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sábado, 24 de dezembro de 2011

Ana Maria Machado: retalhos de uma vida


Ana Maria Machado: retalhos de uma vida
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB)

O maior prêmio para o escritor é o leitor, que está longe e com quem você pode dialogar.
(Ana Maria Machado. Teia de Autores)

No dia 15 de dezembro, a escritora Ana Maria Machado assumiu a presidência da Academia Brasileira de Letras. É a segunda mulher que ocupa o relevante cargo na ABL. A primeira foi Nélida Piñon (1996/1997).
A trajetória literária e artística de Ana Maria Machado é rica e diversificada. Dedicou-se, inicialmente, à pintura, foi aluna de Aluísio Carvão durante três anos no ateliê do Museu de Arte Moderna no Rio. Acalentou o sonho de ser artista plástica, mas a escolha do curso de Letras mudou o seu destino, dedicou-se à literatura e virou escritora.
Em 1970, perseguida pelo regime militar, refugiou-se na França e começou a enviar textos para uma nova revista que surgia no Brasil destinada ao público infantil – a revista Recreio. Com Ruth Rocha e Joel Rufino dos Santos, companheiros literários da revista, publicaram muitas histórias que fizeram sucesso.
Em Paris, foi aluna de Roland Barthes e defendeu tese de doutorado sobre o nome dos personagens de Guimarães Rosa. “O recado do nome” é o título da tese que foi transformada em livro. Em Londres, trabalhou como correspondente da BBC.
Quando voltou ao Brasil, dedicou-se à atividade jornalística. De 1973 a 1980 chefiou o sistema de radiojornalismo na Rádio Jornal do Brasil e escrevia uma coluna literária para o “Jornal do Brasil”. Ainda havia “nuvens de fumaça no ar” e nem tudo podia ser publicado. A respeito desse período, Ana Maria assim se expressa: “Aprendi que a censura cresce no anonimato, como toda forma de covardia.” (Silenciosa algazarra. 2011: 207)
“Bisa Bia, Bisa Bel”, publicado em 1982, ganhou vários prêmios e se tornou um clássico da literatura infantil brasileira. A trama se desenvolve em três tempos distintos: passado, presente e futuro. A protagonista da história tem muitas faces – é bisavó no tempo passado; é a menina Isabel no tempo presente, é a neta no tempo futuro.
Na área do ensaio, escreveu, entre outros, os livros: “Texturas: sobre leituras e escritos (Nova Fronteira); “Contracorrente: conversas sobre leitura e política” (Ed. Ática); “Como e por que ler os Clássicos Universais desde cedo”. (Objetiva); “Ilhas no tempo: algumas leituras”. (Nova Fronteira). Em 2011, publicou “Silenciosa algazarra” (Companhia Das Letras). Este último livro foi analisado em nossa coluna.
Em 2001, centenário de nascimento de José Lins do Rego, Ana Maria esteve em João Pessoa acompanhada das filhas do escritor paraibano e do xilógrafo Ciro Fernandes para fazer o lançamento do livro “O menino que virou escritor”, uma história romanceada da vida de José Lins do Rego.
A escritora foi, também, dona de livraria e durante dezoito anos dirigiu a Livraria Malasartes, no Rio de Janeiro, voltada para o público infantil e juvenil. No livro “Contracorrente. Conversas sobre leitura e política.” (Ática: 1999), ela conta um fato que merece ser relembrado.
Num dia quente de dezembro, quando se dirigia por um corredor do centro comercial onde funcionava a livraria, ouviu alguém chamando insistentemente pelo seu nome. Estava carregada de compras de Natal, e distinguiu o garçon José que trabalhava no restaurante do andar térreo. Ao alcançá-la, ele disse:
“- Desculpe, Ana, mas eu estava há dias esperando você passar, porque queria lhe agradecer.” (1999:p.132)
A escritora, no primeiro momento, não entendeu o porquê do agradecimento, mas logo o rapaz tratou de esclarecer:
“É que eu li o livro de eco e agora eu sei”. (p. 133)
Como na livraria existia uma coleção – “O livro do som”, “O livro da luz”... para crianças, ela pensou que se tratava de um desses livros, mas ele explicou que se referia ao livro de Umberto Eco – “O nome da rosa”. E veio a complementação. Depois de assistir ao filme “O nome da rosa”, comprei o livro na livraria Malasartes.
Ana Maria tratou de alimentar o gosto pela leitura do rapaz recém-chegado ao “tesouro” e presenteou-o com dois livros irresistíveis. “O barão das árvores”, de Ítalo Calvino e “Cem anos de solidão”, de Gabriel García Márquez.
Autora de mais de cem livros para o público infantil e juvenil, ganhadora do Prêmio Hans Christian Andersen (Nobel da literatura infantil), tradutora, romancista, conferencista internacional, professora, jornalista, ensaísta, professora visitante da Universidade de Berkeley, esta é a nova presidente da Academia Brasileira de Letras- uma escritora múltipla.
MENSAGEM NATALINA:

Que o (a) leitor (a)
“encontre a cada dia
esta fina alegria

de reinventar o mundo
tornando-o mais profundo.”
(Carlos Drummond de Andrade)

sábado, 17 de dezembro de 2011

Crônicas ambientais: um mundo cheio de cores, cheiros e sons





Crônicas ambientais: um mundo cheio de cores, cheiros e sons
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB)

Impregne um pouco a sua alma
do verde que está no ar.
(Jomar Morais Souto. Itinerário Lírico da Cidade de João Pessoa)

Quem passa pela Avenida Beira-Rio em João Pessoa-PB observa que os paus d´arco róseos estão todos floridos. Isso nos transporta para um tempo em que a cidade era coberta de verde e de flores. As residências tinham jardins floridos, com cheiros de jasmins e cantos de passarinhos. Os tempos mudaram ... hoje apenas os paus d´arco da Beira Rio, da Lagoa e da Mata do Buraquinho teimam em oferecer, na época natalina, um colorido róseo e amarelo. As casas foram substituídas por edifícios, são construções sem alma e sem passarinhos.
Essas divagações surgiram após a leitura do livro de Luiz Eduardo Cheida – “Bichos, plantas e seus parentes – crônicas ambientais”, da Editora Aymará, com prefácio de Marina Silva.
No prefácio do livro, Marina relembra sua infância e adolescência no Seringal Bagaço que ficava a 70 km da capital do Acre. Vivia em um mundo cercado por uma imensa floresta. O barulho das abelhas mangangás na copa das castanheiras é uma das suas primeiras memórias e sobre este mundo da infância afirma: “Era um mundo cheio de cores, de cheiros e de sons”.
As crônicas ambientais do médico e escritor Luiz Eduardo Cheida levam o leitor a mergulhar no passado e traz de volta o paraíso perdido por Marina. São 40 crônicas de assuntos variados: há uma alga que se emociona, um cachorro que joga baralho, uma árvore que filosofa, uma abelha que aprende e o homem que dialoga com todos eles, afinal homens, bichos e plantas são todos parentes.
O conto/crônica “As Pombas” é o relato de uma invasão de pomba-amargosa em uma região do Paraná. Elas estavam acabando com o milharal de seu Fulgêncio e dona Constantina. Depois de várias reuniões e discussões, os sitiantes chegaram a uma conclusão – para acabar com as pombas só trazendo o gavião de volta. Consultado, o gavião impôs uma condição: “Plantem árvores. Ninho em poste de telefone eu não faço.” (p.24)
O desejo do gavião foi satisfeito e como diz Guimarães Rosa: “Pôs-se a fábula em ata”.
A pergunta inocente de uma criança de quatro anos na crônica “Sociedade de risco” (p.99) pode suscitar inúmeras reflexões.
“ – ÁRVORE, QUANDO MORRE, também vai para o céu?” (p. 99)
“Bye bye bee” (p. 137) revela a preocupação do cronista com o desaparecimento das abelhas e a extinção de muitas espécies. Revistas especializadas afirmam que, nos últimos dois anos, 37% das colmeias desapareceram nos Estados Unidos. No Brasil, também houve perdas, o mesmo acontecendo na Austrália, na China e no Canadá.
E qual foi o motivo para o desaparecimento das abelhas? Querem saber? O motivo é muito simples – faltam flores na natureza, estão destruindo as matas. Os herbicidas, fungicidas e inseticidas também matam as abelhas.
Atualíssima é a crônica “Cadê meu zap”?(p.145). Trata do problema dos agrotóxicos nas verduras e frutas. Nesta crônica, involuntariamente, o pimentão é o vilão. Em uma escala de zero a cem, o pimentão fica com 64, 36% de agrotóxico, seguindo do morango, cenoura, alface, tomate.
Crônicas que falam sobre a destruição das matas, que lamentam a ausência das flores, nos transportam para uma gravura do pintor paraibano Hermano José – “Cabo Branco até quando...”
O pintor Hermano José é amante da natureza e defensor ferrenho da preservação da barreira do Cabo Branco. Nos anos de 1970, ele já alertava para o perigo da destruição das nossas matas e os cuidados com a barreira do Cabo Branco.
A respeito da gravura “Cabo Branco até quando...”, a professora e crítica de arte Terezinha Fialho assim se expressou:
“A gravura de Hermano José, uma sanguínea, é belíssima [...] O quadro é um grito, uma denúncia de amante profundamente ferido. Defendo a tese de que bastaria este quadro para provar, se necessário fosse, o amor-devotamento de Hermano José pelas falésias, pelo mar.”
O texto de Terezinha Fialho – “Hermano José, as falésias e o mar” se encontra no livro” Hermano José”. FMC: Textoarte. João Pessoa, 2004.
Começamos com uma epígrafe do poeta Jomar Morais Souto, um hino de louvor ao verde da cidade de João Pessoa, apresentamos fragmentos das crônicas ambientais de Luiz Eduardo Cheida e concluímos com a denúncia do quadro de Hermano José.

sábado, 10 de dezembro de 2011

AUGUSTO DOS ANJOS REVISITADO





AUGUSTO DOS ANJOS REVISITADO
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária –FNLIJ/PB)

Eu sou aquele que ficou sozinho
Cantando sobre os ossos do caminho
A poesia de tudo quanto é morto!
(Augusto dos Anjos. O Poeta do Hediondo)

