Ocorreu um erro neste gadget

quinta-feira, 21 de março de 2013



HISTÓRIAS EM QUADRINHOS (HQ): a junção verbovisual
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB)  


            As HQs, como são chamadas por seus fãs brasileiros, nasceram com a industrialização do entretenimento popular no mundo ocidental.
            (Carlos Patati e Flávio Braga. Almanaque dos Quadrinhos – 100 anos de uma mídia popular).


            As primeiras HQ surgiram no final do século XIX, nos Estados Unidos. Os quadrinhos eram publicados, inicialmente, nos suplementos dominicais dos jornais como histórias completas. No Brasil, a revista Tico-Tico, lançada em 1905, reproduzia histórias em quadrinhos que eram muito apreciadas pelas crianças. Nos anos 1930, os personagens Bolão, Reco-Reco e Azeitona, idealização de Luiz Sá, se tornaram familiares dos pequenos leitores e figuravam nas páginas da citada revista. Depois, surgiram outros autores brasileiros que criaram personagens marcantes nesse gênero – Maurício de Sousa com a turma da Mônica e Ziraldo, criador da turma do Pererê, para citar apenas dois escritores que se dedicam à publicação de HQ infantis no Brasil.
            Em nossos dias, além das inúmeras narrativas que circulam nas bancas de revistas, a adaptação dos clássicos vem ocupando expressivo espaço nas editoras. Recentemente, “O Quinze”, de Rachel de Queiroz, foi adaptado pelo cartunista e artista plástico paraibano Shiko. Contos e romances de Machado de Assis também aparecem em HQ. Os educadores esperam que esse modo facilitado de ler os clássicos incite a curiosidade do leitor para a leitura integral desses textos.
            Ana Maria Machado, no livro “Como e por que ler os clássicos universais desde cedo”, afirma que o primeiro contato com um clássico poderá se realizar com a leitura de uma adaptação bem elaborada e atraente.  As HQs, quando atendem a esse requisito, são bem-vindas e a leitura enriquece o universo literário infantojuvenil. .
            Para comprovar a boa aceitação das HQs entre crianças e jovens,  a editora Companhia das Letras  inseriu, em seu catálogo, o selo “Quadrinhos na Cia” e já publicou vários clássicos nacionais e internacionais nessa modalidade.
            Um bom exemplo de livro que atrai o leitor que gosta de HQ é “Segredo de família”, (Quadrinhos na Cia, 2013), de Eric Heuvel, com tradução de Érico Assis. Este livro contou com a colaboração da Casa Anne Frank e o Museu da Resistência da Frísia.
            Eric Heuvel é holandês, vive em Amsterdam, é considerado um dos melhores cartunistas holandeses da atualidade. Formado em História, dedica-se, principalmente, aos quadrinhos educativos, trabalhou durante alguns anos na Casa Museu Anne Frank.
            ‘Segredo em família” é uma envolvente “graphic novel” que apresenta duas histórias: uma atual e outra que se refere a fatos ocorridos durante a Segunda Guerra Mundial. Para dar mais verossimilhança à sua história, Eric Heuvel lembra a festa do dia 30 de abril, Dia da Rainha, uma comemoração que ocorre na Holanda. É uma festa que reúne diversos eventos – música, comes e bebes, venda e troca de mercadorias. As pessoas saem às ruas para comemorar esta data festiva com muita música ao vivo além de um variado comércio de mercadorias novas e usadas.
            Na primeira história, o personagem Jeroen vai até à casa da avó à procura de algum objeto que pudesse vender ou trocar no “mercado de pulgas” no Dia da Rainha e descobre no sótão um álbum com recortes que contém “memórias dolorosas” da vida de uma amiga da avó – a menina Esther.
            A segunda história envolve fatos vivenciados por Helena (avó de Jeroen) durante o período da ocupação nazista em Amsterdam e está relacionada com os recortes dos jornais antigos.  
            Na visita ao sótão, Jeroen vai descobrir coisas de um passado amargo que deixou muitas marcas nas famílias que vivenciaram os anos de 1939 a 1945 na Europa, período dominado pelo nazifascismo. Recortes de jornais velhos, uma estrela amarela de tecido, fotos antigas, tudo amontoado dentro da desordem do sótão.                                                                                                                                                                                                                                                                                                
            O menino procura a avó para obter explicações sobre o material encontrado, ele vive em pleno século XXI e fatos ocorridos há muitos anos são desconhecidos das crianças e dos jovens que não sabem o que foi viver durante a  Segunda Guerra Mundial. A partir deste momento, Helena van Dort, uma holandesa não judia, vai contar como surgiu a amizade com Esther, uma menina judia que veio morar com os pais em Amsterdam em 1938, início da perseguição aos judeus na Alemanha.
            E a história vai sendo contada aos poucos a Jeroen. No dia 9 de novembro de 1938, tropas nazistas saíram pelas ruas de toda Alemanha,  quebraram  lojas e queimaram sinagogas. Esta noite ficou conhecida como “Kristallnacht” ou “Noite dos Cristaís”. Os judeus que já vinham sendo discriminados passaram a ser perseguidos.  
            O pai de Esther era médico, mas por ser judeu foi proibido de clinicar na Alemanha, pediu ajuda a um colega que morava na Holanda e transferiu-se com a família para Amsterdam. Acalentava o sonho de voltar para a Alemanha quando a guerra acabasse.  Embora se mantivesse neutra, a Holanda não escapou da sanha do ditador nazista. No dia 14 de maio de 1940, o exército holandês concordou em baixar armas e rendeu-se ao poderio bélico alemão. A rainha da Holanda fugiu para a Inglaterra e foi criticada pelos holandeses. A guerra tem dessas coisas – torna os fortes fracos. Diante do perigo, a luta pela sobrevivência fala mais alto.
            Jeroen ouviu atentamente a história de Esther, a amiga de sua avó, e fez uma descoberta surpreendente no final - há um segredo de família no meio disso tudo.   Como fazer para descobrir esse segredo? Leia o livro e ficará sabendo.

