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domingo, 17 de julho de 2016

Ricardo Azevedo: O poeta, o ilustrador e o Caderno Veloz
            

            Entre na minha casa
            não repare na nossa felicidade.
            Confesso que cheguei a duvidar que você vinha
            mas você veio.
            (Ricardo Azevedo. Caderno Veloz de anotações, poemas e desenhos)

            Com o livro “Caderno Veloz de anotações, poemas e desenhos” (Ed. Melhoramentos, 2015), Ricardo Azevedo ganhou o Prêmio de Melhor Livro de Poesia da FNLIJ. Estão presentes neste livro o desenhista, o ilustrador, o poeta, o prosador.

            No texto, “A liberdade do gesto, da imagem, da palavra”, inserido na última página do livro, o autor dá breves explicações sobre o seu fazer poético e artístico e afirma:
            “Tanto os poemas como as imagens do livro são, na minha cabeça, igualmente “textos’, ocupam o mesmo espaço dentro do trabalho, são autônomos, nasceram por conta própria, têm sua razão de ser e representam algo para ser lido e examinado.” (p. 79).

             Vamos acatar a sugestão do poeta/ilustrador: ler e examinar os poemas e as imagens do livro.  O caderno é veloz e cabe ao leitor seguir o ritmo do escritor.
            Na página 72, aparece a ilustração de uma moça com quatro olhos. A visualização dessa imagem provoca certo estranhamento. Se o leitor olhar atentamente para toda a figura, ela parece duplicada.  O olho duplo nos dá uma sensação de desconforto visual, é a presença do inusitado.    Na página 73, encontramos o poema referente a esta ilustração.  E o que diz o poema?


            “Começar e fazer e criar
e experimentar e recomeçar e refazer
e recriar e experimentar e repensar e rever
e recomeçar e refazer
[...]
O poema segue  repetindo os mesmos vocábulos. São 17 versos em uma única estrofe.  Os dois primeiros versos estão escritos no tamanho normal das letras, a partir do 3º e 4º. versos as letras vão diminuindo de tamanho e sempre nessa ordem – de dois em dois versos há diminuição no tamanho das letras. A duplicidade da escrita se associa à imagem do olhar duplicado.   Se partirmos para o lado semântico do poema, aí está explícito o trabalho do poeta – “fazer, criar, experimentar, recomeçar, refazer, recriar, repensar, rever.” Essas mesmas palavras se repetem por todo o poema.

 Na página 60, aparece a ilustração de dois homens. Um olha para o outro através de uma espécie de binóculo, embora estejam bem próximos. O poema da página seguinte (p.61) apresenta intertextualidades com poemas de poetas brasileiros. A primeira estrofe é uma reunião de versos recriados de Casimiro de Abreu, Gonçalves Dias, Drummond, João Cabral de Melo Neto. De Manoel Bandeira há referência ao poema “Vou-me embora pra Pasárgada”. Segue-se a primeira estrofe do poema:

“Apagaram as saudades que eu tinha da aurora da minha vida
Derrubaram as palmeiras e caçaram meus galhos
Destruíram o meio e o caminho com pedra e tudo
Mataram e comeram os galos que teceriam minhas manhãs
e, não contentes, espalharam endereços falsos de Pasárgada.” (p. 61)

O único texto em prosa está na página 31, é um amontoado de palavras sem nenhuma pontuação. O texto começa com a expressão: “Preciso contar o que aconteceu” e termina com a mesma expressão. Durante a leitura, pensamos em descobrir o que realmente aconteceu: O que foi? As possíveis respostas estão no próprio texto: “está tudo meio confuso”, “está tudo aqui entalado na garganta”. A ilustração para este poema em prosa representa o rosto de um homem duplicado – eu e o outro? E lembramos-nos dessa proposição – a poesia não é para ser compreendida, é para ser sentida. E Fernando Pessoa nos ajuda com o último verso do poema “Isto”: “Sentir? Sinta quem lê!”

“Caderno Veloz de anotações, poemas e de desenhos” é um livro instigante. Ricardo Azevedo explica que tanto os poemas como os desenhos foram feitos e refeitos durante alguns anos, alguns foram retirados de livros anteriores, como “Feito Bala Perdida e Outros Poemas” e as imagens a partir de 2013, mas as raízes são bem anteriores.

Minha admiração por livros de Ricardo Azevedo começou há muitos anos. Fiz uma resenha para a revista “Afinal” nos idos de 1990 de um livro que me foi enviado por Jorge Medauar – “Tá vendo uma velhota de vestido azul de bolinha branca no portão daquela casa ?” (Ed.FTD). A revista e o escritor Jorge Medauar desapareceram na poeira do tempo. O livro de Ricardo Azevedo foi reescrito e publicado posteriormente pela Companhia das Letrinhas. O texto foi refeito, novas ilustrações até o título mudou – “Uma velhinha de óculos, chinelos e vestido azul de bolinhas brancas”. O título pode ter ficado mais agradável, mas prefiro a 1ª edição, é uma “lembrança do mundo antigo” – “Havia jardins, havia manhãs naquele tempo !!!”   


            ( Texto publicado no jornal “Contraponto” – B-2. Paraíba, 15 a 22 de julho de 2016)