Dois bons livros para jovens publicados em 2011 se voltam para a poesia e, de forma mais específica, para a poesia de Augusto dos Anjos. Da editora Noovha América, recebemos “13 Contos de Medos e Arrepios com Poemas de Augusto dos Anjos”, de Almir Correia, ilustrado por Alexandre Jubran. A editora Ática nos enviou “Poesia faz pensar”, da série “Para gostar de ler”, coletânea de poemas que contou com a organização de Carlos Felipe Moisés.
O livro de Almir Correia se compõe de 13 contos. As tramas do conto interagem com 13 poemas de Augusto dos Anjos. As ilustrações de Alexandre Jubran são todas em preto e branco e criam uma atmosfera soturna. Alguns títulos já deixam transparecer o ambiente fantasmagórico do livro – “A bota do cemitério”, “O caixão fantástico”, “A noiva suicida”, “O carrinho de bebê macabro”.
“O caixão fantástico” é título do conto e do poema de Augusto dos Anjos. O conto relata a morte de um homem muito rico que foi enterrado em um caixão de ouro. Raul, o protagonista do conto, observa o interesse que o precioso objeto desperta em várias pessoas – elas vão ao cemitério na calda da noite para roubar o caixão de ouro, mas o caixão era amaldiçoado, morreram todos que tentaram roubá-lo.
O poema de Augusto dos Anjos “O caixão fantástico” é menos tenebroso. No “Caixão fantástico”, talvez repousem musas ou o próprio Pai do poeta.
Se a poesia “além de levar a sentir também faz pensar,” como afirma Carlos Felipe Moisés, o livro organizado pelo crítico literário atende aos dois sentidos: reúne poemas que se caracterizam pelo alto grau de sensibilidade e outros que oferecem ferramentas de indagação com o objetivo de compreender o mundo.
“Poesia faz pensar” está dividido em cinco tópicos: “É tudo quanto sinto um desconcerto”; “Um contentamento descontente”; “Errei todo o discurso de meus anos”; “Continuamente vemos novidades”; “Se lá no assento etéreo onde subiste”. O organizador da coletânea atribuiu títulos aos tópicos partindo sempre de versos de poetas consagrados: Camões, Augusto dos Anjos, Fernando Pessoa.
Cada grupo temático vem constituído de três partes: uma reflexão sobre o fazer poético, reunião de poemas de autores de épocas diversas e um comentário sobre os poemas que integram cada grupo.
Na terceira parte que traz o título - “Errei todo o discurso dos meus anos”, o crítico assim se expressa: “O ponto de partida da reflexão que conduz a esses e outros temas correlatos pode ser assinalado em sua expressão mais singela na tríplice interrogação de Augusto dos Anjos: Quem sou? Para onde vou? Qual a minha origem?” (p.50)
Na apresentação deste tópico, Carlos Felipe Moisés assevera que essas perguntas traduzem uma dúvida universal de todos os tempos – os poetas estão à procura da verdade, mas é necessário que esta resista ao assédio da dúvida e à lucidez do espírito crítico.
Mas quem são os poetas que estão reunidos nesse tópico que parte da tríplice interrogação augustiniana? Por ordem de apresentação: Camões, Bocage, Castro Alves, Augusto dos Anjos, Alberto Caeiro, Carlos Drummond de Andrade, Vinicius de Moraes e João Cabral de Melo Neto.
O poema selecionado de Augusto dos Anjos é “Poema Negro” (p.50). O texto não aparece integral, apenas as três primeiras estrofes, mas são suficientes para constatar num “misto de revolta e perplexidade” que a passagem dos séculos assombra o poeta do EU.
Do heterônimo Alberto Caeiro, o crítico chama a atenção do leitor para o aparente jogo de palavras: “O que nós vemos das cousas são as cousas./ Por que veríamos nós uma cousa se houvesse outra?”. E vem a lição do mestre Caeiro: chegou a hora de desnudar a alma e começar a “desaprender”.
Os dois livros apresentados são publicados um ano antes do centenário da publicação do EU. A Academia de Letras e Artes do Nordeste, sob a presidência da professora Maria do Socorro Aragão, em parceria com o Programa de Pós-Graduação em Letras da UFPB, está organizando um congresso para o próximo ano em comemoração ao centenário da publicação do EU. Certamente, aqui, na Paraíba, terra de Augusto dos Anjos, serão publicados muitos livros sobre o poeta mais lido do Brasil.


A Esperança não murcha, ela não cansa,
Também como ela não sucumbe a Crença.
Vão-se sonhos nas asas da Descrença,
Voltam sonhos nas asas da Esperança.

Muita gente infeliz assim não pensa;
No entanto o mundo é uma ilusão completa,
E não é a Esperança por sentença
Este laço que ao mundo nos manieta?

Mocidade, portanto, ergue o teu grito,
Sirva-te a crença de fanal bendito,
Salve-te a glória no futuro - avança!

E eu, que vivo atrelado ao desalento,
Também espero o fim do meu tormento,
Na voz da morte a me bradar: descansa!


Augusto dos Anjos

domingo, 27 de novembro de 2011

GONÇALVES DIAS: “um poeta mestiço como sua pátria”.




GONÇALVES DIAS: “um poeta mestiço como sua pátria”.
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária – FNLIJ/PB)
Não chores, meu filho;
Não chores, que a vida
É luta renhida:
Viver é lutar.
(Gonçalves Dias. Canção do Tamoio. Canto I)
Álvaro Cardoso Gomes é o organizador da coleção “Meu amigo escritor” (Ed. FTD). Esta coleção objetiva aproximar os jovens dos grandes escritores da Literatura Brasileira e Portuguesa. Dentro desta proposta, encontramos o livro “O poeta do exílio” (FTD, 2011), de Marisa Lajolo.
Marisa Lajolo é professora de Teoria da Literatura e se dedica a pesquisar e escrever livros sobre leitura e literatura infantil. É estudiosa da obra de Monteiro Lobato e já publicou vários livros sobre o criador do sítio do Picapau Amarelo. Em 2008, o livro “Monteiro Lobato livro a livro”, organizado em parceria com João Luís Ceccantini, ganhou o Prêmio Jabuti.
Lajolo é, portanto, uma crítica literária que sabe lidar muito bem com a literatura destinada às crianças e aos jovens.
Na apresentação do livro “O poeta do exílio”, a autora explica que Gonçalves Dias esteve sempre presente em sua vida. Seu pai era admirador do poeta maranhense e sabia de cor e declamava com muito gosto “I - Juca Pirama” e outros poemas do autor. Marisa e os irmãos pequenos cresceram ouvindo o pai recitar esses poemas.
O convite para escrever um livro sobre o poeta que habitou a casa de sua infância foi aceito com entusiasmo. Ela não hesitou e começou a tarefa de ler e reler os livros do poeta, as biografias escritas sobre o vate, a encher os livros de “papeizinhos amarelos marcando páginas”. E surgiram as dúvidas: contar a vida do poeta do nascimento até a morte ou começar da morte e chegar ao nascimento? A autora encontrou na música o “link” da história – uma banda, um festival escolar de música, um casal de jovens apaixonados e assim surgiu o livro.
Toda história tem um começo e esta se inicia com a inscrição de uma música no II Festival Vozes de Classe, um festival estudantil dos alunos da Escola Luís Gama. Júlia era compositora da banda SIM, NÃO & TALVEZ e compôs uma música inspirada num poema de Gonçalves Dias. A música foi finalista do concurso.
A ideia de escolher Gonçalves Dias para compor a música da banda foi do colega Pedro e foi, também, de Pedro, a ideia de criar um blog. Nesse blog, que recebeu a denominação de BlogDoDias, eles colocaram tudo que encontraram sobre o poeta - poemas, cartas familiares, artigos de jornais antigos, documentos pesquisados nos Anais da Biblioteca Nacional.
O blog deixou a turma entusiasmada. Todos acompanhavam o que Júlia e Pedro escreviam, ninguém sabia o que era realmente verdade e o que era ficção. Nas pesquisas feitas, descobriram que Gonçalves Dias trabalhou para o governo e fez muitas viagens pelo Brasil, apresentando relatórios dessas viagens. Mesmo sendo um bom poeta, não podia viver só de poesia.
A história da vida de Gonçalves Dias não segue uma linearidade. Os dois primeiros capítulos falam sobre o naufrágio que levou o poeta à morte e o terceiro discorre sobre a sua origem e seu nascimento. Gonçalves Dias era filho de um português com uma brasileira “cafuza, mulata”.
Durante o desenvolvimento da história, o leitor encontra a interferência da narradora. Com notas em destaque com campo na cor verde e o título de “Meio de campo”, aparecem chamamentos ao leitor e perguntas que exigem um posicionamento diante de certos fatos e acontecimentos.
Vejamos um exemplo de “Meio de campo”. No terceiro capítulo – “Um poeta mestiço como sua pátria” (p.74-115), vem esta nota:
“E você, leitor? Olhe à sua volta: negros, mulatos, loiros, morenos, índios, ruivos... de quantas cores é nosso país, sua escola, sua família, nossa vida?” (p. 81)
Nas ruas de Caxias, cheias de negros e índios acorrentados, o menino Tonico presenciava os maus tratos infligidos aos negros e aos índios e isso o motivou a ter horror à escravidão dos africanos e à violência contra o indígena. Essas lições da infância foram depois transformadas em belíssimos poemas que exaltam essas duas raças.
Coube ao professor Joel a indicação para a leitura do texto em prosa de Gonçalves Dias – “Meditação”, uma longa composição em prosa inspirada em questões de “igualdade, de justiça e de liberdade”. O texto vem envolvido em um tom profético e nele o poeta exprime revolta pelas desigualdades sociais e condena veementemente o cativeiro.
Mas o livro não fala só de poesia, a vida amorosa do poeta é contada com detalhes. Gonçalves Dias foi infeliz no amor. Apaixonou-se por Ana Amélia e a família da moça, principalmente a mãe, se opôs a essa união. Desiludido, o poeta procurou os braços acolhedores de Olímpia Coriolano da Costa e casaram-se no Rio de Janeiro, mas Olímpia não tinha os encantos nem os olhos negros, negros de Ana Amélia decantados no poema “Seus olhos”. Segue a última estrofe desse poema:
“Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros,
Assim é que são:
Eu amo esses olhos que falam de amores
Com tanta paixão”.
“O poeta do exílio” é uma biografia romanceada, um romance juvenil, uma nova maneira de conhecer a vida e a obra poética de Gonçalves Dias.

domingo, 20 de novembro de 2011

Em busca do tempo perdido


Em busca do tempo perdido
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB)
Lá vai o trem com o menino
Lá vai a vida a rodar
Lá vai ciranda e destino
Cidade e noite a girar.
(Edu Lobo. O Trenzinho do Caipira)

“A morena da estação”, livro de Ignácio de Loyola Brandão, publicado pela Editora Moderna (2010), é uma narrativa multifacetada. Pequenos contos, crônicas, curiosidades, lendas. Fatos reais e ficcionais convivem fraternalmente.
Ignácio de Loyola Brandão nasceu em 1936, em Araraquara. É filho de ferroviários e andou muito de trem na infância e adolescência. Costuma dizer que cresceu entre vagões e locomotivas.
No prefácio, o autor afirma: “Quando terminei este livro, escrito com afeto, percebi que acabou sendo uma espécie de memória da infância e adolescência”.
O livro está dividido em duas partes – 1ª. “Ontem”, 2ª. “Hoje e amanhã, talvez o futuro” e apresenta 42 pequenos capítulos que podem ser lidos de forma independente.
Fotografias antigas (1915, 1933), charges, cartões postais ilustram as páginas do livro e encaminham o leitor para o tempo em que o trem era o meio de transporte mais utilizado no interior do Brasil. As imagens recriam um ambiente e uma maneira de viver que pertencem ao passado.
Os contos e as crônicas nos levam ao reencontro com o tempo perdido. Em diversas partes do livro, há referências ao tempo “proustiano”.
A crônica “O delicioso Filé à Arcesp” (p.45) integra a parte dos textos de “Ontem” e vem a explicação sobre o nome deste filé.
Os caixeiros-viajantes percorriam o estado ou o país vendendo produtos e andavam sempre de trem. Usavam terno e gravata e, a maioria, chapéu. Carregavam uma pasta de couro na qual levavam um bloco para os pedidos e catálogos dos produtos que vendiam, almoçavam ou jantavam no trem, por isso preferiam composições que tivessem carro-restaurante. Para agradá-los, um cozinheiro decidiu fazer um prato substancioso e acessível, surgiu, assim, o filé à Arcesp. (A sigla Arcesp significa Associação dos Representantes Comerciais do Estado de São Paulo).
A receita do filé se encontra na p. 48. Não fiz, não provei, mas me pareceu delicioso.
Havia “O Trem barateiro” (p. 92). Este trem mereceu uma mini crônica. Partia de Araraquara e seguia para Presidente Vargas. E o preço? Era mesmo barato? Não. O nome “trem barateiro” se devia ao ataque das baratas voadoras, elas atacavam os passageiros e assustavam as mulheres.
O capítulo “O fascínio do trem nas telas” (p. 112-121) rememora os grandes filmes em que o trem desempenhava um papel preponderante. São citados, entre outros, “Dr. Jivago”, seguindo-se “Desviando caminhos” (Canadian Pacific, 1949), “Pacto Sinistro” ( Strangers on a train, 1951), “Conspiração do silêncio” ( Bad Day at Balck Rock, 1955). Nas páginas 116 e 117, o leitor encontra os cartazes desses filmes. Nessa relação, não poderia faltar “ Expresso do Oriente” com direito a postal de divulgação. Um capítulo que interessa aos cinéfilos paraibanos.
“A morena da estação” (p.124) é um conto cheio de mistérios. Quem seria a moça morena que deixou Alcino apaixonado? Ela usava um perfume inesquecível e entregou ao rapaz uma mala de couro vermelho. Desceu do trem, subiu e deixou Alcino com a mala. O conto começa e termina de forma misteriosa. Nada é desvendado.
O penúltimo texto da 1ª parte – “O trem dos torcedores” (p.138) fala sobre as partidas de futebol dos anos 60, na cidade natal do escritor – Araraquara. Nessa época, a “Ferroviária” pertencia à divisão especial e enfrentava os grandes clubes – São Paulo, Corinthians, Santos, Palmeiras. Durante muitos anos, o trem despejava os torcedores dentro do estádio da Fonte Luminosa. Era o único estádio de São Paulo que colocava os torcedores dentro do campo. Um orgulho para os araraquarenses.
A 2ª parte do livro – “Hoje, amanhã, talvez o futuro” é composta por histórias mais reais e contemporâneas. O narrador não está à procura do tempo perdido. São histórias de trens velozes, de metrôs, do espantoso trem com 330 vagões (e isso é no Brasil, caro leitor, na Estrada de Ferro Carajás).
O livro de Ignácio de Loyola Brandão me transportou a um passado mais recente, a uma exposição de pintura que tive oportunidade de ver em Bruxelas no ano de 1997. No Museu de Belas Artes de Bruxelas, no dia 11 de maio de 1997, vi a exposição do pintor belga Paul Delvaux – 100 telas todas retratando trens. Tenho ainda hoje, no álbum das recordações de viagens, o bilhete do Museu e um cartão postal de um quadro do pintor.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

