na seleção de livros para crianças e jovens), Laura Sandroni (estudiosa da obra de Monteiro Lobato), Regina Zilberman (autora de excelentes livros na área da leitura).
Outros textos, outras experiências e depoimentos estão à espera do leitor.
PROJETO “JANELAS DO MUNDO”
O projeto “Janelas do Mundo” – Pintura e Poesia – apresentado pelo artista plástico Miguel Ângelo Bertollo e Neide Santos atravessou as fronteiras da Paraíba – visitou a cidade de Santa Maria (RS). A coordenadora pedagógica do Colégio Marista de Santa Maria, professora Maria Rita Bertollo, enviou-nos um rico material com o trabalho dos alunos do ensino fundamental sobre as janelinhas. Os alunos escreveram poemas, desenharam janelas, pintaram telas e fizeram uma exposição no fim do ano com o trabalho desenvolvido durante o semestre.
Maria Rita é autora do “Caderno de Alfabetização”, Colégio Marista, Santa Maria (RS), 2012. Neste caderno, organizado por Maria Rita, vem esta observação: “aqui estão contempladas as minhas crenças em alfabetização e a minha paixão de ensinar.”
Marina Colasanti, no texto “Ser mais leitora do que escritora”, revela:
“Só um professor-leitor apaixonado pode transmitir a paixão pela leitura”.
Maria Rita Bertollo é uma professora-leitora apaixonada.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

BARTOLOMEU CAMPOS DE QUEIRÓS: O VOO DO PÁSSARO


BARTOLOMEU CAMPOS DE QUEIRÓS: O VOO DO PÁSSARO
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB)
Madrugada silente,
ouve-se apenas
o canto solitário de um pássaro.
Depois...
um ruflar de asas
e o voo para o infinito.

