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sábado, 29 de maio de 2010

A presença das águas em “A Chuva Pasmada”. Mia Couto- Danuta Wojciechowska



A presença das águas em “A Chuva Pasmada”.
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB)

O rio nunca está feito, como não está o coração. Ambos são sempre nascentes, sempre nascendo.
(Mia Couto. A Chuva Pasmada)

Mia Couto, escritor moçambicano, escreveu contos e romances para o público adulto. “Terra sonâmbula” foi considerado um dos doze melhores livros africanos do século XX. É escritor premiado no seu país e no exterior.
Recentemente, participou da coletânea de contos criados a partir de canções de Chico Buarque de Holanda, organizada pelo jornalista Ronaldo Bressane. Mia Couto escreveu o conto “Olhos nus: olhos”, baseado na canção “Olhos nos olhos”.
A vasta produção literária do escritor abrange, ainda, ensaios e livros para o público infantil e juvenil. “O gato e o escuro”, Editora Caminho, 2008, com ilustrações de Marilda Castanha, recebeu o Prêmio de Melhor Livro de Literatura de Língua Portuguesa em 2009 pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil. Este livro foi objeto de artigo publicado na coluna “Livros&Literatura”, no jornal “Contraponto”, 29 de junho de 2009.
Pela mesma editora Caminho, Mia Couto publicou o romance juvenil “A Chuva Pasmada”. Danuta Wojciechowska foi a ilustradora. Danuta é canadense de Québec, radicada em Lisboa desde 1984. É licenciada em Design de Comunicação pela Escola Superior de Design de Zurique, pós-graduada em Educação pela Arte na Inglaterra. Em 2005, recebeu o Prêmio Nacional de Ilustração e foi a candidata portuguesa ao Prêmio Hans Christian Andersen na categoria ilustração.
Danuta já ilustrou os seguintes livros que receberam menções especiais em Portugal : “Fala Bicho”, “O Limpa-Palavras e outros poemas”, “O gato e o escuro”. “Mouschi e o Gato de Anne Frank”. A edição portuguesa do livro de Mia Couto “O gato e o escuro” saiu em 2001. No Brasil, em 2008.
Estamos, portanto, diante de um escritor e de uma ilustradora premiados em Moçambique, no Brasil e em Portugal.

“A Chuva Pasmada” é um breve romance em que se entrecruza a narrativa contada por um menino e diálogos entre os personagens. O livro está dividido em 17 pequenos capítulos. Um menino e o avô protagonizam a história. Participam, ainda, o pai, a mãe e uma tia solteira.
O menino que atua como personagem narrador era considerado pelos pais um pasmado. Diziam que ele era lento no fazer, demorado no pensar. E a chuva que não vinha, era clamada e reclamada por todos. Era tão “pasmadinha” como o menino.
Qual seria o motivo da chuva não cair naquela aldeia africana?
Por que o rio estava secando? Seria por causa da fumaça da fábrica?
Essas são perguntas que não podem ser respondidas dentro de um raciocínio lógico, é necessário recorrer às lendas e aos mitos.
E quando o avô revela que vai contar uma história ao neto, é uma história sobre o rio – “A Lenda de Ntoweni”. Esta lenda fala sobre o nascimento do rio que banha aquela aldeia.
Do menino, vêm as observações sobre o avô. Ele definhava cada dia, estava perto do fim. E o avô é associado ao rio: “O rio emagrecera mais do que o avô, os terrenos encarquilharam, o milho amarelecia.” (p.14)
No último capítulo, o avô toma um barquinho e sai deslizando pelo que resta do rio. O menino vê o barquinho se dissolvendo no horizonte, diluindo-se no azul da correnteza e dentro dele está o avô que parte para não mais voltar.
Destino semelhante ao do avô tem o personagem de Guimarães Rosa no conto “A terceira margem do rio”. O pai encomenda uma canoa especial, de pau de vinhático, e sem “alegria nem cuidado”, decide dar um adeus a sua família e embarca naquela canoa. Os anos se passaram e noticia dele não se soube. Assim como o avô, ele parte e não regressa mais.
Além da afinidade temática entre o romance juvenil e o conto de Guimarães Rosa, encontramos traços estilísticos que estão presentes nos dois escritores: linguagem poética, frases curtas e entrecortadas, poucos diálogos. Romance juvenil e conto se associam, também, pela presença do realismo mágico.