“VERDE QUE TE QUERO VERDE”


“VERDE QUE TE QUERO VERDE”
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB)

O verde está em todas as coisas, em tudo ele transparece. Inclusive na água mais negra. Na água barrenta, dourada de sol – e esverdeada. Transparece até no céu azul profundamente verde.
(Thiago de Mello. Amazonas: água, pássaros, seres e milagres)

Lalau e Laurabeatriz são grandes amigos e gostam de escrever livros para crianças. Lalau é paulista, poeta e publicitário. Laurabeatriz é carioca, artista plástica e ilustradora. Os dois já escreveram muitos livros juntos, todos voltados para a defesa da flora e da fauna do Brasil.
“Árvores do Brasil: cada poema no seu galho” (Ed. Peirópolis, 2011) é mais um livro da dupla de amigos da natureza. Ao todo, são 15 poemas, 15 árvores louvadas e 15 animais. Para as árvores – poemas; para os animais – descrições objetivas.
Algumas das árvores citadas no livro são bem conhecidas no Nordeste, como pau-brasil, juazeiro, mulungu, ipê-roxo, aqui denominado pau-d´arco roxo, jenipapo e ipê-do-cerrado, que corresponde ao nosso pau d´arco amarelo. Esta última árvore citada enfeita o Parque Solon de Lucena (Lagoa) e a Avenida Getúlio Vargas, em João Pessoa. O jornalista e cronista Carlos Pereira é admirador do pau d´arco amarelo, e já escreveu inúmeras crônicas sobre a beleza do colorido dessa árvore.
As árvores (através de poemas) e os animais (explicações técnicas) estão reunidos em 15 duplas: 1) Pau-brasil (jaguatirica); 2) araucária (gralha azul); 3) jequitibá (quati); 4) ipê-do-cerrado (soldadinho); 5) buriti (maracanã-do-buriti); 6) jatobá-do-cerrado (anta); 7) juazeiro (veado-catingueiro); 8) mulungu (sofrê); 9) umbuzeiro (periquito-da-caatinga); 10) ipê-roxo (caburé); 11) jenipapo (surucuá-de-barriga-vermelha); 12) pau-formiga (tamanduá-mirim); 13) castanheira-do-pará (cutia); 14) piquiá (paca); 15) mogno (uacari, macaco-da-noite, macaco-aranha).
Lendo as informações sobre estas árvores que aparecem após os poemas, o leitor aprende muito.
O “pau-brasil” ou “ibirapitanga”, era o nome utilizado pelos índios, é de origem tupi-guarani e significa “madeira vermelha”. É necessário ter muito carinho com esta árvore, ela se encontra na lista do IBAMA de espécies ameaçadas de extinção, na categoria vulnerável.
O jequitibá é o símbolo da fraternidade nacional, é a maior árvore da mata atlântica, mede de 35 a 45 metros de altura. Por seu alto porte, os índios chamavam de “gigante da floresta”.
A fruta do juazeiro é rica em vitamina C, sobrevive aos tempos de seca e está sempre verde. O fruto é conhecido como juá. No livro “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos, no meio da caatinga árida, somente os juazeiros despontam na planície avermelhada como duas manchas verdes.
O umbuzeiro foi chamado por Euclides de Cunha como “árvore sagrada do sertão”. Sua raiz conserva água e produz uma batata que, em período de seca, é utilizada como alimento.
O jenipapo tem muitas utilidades. A polpa do fruto serve para fazer licor, refresco, vinho, refrigerantes e doces. Os mais velhos se lembram muito bem do licor de jenipapo servido pelo prefeito Odorico Paraguaçu no seriado “O bem-amado”. O nome dessa árvore é de origem indígena e significa “fruto que serve para pintar”. Os índios utilizavam a tintura de jenipapo para pintar o corpo.
A castanheira-do-pará está entre as maiores árvores da Amazônia, chega a atingir 50 metros e pode viver mais de 500 anos. A madeira é de excelente qualidade, mas o corte desta árvore está proibido por lei no Brasil.
O mogno serve, entre outras coisas, para fabricar instrumentos musicais. A madeira tem um aspecto castanho-avermelhado e é muito bonita. Atenção rabequistas, violinistas e violeiros, o corte do mogno está proibido no Brasil.
Este livro apresenta outras peculiaridades – informações importantes para quem gosta do “verde que te quero verde”.
- 2011 foi declarado o Ano Internacional da Floresta pelas Nações Unidas para estimular a reflexão e a ação humana em prol da conservação e gestão de todos os tipos de floresta do planeta.
- Livro verde é o livro impresso em papel certificado pelo Conselho Brasileiro de Manejo Florestal. “Árvores do Brasil: cada poema em seu galho” é um livro verde.
- Livro que traz o selo FSC (Forest Stewardship Council) Conselho de Manejo Florestal indica que o livro foi produzido com madeira legal e não acarretou a destruição de florestas primárias, como a Amazônia. Na penúltima página de “Arvores do Brasil...” (p.51), encontra-se um selo bem delicado com a marca FSC.
Falei pouco sobre os poemas, quis despertar a curiosidade dos leitores. Começamos com uma epígrafe do poeta Thiago de Mello e para encerrar estes versos de Lalau que se encontra no último poema. É dedicado ao mogno:
“Que entre mogno e homem
Jamais exista duelo
E que esta sublime amizade
Receba bênçãos e versos
De Thiago de Mello.”

sábado, 15 de outubro de 2011

O LENHADOR no Museu da Língua Portuguesa


O LENHADOR no Museu da Língua Portuguesa
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB)
Catullo não morreu: luarizou-se...
(Mário Quintana. Um Epitáfio para Catullo da Paixão Cearense)
Francisco Marques (Chico dos Bonecos) “poeta, contista e desenrolador de brincadeiras” lançou, no dia 8 de outubro, no Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, o livro” O Lenhador” (Editora Peirópolis, 2011), com ilustrações de Manu Maltez.
O autor do poema, Catullo da Paixão Cearense, nasceu no dia 8 de outubro de 1863, em São Luís do Maranhão. Aos dez anos, foi morar no sertão do Ceará e aos dezessete se mudou com os pais para o Rio de Janeiro, ali se fixando definitivamente. O sobrenome Paixão Cearense não adveio de ter morado no Ceará, é uma herança paterna, seu pai se chamava Amâncio José Paixão Cearense. Inicialmente, Catullo sentiu-se atraído pela música, começou tocando flauta, mas logo se voltou para o violão que se tornou um amigo inseparável. Seus poemas são muito musicais e se prestam para leitura em voz alta, como fez Francisco Marques no Museu da Língua Portuguesa.
“O lenhador” é considerado um texto ecológico, integra o primeiro livro publicado por Catullo – “Meu Sertão”. A respeito desse poema, Mário de Andrade assim se expressou: “O poema é digno do espantoso inventor de metáforas e com uma temática espantosamente contemporânea para um poema de 1918”.
Muito anos depois, Manoel de Barros que muito entende da natureza, das árvores e dos passarinhos, saudou o poeta com estas palavras:
“Oi Catullo! Sabemos pouco ou quase nada sobre o coração das árvores. Eu, de minha parte, só penso em desver este mundo tão malvado com a natureza. Mas para desver este mundo precisei inventar outro”.
Catullo, como Manoel de Barros, inventou outro mundo. No poema “O Lenhador,” a oralidade e o tom teatral são elementos marcantes – é como se o coração do narrador estivesse sangrando de dor diante do machado insensato. Catullo é, também, autor da canção “Luar do sertão”, considerado “o hino nacional do coração brasileiro”.
Há duas versões do poema “O lenhador”. A primeira traz a data de 1918 e foi escrita em linguagem matuta, a segunda é de 1921, a linguagem é mais erudita. Preferimos a versão de 1918, é espontânea e a linguagem mais saborosa.
Um registro da primeira estrofe dos poemas comprova o que afirmamos:
Um lenhado derribava
as árvre, sem precisão,
e sempre a vó li dizia:
“ Meu fio: tem dó das árvre,
que as árvre tem coração!”(1918)
.....................................................
Um lenhador derribava,
à toa, sem precisão,
tudo quanto ele encontrava
que fosse vegetação.

A sua pobre avozinha,
toda a noite e todo o dia,
(mas sempre falando em vão...)
sem se cansar lhe dizia:

“Meu filho.. Tem compaixão!
Respeita a imagem das árvores,
porque elas têm coração.” (1921)

O neto parecia indiferente aos conselhos da avó, desmatava, queimava as árvores, nada escapava do machado do lenhador: ipês cheiinhos de flores eram derrubados, nem uma velha laranjeira que tinha fornecido as flores para o casamento da avó foi poupada, ficou toda desgalhada. E a avozinha sempre repetindo: “Meu fio: tem dó das árvre,/ que as árvre tem coração!”
Um dia, quando “o tinhoso” derrubava um grande ipê, viu o sangue jorrando do tronco, assombrou-se e fugiu correndo. Foi perseguindo por todas aquelas árvores que tinha derrubado. O poema “O Lenhador” merece ser lido, decorado por inteiro e declamado para a família, para os amigos, “para a irmãzinha natureza...”
Não poderia deixar de fazer referências às belas ilustrações de Manu Maltez. A economia das cores – apenas o cinza e o vermelho – denuncia, respectivamente, a morte das árvores e as feridas abertas pelo machado impiedoso do lenhador.
Alberto Manguel, no livro “Diário de Lecturas”, afirma que há livros que lemos com reverência, com respeito, livros que ficam gravados na nossa memória. “O lenhador” é um desses livros.
Quer saber mais sobre este livro, sobre a vida de Catullo, sobre o que disseram os biógrafos? Leia-o.