Conheci Bartolomeu Campos de Queirós na Bienal Nestlé de São Paulo nos idos de 1990. O auditório Rebouças, local das conferências, estava lotado com todas as cadeiras ocupadas, fiquei em uma sala situada ao lado do auditório em frente a um telão e, através da tela, via e ouvia aquele escritor de gestos pausados e voz melodiosa falar sobre seus primeiros contatos com o livro. Gravei esta frase poética pronunciada naquela ocasião:
O primeiro livro que li foi o papel roxo da maçã que meu pai trazia como presente de longas viagens. A gente punha o papel roxo debaixo do travesseiro, sentia o cheirinho e ficava imaginando uma terra onde brotassem macieiras.
Depois vieram outros encontros – Congresso de Leitura (COLE, UNICAMP), Salão do Livro (Rio de Janeiro), mas os melhores encontros foram com os livros desse “menino poeta”.
Em 2008, “Tempo de voo” foi vencedor do Prêmio Ibero-Americano SM de Literatura Infantil. Em 2009, ganhou o Prêmio da Fundação Biblioteca Nacional (FBN), no Concurso de Literatura InfantoJuvenil Glória Pondé. Tive a grande alegria de participar, juntamente com Elizabeth d´Ângelo Serra e Mariza de Almeida Borba (FNLIJ/Rio de Janeiro), do júri deste concurso. Sobre este livro, escrevemos comentário na coluna “Livros&Literatura”, no jornal Contraponto, 18 a 24 de dezembro de 2009, B2
Ainda, no jornal Contraponto (24/06/2011 – B6), publicamos o artigo “Vermelho: a cor da amargura” sobre o último livro de Bartolomeu Campos de Queirós – “Vermelho amargo” (Cosac Naify, 2011).
“Vermelho Amargo” é um livro que fala de perdas, de partidas, de vazio, do obscuro filtrado pelas frestas das janelas. Se a linguagem é intérprete de estados interiores, o estilo convulsivo e soluçante conota, na real acepção da palavra, a verdadeira dor da existência.
Para um melhor conhecimento do “menino poeta”, recomendamos a leitura dos seus livros, principalmente aqueles de caráter autobiográfico: Ciganos, Indez, Por parte de pai, Ler, escrever e fazer conta de cabeça e O olho de vidro do meu avô.
O escritor gostava muito de passarinhos e escreveu dois belíssimos livros com essa temática – “Para criar passarinho” e “Até passarinho passa”. A comovente história “Até passarinho passa” vem revestida de lições de vida, de reflexões filosóficas. Se encontrar um amigo é encontrar um tesouro, o que dizer se esse amigo é cauteloso, constante, fiel? Como suportar a dor da partida? De forma sutil, o narrador leva o leitor a refletir sobre a efemeridade da vida, a alegria do encontro e a tristeza da partida.
A prosa poética de Bartolomeu Campos de Queirós percorre os “labirintos da memória”, principalmente a memória da infância – lembranças da mãe que partiu muito cedo e gostava de cantar modinhas do além-mar; lembranças do pai que era indiferente à solidão do filho; da irmã que bordava com agulha fina e sabia tecer flores e espinhos presos nos ramos como um pintor de natureza morta, e lembranças do avô que tinha um olho de vidro que” visitava lugares que o olhar não alcançava”.
A ensaísta Stella de Moraes Pellegrini, no livro “Caminhos e Encruzilhadas. O percurso poético e político de Bartolomeu Campos de Queirós, da formação do leitor à formação de leitores” (Ed. RHJ, 2005), ressalta que os textos de Bartolomeu são poéticos, políticos e revelam uma profunda preocupação com a formação de leitores e a construção de uma escola leitora. A maior prova do envolvimento do escritor com a educação brasileira está na publicação do “Manifesto por um Brasil literário” (FLIP, junho de 2009).
A vida, o pensamento, a visão de mundo do escritor mineiro estão presentes nos inúmeros livros que escreveu. Com mais de 50 livros publicados, Bartolomeu Campos de Queirós expôs para os leitores sua infância dolorida (perdeu a mãe quando contava entre seis e sete anos de idade), sua “fé cansada”, seu “silêncio limpo”, sua “solidão”, para repetir palavras do poeta Carlos Pena Filho, em “Poema de Natal”.
Bem-humorado, apreciador do silêncio, Bartolomeu costumava se definir assim: “Sou frágil o suficiente para uma palavra me machucar, como sou forte o bastante para uma palavra me ressuscitar”.
Em tempo: Liz Page, diretora executiva do IBBY (International Board Books for Young People), em comunicação enviada à FNLIJ (Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil), informou a manutenção do nome de Bartolomeu Campos de Queirós como candidato do Brasil para o Prêmio Hans Christian Andersen 2012. O nome do vencedor será divulgado durante a realização da Feira de Livros Infantis em Bolonha (Itália, 19 a 23 de março de 2012) e o prêmio será entregue no Congresso IBBY (Londres, 23 a 26 de agosto de 2012). Que o grande Prêmio Internacional venha, mais uma vez, para o Brasil.
( Texto publicado no jornal “ Contraponto”, em 27 de janeiro de 2012)

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Infâncias:"pedagogia de lembranças"


INFÂNCIAS: PEDAGOGIA DE LEMBRANÇAS
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária –FNLIJ/PB)
Cultivar uma relação afetiva com a memória da infância, no caso do adolescente, pode ser uma forma de encontrar caminhos e significados para o presente que ele vive.
(Heloísa Prieto. Infâncias)


