Ocorreu um erro neste gadget

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

As Gêmeas da família: um livro "estranhumano"



AS GÊMEAS DA FAMÍLIA: UM LIVRO “ESTRANHUMANO”
(Neide Medeiros Santos -  blog:nastrilhasdaliteratura.blogspot.com)


            Ficaram traços da família
            perdidos no jeito dos corpos.
Bastante para sugerir
que um corpo é cheio de surpresas.
(Indicações. Carlos Drummond de Andrade).


Com “As gêmeas da família” (Ed. Globo, 2013), ilustrações de Weberson Santiago, a escritora Stella Maris Rezende completa a trilogia iniciada com “A mocinha do Mercado Central” (vencedor do Prêmio Jabuti 2012 na categoria “Melhor Livro Juvenil” e “Livro do Ano de Ficção”), seguido de “A sobrinha do poeta” (Prêmio Bolsa para Autores em fase de Construção da Fundação Biblioteca Nacional e Altamente Recomendável FNLIJ, 2012).
Um poema de Drummond, “Indicações”, e uma carta da cantora Rita Pavone em italiano, com tradução para o português, antecedem o texto deste romance juvenil.  Ao lado da carta, um retrato da cantora na fase dos anos 1960.
O livro está dividido em três longos capítulos: Primeira parte – 1965. Segunda parte – 1988 e Terceira parte – 1990. São 25 anos de história. Para o escritor Luiz Ruffato, é um romance de formação e também uma crônica de uma época. De acordo, ainda, com Ruffato - Stella Maris Rezende faz reviver uma cidadezinha do interior de Minas Gerais e a cidade do Rio de Janeiro na década de 1960, época da ditadura militar.
  As protagonistas de “As gêmeas da família” são três irmãs marcadas pelo vaticínio de uma maldição, elas lutam para se livrar de um destino amaldiçoado.
A narrativa em 3ª pessoa é contada sob o ponto de vista dos objetos que estavam próximos das protagonistas – a chávena de porcelana, a maçaneta da porta, a máquina de costura da mãe e muitos outros. Esses objetos dialogam e agem de forma personificada, conversam sobre assuntos variados: política, música, família.     
As três irmãs, embora não fossem muito unidas, andavam sempre juntas e quando saíam para passear pela cidade era motivo de risos e pilhérias. Maria da Caridade (Rosade), Maria da Fé (Azuflé) e Maria da Esperança (Verdança) vestiam sempre roupas nas cores róseo, azul e verde.  Verdança era chamada de Papagaio Depenado, Azulfé, de Azul da Fome e Rosade, de Rosa Murcha.  As moças ficavam muito tristes com os insultos e reclamavam da promessa feita pela mãe. Para se livrar da maldição que recaía sobre a família, dona Ana Clara (a mãe das trigêmeas) fizera esta promessa - elas deveriam usar vestidos nessas cores até completar 18 anos.  
Mas havia algo que unia as gêmeas – era a paixão pela cantora italiana Rita Pavone. A vinda da cantora ao Brasil em 1965 motivou uma viagem das trigêmeas até o Rio de Janeiro para conhecer ao vivo a famosa cantora. Um dos maiores sucessos de Rita Pavone era a música “Dá-me um martelo” que era cantada e repetida muitas vezes por Rosade; Azulfé preferia “Coração” e Verdança era apaixonada por “Não há ninguém como você”.
Além do inusitado dessa história – objetos  falantes e a maldição da família – há uma preocupação com a linguagem: a presença de neologismos, como “estranhumano”, repetido no término de cada parte dos capítulos; o uso de arcaísmos –” “ponhação”, “amistança” e muitos termos regionais, entre eles “ingresia”, “latomia”.
O livro guarda muitos segredos que não vou revelá-los, cabe ao leitor descobri-los A ida das moças ao Rio de Janeiro para conhecer Rita Pavone foi revestida de aventuras e surpresas.  Temos certeza de que o leitor irá gostar, é cheio de mistérios, medos, apreensões, elementos que cativam aqueles que gostam de aventuras e de desvendar os pensamentos dos personagens.
As ilustrações de Weberson Santiago são discretas, delicadas e sempre representam três objetos – três laços de fita, três xícaras, três portas e, naturalmente, três mocinhas vestidas de róseo, azul e verde.

(Texto publicado no jornal “Contraponto”, Paraíba, 17 a 23 de janeiro de 2014, Coluna “Livros e Literatura”, p.B-4).

NOTA: Este livro ganhou o Prêmio de Melhor Livro Infantojuvenil de 2013 da APCA – Associação Paulista de Críticos de Arte.