Suas mais famosas composições são Luar do Sertão (em parceria com João Pernambuco), de 1908, que na opinião de Pedro Lessa é o hino nacional do sertanejo brasileiro, e Flor amorosa, composta juntamente com Joaquim Calado em 1867. Também é o responsável pela reabilitação do violão nos salões da alta sociedade carioca e pela reforma da ´modinha´.




terça-feira, 4 de outubro de 2011

SER ÍNDIO: UMA ATITUDE DE CORAGEM E SUPERAÇÃO


SER ÍNDIO: UMA ATITUDE DE CORAGEM E SUPERAÇÃO
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB)

Ao escrever, dou conta da minha ancestralidade,
do caminho de volta,
do meu lugar no mundo.
(Graça Graúna)

O escritor Daniel Munduruku esteve em João Pessoa e participou do II Seminário de Leitura na Rede (15 e 16 de setembro de 2011), realizado no auditório da Federação das Indústrias (SESI). De forma descontraída, o professor/filósofo dialogou com professores e mediadores de leitura e explicou o que ser índio no Brasil atual.
Filho da nação Munduruku, natural de Belém do Pará, Daniel Monteiro Costa adotou o sobrenome de Munduruku em homenagem a seu povo. Na conversa com o público, relatou que quando era criança tinha vergonha de ser índio. Na escola, os colegas diziam que índio era habitante da selva, da mata, e que se parecia com os animais. O menino ouvia essas histórias, sofria, e não podia negar sua origem – tinha cara de índio, cabelo de índio e pele de índio, chegou a desejar não ter nascido índio.
Mas, sempre existe um mas nas histórias, quer sejam reais, quer sejam fictícias, apareceu o avô que procurou mostrar ao menino Daniel a beleza e a riqueza dos povos indígenas e o que esse povos representavam para a sociedade brasileira. Hoje reconhece que o avô tinha razão. Quando deixou a aldeia e foi estudar e morar em São Paulo assumiu o compromisso de divulgar o modo de ser e de fazer dos índios brasileiros. E vem cumprindo muito bem a promessa.
Os inúmeros livros que já publicou sobre a cultura, os mitos, as histórias indígenas, as palestras que tem proferido em seminários, congressos, encontros de literatura infantil, feiras de livros, tudo atesta o trabalho de um escritor verdadeiramente comprometido com seu povo.
O livro “Coisas de Índio”, versão infantil e adulto (Ed. Callis), oferece um amplo panorama sobre as comunidades indígenas do Brasil. Com este título –” Coisas de índio “-, o escritor procurou minimizar o valor negativo da expressão e trazer o rico universo indígena para conhecimento das crianças e dos adultos.
Em 2011, Daniel Munduruku publicou “Coisas de onça” (Ed. Mercuryo Jovem), com ilustrações de Ciça Fittipaldi.
O escritor é graduado em Filosofia e Doutor em Educação pela Universidade de São Paulo. Escreveu mais de 40 livros para crianças e jovens, conquistou vários prêmios no Brasil e no exterior. Mora em Lorena, interior de São Paulo, e desenvolve um trabalho com escritores indígenas com o objetivo de difundir a literatura produzida por esses povos.
Ciça Fittipaldi é artista plástica, formada em Arquitetura e Urbanismo e dedicou-se à Antropologia. É professora de Artes da Universidade Federal de Goiás. Seu compromisso com a literatura indígena adveio de uma rica experiência que teve nos anos 1990 quando viveu entre os índios Nhambiquara. A coleção Morena (Ed. Melhoramentos), textos e ilustrações de Ciça Fittipaldi, é um conjunto de livros que aborda os mitos mais representativos dos índios.
“Coisas de onça” reúne três histórias de onça contadas pelo velho pajé Bijau e pela velha Kulahã. Nas aldeias, é costume os velhos contarem histórias para os mais novos, eles são considerados os “guardiões da memória”.
“A onça e o coelho esperto” é uma variante de “O Bicho Folharal”, conto recolhido por Gustavo Barroso e registrado por Câmara Cascudo em “Contos Tradicionais do Brasil”. No conto de Gustavo Barroso, o espertinho da história é a onça que engana a raposa. No conto indígena, o coelho consegue enganar a onça, mas o artifício usado pelos animais (onça e coelho) é quase o mesmo, lambuza-se de mel de abelhas e conseguem ludibriar o inimigo.
Kulahã contou a história de “A onça e a raposa”. Esta é a mesma versão de “O Bicho Folharal”, até os animais protagonistas são os mesmos – a onça e a raposa.
O terceiro conto “A onça e o veado” conta como esses dois animais construíram uma casa. O veado limpa o terreno para construir sua casa. No outro dia, quando volta para dar continuidade ao trabalho, encontra forquilhas e paus amarrando a casa e assim sucessivamente. Todo dia alguém colocava mais alguma coisa e o veado atribuiu o fato a Tupã. Só quando terminou a construção, o veado descobriu que tinha sido a onça que o havia ajudado e o jeito foi conviver com este animal que não merecia muita confiança, mas chegou um momento que o medo dominou e não foi mais possível a convivência. Resultado: abandonaram a casa.
Para escrever estas histórias, Daniel Munduruku fez pesquisas nos “Contos Populares” de Sílvio Romero, nas “Lendas de árvores e de plantas” de Altimar Pimentel e em outros livros que contam histórias da literatura oral e popular.
“Bem poucas palavras” é o texto introdutório do livro e Daniel Munduruku termina suas palavras com este pedido que transcrevemos:
“Aqui fica registrado meu pedido a todos os leitores que, ao tomar contato com este texto, elevem seu pensamento ao Criador, agradecendo pela sabedoria que estes antepassados deixaram escrita na memória da gente brasileira”.
Os livros “Coisas de índio”, nas duas versões – criança e adulto, podem ser encontrados na livraria Esquina das Letras.

Moçambique: um país tão longe e tão perto


Moçambique: um país tão longe e tão perto
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB)

escrevo mediterrâneo
na serena voz do Índico.
(Mia Couto. Poema Mestiço)

Moçambique fica na costa oriental da África Austral, do outro lado do continente africano, e integra o grupo de países de língua portuguesa. Conseguiu a independência política de Portugal em 1975 depois de muitas lutas, tornando-se uma república multipartidária. É sobre este país, sua gente, suas histórias, que o escritor Júlio Emílio Braz escreveu “Moçambique” (Ed. Moderna, 2011).
O livro se compõe de textos adaptados e recontados por Antônio César Gomes Sobreira, pesquisados nos seus cadernos de viagens e diários. Gomes Sobreira nasceu em Portugal, em 13 de abril de 1915. Saiu de Portugal com um ano de idade, acompanhou os pais e permaneceu por quatro anos na colônia portuguesa de Moçambique. O pai era engenheiro e foi trabalhar naquele país. Com apenas dois meses de permanência em Cazula, uma aldeia do alto Zambeze, a mãe faleceu de causa desconhecida. Quatro anos depois, o pai resolveu enviar o filho para Portugal para a casa de um tio materno, aí foi criado e educado. Estudou na Universidade de Coimbra e se tornou um proeminente escritor e lingüista, só retornou a Moçambique depois de adulto. Faleceu em 14 de agosto de 2007, na cidade de Nampula.
Na apresentação do livro, Júlio Emílio Braz explica que o interesse pela África começou quando lançou os olhos para aquele continente à procura de suas próprias origens. No processo de auto-descobrimento, se voltou para os países que apresentam identidades étnicas e culturais com o Brasil, como Cabo Verde, Guiné Bissau, Angola, Timor Leste, este último em plena Ásia, e Moçambique.
Vamos começar nossa viagem pelas histórias e contos moçambicanos, utilizando-se dos escritos do escritor, professor, folclorista e lingüista Antônio César Gomes Sobreira. Foram compiladas dezessete histórias. Nas Notas Finais do livro, o leitor encontra a biografia de Antônio César Gomes Sobreira, Bibliografia, O que é Moçambique? Dados sobre o autor e a obra.
A maioria dos contos é apresentada em prosa, mas encontramos um poema – “O filho desobediente” e uma peça teatral infantil, adaptada de um conto chuabo – “O coelho e a festa dos animais com chifres”.
O poema foi coletado num hospital de Nhamatanda durante a guerra civil, em meados de 1981, e publicado no livro “Gorongosa – Poemas para crianças inteligentes, de Antônio Sobreira, Livros da Nação. Sofala. Moçambique, 1994.” É um poema narrativo e conta a história de uma mulher que não tinha filhos. Aí a mulher teve uma ideia – resolveu criar um menino com pedaços de madeira e barro. Depois que terminou o trabalho, pediu-lhe que não brincasse longe de casa. A criança cresceu e começou a se aventurar e sair para mais distante. Veio a chuva e começou a dissolver o menino. A mãe ainda conseguiu salvá-lo nas primeiras vezes e reconstituí-lo, mas como as fugas aconteciam com freqüência um dia não foi possível refazer o filho querido que se desmanchou para sempre.
“O coelho e a festa dos animais com chifres” é uma peça adaptada de um conto chuabo. Em nota de rodapé, vem esta explicação: “Povo chuabo – concentra-se no centro sul da província de Zambezia, Moçambique, até a fronteira com o Maluí. O nome Chuabo significa “povo forte”, pois esse grupo ocupa as imediações do que foram os principais fortes portugueses no período da colonização.” (p.61)
A peça teatral envolve uma festa na floresta na qual só podia participar animais com chifres. O coelho resolve participar da festa e arranja uns chifres colocando-os na local das orelhas. A coelha, sua mulher, insiste para que não use esse artifício, pois poderia ser descoberto. Mas o coelho é insistente e não atende ao pedido. Vai à festa, bebe, dança e brinca com todos, mas no fim é desmascarado pelos animais chifrudos e recebe uma boa sova. Essa peça/conto apresenta afinidades com o texto popular “A festa no céu”, muito difundido no Brasil.
Os outros contos têm como protagonistas macacos mentirosos, amigos desleais, um gato corajoso e uma moça que nunca fala. Cada conto vem de uma região diferente de Moçambique. As notas de rodapé indicam o título do livro do professor Gomes Sobreira de onde foram retiradas as histórias.
O livro é dedicado à irmã Maria Jacinta de Souza, freira de uma congregação religiosa com sede em Maputo. Ela prestou uma inestimável ajuda a Júlio Emílio Braz na produção deste livro.
O escritor brasileiro costuma se apresentar nos colégios e contar histórias para as crianças. Em uma das visitas que fez a São Paulo, esteve em um colégio de freiras e soube que a congregação possuía um colégio na cidade de Maputo. As conversas com as freiras levaram-no a entrar em contato com a irmã Maria Jacinta de Souza, diretora do colégio de Maputo, que lhe enviou um rico material com lendas e mitos naturais de Moçambique.
Durante as explicações dadas pelo autor, encontramos inúmeras referências ao poeta Fernando Pessoa. Nas palavras que encerram o livro, aparece esta pergunta: “Cada um tem o Alberto Caeiro que merece ou pode ter, não é mesmo?” (p. 144)
Antônio César Gomes Sobreira e irmã Maria Jacinta – será que eles existiram mesmo? Somente quando terminei de ler o livro fiquei sabendo o que era real e o que era fantasia. Para desvendar o mistério, é necessário a leitura do livro.

domingo, 25 de setembro de 2011

Biblioteca Nacional: um tesouro inestimável


Biblioteca Nacional: um tesouro inestimável
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB)

O livro é uma extensão da memória e da imaginação.
(Jorge Luis Borges)

