domingo, 28 de setembro de 2014

O rio de Pessoa e das pessoas

        




                                         O RIO DE PESSOA E DAS PESSOAS
                            (Neide Medeiros Santos – Leitora votante FNLIJ/PB)

            O TEJO é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,
            Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
            Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.
            (Alberto Caeiro. Poema XX. O guardador de rebanhos).


       O rio está sempre presente na vida das cidades e das pessoas.  Quando pensamos em Lisboa, vem logo a imagem do rio Tejo e lembramo-nos de Fernando Pessoa. Em Paris  é o Sena que nos deslumbra e o Danúbio inspirou Strauss a compor lindas valsas.  Recife, cidade cortada por rios, o Capibaribe e Beberibe serviram de inspiração para poetas de todos os tempos. O mesmo acontece em João Pessoa com os rios Sanhauá e Jaguaribe. Os dois rios pessoenses foram louvados e cantados por vários poetas paraibanos.
        É sobre rios que voltamos nossa atenção esta semana. Da editora FTD,  recebemos “Entre rios”, coletânea de textos que reúne sete escritores que escreveram a respeito de rios que marcaram suas vidas.  O livro foi organizado por Maria José Silveira e as ilustrações são de Roger Mello. Um destaque especial para a capa do livro – recortes vazados simulam a sinuosidade do leito dos rios Alguns escritores apelaram para a ficção; outros se mantiveram fiéis a fatos acontecidos na infância.      
        Domingos Pellegrini nasceu no Paraná (Londrina). “A sereia do rio Paraná” é um conto que descreve uma viagem de um menino com a mãe e o tio à procura do pai por terras paranaenses. Eles utilizam vários transportes para chegar ao destino almejado -  jipe, caminhão, barcos, botes e gaiolas. Na companhia da mãe e do filho vai um tio, resmungão e mal humorado, que reclama de tudo. Para o menino foi uma aventura cheia de encantos – até uma sereia ele viu na viagem pelo rio.
     Índigo é o nome artístico de Ana Cristina Ayer de Oliveira. Ela é natural de Campinas (SP). O texto “O enterro do rio Tietê” traz uma marca singular -  pessoas e rios convivem e conversam fraternalmente.  No velório do rio Tietê,  os comentários se referem à doença do rio e da sua morte. Há referências a outros rios, afluentes do Tietê, que também estão doentes – Pinheiros, Aricanduva, Capivari, Tamanduateí.
      Marcelino Freire nasceu em Pernambuco e hoje mora em São Paulo. “Ir embora” é um conto que se caracteriza por linguagem poética e pela   presença de termos regionais do Nordeste. O autor fala sobre despedida, abandono da Chapada das Mangabeiras (situada na divisa Goiás, Bahia, Piauí e Maranhão)  por conta do progresso. A predominância de diálogos confere um tom teatral ao texto.
      Márcio Souza, amazonense, comparece com “Canoagem no Solimões” e nos traz a lenda do Curupira aliada com a história de um jovem que gostava de fazer esportes radicais no rio.
       “Cy do Araguaia” é o conto de Maria José Silveira que é natural de Jaraguá, cidade histórica de Goiás. É um texto epistolar. Cy escreve uma longa carta para o namorado e recorda os dias que passaram juntos à margem do rio Araguaia, ressaltando fatos ligados às memórias de sua infância.
       Maria Valéria Rezende nasceu em Santos (SP) e está radicada há muitos anos na Paraíba. “O amor é correnteza” é um texto que fala do amor entre dois adolescentes – Pedro e Iara. O cenário do rio São Francisco emoldura a história e Pedro rememora as lendas contadas pelos barqueiros e pescadores – “deliciosas e apavorantes histórias do sono do rio, do Negro – d´água, do Minhocão, dos afogados, das grutas e dos castelos submersos lá no fundo, que embalaram suas noites de criança” (2014: p.104).   
       O último texto é do gaúcho Moacyr Scliar – “Os piratas do Guaíba”. Scliar se volta para a infância e apresenta uma história cheia de ternura entre um filho e o pai. Uma mentira criada pelo menino na escola – no quintal da sua casa havia um tesouro enterrado – fez o pai enterrar no quintal uma arca de madeira velha, colocar algumas moedas e objetos antigos, tudo para que o filho não recebesse a alcunha de mentiroso. No domingo, diante dos colegas, o tesouro foi desenterrado e a arca foi encontrada. O que deixou o menino mais feliz não foi o fato dos colegas terem encontrado um tesouro e a mentira se tornar verdade,  mas descobrir “o afeto do pai”.
     Para concluir essas histórias de rios, recorremos a Maria José Silveira e citamos esses versos:
            Para preservar os rios é preciso conhecê-los.
            E, se os conhecemos, fica muito fácil amá-los.

