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quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

POESIA: CAMINHOS A PERCORRER




POESIA: CAMINHOS A PERCORRER
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB)

            Que é poesia?
            Uma ilha cercada
            de palavras por todos os lados.
            (Cassiano Ricardo)

 Marcos Bagno, escritor, tradutor e professor de Linguística da UNB,  publicou na revista “Carta Fundamental” ( agosto de 2012) um artigo bem interessante sobre poesia. Com o instigante título “Não matem a poesia!”, o professor condena o uso do texto poético como pretexto  para gramatiquices. Pesquisando em livros didáticos de português, ele descobriu que muitos autores utilizam a poesia para ensinar gramática, o que considera um absurdo. Se é grave a utilização do texto literário para estudo da gramática, mais grave ainda se torna quando o texto é poético.
Alguém já afirmou que a poesia é muito mais para ser sentida do que compreendida, como entender o uso da poesia para fins didáticos? “Escrever poesia é cinzelar as palavras”, diz Bagno.
Na pesquisa que fez em livros didáticos, o escritor encontrou um poema de Sylvia Orthof – “Ave alegria”, que foi utilizado para estudo de classes gramaticais – interjeição, substantivos, etc. Uma verdadeira aberração. Nesse poema, Sylvia Orthof brinca, de modo descontraído, com a oração – “Ave Maria”.  Um excerto do poema dá para sentir que jamais poderia se depreender gramatiquice de tal texto: 

Ave alegria,
cheia de graça,
o amor é contigo,
bendita é a risada
e a gargalhada!
           
            Mas não é só Marcos Bagno que se preocupa com o uso gramatical  da poesia em sala de aula. Ana Maria Machado, no texto “Poesia: semente da literatura”, inserido no livro “Uma rede de casas encantadas” (Moderna; 2012), apresenta vários exemplos de bons poemas que podem ser lidos e debatidos em sala de aula sem nenhuma ligação com a gramática.  Ela lembra que o poema “Canção do Tamoio”, de Gonçalves Dias, cria a ilusão de tambores batendo na mata. São os detalhes literários que devem ser lembrados pelos professores.  Examinemos este fragmento:

            Não chores, meu filho;
            Não chores, que a vida
            É luta renhida:
            Viver é lutar.

            A escritora chama a atenção para a doçura e musicalidade da língua portuguesa. Nossa língua conta com uma variedade muito grande de vogais   (abertas, fechadas, orais, nasais), por isso a nossa poesia é muito musical. Aliado a tudo isso, os sons consonantais do português não são duros, não arranham a nossa garganta.
            Ana Maria  não cita poemas de Cecília Meireles, mas quando se fala em musicalidade surge logo o nome de Cecília, talvez a mais musical de nossas poetisas. Cecília era tão apaixonada pela música que alguns títulos de seus livros nos transportam para o reino de Apolo – “Baladas para El-rei”, “Cânticos”. “Vaga Música”, “Doze Noturnos da Holanda”, sem contar com os inúmeros títulos de poemas que remetem à música.
            O escritor Rubem Alves aconselha que se faça a leitura de alguns poemas de Cecília ouvindo música clássica e ousamos dar esta sugestão: Vamos ler os poemas “Elegia 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7,8 – dedicados à memória de Jacinta Garcia Benevides, avó da poetisa, ao som de “Meditação de Thais”, de Jules Massenet. Os dois primeiros versos da Elegia 1 são denotadores do clima de nostalgia que perpassa por todo o poema. Diante da imagem da avó morta, Cecília escreveu estes bonitos versos:
 
            Minha primeira lágrima caiu dentro de teus olhos.
            Tive medo de a enxugar para não saberes que havia caído.            [...].
  
            Marcos Bagno considera que escrever poesia é cinzelar as palavras, Ana Maria Machado afirma que a língua portuguesa é muito musical. Munidos de cinzel e de música construiremos belos poemas e tornaremos outros mais belos. Essa é a missão do professor, tornar as palavras mais bonitas, os poemas mais palpáveis, mais próximos do leitor. Muitos são os caminhos que nos levam à poesia, é preciso saber percorrê-lo. 

( Texto publicado no jornal “Contraponto”, 13 de dezembro de 2012.)

terça-feira, 27 de novembro de 2012

VICENTE EM PALAVRAS – sobre dor e despedida



VICENTE EM PALAVRAS – sobre dor e despedida
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB)

            Oh, pedaço de mim
            Oh, metade arrancada de mim
            Leva o vulto teu
            Que a saudade é o revés de um parto
            A saudade é arrumar o quarto
            Do filho que já morreu.
            (Pedaço de mim. Chico Buarque).