A Biblioteca Nacional, também chamada de Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, está localizada na Avenida Rio Branco, 219, Praça da Cinelândia. No dia 29 de outubro de 2010, completou 200 anos de existência. A história dessa biblioteca foi contada por Luciana Sandroni no livro “Ludi e os Fantasmas da Biblioteca Nacional” (Ed. Manati, 2011), que recebeu ilustrações de Eduardo Albini.
Luciana Sandroni já escreveu vários livros para crianças. “Ludi e os Fantasmas da Biblioteca Nacional” integra a série de livros de muito sucesso, destacando-se” Ludi vai à praia”, “Ludi na TV” e” Ludi na revolta da vacina”. Por este último livro, a autora recebeu o prêmio Carioquinha da Prefeitura do Rio de Janeiro e o prêmio O Melhor para Criança da FNLIJ. Com “Minhas memórias de Lobato”, conquistou o prêmio Jabuti.
O leitor deve estar curioso para saber como surgiu a Biblioteca Nacional. A história é longa, requer pesquisas, mas com o auxílio de Luciana Sandroni tudo se torna mais fácil. A história vai começar...
D. João I, rei de Portugal, e fundador da dinastia de Avis, foi o idealizador da primeira biblioteca ou “livraria” de Lisboa, denominação dada antigamente às bibliotecas em Portugal. Esse monarca era amante de obras raras e adquiriu muitos livros para o acervo da biblioteca. Em 1755, ocorreu em Lisboa um terremoto que destruiu grande parte dos livros da biblioteca. Alguns anos mais tarde, D. José I, outro rei de Portugal, procurou refazê-la adquirindo novas aquisições de obras raras.
Quando Napoleão Bonaparte invadiu Portugal, a família real se transferiu para o Brasil e, no sufoco da fuga, os livros da biblioteca que estavam encaixotados para embarque ficaram esquecidos no porto, somente dois anos depois chegaram ao Brasil.
A Biblioteca Nacional foi criada em 1810 por D. João VI e funcionou, inicialmente, no prédio da Ordem Terceira do Carmo, que ficava nas proximidades do Paço Municipal. Antes de se instalar definitivamente no prédio da Avenida Rio Branco (1910), a biblioteca passou por outros lugares. Chegou a hora de acompanhar a família Manso e visitar a atual Biblioteca Nacional.
A família Manso, criação da escritora Luciana Sandroni, é constituída pelo casal Marcos e Sandra, pelos filhos Ludi, Rafa e Chico, além de Margarida, auxiliar dos trabalhos domésticos, carinhosamente chamada de Marga.
Sábado foi o dia escolhido para visitar a Biblioteca Nacional. Enquanto tomavam café, Dona Sandra começou a falar sobre as relíquias guardadas na Biblioteca, todos ouviam com atenção, estavam curiosos. Os meninos já imaginavam que naquele prédio antigo devia habitar fantasmas e pensavam em aventuras com esses seres cheios de mistérios.
A visita tem início com a descrição da biblioteca – um prédio em estilo eclético, que é uma mistura de vários estilos da arquitetura – clássico, medieval, barroco. O guia da visita foi o senhor Botelho, “um senhor gordinho, de gravata borboleta, que parecia saído de um filme da década de 1940”. (p.37)
Depois da descrição do prédio, o que mais chamou a atenção dos visitantes foi o salão enorme, todo de mármore e cheio de colunas, uns lustres muito bonitos e uma escadaria coberta por tapete vermelho. É um prédio de quatro andares e no teto se avista um vitral todo colorido, vindo da França. A biblioteca parece um verdadeiro palácio.
No acervo da biblioteca, além de muitos e muitos livros há outras preciosidades que a família Manso vai descobrindo aos pouquinhos. Na Sala dos Periódicos, há várias estantes e aparelhos de microfilme. Lá se encontram jornais antigos e contemporâneos. São 9 mil jornais de todos os estados do Brasil. Eles estão microfilmados e alguns digitalizados. É possível ler o exemplar número 1 do “Jornal do Brasil” e também o número 1 do” Diário de Pernambuco” que traz a data de 1825, o jornal mais antigo da América Latina.
Na Sala de Iconografia, estão os livros que possuem mais imagem do que texto. Nesta sala se encontram, ainda, desenhos, caricaturas e gravuras de artistas famosos, como Debret e Rugendas. Há, também, fotos de Marc Ferrez e de muitos fotógrafos que registraram imagens do Brasil de um tempo passado.
Na sala 4, chamada Sala dos Manuscritos e Cartografia, há manuscritos importantíssimos, como o projeto da Lei Áurea, o processo criminal de Tiradentes, as cartas de D. Pedro I para a Marquesa de Santos e os preciosos manuscritos de Machado de Assis e Euclides da Cunha, além da partitura original de “O Guarani”, de Carlos Gomes. Todas essas preciosidades não podem ser manuseadas, só é possível conhecê-las na internet.
A visita é marcada pela presença de fantasmas de escritores, apagar de luzes, barulhos estranhos, muita coisa fruto das artimanhas da pequena Ludi que gosta de armar confusões.
A Biblioteca Nacional é uma das maiores do mundo. Se os argentinos se orgulham de Buenos Aires ter um elevado número de livrarias, os brasileiros se jactam, para usar um termo caro ao escritor Jorge Luis Borges, de ter a maior e melhor biblioteca da América Latina.
Para saber mais sobre a Biblioteca Nacional, indicamos a leitura do livro “Ludi e os Fantasmas da Biblioteca Nacional”. É um livro divertido e muito informativo.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

lima barreto para jovens

Lima Barreto para jovens
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB)
As glórias das letras só as têm quem a elas se dá inteiramente; nelas, como no amor, só é amado quem se esquece de si inteiramente e se entrega com fé cega.
(Lima Barreto. Os Bruzudangas)
Clara dos Anjos e outros contos (Org. Ivan Marques. Ed. Scipione, 2011) reúne oito contos de Lima Barreto ilustrados por Marlette Menezes. O livro traz notas e textos críticos do professor de Literatura Brasileira da USP, Ivan Marques. Os textos do ensaísta vêm acompanhados de fotografias do Rio de Janeiro do início do século XX e tratam da questão racial do Brasil. A sua leitura permite uma compreensão mais aprofundada do pensamento e da obra de Lima Barreto.
Nos primeiros anos do século XX, os escritores mais prestigiados eram o romancista Coelho Neto e o poeta Olavo Bilac. Os dois cultivavam uma linguagem “castiça, empolada”. Lima Barreto repudiava este tipo de linguagem. O maior desejo do escritor era ser lido por pessoas simples e escrevia como o povo falava. Enquanto aqueles que procuravam a “literatura dos dicionários” são hoje esquecidos, a literatura de Lima Barreto permanece atual.
O Rio de Janeiro, principalmente a zona suburbana, foi o cenário escolhido para suas histórias. Os protagonistas de seus romances e contos são negros, mulatos e mestiços, aqueles que estavam à margem das classes dominantes.
Ivan Marques observa que a literatura combativa e forte do escritor é um instrumento afiado de ironia e senso crítico. Ele tudo questiona e a todos caricaturiza, especialmente os políticos, os burocratas e os literatos de seu tempo.
O conto de abertura da coletânea, “Clara dos Anjos”, foi publicado em 1904, é o embrião do futuro romance que recebeu o mesmo título do conto. É o texto que marca o início da carreira do escritor.
Clara dos Anjos, a protagonista, é uma pobre mulata suburbana. Seu pai era carteiro, gostava de música, tocava flauta e compunha valsas, tangos e acompanhamentos para modinhas. Acostumada às musicatas do pai, cresceu apaixonada pela “melancolia dos descantes e cantarolas”. Estava com dezessete anos quando conheceu Júlio Costa, um exímio cantor de modinhas. Quando ouviu o seresteiro cantar, o coração de Clara bateu mais forte, e Júlio só tinha olhos para “os seios empinados, volumosos e redondos” da moça.
Depois de algum tempo de namoro às escondidas, de encontros fortuitos no quarto da namorada durante a noite, a moça estava totalmente presa aos caprichos do ousado amante. O resultado era previsível. Clara dos Anjos engravida e o seresteiro Júlio desaparece de sua vida. A moça resolve procurar a mãe do rapaz e conta-lhe o que aconteceu entre os dois. A mãe de Júlio recebe-a rispidamente e manda-a embora afirmando que não tinha filho para casar-se com gente da laia de Clara.
Diante da recusa da mãe de Júlio em aceitá-la como nora, Clara reconhece seu estado de inferioridade. Quando vai ao encontro de sua mãe, chora e entre soluços diz:
“Mamãe, eu não sou nada nesta vida”. (p.29)
O sofrimento de Clara dos Anjos é um reflexo pungente das humilhações sofridas por todos os mulatos nos primeiros anos do século XX, no Brasil, incluindo-se, aqui, o próprio Lima Barreto.
O último conto da coletânea é “Miss Edith e seu tio”. O local escolhido para o desenvolvimento do enredo é a pensão “Boa Vista”, situada na praia do Flamengo. A pensão era administrada por Madame Barbosa, uma viúva de cerca de cinqüenta anos, auxiliada por Angélica, o braço direito da patroa. Angélica era cozinheira, copeira, arrumadeira, e lavadeira “Preta fiel” e submissa às ordens da patroa, cultivava uma gratidão ilimitada por Madame Barbosa.
Havia muitos hóspedes na pensão. Dona Sofia, viúva de um comerciante português; Dr. Magalhães, um bacharel habilidoso que tentava conquistar Dona Sofia; Melo, um empregado público; doutor Florentino que gostava de citar os Evangelhos. Viviam todos em harmonia. Para quebrar a monotonia da pensão, apareceram novos hóspedes – um casal de ingleses, melhor, um tio acompanhado de uma sobrinha. Pediram quartos separados e receberam toda a atenção de Madame Barbosa. Eram estrangeiros, gente muita fina, ingleses, surgindo até certo ciúme por parte dos hóspedes mais antigos.
Tio e sobrinha eram discretos, pouco se comunicavam com os hóspedes, mas é a astuta Angélica quem vai descobrir a farsa, e vem esta observação da sábia mulher:
“– Que pouca vergonha! Vá a gente a fiar-se nesses estrangeiros... Ele são gente como nós...” (p. 103)
O que Angélica presenciou entre o tio e a sobrinha só o leitor lendo o conto para saber.
Neste conto, Lima Barreto exerce a função crítica da literatura. Na opinião de Ivan Marques: “revela a força dos fracos, o talento dos negros, a beleza selvagem do Brasil”. (p.13)
E os outros seis contos? Estão à espera do leitor.

domingo, 28 de agosto de 2011

Memórias de um menino pescador


Memórias de um menino pescador
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária – FNLIJ/PB)

Deixa-te levar pela criança que foste.
(José Saramago. Livro dos Conselhos)