domingo, 17 de março de 2013



            LIVRO -BRINQUEDO: UMA CATEGORIA EM  ASCENSÃO
            (Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB) 

           
            O livro-brinquedo é um suporte que atrai a atenção das crianças pelo seu formato diferenciado, características ornamentais e apelos sensoriais.
            (Ana Paula Paiva e Amanda Carla M. Carvalho. Livro-brinquedo, muito prazer). 

           
            Renata Junqueira de Souza e Berta Lúcia Tagliari Feba organizaram o livro “Leitura literária na escola: reflexões e propostas na perspectiva do letramento” (Ed. Mercado das Letras, 2012), incluindo  textos de especialistas na área da literatura para crianças e destaque para as criações recentes que valorizam as histórias em quadrinhos, os livros de imagens, as narrativas curtas e os livros-brinquedo.
            O 1º. capítulo é dedicado a essa crescente modalidade infantil – o livro-brinquedo. Com o título “Livro-brinquedo, muito prazer”, as professoras Ana Paula e Amanda Carla analisam aspectos pertinentes a esta nova vertente  literária que alia as palavras às cores, formas, dobraduras, movimentos, jogos, surpresas.
            As autoras afirmam que o livro-brinquedo, enquanto denominação específica, ainda é pouco conhecido. No Brasil, o termo passou a figurar nas capas de livros infantis como chamada entre os anos de 2009 e 2010. Foi por esse período que passou a integrar a categoria “livro-brinquedo” na seleção da FNLIJ. Lembramos, no entanto,  que a escritora Ísis Valéria ( anos 1980) já produzia livros de panos para crianças enquadrados nessa categoria. Se pensarmos em tempos mais antigos, vamos encontrar os álbuns ilustrados que encantavam as crianças.  Não tínhamos os recursos modernos da  ilustração, os  ricos projetos editoriais,  mas era um deleite olhar esses álbuns.  
            O livro-brinquedo é um livro “pop-up”, isto é, um livro que salta para fora do livro, que cria janelas inesperadas. Os franceses denominam de “livre jeu” a esta modalidade literária que apresenta características bem lúdicas. A novidade do projeto gráfico e a diagramação despertam o interesse sensorial das crianças e aguça sua curiosidade.
            Podemos identificar o livro-brinquedo pela presença de algumas características e destacamos: a) transgressão de padrão do livro tradicional; b) ludicidade; c) possibilidade de manuseio e montagem; d) estímulo ao jogo; e) surpresa visual.
            Em 2012, dois livros nos chamaram a atenção por reunir essas características e pelo instigante convite à interação com o leitor. São eles: “Cadê o capitão Sardinha?” (Ed. Globo) e “Kokeskis” (Ed. Salamandra).
            “Cadê o capitão Sardinha” foi escrito e ilustrado por Maté e dá oportunidade ao pequeno leitor de brincar de esconde-esconde. Maté é escritora e ilustradora francesa, radicada no Brasil e autora de vários livros que receberam o  selo Altamente Recomendável da FNLIJ.
 A história se passa em um antigo casarão que mais parece um barco. Os personagens Tita, Beto e o gato Miado se divertem procurando o vovô Sardinha pelos cômodos da casa. Onde se escondeu o vovô Sardinha? Não sabemos. Ele gosta de   lugares inusitados – dentro da geladeira?   No baú de tampa de couro? Tudo é possível.  