            É sempre doloroso falar sobre a morte, principalmente quando esta morte é prematura, a morte de um jovem. O livro de Caio Riter - “Vicente em palavras” (Lê, 2012) – trata deste tema. O escritor confessa que sempre quis “criar um personagem que não  fosse apenas criação minha”, escrever um livro em que o narrador (o autor) ficasse quase invisível aos olhos do leitor. Realmente ele conseguiu essa proeza.  São vários narradores que escrevem sobre Vicente (Vico), um rapaz de quinze anos que morre em um acidente de skate.  É um romance juvenil polifônico.
            “Vicente em palavras” é um livro de muitas vozes – a voz do pai, da mãe, do irmão, da namorada, de alguns amigos. Cada uma dessas vozes vai revelando quem era o jovem Vicente. Para a mãe, era o filho caçula, o mais querido, o mais alegre, brincalhão, o mais cativante. O pai, Pedro Artur, se interroga: será que fui realmente um bom pai? O que deixei de fazer por meu filho?  A sua incerteza, leva-o a escrever cartas para o filho morto.  Marta é escritora e depois da morte do filho está sempre trancada em seu escritório digitando. Será um novo romance? Henrique, o irmão mais velho, lamenta a morte de Vicente, mas sente “um certo alívio de saber que não haverá mais necessidade de disputar o carinho da mãe com mais ninguém.” (p.35).
            Na primeira carta que Pedro Artur faz para o filho, ele conclui com estas palavras: “O tempo passou, a vida passou, e agora só me resta mesmo lançar palavras no papel, na esperança vã de que, esteja você onde estiver, elas, um dia possam alcançá-lo”. (p. 10).
            No texto que a mãe está escrevendo, ela externa toda sua dor no capítulo II: “Sei que Henrique sofre, sei que Pedro Artur chora a perda do filho. Sei. Mas sei também que a dor que eles sentem não pode se comparar à minha. Sou mãe. Um pedaço de mim se foi.” (p. 12). Aqui lembramos a bonita música de Chico Buarque – ‘Pedaço de mim” que fala sobre a morte  de um filho e a dor da mãe ao  arrumar o  quarto do filho querido  e saber que ele não volta mais, se foi para sempre. O sentimento de saudade de  Marta é o mesmo da canção. O quarto não está vazio porque lá está Henrique, o filho mais velho, mas Henrique é tão diferente de Vicente!  É calado, introspectivo, sério, de sorriso contido.
            Natália, a namorada, escreve um diário e chama o ex-namorado de Vico, forma bem carinhosa.  No diário, ela registra: “Não consigo fechar os olhos. Para todo lado que eu olho, fico vendo o sorriso do Vico. Do meu Vico. Que não é mais meu.” (p.15).    
            Henrique, diante da partida inesperada do irmão, recorda as férias passadas na praia de Torres, na casa da avó. Os dois eram crianças, Henrique com 10 anos, Vicente com oito, e o susto de um quase afogamento de Vicente. Henrique salvou o irmão, mas a mãe não compreendeu o gesto do filho mais velho e deu-lhe castigos. Culpava-o dizia-lhe que, como mais velho, tinha obrigação de protegê-lo. E repetia, de forma insistente: “E se o teu irmão morre? E se ele morre?” (p. 16).
            Surgem outras vozes – são as vozes dos amigos, colegas de Vicente: os diálogos de Fred com Guga, de Vírgínia com Fred, de Lucas com Fred, de Fred com Lara.  Sempre Fred, o apaixonado por Natália, o que sofre com a indiferença da moça.   
            O pai, que antes se mantinha distante dos filhos, ocupado com as questões de seu escritório de advocacia, agora se volta para Henrique e resolve entregá-lo as cinco cartas que escreveu para Vicente. Nessas cartas, Henrique irá saber os reais sentimentos do pai, a sua opinião sobre os filhos.
            E Natália? Será que vai resistir às investidas de Fred? Ela acha ainda muito cedo para pensar em um novo amor – a dor e a saudade são muito fortes, talvez com o tempo... quem sabe...
 A morte de Vicente proporciona o reencontro da família – pai, mãe e o filho mais velho; a superação da dor da namorada, a aproximação entre os colegas.
            Há, ainda, neste livro, uma valorização ao ato de escrever. Marta escreve um livro que fala sobre o filho morto, Natália registra seus sentimentos no diário, o pai escreve cartas, Henrique escreve “palavras”. 
            Este livro de Caio Riter fala sobre a morte, um tema pouco comum em livros para jovens e adolescentes, mas o autor foi tão sutil que não chocou o leitor em nenhum momento.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012