sábado, 22 de maio de 2010

Wabi Sabi: uma fábula japonesa



Wabi Sabi: uma fábula japonesa
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária da FNLIJ/PB)

Um velho pinheiro pode ensinar-lhe as verdades sagradas
(Provérbio Zen)

Você sabe o que é Wabi Sabi? Não sabe? Eu também não sei, mas vamos descobrir com a leitura do livro “Wabi Sabi”, de Mark Reibstein, Arte de Ed Young, traduzido no Brasil por Luzia Aparecida e Monica Stahel, com selo da WMF Martins Fontes (2009).
Wabi Sabi é a história de uma gata que vivia em Kioto, no Japão. Um dia, sua dona recebeu visitantes de outro país que indagaram sobre o nome estranho da gata, mas a dona não soube responder. A própria gata resolveu sair pelo mundo à procura do verdadeiro significado do seu nome.
A pesquisa começou dentro de casa. Wabi Sabi consultou à colega Bola de Neve que deu esta resposta:
“– É uma espécie de beleza.”
Esta resposta não a convenceu, procurou, então, o cachorro Rascal que disse:
“– É difícil explicar para alguém como você”.
De forma quase imperceptível, falou baixinho:
“- Isso é Wabi Sabi!
Uma folha amarelada,
seca e tão comum.”
As coisas começaram a se complicar. Rascal havia respondido com um haicai, tudo continuava sem explicação.
Passou um passarinho voando e ela gritou:
“- Alguém pode me explicar o que é Wabi Sabi?”
O passarinho respondeu:
“– É difícil de explicar – Mas sei de alguém que pode ajudá-la. Seu nome é Kosho e ele vive no monte Hiei, no leste”.

Wabi Sabi agradeceu ao passarinho e continuou a sua peregrinação. Andou, andou, andou... o caminho era longo, teria que atravessar toda a cidade e depois seguir em direção ao monte Hiei.
Kosho era um macaco muito sábio. Quando Wabi Sabi o encontrou, ele estava tomando chá. Diante da indagação de Wabi Sabi, Kosho pediu que ela o observasse enquanto ele preparava o chá e fez a seguinte recomendação:
“– Ouça. Veja. Sinta.”
O macaco se movimentava devagar, com muita graça, parecia que estava dançando, lidava com os objetos de madeira e argila como se fossem de ouro.
Depois de certo tempo, o macaco virou-se para Wabi Sabi e disse:
“– As coisas singelas são belas.”
Olhando para o chá, Wabi Sabi disse por fim:
“- Agora entendi.”
Agradeceu a Kosho, seu novo amigo, e iniciou a viagem de volta para casa. Nessa viagem de regresso, Wabi Sabi descobriu belezas já vistas, mas não sentidas, nem observadas – como os jardins de uma casa que não eram extravagantes nem grandiosos, mas belos.
Quando chegou em casa e descansou em seus aposentos, pôde sentir o calor do ambiente em que estava e o cheiro do vento em seu pelo. Sua dona, ao vê-lo, indagou:
“– Onde você esteve?”
Ela simplesmente respondeu:
“– É difícil de explicar”.
Procurei recontar esta bonita fábula de origem japonesa, mas não disse tudo, muitas coisas estão guardadas nas páginas do livro.
Wabi Sabi é um livro lindo. As ilustrações foram feitas com materiais retirados da natureza – cascas de madeira, colagens, folhas amarelecidas pelo outono. É uma fábula moderna que vai mostrando, pouco a pouco, o verdadeiro sentido da vida que se resume em uma palavra – simplicidade.
O livro é bilíngue – português/japonês e contém muitos haicais de Bashô e Shiki, tudo escolhido por Nane Tamina.
Para os gatófilos, como os poetas Ferreira Gullar, André Ricardo de Aguiar e o casal Cláudio /Yó Limeira este livro caiu do céu.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Senhor Augustin: uma personagem quixotesca


Senhor Augustin: uma personagem quixotesca
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária da FNLIJ/PB)

A expressão quixotismo incorporou-se ao vocabulário de todas as línguas para designar o comportamento daqueles que se sobrepõem a fantasia à realidade, o idealismo ao realismo, o desprendimento às conveniências.
(Ferreira Gullar – Nota de Ferreira Gullar para o livro Dom Quixote de La Mancha).