            NOTAS LITERÁRIAS E CULTURAIS

            Se para preservar os rios é preciso conhecê-los, vamos transcrever uma carta de um aluno do Colégio Apoio (Recife) que fez uma viagem pelo rio Capibaribe na companhia de professores e colegas. Como tarefa dessa atividade extra curricular, ele   escreveu uma carta ao Prefeito da cidade. O aluno é Davi Pessoa, tem 11 anos, cursa a 5ª série do Ensino Fundamental. Procuramos respeitar a linguagem descontraída da criança e não fizemos nenhuma interferência no texto.

            Prezado Prefeito,

                Olá, eu sou um aluno do Colégio Apoio e lhe envio esta carta apresentando críticas e sugestões em relação ao rio Capibaribe que corta a nossa cidade Recife. Espero que me ouça com atenção, pois estou tratando de um assunto importante.
Como todos sabem, o rio Capibaribe está extremamente sujo. Há muita poluição e o que era pra ser um orgulho da cidade acaba sendo uma vergonha. É claro que eu não posso colocar toda a culpa em cima de você, pois não é você que suja os rios, são os cidadãos, mas você é o Prefeito e poderia fazer algo.
O rio Capibaribe não passa apenas pelo Recife, ele tem 270 quilômetros de extensão e passa por vários municípios de Pernambuco, por isso não somos só nós que sujamos o rio. Você poderia se unir com os outros prefeitos e até com o Governador para fazer um projeto de despoluição.  Assim o rio chegaria à nossa cidade bem mais limpo.
Eu li num livro “Um rio de Gente” que antigamente era comum tomar banho no rio Capibaribe. Quem sabe isso não possa se repetir?
Com tantos carros nas ruas, acho que você poderia promover também o transporte fluvial. Eu sei que tem um projeto, mas ele anda meio parado, deveria ser uma prioridade. Seria até mais seguro que as bicicletas, pois ainda hoje morrem muitos ciclistas no trânsito do Recife.
Se Recife é a “cidade das pessoas”, por que não pode ser também a cidade dos rios?
Atenciosamente,
DAVI MEDEIROS PESSOA


Nota: Os rios que cortam a cidade de João Pessoa também estão poluídos. Fica a sugestão para os professores – dar um passeio com os alunos pelo rio Sanhauá e pedir que escrevam cartas para o Prefeito sugerindo providências. “Se Recife é a cidade das pessoas,” João Pessoa tem pessoa até no próprio nome. 

sábado, 16 de agosto de 2014

A memória afetiva de Orie



 A MEMÓRIA AFETIVA DE ORIE  
(Neide Medeiros Santos – Leitora votante FNLIJ/PB)

O longo som
            do rio
            frio.

            O frio
            bom
            do longo rio.

            Tão longe,
            tão bom,
            tão frio.
            (Cecília Meireles. Rio na sombra).