 Casa de Consertos: um romance juvenil teatralizado
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB)
            Un escritor no es solo un señor que publica libros y firma contratos y aparece en televisión. Un escritor es, tal vez, un hombre que establece su lugar en la utopía.
            (Abelardo Castillo. Ser escritor) 


            O livro “Ser escritor”, de Abelardo Castillo, Seix Barral, 2010, reúne textos que discorrem sobre o escritor, o ato de escrever, reflexões a respeito de ética literária e política. Abelardo Castillo é novelista, contista, dramaturgo e ensaísta. É escritor latinoamericano de sólido prestígio nos meios literários.
            Neste livro, encontramos um breve ensaio – “Literatura y taller” que nos levou ao encontro do livro juvenil de Eloí Bocheco – “Casa de consertos” (Ed. Melhoramentos, 2012), com ilustrações de Walther Moreira Santos.
            O que nos diz Castillo neste ensaio? Ele aconselha que se faça a leitura de um bom conto em voz alta, o mesmo deve ocorrer com uma peça teatral. Se o texto puder ser lido por seu autor sem enfadar o auditório, a peça deve ser montada. Quando fizemos a leitura de “Casa de consertos”, sentimos que estávamos diante de um texto que poderia ser dramatizado e encenado nas escolas, como aconteceu com “Sebastiana e Severina”, de André Neves.
            Para corroborar o que afirmamos, vejamos algumas passagens do livro.
            O cenário do romance é a casa da avó da protagonista – Vó Sofia, uma enfermeira aposentada que mora em um casarão cheio de “lugares maneiros, tipo esconderijos”. Depois que se aposentou, tornou-se uma “consertadeira de brinquedos”. A menina Olímpia, sua neta, costuma passar as férias na casa da avó.
            O texto contém muitos diálogos, fato que o aproxima do texto teatral. Vó Sofia, além de conversar por telefone com as pessoas interessadas no conserto dos brinquedos, dá dicas de livros, recomenda leituras e recita poemas. O seu interesse por livros surgiu na época em que era enfermeira, andava sempre com uma malinha cheia de livros que lia para os doentes nas visitas que fazia ao hospital infantil da sua cidade.  
            Muitas pessoas vão até à casa de Vó Sofia, algumas para consertar brinquedos, outras para pedir conselhos e receitas. Para cada caso, ela tem um remédio certo, vai conversando com os fregueses e nunca deixa de dar um “remedinho literário”. Para Dona Clarice, que estava se separando do marido e muito depressiva, receitou um livro de poemas de Mário Quintana; para Dona Clara, que considerava o mundo um caos, ela deu um livro de Manoel de Barros; Para Carlos, um leitor de poucos livros, veio esta receita – um texto de Josué Guimarães. As receitas sempre continham um livro de poesia.   Bem humorada, vó Sofia tem um pouco de Tatiana Belinky, de Sylvia Orthof, de Cecília Meireles e, com certeza, foi leitora de Monteiro Lobato na infância.
            Quando abriu a oficina de consertos, Vó Sofia reformava brinquedos das crianças da vizinhança, dos bairros mais próximos de sua casa, depois a noticia se espalhou e começou a receber encomendas de brinquedos quebrados de outras cidades. Às vezes era uma boneca sem perna, outras vezes era um cavalinho de pelúcia sem crinas.
            Enquanto a avó consertava os brinquedos, Olímpia atendia ao telefone e conversava com os fregueses – a menina queria saber tudo – como foi que a bailarina perdeu a cabeça? Por que o palhaço de pano que dava risada, cambalhota, cantava, dançava, parou de repente?    
            Cada brinquedo vinha acompanhado de uma história. A galinha dos ovos de ouro (ouro de mentirinha) foi deixada por Seu Ernani. Ele queria consertar a galinha que não punha mais ovos para mandar para a filha que estava estudando na Austrália. Por sentir saudades do Brasil, a moça cismou que queria a galinha dos ovos de ouro perto dela, era o brinquedo preferido de sua infância.
            O palhaço Primo foi atacado por um gato, ficou todo amarrotado, virou um verdadeiro espantalho. Como era feito de pano, não foi fácil consertá-lo. A reforma foi total – Vó Sofia colocou olhos de botões, a roupa de feltro cor laranja, a boca e o nariz verdes, os sapatos listrados e o chapéu furta-cor. Ficou novinho em folha. 
            Mas as férias terminam e Olímpia, com muitas saudades do casarão e da vó Sofia, deve voltar para casa. Nas férias do próximo ano, estará novamente na casa da avó atendendo ao telefone, conversando com os fregueses e se divertindo com as histórias desses brinquedos cheios de ternura e de boas recordações.
            Para conhecer um pouco da história desse livro, transcrevemos algumas palavras da escritora e do ilustrador:
            “O costume de consertar os objetos queridos, especificamente os brinquedos, foi uma coisa que me fascinou toda a infância. As bruxinhas de pano, gastas pelo uso intenso nas brincadeiras, quando eram recuperadas pelas vós e tias, reencantavam-se. Era um prazer dobrado andar com elas pelas ruas da imaginação.” (Eloí Bocheco).
            “Ilustrar esta história maravilhosa de Eloí Bocheco foi como voltar a ser criança e reencontrar aquela bola de gude perdida, aquele trenzinho que tanto desejei no Natal e nunca ganhei. [...] E sabe o que é melhor num livro que a gente gosta? É que, igual a um brinquedo, a gente pode voltar a ele sempre que quiser e assim descobrir novas maneiras de se encantar.” (Walther Moreira Santos). 
  