A literatura de todos os tempos está povoada de personagens quixotescas. Senhor Augustin (Ed. Cosac Naify, 2009), de Ingo Schulze, ilustrações de Julia Penndorf, é um bom exemplo deste modelo de personagem.
Ingo Schulze nasceu em Dresden, na Alemanha. Estudou Filologia Clássica em Iena. Trabalhou como dramaturgo e editor de jornais. Seus livros receberam diversos prêmios. Atualmente vive em Berlim e dedica-se a escrever para o público infantojuvenil.
Julia Penndorf nasceu em Altenburg, na Alemanha. Estudou ilustração na Faculdade de Artes Aplicadas de Praga. Recebeu o prêmio de “Mais belo livro alemão de 2008” por suas ilustrações para o livro” Senhor Augustin”.
Julia Pendorf sabe muito bem que ilustrar não significa complementar o texto verbal, mas sugerir possíveis leituras. Neste livro premiado, pingos de chuva coloridos, guarda-chuvas e chapéus se espalham pelas páginas do livro, criando um clima lúdico e cheio de fantasia.
Antes da apresentação de Senhor Augustin, consideramos oportuno registrar a opinião do poeta Thiago de Mello a respeito do livro de Ingo Schulze.
Thiago de Mello apresentou este livro às crianças do rio Andirá, no coração da floresta amazônica, e elas gostaram tanto que lhe pediram para contar a história outra vez.
Se o poeta e as crianças do rio Andirá gostaram, isso prova a universalidade da história. Foi escrita por um alemão, com uma realidade distinta da nossa, mas foi compreendida e amada por crianças que estavam separadas por quilômetros de distância.
Aproximemos do Senhor Augustin. Quem é esse senhor?
Senhor Augustin é um aposentado que gosta de olhar a vida. Uma das suas manias é ficar parado em frente à porta de sua casa observando as pessoas que passam apressadas, crianças que vão para a escola, mães que empurram carrinhos de bebês. Está sempre de chapéu e se utiliza da mesma saudação para cumprimentar as pessoas: “Prazer em vê-lo”
O que mais caracteriza seu Augustin é a distração – às vezes usa meias de cores diferentes, cabo de vassoura no lugar do guarda-chuva, o braço direito na camisa, o esquerdo no casaco. Tem um cacoete: costuma passar a mão na cabeça para comprovar se o chapéu está no devido lugar.
Por suas excentricidades, Senhor Augustin, algumas vezes, é ridicularizado pelas crianças. Quando isso acontece, ele fica bravo e lá vai pedra...
Retratado como uma personagem diferente, Senhor Augustin foge dos padrões convencionais. Está sempre em conflito com o mundo, está próximo de Vitorino Papa-Rabo e de Policarpo Quaresma.
Ingo Schulze se considera parecido com Seu Augustin – é muito distraído, perde as coisas e sempre as encontra em lugares que jamais imaginaria. Perdeu tantas vezes seu guarda-chuva, um guarda-chuva bonito, com cabo de madeira, presente dos amigos, que ele já aprendeu o caminho de casa, volta sozinho. Os dois (autor e personagem) se assemelham a Dom Quixote - são distraídos e sonhadores.
Dom Quixote encontrou um amigo – Sancho Pança. Senhor Augustin encontrou a menina Clara que, depois de insultá-lo e receber uma pedrada tornou-se sua amiga. Não existe um cavalo na história, mas aparece um cachorro que lhe faz companhia.
Concluímos esta breve história de Senhor Augustin com palavras do poeta Thiago de Mello:
Dá vontade de ser um pouco como o Augustinho, pessoa generosa e solidária, mas que sabe jogar pedra contra quem zomba da bondade humana. Ele leva uma queda e aproveita, estirado no chão, para olhar a beleza azul do céu.

domingo, 9 de maio de 2010

Fernando Pessoa – o menino da sua mãe


Fernando Pessoa – o menino da sua mãe
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária da FNLIJ/PB)

NO TEMPO em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
(Álvaro de Campos. Aniversário)

