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sábado, 19 de julho de 2014

Monteiro Lobato para adultos



MONTEIRO LOBATO PARA ADULTOS
(Neide Medeiros Santos – Leitora votante FNLIJ/PB) 

            Quem tem notícia, apenas, da obra de Lobato feita para crianças, precisa conhecer o que ele escreveu destinado aos adultos (e aos brasileiros todos, ele que, aflitamente, queria salvar o país) para entender toda a extensão da sua importância na História do Brasil.
            (Ziraldo. Texto da 4ª capa do livro “Monteiro Lobato, livro a livro”. Obra adulta).

            Quando falamos em Monteiro Lobato, lembramos sempre do Sítio do Picapau Amarelo e dos personagens criados por esse escritor polêmico que é amado por muitos e criticado por alguns.  Emília, Narizinho, Pedrinho, o Visconde de Sabugosa, Dona Benta e tia Nastácia são criaturas de papel que povoaram o imaginário de muitas crianças brasileiras, mas Lobato não foi apenas um escritor de obras para crianças, foi contista, cronista, jornalista, editor, publicitário e artista plástico.
 Marisa Lajolo, professora e pesquisadora da UNICAMP, grande estudiosa de Lobato, e João Luís Ceccantini, professor da UNESP e leitor votante da FNLIJ, organizaram o livro “Monteiro Lobato, livro a livro (obra infantil)”- UNESP/ Imprensa Oficial que ganhou em 2009 o prêmio Jabuti e foi eleito o Livro do Ano. Estava faltando um olhar crítico mais detalhado sobre a obra adulta.  O livro “Monteiro Lobato, livro a livro (obra adulta)” publicado em 2014, pela editora da UNESP, organizado por Marisa Lajolo, veio preencher a lacuna de análises dos livros deste escritor voltados para o público adulto.
Em 1945, Lobato organizou uma série (coleção) com todos os seus livros para adultos e chamou de “Literatura Geral”. Era composta por treze volumes com dezesseis títulos e abrangia gêneros diversos. A coleção continha os seguintes livros: 1. Urupês, 2. Cidades mortas, 3. Negrinha, 4. Ideias de Jeca Tatu, 5. A onda verde e o Presidente negro, 6. Na antevéspera, 7. O escândalo do Petróleo e do Ferro, 8. Mr. Slang e o Brasil e Problema Vital, 9. América, 10. O Mundo da Lua e Miscelânea, 11-12. A barca de Gleyre (2 volumes), 13. Prefácios e Entrevistas.
Nessa série encontram-se livros de contos, uma novela, um romance, coletâneas de artigos de jornais, prefácios, vasta correspondência, impressões de viagem, anotações esparsas, documentos de campanhas políticas, entre outros.
Na apresentação de “Monteiro Lobato, livro a livro. Obra adulta”, a organizadora destaca que Lobato foi um escritor prolífero.  Ao longo dos 43 anos que separam sua primeira publicação de grande impacto junto ao público o artigo “Velha praga”, estampado em O Estado de S. Paulo (1914), escreveu muitos livros, foi tradutor e periodista.   “É um autor que, para além da porteira do sítio, criou um Jeca Tatu, uma Negrinha, um Presidente Negro e um Zé Brasil”.
Para organizar este livro, a ensaísta convidou vinte e oito especialistas da obra de Lobato que se debruçaram sobre a coleção “Literatura Geral” e trouxeram contribuições valiosas.  O tema do negro na obra de Lobato já gerou discussões. Ele está presente neste livro com dois excelentes ensaios – o de Milena Ribeiro Martins – “Negrinha” e “Os negros e a história fora de si”, de Hélio de Seixas Guimarães.  Os dois estudiosos apresentam uma visão crítica da presença do negro na literatura lobatiana de modo sério e competente.    
Não seria possível resumir os vinte e oito artigos apresentados, assim procuramos pinçar algumas opiniões deste escritor destemido que falava sem medo de dizer a verdade.
Monteiro Lobato foi acusado de comunista, materialista e ateu. Certa vez, indagado por um jornalista se era socialista, deu esta resposta: “não sou coisa nenhuma a não ser um observador da história.”
No vigésimo quinto aniversário de Urupês (1943), concedeu uma entrevista a afirmou:
“– Já não me interesso por coisa nenhuma. Meus contos foram quase todos vingancinhas pessoais, desabafos. Quando eu sentia necessidade de vingar-me de um sujeito qualquer, não sossegava enquanto não o pintasse numa situação ridícula ou trágica, que me fizesse rir.”
 Lobato teve inúmeros problemas com a censura. Era conhecido como alguém que não tinha “papas na língua”. Na entrevista dada ao repórter Tulman Neto, do Diário de São Paulo, em março de 1945, comenta sobre um homem preso por ler livros.
“- Conheci na Detenção um comunista de terrível fama [...] Chamava-se José Crispim [...] Mais tarde fui saber que fora condenado a oito anos de prisão... oito anos pelo crime de querer instruir-se e ter livros em casa”.  
Cada capítulo leva o leitor a encontrar a história de um livro e cada uma dessas histórias contém muitas outras histórias. As múltiplas visões apresentadas conduz o leitor a conhecer melhor a personalidade múltipla de Lobato e o seu desencanto no fim da jornada.    Em todos os textos transborda o escritor que não sabia calar diante das injustiças, que lutava em prol da Verdade, da Democracia e da Vida.    
As pesquisas e os ensaios, na opinião de Marisa Lajolo, proporcionam “novos olhares não apenas sobre a produção lobatiana, mas talvez também para a produção cultural brasileira das primeiras décadas do século XX.”
Depois de publicados “Os filhos de Lobato. O imaginário infantil na ideologia do adulto” (1977), de José Roberto Whitaker Penteado, “Monteiro Lobato: Furacão na Botocúndia” (1977), de Carmen Lúcia de Azevedo, Márcia Camargos e Vladimir Sacchetta, “Monteiro Lobato: livro a livro (obra infantil)” (2009), organizado por Marisa Lajolo e João Luis Ceccantini, e biografias deste escritor que soube escrever para todos os públicos parecia que não havia nada mais a dizer.   Ledo engano! Os grandes romancistas, contistas e poetas, como Machado de Assis, Graciliano Ramos, Monteiro Lobato, Cecília Meireles e Augusto dos Anjos são inesgotáveis.
Este artigo é dedicado a Luciano Mariz Maia e Simão Farias Almeida, lobatólogos paraibanos.
( Publicado no jornal “Contraponto”. Paraíba, 18 a 24 de julho de 2014, B-4.

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