Heloísa Prieto é escritora, tradutora e coordenadora editorial. Participou como coautora da série “Mano”, com o jornalista Gilberto Dimenstein. Em 2011, organizou a antologia “Infâncias” (Ed. Escrita Fina) uma reunião de crônicas, contos, relatos, depoimentos. Oito escritores foram convidados para escrever sobre a infância. Por ordem de apresentação no livro, encontramos textos de Gilberto Dimenstein, Tatiana Belinky, Cristina Soares, Luiz Ruffato, Daniel Munduruku, Heloísa Pires Lima, Sonia Manski, Marcelo Coelho.
O livro apresenta fotografias de Adriana Veiga, arte-educadora com especialização em Artes Plásticas. A capa é uma belíssima fotografia de duas crianças brincando, de modo descontraído, em uma praia de azul intenso. Adriana sempre demonstrou interesse pelo universo onírico e pelo mundo cotidiano das crianças.
Gilberto Dimenstein abre a antologia com um pequeno texto que é uma reflexão sobre o segredo da juventude. Para o jornalista, se existe algum segredo de conservar a juventude ele reside em manter um permanente diálogo com a criança que existe em nós.
Tatiana Belinki preferiu escrever um poema em estrofes de apenas dois versos, tudo de forma bem jocosa como neste exemplo:
“Se quiser viver feliz,
Chupe balas de verniz”. (p.8)
O próprio título do poema revela o tom de brincadeira: “Conselhos (in) úteis.
Cristina Soares fez a opção por um conto e dividiu-o em quatro episódios distintos. “Nascida no KM 11”, “Sob 14 graus de miopia”,” As Marias da minha vida”,” “O velho Samuca era o cara”. Cada conto retrata uma fase diferente da vida de uma menina muito sapeca que nasceu no KM 11- “quinto dos infernos”; que era muito míope – conheceu o expressionismo antes mesmo de conhecer Van Gogh, que teve muitas Marias atravessando o caminho de sua vida e um avô que se chamava Samuca.
Luiz Ruffato fala sobre a mudança de local de residência e a luta da família para ter a casa própria. Todos ajudaram na construção da nova casa, mas a mudança acarretou modificações na vida do menino que sentia saudades do quintalzinho “onde vivia em camaradagens com lesmas, grilos, paquinhas, minhocas e até um sapo-boi, na estação das águas.” (p.23-24). A adaptação foi muito difícil para quem estava acostumado a um mundo de liberdade.
Com o título “Saudades de amanhã”, Daniel Munduruku descreve a morte da pequena Mani, uma indiazinha diferente de todas as outras –” era muito branca e frágil, adoecia constantemente”. (p.30)
No dia em que completou seis anos, Mani amanheceu muito doente, foi definhando, definhando e morreu. Antes de morrer, a menina fez um pedido à mãe – que seu corpo fosse enterrado embaixo da rede onde dormia. O desejo da filha foi satisfeito. Depois de algum tempo a mãe notou que no lugar onde a menina fora enterrada estava brotando uma folhagem diferente. A comunidade foi chamada para resolver o que fazer com aquela planta. Pensaram, pensaram e resolveram arrancar. Quando puxaram a folhagem, veio uma raiz branca, era a raiz da mandioca. Todos compreenderam o significado das últimas palavras da menina: “É preciso morrer para que a fartura nasça para nosso povo”.
O texto de Daniel Munduruku é uma lenda indígena que dá uma explicação mítica para a origem da mandioca, alimento essencial na alimentação dos índios.
Heloísa Pires Lima apresenta um relato sobre o trabalho de Eglantyne Jebb, uma inglesa que dedicou a vida às crianças. Ela morreu em 1928, mas o que redigiu se tornou mais tarde, em 1959, a Declaração Universal dos Direitos das Crianças. No Brasil, Heloísa Lima luta contra o preconceito racial e adota o lema de um dos princípios da Declaração: “nenhuma criança deve ser prejudicada de forma alguma por motivos de raça, credo, cor, gênero, idioma, casta, situação ao nascer ou padecer de alguma deficiência física”. (p. 41)
Sob o ponto de vista de 1ª. pessoa, Sonia Manski traz o relato de uma menina que era do tempo em que “criança não tinha querer”. A mãe insistia para a menina estudar piano. Não foi consultada se gostava ou não de tocar piano, devia estudar uma hora, todos os dias. Revoltada, resolveu adiantar o relógio, assim o tempo passaria mais depressa. A mãe desconfiou, mas diante da pergunta se havia mexido nos ponteiros do relógio, a menina foi taxativa: “Não”, “Não”.
Anos mais tarde, reabilitada da imposição materna comprou um teclado. Hoje toca teclado quando sente vontade.
Quais seriam os desejos do menino Marcelo Coelho? Eram muitos – um helicóptero com controle remoto que voasse de verdade, uma viagem com tudo pago para Disney, uma completa redecoração no seu quarto. Desejos todos ligados aos apelos comerciais. No meio de tudo isso, vem a história do menino Gabriel – uma história comovente e cheia de ternura.
Contos, relatos ficcionais ou reais, depoimentos e crônicas se entrecruzam na reunião desses textos, constituindo uma verdadeira “pedagogia de lembranças”.