Amélia Pinto Pais foi professora de português e francês durante 36 anos em Portugal. Atualmente se dedica à pesquisa sobre Fernando Pessoa, Camões e Gil Vicente. No livro “Fernando Pessoa, o menino da sua mãe,” publicado pela Cia. Das Letras, com ilustrações de Mariana Newlands, a estudiosa da literatura portuguesa relata a vida do poeta Fernando Pessoa, utilizando o ponto de vista de primeira pessoa, semelhante a uma autobiografia. É um livro acessível ao público juvenil.
Com a sábia orientação de Amélia Pinto Pais, vamos dar a palavra a Pessoa e caminhar com o poeta pelos meandros de sua vida.
Nasci em Lisboa no dia 13 de junho de 1888, dia consagrado a Santo Antônio, daí meu prenome – Fernando Antônio. Da primeira infância, passada em Lisboa, relembro das músicas da minha meninice – os sinos da Igreja dos Mártires, as cantilenas infantis que as tias cantavam e que foram por mim rememoradas no grande poema “Ode Marítima”, de Álvaro de Campos.
Meu pai era crítico musical e atribuo o gosto pela música a uma herança paterna. Convivi pouco tempo com meu pai, ele faleceu quando eu tinha apenas cinco anos. Depois de sua morte, senti-me muito sozinho e inventei um companheiro para conversar comigo, surgiu, assim, meu primeiro heterônimo – Chevalier de Pas. Eu estava com seis anos, escrevia cartas para o amigo imaginário.
Alguns anos mais tarde, minha mãe voltou a se casar. Meu padrasto, João Miguel Rosa, era cônsul em Durban, na África do Sul e fomos morar naquela cidade. Lá, fiz os estudos primários e secundários, ganhei até um Prêmio -“Queen Victoria Memorial Prize” num concurso. Estava familiarizado com a língua inglesa. Penso que um dia apenas duas línguas contarão o mundo – o inglês para a comunicação, os negócios,os estudos, os ensaios científicos e filosóficos; o português para a poesia e as emoções.
Os anos se passaram, voltei rapaz para Lisboa, matriculei-me no curso de Letras e fui morar com minha avó Dionísia. Deixei o curso e fui trabalhar como correspondente comercial. Da companhia com a minha avó e minhas tias, recordo-me das festas dos meus anos, elas estão registradas no poema “Aniversário”. É um poema nostálgico, mas vale a pena fazer uma leitura.
Tive amigos que partiram muito cedo, um deles foi Mário de Sá-Carneiro. A respeito desse amigo, escrevi: ”Morrem jovens os que os deuses amam.” Outros, como Almada Negreiros, viveram muitos anos, não sei que rumo tomou após a minha morte, mas como era bom pintor e escritor deve ter alcançado a glória em vida, coisa que não aconteceu comigo.
Criei revistas, escrevi poemas para os jornais de Portugal e me aventurei a entrar em um concurso literário. Inscrevi-me com o livro “Mensagem”. Infelizmente deram-me apenas o segundo lugar. Quem tirou o primeiro?Não me recordo Seu nome perdeu-se na poeira do tempo, não devia ser grande poeta.
“Tive amores e perdi-os”, como disse, certa vez, um poeta brasileiro. Apaixonei-me por Ophélia Queirós, a Ophelinha, mas a literatura falou mais alto. Na carta de ruptura do namoro, escrevi:”O amor passou. Mas conservo-lhe uma afeição inalterável”.
Sempre gostei da multiplicação. Disse em um dos meus poemas: ”Multipliquei-me, para me sentir
Para me sentir, precisei sentir tudo,
Transbordei, não fiz senão extravasar-me,
Despi-me, entreguei-me,
E há em cada canto um altar a um deus diferente”
Criei vários heterônimos, os mais conhecidos são: Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos e Bernardo Soares. Minha imaginação foi muito além – criei 72 heterônimos. Duvidam? Consultem o livro de Amélia Pinto Pais que anotou da estudiosa Teresa Rita Lopes 72 heterônimos.
Grande parte do que está contado aqui vocês encontram no livro de Amélia Pinto Pais, outras coisas surgiram de leituras da colunista que gosta muito de Pessoa e sempre que é possível tira um dedo de prosa com o poeta deTabacaria