A aldeia é Azinhaga, termo de origem árabe “as-zinaik” que significa “rua estreita”. O rio que banha a aldeia se chama Almonda. Foi aí que nasceu o escritor português José Saramago no ano de 1922.
Quando ainda não tinha dois anos, os pais migraram para Lisboa. A casa dos avós em Azinhaga não foi esquecida, era sempre visitada pelo menino, vinha passar férias na pequena cidade.
Em 2006, Saramago publicou “As pequenas memórias” (Companhia das Letras), um livro autobiográfico com retalhos de sua infância e parte da adolescência. Em 2011, a Companhia das Letrinhas lançou “O silêncio das águas”, com ilustrações de Manuel Estrada. Este último livro é um fragmento de “As pequenas memórias.”
Um dos divertimentos de Saramago quando ia visitar a avó, em Azinhaga, era pescar no rio Almonda. O livro “O silêncio das águas” narra a história de uma pescaria e as aventuras vivenciadas pelo menino.
A presença do rio é marcante na vida do escritor português. Saramago escreveu “Protopoema” que é uma homenagem ao rio de sua aldeia:
Do novelo emaranhado da memória, na escuridão de nós cegos, puxo um fio que me parece solto.
Devagar o liberto, de medo que se desfaça entre os dedos.
É um fio longo, verde e azul, com cheiro de limos, e tem a macieza quente do lodo vivo.
É um rio.
[...]
No livro “Viagem a Portugal”, o escritor lamenta que o Almonda seja, atualmente, um rio de águas mortas, envenenadas. Quando criança tomou muito banho em suas águas. Se não eram muito límpidas, não estavam contaminadas.
Vamos acompanhar Saramago e suas aventuras de menino pescador. Certa vez, munido dos apetrechos necessários saiu para pescar e ficou esperando que aparecesse algum peixe para ser fisgado. Nas horas de pescaria, gostava de ouvir o silêncio das águas.
De repente, sentiu um puxão muito forte, puxou, puxou e nada veio na linha. Anzol, boia, chumbada, tudo tinha desaparecido nas águas turvas do rio. Só podia ser um peixe muito grande o responsável por tamanho estrago. Surgiu, então, uma ideia, correu até a casa da avó, armou outra vez a vara de pescar e voltou para ajustar as contas definitivas com aquele peixe monstruoso.
Ao contar a avó o que lhe tinha acontecido e revelar que estava pronto para nova aventura, ela o alertou que seria difícil encontrar o peixe no mesmo local, mas o menino estava tão obstinado na operação de resgate que não ouviu, não podia ouvir e não queria ouvir o que avó lhe dizia.
Voltou ao rio, lançou o anzol e esperou. Foi nesse momento de grande expectativa que descobriu não existir no mundo “um silêncio mais profundo que o silêncio da água.”
Para saber se o menino conseguiu fisgar o peixe fujão, recomendamos a leitura de dois livros. Se for um leitor experiente, “As pequenas memórias”; se for leitor iniciante, irá gostar de ler “O silêncio das águas”.
Os vocábulos “experiente” e “iniciante” se referem às faixas etárias: fase juvenil, fase infantil.
Não poderia deixar de comentar as ilustrações de Manuel Estrada no livro “O silêncio das águas”. Para representar a expressão “boca do rio”, indicativo da foz do rio Almonda, Estrada desenhou uma boca enorme e uma enxurrada de água saindo pela boca.
As aves aquáticas, sempre espertas, ficam esperando algum peixe mais distraído, elas estão espalhadas em todas as páginas do livro. Muitas vezes se rivalizam com o pescador.
A avó retratada por Manuel Estrada é uma velhinha de óculos, avental, sentada em uma cadeira perto da janela fazendo crochê. Não falta um gato que brinca com um novelo de lã. As vovós modernas poderão reclamar do protótipo à moda antiga. Temos de retornar aos anos 30 e 40 do século XX, assim eram as nossas avós.
José Saramago é o único escritor de língua portuguesa que ganhou o Nobel de literatura. Com a publicação deste livro para crianças o escritor luso fica mais próximo do leitor infantil brasileiro.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Ronaldo Correia de Brito: crônicas para ler na escola”


Livros, autores, leitores
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB)
Tu escreves como o pássaro canta. Teu gorjeio?
Versos. Se não cantares, as manhãs seriam menos
vermelhas e os crepúsculos menos azuis.
(Tu Fu. Poeta chinês da dinastia de Thang. Trad. Cecília Meireles)

“Ronaldo Correia de Brito: crônicas para ler na escola” é um dos últimos livros da coleção de crônicas para jovens da editora Objetiva. O autor é bem conhecido dos leitores brasileiros. As peças infantis “O Baile do Menino Deus”, “Bandeira de São João” e “Arlequim de Carnaval”, parceria com Assis Lima, já percorreram várias regiões do Brasil e tem agradado a todos, indistintamente.
Conheci Ronaldo nos idos de 1990, na apresentação do espetáculo “O Baile do Menino Deus”, no Teatro Guararapes, em Recife. Convidei-o, algum tempo depois, para uma conversa com os alunos de Literatura Infantil na UFPB. O escritor atendeu nosso pedido e veio a João Pessoa. A versatilidade do médico/escritor encantou os alunos e o livro “O Baile do Menino Deus” foi comprado por muitos. Alguns já eram professores e encenaram a peça nas suas escolas. Depois, encontrei o escritor no Seminário de Literatura Infantil na FAFIRE, Recife. Nos últimos tempos, os encontros foram com os livros – “Faca”, O pavão misterioso” (recriação), “Galileia”. Agora, nos chega um livro de crônicas.
O livro contém 41 crônicas de facetas diversas. Algumas se caracterizam por certa dose de humor, outras relembram fatos passados na infância. Destacamos aquelas que se voltam para livros, autores e leitores.
“O leitor e a bibliotecária” remete para a cidade de Crato, onde o autor passou parte da infância e adolescência. Havia uma biblioteca da diocese. Foi lá que o menino leu muitos livros, quase todos voltados para o Cristianismo. E segue esta observação: ‘Imagino que sou a única pessoa do mundo que leu a coleção Grandes Romances do Cristianismo, de que fazem parte títulos como Perseguidores e Mártires, Quo Vadis?, Otávio, Papai Falot, Ben-Hur, Os Últimos Dias de Pompeia, Os Noivos e por aí afora.” (p. 83).
Quando completou 14 anos, teve acesso à biblioteca da Faculdade de Filosofia de Crato e conheceu livros melhores. A bibliotecária descobriu que o adolescente gostava de ler e sempre avisava quando chegava um livro novo. Foi essa bibliotecária modesta, com seu fetiche pelo objeto livro e sua admiração pelo jovem leitor, que o seduziu para a leitura.
Convidado para a Festa Literária Internacional de Paraty, pediram-lhe que falasse sobre seu livro de cabeceira. E veio o dilema – se fosse para falar sobre os livros que se lê antes de dormir, os livros que estão na mesinha de cabeceira, nesse caso não existe nenhum, o escritor não costuma ler à noite e não conserva livros no quarto de dormir. Qual seria esse livro, o livro marcante que, embora distante da cabeceira, é sempre relido? E veio a confissão: “História Sagrada, que nada mais é do que uma seleta de textos da Bíblia hebraica, apresentada em dois subtítulos: Antigo Testamento e Novo Testamento”. (p. 32).
Embora não seja católico praticante, Ronaldo considera que a “Bíblia, livro possível de ser lido de muitas maneiras, é um legado de histórias a que podemos recorrer sem crença religiosa ou com fé de um crente. Inesgotável, possui as imagens dos sonhos, a épica, a tragédia, a poesia, a invenção, a genealogia, a retórica e os números.” (p. 33-34).
Uma das últimas crônicas - “Memória e bytes” está relacionada com uma conversa que teve com um amigo sobre poesia. O autor tentou se lembrar de um poema de Tu Fu, poeta chinês da dinastia de Thang, que foi traduzido no Brasil por Cecília Meireles. A memória o traiu, só se lembrava da primeira estrofe. Prometeu ao amigo que mandaria o poema por e-mail. Quando chegou em casa, conseguiu reaver o poema e enviou para o amigo, mas houve desconexão na hora da remessa e o poema extraviou-se. Desistiu de enviar o poema pelo correio eletrônico. Resultado: qualquer dia, quando encontrar o amigo, irá recitar as estrofes restantes.
Aqui vão as duas primeiras estrofes do poema de Tu Fu, citado na crônica “Memória e bytes”. O poema, como um todo, só o leitor consultando o livro “Poemas chineses Li Po e Tu Fu”, tradução de Cecília Meireles. Ed. Nova Fronteira.
“Vinde! Em redor de minha casa canta um riacho alegre como a primavera. Vereis talvez gaivotas, se o vento se levantar.”
A estrofe seguinte que foi esquecida:
“Como jamais recebo visitas, não mando varrer as aleias
do meu jardim. Pisareis num tapete de folhas.”
[...]
O poema prossegue. Fica a sugestão para a leitura completa.
A epígrafe do texto “Livros, autores, leitores” é a primeira estrofe de um poema de Tu Fu, pinçado do livro traduzido por Cecília Meireles.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Edgar Allan Poe: uma mente brilhante




Edgar Allan Poe: uma mente brilhante
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB)

Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais,
E já quase adormecia, ouvi o que parecia
O som de alguém que batia levemente a meus umbrais.
“Uma visita”, eu me disse, “está batendo a meus umbrais

É só isto, e nada mais.”
(O corvo, primeira estrofe. Tradução Fernando Pessoa)

Jordi Sierra i Farra é catalão, nasceu em Barcelona, na Espanha. Amante da música foi, inicialmente, crítico musical. A partir de 1980, resolveu dedicar-se à literatura para jovens e já publicou cerca de 260 títulos. Em 2004, criou a Fundación Jordi Sierra i Fabra, na Espanha, e a Fundación Taller de Letras Jordi Sierra i Fabra para América Latina, na Colômbia. As duas fundações desenvolvem trabalhos sociais destinados aos jovens na área de promoção da leitura.
Jordi Sierra i Fabra vem publicando biografias romanceadas de grandes autores da literatura mundial. O livro Kafka e a boneca viajante (Ed. Martins Fontes, 2008) foi muito bem recebido pela crítica e ganhou o Prêmio Nacional de Literatura Infantil e Juvenil em 2007, concedido pelo Ministério de Cultura da Espanha. No Brasil, o livro foi traduzido por Rubia Prates Goldini e conseguiu o prêmio FNLIJ, 2009, como a Melhor Tradução para Jovem. Um comentário sobre este livro se encontra em “Livros à espera do leitor” (2009: 55-58).
Agora, o escritor catalão volta à temática da biografia romanceada e presenteia os leitores com o livro Poe: a vida brilhante e sombria de um gênio. José Rubens Siqueira foi responsável pela tradução e as ilustrações ficaram a cargo de Alberto Vásquez. O selo é da editora Ática, 2011.
Dividido em 10 capítulos, o leitor acompanha a trajetória de Poe, da infância aos últimos dias de sua vida, uma vida marcada por mortes prematuras de familiares, decepções amorosas e privações financeiras.
Edgar Allan Poe perdeu sua mãe quando contava apenas três anos. A mãe era uma artista de teatro e morreu aos 24 anos de tuberculose. O pai havia abandonado a família e Edgar, que era o segundo filho, foi adotado pelo casal John e Frances Allan. Com a adoção, o menino ganhou o nome de Edgar Allan Poe.
O menino Edgar, parafraseando a Bíblia, crescia em graça e sabedoria. Nas festas de aniversário, recitava A balada do último menestrel, obra do escritor Walter Scott. Era um poema muito popular na época. Todos olhavam encantados para aquela criança que revelava, desde muito cedo, pendores para a arte literária.
Quando estava com seis anos, a família dos pais adotivos viajou para a Escócia, terra do Sr. John Allan, e o menino acompanhou o casal. Durante os cinco anos de permanência na Escócia e em Londres, passou por três escolas e começou a escrever poemas. Como os negócios iam mal, John Allan resolveu voltar para os Estados Unidos.
Fixando-se em Richmond, Poe foi estudar na escola particular de Joseph Clarke, um professor irlandês irritadiço, mas amante do latim, língua utilizada em suas aulas. E foi a este professor que John Allan mostrou os primeiros poemas escritos pelo filho adotivo com o objetivo de saber se os poemas tinham algum valor e se podiam ser publicados. O professor desaconselhou a publicação dos poemas, alegando que o jovem poeta tinha apenas 11 anos, faltava-lhe amadurecimento literário.
Aos 14 anos, Poe apaixonou-se por Jane Stanard, uma senhora casada, 16 anos mais velha do que o futuro escritor. Foi um amor platônico que durou pouco. Jane Stanard gostava de conversar com o adolescente. Escutar a voz daquela mulher encantadora era algo fascinante. Conversavam sobre arte e literatura. Poe revelou certa vez:
“- Quero ser poeta, minha senhora”. (p.24)
Mas a vida de Edgar Allan Poe parecia marcada pelo fantasma da morte. Jane Stanard foi acometida de um tumor cerebral e, de repente, em apenas um ano, “Todas aquelas tardes de confissões, todos aqueles momentos mágicos, todos aqueles minutos, horas, dias...” (p.24) desapareceram para nunca mais. No túmulo de Jane Stanard, estava escrito na lápide: “Amada com devoção por seu esposo e filhos”. (p. 25) No silêncio, amargurado, triste com a partida da mulher amada, o jovem poeta repetiu baixinho: “E por Edgar Allan Poe”. (p.25)
O tempo tudo cura e Poe estava novamente apaixonado. A moça era uma vizinha, Elmira Royster, 15 anos, um ano mais velha do que Poe. Nova separação, desta vez por causa dos estudos. O pai resolveu colocar o filho para estudar em Charlottesville. Pouco tempo depois, morreu a mãe adotiva e Edgar estava novamente órfão. Órfão do carinho e das atenções de Frances Allan. Quando veio passar as férias em casa, outro golpe. Seu pai sentenciou:
“- Você não volta para a universidade”. (p. 28)
A partir desta data, começou a luta para conseguir emprego. Trabalha em jornais e revistas dos Estados Unidos, mas o que ganha é insuficiente para pensar em casamento. Mesmo assim, casa-se com a prima Sissy, esse fato não diminuiu as dificuldades financeiras. Em 1838, não era mais um desconhecido, era autor de alguns dos melhores contos publicados pela imprensa americana e um crítico muito ousado, mas nada parecia dar certo para aquele escritor inovador, iniciador de uma batalha contra o conservadorismo na literatura. A doença e morte da mulher, suas brigas constantes com os editores de jornais e revistas, tornou-o depressivo.
Edgar Allan Poe é considerado um mestre do conto, pai das narrativas psicológicas e de terror, precursor da literatura policial e da ficção científica, renovador do romance gótico e pioneiro da literatura americana. Sua influência se estende a escritores como Kafka, Borges, Lovecraft e Ray Bradbury. Foi uma mente brilhante.
Poe: a vida brilhante e sombria de um gênio traz ilustrações em preto e branco de corvos de tamanhos variados. Alguns tomam a página inteira, outros são minúsculos. Corpos de homens com cabeças de corvos promovem um encontro com o famoso poema de Edgar Allan Poe – The Raven.
O livro apresenta trechos do poema “O Corvo” (tradução de Fernando Pessoa), e trechos dos seguintes contos e poemas: “Manuscrito encontrado numa garrafa”, “A queda da casa de Usher”, “A máscara da Morte Escarlate”, “Ligeia”, “O coração denunciador”, “Os fatos no caso de monsieur Valdemar”
.