NOTA LITERÁRIA
Enviamos o livro “Confesso que li” para a escritora Eloí Bocheco (SC) e recebemos esta mensagem:
“Encantei-me com os depoimentos de escritores paraibanos sobre suas memórias literárias e modos de se relacionar com a leitura desde a infância.
A família e a escola aparecem com freqüência nas histórias de iniciação literária dos autores, ora com acertos, ora com equívocos no modo de criar a aproximação com os livros.
Tendo vivido em casas cheias de livros, ou com a completa ausência deles, os autores criaram, desde cedo, vínculos com as palavras através dos repertórios de leitura disponíveis em seu tempo e ao seu alcance (Clássicos nacionais e estrangeiros, Coleção Tesouro da Juventude, Almanaque Fontoura, história em quadrinhos, livrinhos de faroeste, narrativas bíblicas, contos de fadas, lendas do folclore brasileiro, cordel, dentre outros recursos de leitura citados).
O que emociona é a paixão com que os depoimentos falam da “felicidade da leitura” e o modo como os autores se entregam à felicidade de ser leitor.
Parabéns à Neide Medeiros Santos e à Yó Limeira, organizadoras da excelente obra”.

Em tempo: Eloí Bocheco é autora de “Roda Moinho” – Menção Honrosa no Prêmio de Literatura Infantil e Juvenil da Companhia Editora de Pernambuco em 2010. O livro foi publicado em 2011 pela Editora CEPE. Recife, PE. Este mesmo livro foi finalista do Prêmio João de Barro da Prefeitura de Belo Horizonte em 2006.
Eloí é uma das integrantes do livro “Cuentos infantiles brasileños”. San José, Costa Rica, Editorama, 2011. Figura, entre outros, ao lado das escritoras Ana Maria Machado e Lygia Bojunga Nunes.

Moacyr Scliar: o dom da palavra mágica

Moacyr Scliar: o dom da palavra mágica
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB)

Ano- Novo, vida nova, é um dito clássico. Que, contudo, raramente se traduz em mudança real. Na maioria das vezes, continuamos levando nossas vidas, mantendo nossas rotinas, postergando nossos projetos revolucionários.
(Moacyr Scliar. A síndrome do ninho vazio, em 09/01/2011)