            Da editora Pequena Zahar, recebemos o bonito livro “Orie” (2014), texto e ilustração de Lúcia Hiratsuka. Dessa autora já conhecíamos outros livros, entre eles o premiadíssimo “Histórias tecidas em seda” (Ed. Cortez, 2007), que foi lançado em João Pessoa durante Feira Japonesa no Espaço Cultural em 2008.
            Lúcia Hiratsuka é neta de japoneses que vieram para o Brasil nas primeiras décadas do século XX. Ao chegar ao Brasil, a família foi morar no sítio “Asahi”, interior de São Paulo. “Asahi” significa “sol da manhã”. Foi nesse sítio que Lúcia nasceu.  Quando contava dez anos, a família se mudou para Duartina, considerada a “capital da seda”. Mais tarde, transferiu-se para São Paulo onde Lúcia  estudou Belas Artes.
            Em 1988, viajou para o Japão. Durante um ano fez curso de aperfeiçoamento em ilustração de livros infantis na Universidade de Fukuoka. Atualmente, além de escritora e ilustradora,  é professora de Artes, na cidade de São Paulo.   
            No site da escritora, ela explica como aprendeu a ler. O avô foi seu primeiro professor. Os livros que havia na casa eram, em sua maioria, escritos em japonês, havia também alguns “ehons” (livros com ilustração) e foi a partir desses livros que nasceu o desejo de escrever e ilustrar.     
 Além desse avô, professor das primeiras letras, há um destaque especial para a figura da avó, uma excelente contadora de histórias reais e ficcionais. Certa vez, Lúcia perguntou à avó se ela gostaria de retornar ao Japão e ouviu esse depoimento:
Acho que não vou reconhecer mais o lugar que eu nasci, fica na minha memória, continua do jeitinho que eu nasci. Será um eterno furusato.  Furusato é terra natal em japonês.     
            “Orie”, título do livro, é o nome da avó.   O livro se reporta ao dia a dia de Orie e aos acontecimentos narrados por essa avó querida que povoou a infância da neta com narrativas de contos fantásticos, não faltando fatos ligados à cultura japonesa e à vida dos seus familiares.
            A história se passa no Japão no tempo em que os barqueiros camponeses  navegavam pelos rios para vender as mercadorias nas cidades. E a viagem de barco era marcada por surpresas e alegrias, principalmente para uma menininha que estava descobrindo o mundo.
            Neste livro, o barco tem a força simbólica de um ninho aconchegante. Isso está explícito no próprio texto:
            “O barco parecia um ninho. Pai, mãe, Orie que nem passarinho”.
            “O tempo passa, passa e passa...” a menina cresce, seus passos crescem também, Orie se torna uma mocinha e uma nova vida a espera.  A memória afetiva de Orie  remete a um lugar repleto de carinho e de aconchego, e o rio tão frio, tão bom, sombrio, ficou para longe, ficou no país distante, no país do sol nascente. 
            Um rio, sempre um rio acompanha a vida dos habitantes de pequenas e de grandes cidades. Por mais insignificantes que sejam os rios têm suas histórias, seus encantos, está presente na lírica dos poetas e de escritores de nações distintas e de várias épocas.
Em que parte do Japão estaria situado o rio que os pais de Orie navegavam? Não importa. Era um rio como outro qualquer, mas que deixou profundas marcas na menina que via no rio um lugar do sonho e do devaneio. O rio japonês de Orie não é o mesmo do poema de  Cecília Meireles, mas os dois guardam afinidades poéticas.
            Os livros de Lúcia Hiratsuka trazem a marca da simplicidade e se caracterizam por grande beleza literária.  E vem esta explicação: “A prática do sumiê e do haicai me levaram a buscar o simples e o essencial”.
            E foi com a avó que viveu 104 anos que a escritora aprendeu que “furusato” é onde a gente nasce, mas também é o lugar aonde vamos em pensamento, quando estamos tristes ou felizes. Hoje, ela tenta recriá-lo através dos desenhos e das palavras como neste bonito livro cheio de sutilezas e de elementos simbólicos.
            ( Texto publicado no jornal “Contraponto”. Paraíba, 15 a 21 de agosto de 2014).
           

sábado, 19 de julho de 2014

Monteiro Lobato para adultos



MONTEIRO LOBATO PARA ADULTOS
(Neide Medeiros Santos – Leitora votante FNLIJ/PB) 

            Quem tem notícia, apenas, da obra de Lobato feita para crianças, precisa conhecer o que ele escreveu destinado aos adultos (e aos brasileiros todos, ele que, aflitamente, queria salvar o país) para entender toda a extensão da sua importância na História do Brasil.
            (Ziraldo. Texto da 4ª capa do livro “Monteiro Lobato, livro a livro”. Obra adulta).