domingo, 7 de agosto de 2011

Histórias de Trem


Histórias de Trem
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB)

Antigamente
via-se o trem
rasgando a paisagem verde
resfolegando cansado...
(Cláudio Limeira. Réquiem para Maria Fumaça)

Trem de histórias – Antologia de contos juvenis (Caki Books Editora, 2011) reúne textos de autores e ilustradores associados da AEILIJ – Associação de Escritores e Ilustradores de Literatura Infantojuvenil. Compreende contos, crônicas e poesias. O trem é o personagem fulcral dessas histórias.
Antônio Nunes (Tonton), um dos integrantes da antologia, é paraibano de João Pessoa, professor da UFPE e autor premiado de livros para o público infantil e juvenil. É coordenador regional da AEILIJ em Pernambuco.
Trem de histórias traz de volta as lembranças das viagens de trem pelo interior do Brasil. Algumas vêm revestidas de um tom nostálgico. “O trem que não se foi”, de Alessandra Pontes Roscoe, é um bom exemplo; “Um trem para as meninas”, de Antônio Nunes (Tonton), retrata o cotidiano de uma família e o presente dado à filha – um trenzinho todo artesanal feito de madeira. A antiga parada de trem “Estação Ponte D´Uchoa” é motivo para divagações; “Trem de infância”, de Cláudia Gomes, é um poema de sabor bem mineiro; o bonde, primo-irmão do trem, é destaque no texto de JP Veiga – “O trilho”.
São 20 histórias que transportam o leitor para paisagens que só podem ser desfrutadas em uma viagem de trem. Alguns textos remetem a conhecidos poemas: Manuel Bandeira – “Trem de ferro”; Ascenso Ferreira – “Trem de Alagoas”; Marcus Accioly – “do trem-de-ferro”; Joaquim Cardozo – “Última Visão do Trem Subindo ao Céu” e Cláudio Limeira – “Réquiem para Maria Fumaça”.
As bonitas ilustrações do livro começam com uma xilogravura de um trem Maria Fumaça na capa. Esta ilustração nos lembra o poema de Ascenso Ferreira – “Trem de Alagoas” – um trem deslizando nos trilhos, soltando fumaça. Compondo a paisagem, um cajueiro carregadinho de frutos. Em terceiro plano, avistam-se bueiros de antigos engenhos. É uma ilustração saudosista e muito poética.
Identifiquei-me com a crônica de Luiz Antônio Aguiar – “Esse trem que me falta na lembrança” (Trem de histórias, p.55). Como o escritor, não conheci o trem na minha infância. Nasci e passei os primeiros anos de vida em uma pequena cidade do interior do Rio Grande do Norte despovoada de trens e de trilhos. Sinto a nostalgia de não ter viajado de trem na fase da aurora da vida.
Quando ouve falar em trem, Luiz Antônio Aguiar confessa que escuta o tchu-tchu do seu coração e bate uma saudade muito grande. Ele se recorda das músicas de Milton Nascimento e das cidades históricas de Minas Gerais – Ouro Preto, o convento de Caraça, tudo ali parece parado no tempo.
“Minha primeira viagem de trem” é o conto de Rosana Rios. A viagem foi feita na adolescência com um grupo de amigos. O trem saiu da estação Júlio Prestes e rumou para Mairinque, corria a década de 70. E foi um passeio inesquecível. Na volta, arranjou um namorado, companheiro de viagem.
As viagens de trem foram responsáveis por muitos encontros e desencontros, lenços balançando ao vento nas despedidas, choro das pessoas que ficavam nas plataformas, saudades e coração partido naqueles que iam em busca de novas aventuras.
Simone Pedersen conta uma história do ponto de vista de um maquinista de trem, o título é “O condutor”. Um trem turístico parte da Estação da Luz e vai para Santos. A viagem é demorada, com paradas para apreciar a paisagem. O trem anda por trilhas sinuosas, invade a privacidade da mata, desnuda flores, plantas, árvores e quedas de água. Para o condutor, esta é a melhor viagem da semana. As pessoas vão para um passeio, transbordam felicidade, “vão salgar a alma na praia”.
Uma pesquisa sobre o trem na poesia brasileira, trabalho desenvolvido com os alunos de Literatura Infantil na UFPB, me levou a muitas descobertas e amenizou o vazio deixado por essa saudade esquisita e inexplicável do trem que não povoou a minha infância.
O livro “Trem de histórias” veio relembrar os poemas que deram margem à pesquisa e reviver um período que deixou boas lembranças, lembranças poéticas.
Nota: No jardim da sede UBE/PE, Rua Santana, bairro de Casa Forte, existe um vagão antigo de trem que funciona como biblioteca. O vagão está cheio de livros e de sonhos.

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domingo, 31 de julho de 2011

O essencial de Kafka para jovens


O essencial de Kafka para jovens
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB)

Tudo que não é literatura me aborrece.
(Franz Kafka)

“Essencial Franz Kafka”, seleção, introdução e tradução de Modesto Carone (Penguin Companhia, 2011) é um livro que introduz o leitor jovem no mundo enigmático e fantasmagórico de Kafka. Contos, parábolas, aforismos e a novela “Metamorfose” integram este instigante livro. Cada texto vem antecedido de um breve comentário do tradutor que é profundo conhecedor da obra de Kafka. Dos 13 contos selecionados, dois nos chamaram a atenção - “O cavaleiro do balde” e “Na galeria”.
“O cavaleiro do balde” foi escrito no inverno de 1916. Nessa época, Kafka morava em Praga, na Rua dos Alquimistas, mas o conto só foi publicado em 1921 em um suplemento de Natal, jornal Prager Press, no dia 25 de dezembro. O texto pode ser lido como conto de fadas à maneira kafkiana ou um conto de Natal.
O protagonista é um homem anônimo que está sem carvão. O frio é intenso, mesmo assim ele arrisca sair de casa e vai até a uma carvoaria para pedir um pouco de carvão. Está sem dinheiro e caminha pelas ruas duras de gelo conduzindo um balde. Diante da porta de uma carvoaria, ele pára e pede:
“- Por favor, carvoeiro, me dê um pouco de carvão. Meu balde já está tão vazio que posso cavalgar nele. Seja bom. Assim que puder eu pago.” (p.130)
O carvoeiro diz que não está ouvindo bem e pede ajuda da mulher para atender a um freguês antigo. Ele o reconhece pela fala e sente-se tocado por aquela voz aflita. A mulher finge não ouvir a súplica do homem e grava bem estas palavras: “pago tudo, mas não agora, não agora”.
As duas palavras “não agora”, parecem um som de sino e se misturam de forma perturbadora ao toque do anoitecer da igreja vizinha. Sabendo que não ia haver pagamento, a mulher desamarra o avental e enxota o pobre homem. Diante da recusa do pedido, o cavaleiro diz em tom de solilóquio:
“Meu balde tem todas as vantagens de um bom animal de corrida, mas não resistência; ele é leve demais; um avental de mulher tira-lhe as pernas do chão.” (p.131)
E o conto termina de forma poética e nostálgica, com destaque para o pensamento do protagonista:
“E com isso ascendo às regiões das montanhas geladas e me perco para nunca mais”. (p.131)
Quem visita a cidade de Praga encontra, em uma das principais praças do centro, uma estátua de bronze com um cavaleiro cavalgando um balde, homenagem ao famoso conto de Kafka.
“Na galeria” é outro texto que merece um olhar mais atento. O conto foi escrito depois que Kafka visitou uma exposição de quadros de Picasso numa galeria de Praga na companhia do amigo Gustav Janouch. Janouch comentou com Kafka que o pintor espanhol distorcia deliberadamente os seres e as coisas. Kafka não concordou com a opinião do amigo e deu esta interpretação: “Ele apenas registra as deformidades que ainda não penetraram em nossa consciência”. E complementa: “A arte é um espelho que adianta como um relógio”.
Modesto Carone escreveu um longo ensaio sobre este minúsculo conto que foi publicado em “Novos Estudos CEBRAP”, 2008, com o título de “Na galeria, ou o realismo de Franz Kafka”.
Para Carone, Kafka estava “sugerindo que Picasso refletia algo que um dia se tornaria lugar-comum da percepção – não as formas, mas as deformidades”. (p.155)
Na percuciente análise deste conto, formado apenas por dois parágrafos, Carone discute aspectos do emprego verbal. No primeiro parágrafo, há predomínio do subjuntivo que em alemão, tanto quanto em português, designa a irrealidade, um estado de dúvida. No segundo parágrafo, a abundância de verbos no modo indicativo indica o espaço afirmativo da realidade.
Ainda é Carone quem assevera: “Tanto o primeiro parágrafo como o segundo têm o mesmo cenário e no fundo narram o mesmo acontecimento, embora as perspectivas sejam diferentes e a atmosfera dos dois não seja a mesma.” (p.157)
Os aforismos que se encontram neste livro foram reunidos a partir das conversas de Kafka com o poeta Gustav Janouch, autor do livro “Conversando com Kafka”, das anotações dos diários, escritos de 1909 a 1923-1924 e do período em que o pensador de Praga morou com a irmã Otla, em uma propriedade de Zürau.
Carone considera que este tipo de escrita testemunha a preocupação do escritor com a vida e a morte. Os aforismos também coincidem com o gosto de Kafka pela narrativa breve (contos, novelas, parábolas). 109 aforismos foram reunidos neste livro.
Apresentamos apenas uma parte mínima do rico universo kafkiano, o resto fica para o desvelamento dos leitores. Concluímos estas breves observações com este aforismo de Kafka:
“O verdadeiro caminho passa por uma corda que não está situada no alto, mas logo acima do chão. Parece mais destinada a fazer tropeçar do que a ser trilhada”. (p. 189)

sábado, 23 de julho de 2011

“Silenciosa algazarra” – a vertente crítica de Ana Maria Machado


“Silenciosa algazarra” – a vertente crítica de Ana Maria Machado
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB)