            No jogo de esconde-esconde, abas cobrem ilustrações que quando desveladas reservam surpresas. A criança manuseia o livro e parece que não vai encontrar o capitão Sardinha. Mais uma vez, vem a pergunta:  Onde está escondido esse velhinho peralta? Surpresas e mais surpresas aguardam o ansioso leitor.
            Além do lúdico que passeia nas páginas desse livro, o pequeno leitor se delicia, no primeiro contato, com a sugestiva capa – um turbante de pirata e um tampão preto no olho do pirata. E surge  a dúvida: será que o capitão Sardinha é um pirata?
            “Kokeskis”, que em japonês significa boneca, é um livro com formato distinto – dentro de uma boneca/caixa aparece o livro “O segredo de Mitsuko”, conto de inspiração japonesa, recontado por Brigitte Delpech e ilustrado por Corinne Demuyunck; um móbile com desenho colorido  de uma boneca japonesa para pendurar no carrinho de bebê ou em outro local escolhido pela criança; um caderno de desenhos com quatro lindas kokeshis para a criança pintar. (Os desenhos são em preto e branco); várias folhas de papel colorido para origami. Acompanhando as folhas coloridas de origami vem um livrinho contendo todas as explicações necessárias para a confecção de origamis, um trabalho artesanal de origem japonesa.      
            “O segredo de Mitsuko”, conto tradicional no Japão, traz uma bonita história de amor que envolve uma moça tecedeira de quimonos de seda para noivas e o filho de um rico vendedor de chás. Mitsuko, a jovem tecelã, apaixonou-se pelo jovem Jiro-san, mas  entre eles havia uma grande  distância social. Jiro-san era rico, filho de um pai poderoso e Mitsuko era uma pobre moça que morava com o avô, bordava  quimonos de noivas, fazia pipas para crianças e trabalhos em origami. Um dia Jiro-san adoeceu e  Mitsuko, com a ajuda do avô,  produziu sete lindas “kokeskis” e  ofereceu ao   rapaz com a finalidade de curá-lo.  Ao ver os lindos presentes, vindos daquela que tinha mãos de fada, Jiro-san recuperou a saúde. O resto da história  não precisamos recontá-la. 
            Esses dois livros se enquadram na categoria “livro-brinquedo” e possibilitam  manuseio e montagem (confecção de origamis), fogem do padrão tradicional (livro em formato de boneca) – “Kokeskis”  e propicia o jogo do esconde-esconde – “Cadê o capitão Sardinha? “

            NOTA LITERÁRIA

            EXEMPLO A SER SEGUIDO 

    Recebemos de uma leitora do blog: “nastrilhasdaliteratura.blogspot” a seguinte informação: “Sérgio Florindo é cego desde o nascimento, mas isso não o impediu de ser o leitor homenageado da Biblioteca de São Paulo. Pela segunda vez, foi leitor destaque da biblioteca, já ouviu  metade da coleção de 1.189 audiolivros, entre eles “Dom Quixote” e “O Tempo e o Vento”. Quando vai à biblioteca, levado pela filha, ele costuma dizer: vou me encontrar com meus autores proferidos: Graciliano Ramos, Miguel de Cervantes e Carlos Drummond de Andrade”. Sérgio demonstra bom gosto literário, é exemplo a ser seguido.