            Quando falamos em Monteiro Lobato, lembramos sempre do Sítio do Picapau Amarelo e dos personagens criados por esse escritor polêmico que é amado por muitos e criticado por alguns.  Emília, Narizinho, Pedrinho, o Visconde de Sabugosa, Dona Benta e tia Nastácia são criaturas de papel que povoaram o imaginário de muitas crianças brasileiras, mas Lobato não foi apenas um escritor de obras para crianças, foi contista, cronista, jornalista, editor, publicitário e artista plástico.
 Marisa Lajolo, professora e pesquisadora da UNICAMP, grande estudiosa de Lobato, e João Luís Ceccantini, professor da UNESP e leitor votante da FNLIJ, organizaram o livro “Monteiro Lobato, livro a livro (obra infantil)”- UNESP/ Imprensa Oficial que ganhou em 2009 o prêmio Jabuti e foi eleito o Livro do Ano. Estava faltando um olhar crítico mais detalhado sobre a obra adulta.  O livro “Monteiro Lobato, livro a livro (obra adulta)” publicado em 2014, pela editora da UNESP, organizado por Marisa Lajolo, veio preencher a lacuna de análises dos livros deste escritor voltados para o público adulto.
Em 1945, Lobato organizou uma série (coleção) com todos os seus livros para adultos e chamou de “Literatura Geral”. Era composta por treze volumes com dezesseis títulos e abrangia gêneros diversos. A coleção continha os seguintes livros: 1. Urupês, 2. Cidades mortas, 3. Negrinha, 4. Ideias de Jeca Tatu, 5. A onda verde e o Presidente negro, 6. Na antevéspera, 7. O escândalo do Petróleo e do Ferro, 8. Mr. Slang e o Brasil e Problema Vital, 9. América, 10. O Mundo da Lua e Miscelânea, 11-12. A barca de Gleyre (2 volumes), 13. Prefácios e Entrevistas.
Nessa série encontram-se livros de contos, uma novela, um romance, coletâneas de artigos de jornais, prefácios, vasta correspondência, impressões de viagem, anotações esparsas, documentos de campanhas políticas, entre outros.
Na apresentação de “Monteiro Lobato, livro a livro. Obra adulta”, a organizadora destaca que Lobato foi um escritor prolífero.  Ao longo dos 43 anos que separam sua primeira publicação de grande impacto junto ao público o artigo “Velha praga”, estampado em O Estado de S. Paulo (1914), escreveu muitos livros, foi tradutor e periodista.   “É um autor que, para além da porteira do sítio, criou um Jeca Tatu, uma Negrinha, um Presidente Negro e um Zé Brasil”.
Para organizar este livro, a ensaísta convidou vinte e oito especialistas da obra de Lobato que se debruçaram sobre a coleção “Literatura Geral” e trouxeram contribuições valiosas.  O tema do negro na obra de Lobato já gerou discussões. Ele está presente neste livro com dois excelentes ensaios – o de Milena Ribeiro Martins – “Negrinha” e “Os negros e a história fora de si”, de Hélio de Seixas Guimarães.  Os dois estudiosos apresentam uma visão crítica da presença do negro na literatura lobatiana de modo sério e competente.    
Não seria possível resumir os vinte e oito artigos apresentados, assim procuramos pinçar algumas opiniões deste escritor destemido que falava sem medo de dizer a verdade.
Monteiro Lobato foi acusado de comunista, materialista e ateu. Certa vez, indagado por um jornalista se era socialista, deu esta resposta: “não sou coisa nenhuma a não ser um observador da história.”
No vigésimo quinto aniversário de Urupês (1943), concedeu uma entrevista a afirmou:
“– Já não me interesso por coisa nenhuma. Meus contos foram quase todos vingancinhas pessoais, desabafos. Quando eu sentia necessidade de vingar-me de um sujeito qualquer, não sossegava enquanto não o pintasse numa situação ridícula ou trágica, que me fizesse rir.”
 Lobato teve inúmeros problemas com a censura. Era conhecido como alguém que não tinha “papas na língua”. Na entrevista dada ao repórter Tulman Neto, do Diário de São Paulo, em março de 1945, comenta sobre um homem preso por ler livros.
“- Conheci na Detenção um comunista de terrível fama [...] Chamava-se José Crispim [...] Mais tarde fui saber que fora condenado a oito anos de prisão... oito anos pelo crime de querer instruir-se e ter livros em casa”.  
Cada capítulo leva o leitor a encontrar a história de um livro e cada uma dessas histórias contém muitas outras histórias. As múltiplas visões apresentadas conduz o leitor a conhecer melhor a personalidade múltipla de Lobato e o seu desencanto no fim da jornada.    Em todos os textos transborda o escritor que não sabia calar diante das injustiças, que lutava em prol da Verdade, da Democracia e da Vida.    
As pesquisas e os ensaios, na opinião de Marisa Lajolo, proporcionam “novos olhares não apenas sobre a produção lobatiana, mas talvez também para a produção cultural brasileira das primeiras décadas do século XX.”
Depois de publicados “Os filhos de Lobato. O imaginário infantil na ideologia do adulto” (1977), de José Roberto Whitaker Penteado, “Monteiro Lobato: Furacão na Botocúndia” (1977), de Carmen Lúcia de Azevedo, Márcia Camargos e Vladimir Sacchetta, “Monteiro Lobato: livro a livro (obra infantil)” (2009), organizado por Marisa Lajolo e João Luis Ceccantini, e biografias deste escritor que soube escrever para todos os públicos parecia que não havia nada mais a dizer.   Ledo engano! Os grandes romancistas, contistas e poetas, como Machado de Assis, Graciliano Ramos, Monteiro Lobato, Cecília Meireles e Augusto dos Anjos são inesgotáveis.
Este artigo é dedicado a Luciano Mariz Maia e Simão Farias Almeida, lobatólogos paraibanos.
( Publicado no jornal “Contraponto”. Paraíba, 18 a 24 de julho de 2014, B-4.