Crítica sempre faz falta. Um artista precisa se acostumar a ver seu trabalho ser comentado pelos outros, virar objeto de discussão de leituras alheias.
(Ana Maria Machado. Silenciosa Algazarra, p.269)

“Silenciosa algazarra: reflexões sobre livros e práticas de leitura (Companhia Das Letras, 2011) é o mais recente livro de Ana Maria Machado na vertente da crítica literária. O livro reúne quatorze ensaios com temas diversos: a censura, a prática da leitura com crianças em hospitais, aspectos da intertextualidade na literatura infantojuvenil, a importância da leitura, entre outros. Esses textos selecionados foram apresentados em congressos, seminários e palestras no Brasil e no exterior. Ainda consta a monografia inédita” Contador que conta um conto faz contato em algum ponto”, texto premiado pelo Instituto Goethe, no concurso comemorativo ao bicentenário dos irmãos Grimm.
Na monografia que conquistou o prêmio do Instituto Goethe, a escritora discorre, inicialmente, sobre aspectos teóricos dos contos populares e depois compara contos recolhidos pelos irmãos Grimm com as versões brasileiras desses contos apresentadas por Monteiro Lobato no livro “Histórias de tia Nastácia”.
No ensaio “A importância da leitura”, apresentado no Encontro Nacional “Crer para Ver”, São Paulo (novembro de 2008), Ana Maria Machado remete o leitor a ideias prazerosas sobre o ato de ler. Para Clarice Lispector, era uma “felicidade clandestina”; Jorge Luis Borges imaginava que “o paraíso era uma biblioteca infinita”; Virgínia Woolf confidenciou, numa carta, que “o céu deve ser uma longa leitura contínua, sem que a gente nunca se canse”; Katherine Mansfield garantia que não havia “maior alegria que a de ler”.
Diante das opiniões de escritores mundialmente consagrados, o que nos diz Ana Maria?
“A leitura abre horizontes mentais e emocionam de forma fantástica. Faz nossa inteligência crescer e permite que nossa passagem pelo mundo seja mais útil para nós mesmos, nossa família, nossa comunidade, nossa sociedade, toda a espécie humana”. (p.27)
Em “História em hospitais”, a escritora relata a experiência que teve com a leitura de alguns de seus livros para crianças hospitalizadas e dá exemplos com livros de outros autores. Ela cita o livro de Graciliano Ramos – “A terra dos meninos pelados” como um livro capaz de fascinar a garotada que passa pela experiência da calvície devido à quimioterapia.
A leitura para crianças internadas em hospitais, nas palavras de Ana Maria, “pode lhes revelar formas de enfrentar seus problemas ou simplesmente distraí-las”. (p.63)
“Nas asas da liberdade” foi fruto de uma palestra realizada em Lima (Peru), no 1º. Congresso Internacional de Literatura Infantil e Juvenil, em 2010.
Além de problemas relacionados com a censura, a ensaísta apresenta depoimentos pessoais que revelam o espírito de independência que acompanha a escritora desde pequena.
A revelação que se segue denota como foi o primeiro contato da escritora com a censura:
“Meu primeiro contato com a censura não foi como criadora, e sim como leitora: na realidade antes de ser leitora, durante a primeira ditadura que vivi, a de Getúlio Vargas, que governou o Brasil de 1930 a 1945. Eu nasci na última semana de 1941.” (p. 197)
Ana Maria gostava muito das histórias de Monteiro Lobato que eram lidas por seus pais em casa. Naquela época, não sabia que os livros de Lobato sofriam variados graus de repressão e recebia orientação dos pais para que não falasse sobre essas leituras.
Nos últimos da ditadura Vargas, o pai de Ana Maria, que era jornalista no Rio de Janeiro, escreveu um artigo no jornal que o censor do governo não aprovou. Por conta disso, o jornal foi apreendido e o pai foi preso. Naquela ocasião, Ana Maria estava na companhia do pai e os dois foram levados para o cárcere. As autoridades permitiram que a menina ficasse com o pai por algumas horas, depois o tio foi chamado e levou-a para casa. Contava apenas três anos.
Algum tempo depois a família se mudou para Buenos Aires, e Ana Maria, que já estava com seis anos, foi matriculada em uma escola.
Um dia, a professora mandou fazer um desenho sob o título: “Esta es mi bandera”. Como brasileira, a menina desenhou a bandeira brasileira e cunhou a frase: “Esta es mi bandera”. A professora explicou que ela devia desenhar a bandeira argentina. Veio um novo desenho, agora sob o título: “Esta es tu bandera”. Novo protesto da professora e a ordem: desenhe a bandeira da Argentina com o título sugerido. A reação da pequena foi desenhar duas bandeiras e a brasileira maior do que a da Argentina. Por este ato de rebeldia, a menina foi expulsa da sala de aula e o pai chamado à diretoria. Para continuar estudando naquele colégio, o pai pediu a interferência do embaixador brasileiro na Argentina.
Quando voltou ao Brasil, ainda criança, foi estudar em um colégio religioso. Certa vez, no pátio, foi feita uma fogueira dos livros de Monteiro Lobato. A mãe não deixou que a menina levasse os livros de Lobato que tinha em casa. Curiosa como toda criança, ela perguntou à professora o motivo da queima dos livros e ouviu esta explicação: Lobato era comunista e alguns livros dele falavam mal da religião e desrespeitava a igreja.
Esses acontecimentos levaram-na a refletir alguns anos mais tarde que “censura não parte somente de governos ditatoriais, ela está associada, também, a fundamentalismos religiosos ou políticos.” (p. 200)
Mas, foi em 1969 que a escritora sentiu os efeitos reais da censura. Eram os anos de chumbo da ditadura militar no Brasil. Foi presa e proibida de dar aulas na universidade. Partiu para o exílio. Na Europa, durante três anos, enviou contos infantis para a revista Recreio. Nascia, assim, a escritora Ana Maria Machado.
O período da ditadura militar foi muito fértil para os escritores de literatura infantil no Brasil. São palavras da autora: “... a literatura infantil corria em trilhos mais discretos. Era coisa de mulher e de crianças, não era algo que esses generais lessem e ouvissem em toda parte, como a música popular.” (p.204/205).
É compreensível que, nesse período, Ruth Rocha tenha publicado a história do “Reizinho Mandão” e Ana Maria “Era uma vez um tirano”. Nas entrelinhas, evidenciava-se o protesto contra os governos autoritários, mas eram livros para crianças...
Há outros ensaios que merecem leituras e reflexões. Fica a sugestão da semana para os leitores adultos.

domingo, 17 de julho de 2011

Professoras que marcaram vidas






Professoras que marcaram vidas
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB)

Um bom professor revela o mundo inteiro às crianças, torna-lhes possível aprender a usar suas mentes e, de muitas maneiras, prepara-as para a vida.
(Golda Meir. Minha Vida)

Esta semana trago para os leitores a história de duas professoras – uma fictícia, outra real. “A professora encantadora”, de Márcio Vassalo (Ed. Abacatte, 2010), ilustrado por Ana Terra, é um texto ficcional. “Doses de sonho”, de Eloí Bocheco, texto premiado no Concurso “Leia Comigo” (FNLIJ, 2011), é uma história real e pode ser lida no blog “Sala de Ferramentas”.
Maísa, “A professora encantadora”, era uma professora especial. Olhava para tudo com olho de “assombro e estranheza”, suas aulas eram agradáveis e surpreendentes. Quando estava dando aulas, não queria ser interrompida e colocava este aviso na porta: “Não entre, estamos suspirando”. Suspirar significava diminuir o medo no coração, dividir silêncio e multiplicar poesia no pensamento.
A professora Maísa ensinava os alunos a não ter medo de errar, a escutar, a esperar, a pensar. Ela não tinha pressa para nada e explicava que as surpresas deliciosas estavam guardadas nas coisas simples da vida.
Esta professora tinha uma maneira cativante de ensinar – ela mostrava aos alunos que estranho pode ser só o que a gente ainda não conhece; que alguém só sabe ensinar quando não consegue parar de aprender; que errar pode ser uma forma de caminhar.
A ilustradora Ana Terra, responsável pelas ilustrações do livro, apresenta uma professora bem moderna. Maísa usava bolsas multicoloridas e parecia estar sempre flutuando. Era uma professora meio maluquinha – subia em uma escada para dar certas explicações, escrevia bilhetes na porta da sala para não ser interrompida, tinha sempre um poema para dar de presente aos alunos.
Ana Schirley lecionava na Escola Juçá Barbosa Calado, na cidade de Capinzal, meio-oeste de Santa Catarina. Chegava à escola com os braços cheios de livros. Havia o livro didático de Antônio Ravanelli, mas era pouco usado, o que ela gostava mesmo era de ler poesias, crônicas e capítulos de livros. Lia em voz alta e, naquelas sessões de leitura, os alunos sentiam que as palavras tinham poder, eram arrebatadoras. A própria professora se deliciava com o que lia.
Os textos que a professora Ana Schirley trazia para a sala de aula eram datilografados em estêncil, na máquina de escrever, e impressos em mimeógrafo a álcool. Cada aluno recebia uma cópia, depois a voz apaixonada da professora invadia a sala e as palavras saíam macias como seda.
“O anjo da noite”, na visão poética de Cecília Meireles, era um dos textos preferidos pela professora. A mestra cuidava da memória literária e abria ruas sem fim na imaginação dos seus alunos.
De Cecília Meireles, apresentou “Ou isto o aquilo”, uma coletânea de poemas para crianças. Era um livro mágico. Trazia textos de outros poetas para a sala de aula. Ainda, lia o “Sermão da Sexagésima”, do padre Antônio Vieira. Fazia uma escolha criteriosa de textos para suas aulas.
A crônica “O Cajueiro”, de Rubem Braga, na leitura da professora, encantava a turma toda. Ele caía devagarinho, com muito cuidado para não machucar a casa, e estava cheio de flores. Era setembro. A carta da irmã do cronista esclarece este detalhe.
Eloí mora em uma região onde não se vê um cajueiro, mas confessa que era apaixonada por aquela árvore, sentimento afetivo despertado pelo texto de Rubem Braga que ganhava mais vida quando era lido por Ana Schirley. ( Esta crônica, lembrada por Eloí, levou-me ao passado e veio na minha memória a crônica “A corujinha da madrugada” do mesmo autor e de surpreendente beleza.)
O chão da escola era carcomido, as carteiras riscadas, as vidraças em pedaços, a sala era feia, o quadro de giz esburacado, mas tudo isso era esquecido. Os alunos ficavam seduzidos pelos rituais de leitura empregados por aquela professora dedicada e comprometida com os verdadeiros ideais da educação.
Nas palavras de Eloí Bocheco: “as aulas eram noturnas, mas dentro de nós, o sol brilhava”.
Golda Meir, no livro “Minha Vida”, revela um grande sonho que teve aos quatorze anos - gostaria de ter sido professora por considerar essa profissão a mais nobre e mais satisfatória de todas as profissões.
Maísa, a professora idealizada por Márcio Vassalo, e Ana Schirley, a professora real de Eloí Bocheco, representam o ideal almejado um dia por Golda Meir.