“Moacyr Scliar: contos e crônicas para ler na escola” (Objetiva, 2011), seleção da professora Regina Zilberman, foi publicado após o encantamento do escritor e reúne textos já veiculados em livros, revistas, jornais. Na apresentação do livro, Zilberman destaca que “Scliar mostra-se não apenas enraizado na vida brasileira, mas sobretudo um escritor comprometido com nossa literatura”. (p.13)
O livro apresenta 49 textos, alguns considerados verdadeiras joias da ficção, como “Missa do galo” (p.51), reconto do texto machadiano sob o ponto de vista da personagem Conceição; “História de mãe e filho” (p.61) é um conto cheio de ternura que envolve um retrato/pintura, uma mãe e um filho. Aqui, mais uma vez, Machado de Assis está presente. Convém lembrar que Scliar era machadiófilo, fez releituras de vários textos de Machado de Assis.
Moacyr Scliar nasceu em Porto Alegre, no bairro do Bom Fim, e a crônica “Os Scliar do Bom Fim” (p. 187) fala sobre sua origem judia, seus tios e primos. Os Scliar tinham um traço em comum: eram todos muito cultos e leitores da Bíblia, o denominador comum da família. Uma cultura que não resultava de estudos no colégio ou na universidade, mas da leitura desse grande livro.
A herança judaica de Scliar leva-o a destacar o papel das mulheres e da família em seus textos. Neste livro, encontramos contos e crônicas que falam sobre a presença da mulher como personagem principal. “A história de Lilith”, “Missa do galo”, “Bonecas”, Mães-coragem”, “Mulheres arteiras, mulheres artistas”, “A primeira transgressora” e “A imbatível Tamar” são bons exemplos de textos em que a mulher é figura de proa.
“Bonecas” (p. 99) condiz com o próprio momento que estamos vivenciando. A crônica fala sobre os presentes dados às meninas no Natal – bonecas simples, sofisticadas, com sensores eletrônicos, grandes, pequenas, tudo depende do poder aquisitivo da família.
Scliar aproveita o tema da boneca para discorrer a respeito da comovente narrativa que envolve Kafka e uma menina freqüentadora de um parque em Berlim. A menina havia perdido uma boneca no parque Steglitz, Kafka encontra a menina muito chorosa e para consolá-la cria uma história fantástica – a boneca não havia desaparecido, apenas tinha viajado. Para saber mais sobre esta história, Scliar indica a biografia escrita por Gérard- Georges Lemaire, publicada em edição de bolso (L&PM).
Mesclando história e ficção, há outro livro muito bonito de Jordi Sierra i Fabra “Kafka e a boneca viajante”, com tradução de Rubia Prates Goldini e que foi publicado, no Brasil, pela editora Martins Fontes (2008). Este livro trata do mesmo tema da boneca viajante e conquistou o prêmio de Melhor Livro para Jovens da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil em 2009.
Algumas crônicas vêm marcadas pelo humor –“A noiva fujona” (p. 87) é um exemplo de jocosidade. O casamento estava marcado para o último dia de abril. Quando faltava apenas quatro dias, a noiva desapareceu. Policiais desconfiaram do noivo – talvez ele estivesse envolvido no desaparecimento da noiva. Era tudo mentira, a noiva simplesmente havia fugido, tinha desistido do casamento. O fato é verídico e aconteceu na cidade de Duluth, na Geórgia.
“Palavra mágica” (p. 125) fala sobre mudanças, mudança na política, mudança na vida, mudança na fisionomia e lembramos o verso de Camões – “todo mundo é feito de mudanças”. Mas a principal mudança é a mudança interior, esta é a tarefa mais difícil, é uma verdadeira viagem e significa voltar mudado.
Em “Coração de companheiro” (p.215), uma das últimas crônicas do livro, Scliar ressalta a participação de Carolina na vida de Machado de Assis do ponto de vista literário. Carolina era portuguesa, culta, versada em gramática e ajudava o escritor a corrigir os textos. Atribui, ainda, à Carolina, a mudança de estilo do escritor de romântico para realista.
O título da crônica “Coração de companheiro”, uma das últimas crônicas do livro, refere-se à primeira estrofe do soneto” À Carolina”, considerado um mais bonitos da lírica machadiana. Neste soneto, Machado extravasa a dor da solidão, o sentimento do ninho vazio.
“Moacyr Scliar: contos e crônicas para ler na escola” é uma leitura recomendada para este início de férias de janeiro. É uma leitura que permite o leitor conhecer um dos melhores “narradores urbanos da ficção brasileira” e um mestre que tinha o dom da palavra mágica.