quinta-feira, 8 de maio de 2014



Uma viagem literária e gastronômica através do Brasil
(Neide Medeiros Santos. Leitora-votante FNLIJ/PB) 

            A felicidade, fique o leitor sabendo, tem muitos rostos. Viajar é, provavelmente, um deles. Entregue as suas flores a quem sabe cuidar delas e comece. Ou recomece. Nenhuma viagem é definitiva.
            (José Saramago. Apresentação do livro Viagem a Portugal). 

           
            O mel de Ocara: ler, viajar, comer (Ed. Global, 2013), de Ignácio de Loyola Brandão, é um misto de relato de viagens, palestras sobre livros, literatura e passeios pela gastronomia brasileira. O autor define o livro como crônicas, quase contos, reportagens literárias bem humoradas. Não se esqueceu da formação de leitores, das peculiaridades de cada lugar que visitou, da maneira de se expressar e do vocabulário da cada região. E, naturalmente, das comidas.

            O livro contém  experiências vivenciadas nesses contatos e histórias de viagens por países europeus, mas vamos dar destaque e seguir o roteiro de cidades brasileiras, especialmente, as nordestinas.

            Nossa viagem começa em Ocara. Quem nunca ouviu falar em Ocara, lendo o livro de Ignácio de Loyola Brandão não esquecerá jamais. Ocara é uma pequena cidade do interior do Ceará, tem 22.600 habitantes, fica a 82 quilômetros de Fortaleza.  O escritor recebeu um convite para participar da 6ª Feira do Livro do Ceará e deveria se deslocar até aquela cidade para fazer uma palestra. O público era bem diversificado – estudantes de nível médio, universitários do curso de letras, professores, crianças e mães com filhos de colo.

            Nunca um escritor havia passado por Ocara para fazer uma palestra.  Mais de 200 pessoas se encontravam no Centro Sócio Cultural de Jovens da Vila São Marcos para ouvir a fala de Ignácio de Loyola Brandão.  O clima era de festa. A manhã começou com a apresentação de um reisado com o boi dançando valsas e xotes.  E veio uma grande surpresa - quem fazia o papel do boi era um velhinho de 92 anos, e como dançava!

            Depois das apresentações musicais e folclóricas, o escritor falou de modo bem simples para aquele auditório que demonstrava sede de saber. Todos ouviam com muita atenção, foram mais de duas horas de conversa, de histórias de livros, de experiências com livros e leitura.  Seguiram-se inúmeras perguntas e o que cativou mais o escritor foi a pergunta de uma senhora de “boa idade” – queria saber como se faz um livro, como se colocam as letrinhas em um livro.  A cabocla ficou tão empolgada com a palestra que perguntou:
  
            Será que um dia uma dessas professoras me ensina a ler e a escrever? Achei bonito o que o senhor disse aqui, devia ter sempre. (p.63).
             Fez mais outra pergunta: 

            O senhor aceita um presente? Meu. Feito no meu quintal. Coisa pura. Tenho umas abelhinhas muito trabalhadoras. (p.63).

            E deu o presente ao palestrante – uma garrafa de mel de abelhas com rolha de sabugo de milho. Ela criava abelhas no quintal de sua própria casa – era “um mel puro, perfumado, doce e penetrante”. Diante desse presente valioso, o escritor teve essa reação: Podem me pagar quanto quiserem, nada supera este cachê da cabocla de Ocara.
 
            Da Paraíba, quando veio participar da 1ª Bienal do Livro (2006), as impressões marcantes se referem à beleza dos monumentos antigos e à gastronomia regional. E vem esta observação muito válida:  O centro da cidade antiga foi esquecido ou desprezado pela especulação imobiliária, de maneira que ainda permanecem de pé vários palacetes, casa coloniais (o Pavilhão Chinês, onde as pessoas iam tomar chá à tarde, é lindo, merecia mais cuidado), vestígios de uma arquitetura que fez da cidade um centro sofisticado. (p.79). 

            O convite de Vladimir Neiva, da Grafset, para comer “cabeça de galo” fez o escritor tremer, ele não gosta de frango e muito menos da cabeça. Imaginou-se chupando ossinhos, mas teve de ser gentil com o anfitrião e aceitou o convite. Quando chegou “a cabeça de galo”,  deliciou-se, e aproveitou para dar a receita que não vamos transcrever – todo  paraibano que se preza  sabe decorada.

             Na cidade de Natal (RN), participou de outra Bienal do Livro (2006) e escolheu como tema da palestra – “a busca da palavra perfeita”. Para ilustrar sua fala, começou com um verso de Marize Castro: Palavras quando caem sobre a gente surpreendem,adoçam, cortam”.
            Marize Castro, poeta do Rio Grande do Norte, é uma das vozes mais líricas e atuantes da literatura potiguar. 

            Não faltam as referências à gastronomia do Rio Grande do Norte – patolas de caranguejo, água de coco e ovos de curimatã, o caviar nordestino. Quem é da região do Seridó – Caicó, Jardim do Seridó, Currais Novos (RN), Santa Luzia (PB) gosta muito dessa iguaria, um manjar dos deuses.  

            Quem conhece uma cidade no Brasil onde as crianças leem 20 livros por mês? Ela existe, sim, senhor. É Teresina, capital do Piauí. Na “Casa Meio Norte”, situada no bairro Leste, as crianças têm paixão por livros e pela escrita. Ignácio de Loyola Brandão esteve lá e confirmou tudo.

            O bairro Cidade Leste vive sob o domínio da violência. Lá se encontram os foras da lei, traficantes, ladrões, mas esses meninos que moram na “Casa Meio Norte” vão mudar essa paisagem através do estudo e da leitura.

            Para os meninos que vivem essa dura realidade, o escritor contou a história do “Menino que vendia palavras”, um livro de sua autoria que conquistou vários prêmios nacionais.

            O protagonista desta história é um menino que tem um pai que era um verdadeiro dicionário, sabia o significado de muitas palavras. Se os amigos queriam saber o que significava determinada palavra, recorriam ao menino que se valia do pai. Esperto e inteligente, ele começou a vender palavras, trocava-as por objetos de sua preferência. No final do livro, vem esta lição muito oportuna para a ocasião – quanto maior for seu vocabulário mais chances de conquistar o mundo você terá.
   
 Ele descobriu, no meio daqueles meninos da “Casa Meio Norte”, poetas, escritores, cronistas, contistas. Muitos textos produzidos por essas crianças foram lidos durante esse proveitoso encontro.  O escritor estava diante de crianças que amavam os livros e a literatura.  
            O texto sobre o Piauí termina com essas bonitas palavras:
            Há o Brasil aparente e o Brasil oculto com pessoas admiráveis sobre as quais não cai um foco de luz e elas não precisam, são alimentadas por sonhos e ideais. Brasil que caminha. (p. 72).

            Palavras que parecem saídas da boca de Ariano Suassuna ao repetir a opinião de Machado de Assis no seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras: Há um “país real” que é bom, revela os melhores instintos e há um “país oficial”, caricato e burlesco”. 

            Diante daquela realidade vivenciada pelas crianças do Piauí, Ignácio de Loyola Brandão estava face a face com o “país real”.

            Há muitas outras histórias, relatos vivos e pungentes de outras regiões do Brasil. Privilegiamos o Nordeste e as observações sobre algumas cidades visitadas pelo escritor, o contato com pessoas simples e cheias de sabedoria e a gastronomia de uma região rica de sabores.

 Não vamos atravessar o Atlântico agora – Lisboa, Costa Brava, Borredà, Roterdà, Frankfurt, Bad Berleburg, Berlim e Paris nos esperam para a próxima viagem.  O trem vai partir e percorrer outras cidades brasileiras e o avião nos espera para atravessar o Atlântico.

 ( Texto publicado no jornal “Contraponto”, João Pessoa,  abril de 2014).