            NOTAS LITERÁRIAS E CULTURAIS

            Prêmio Jabuti 2012 (alguns comentários)
INFANTIL- 1º. lugar: Benjamin: poemas com desenhos e música. Autor: Biaggio D´Angelo Il. Thais Beltrane.. Ed. Melhoramentos.
Nota: este livro foi selecionado para o catálogo de Bolonha 2012. Fizemos a resenha deste livro que se encontra no catálogo –“Selection of Brazilian writers, ilustrators and publishers – Bologna Children´s Book Fair 2012 ((ver. p. 20). O catálogo está disponível na internet.

JUVENIL: 1o. lugar: A mocinha do mercado central. Autor: Stella Maris Rezende. Il. Laurent Cardon. Ed. Globo. A resenha deste livro está no catálogo de Bolonha 2012.
Fizemos comentários sobre este livro no jornal “Contraponto” com o título: “Maria Campos: moça de muitos nomes”. Paraíba, fev. 2012.  
2º. lugar. A escritora mineira Stella Maris Rezende foi, mais uma vez premiada, com o 2º. lugar  com o livro A guardiã dos segredos da família. Ed. SM. Os dois livros premiados de Stella Maris integram a categoria “Livros para jovens” (FNLIJ).

BIOGRAFIA. O livro do escritor e pesquisador pernambucano José Paulo Cavalcanti Filho – Fernando Pessoa: uma quase autobiografia. Ed. Record - conquistou o 1º. lugar.  José Paulo Cavalcanti Filho esteve em João Pessoa em 2011, fez o lançamento deste livro e palestra na Livraria Esquina das Letras. 

ILUSTRAÇÃO DE LIVRO INFANTIL E JUVENIL – 1º. lugar – Mil e uma estrelas.  Texto e ilustração de Marilda Castanha. O 2º. lugar coube à escritora Lúcia Hiratsuka. O livro premiado foi A visita. (livro de imagens, Ed. DCL).   Lúcia é conhecida da colônia japonesa de João Pessoa. Aqui lançou o premiadíssimo livro “Histórias tecidas em seda”, Ed. Cortez, participou da Feira Japonesa no Espaço Cultural em 2008 e deu curso da técnica de pintura “sumiê”.   


sexta-feira, 9 de novembro de 2012



POESIA NA SALA DE AULA: A HUMANIZAÇÃO DO MISTÉRIO
( Neide Medeiros Santos – Crítica literária – FNLIJ/PB)

Os pássaros são sábios.
Não discutem: cantam.
Cantar é  o jeito mais puro de entender
a vida
( Daniel Lima. Poemas) 


Vivemos em um mundo de apressados e a poesia desponta como o momento da descontração, da calma, do fazer pensar. O texto poético apresenta o ambíguo, o sugerido, a multiplicidade de imagens e algumas vezes o sem sentido, mas são esses fatores que dão beleza e tornam o poema mais instigante.
O poema, elaborado esteticamente, é obra de arte que se caracteriza pela plurissignificação de linguagem, pela originalidade. Marcado por uma linguagem conotativa, possibilita vários níveis de leitura, diferentes modos de ler.
Alguns professores afirmam que as crianças não gostam de poesia e lançamos uma pergunta: será que as crianças não gostam de poesia ou a culpa é dos adultos? Para responder a essa pergunta, recorremos ao poeta Carlos Drummond de Andrade (1986:55) que, no artigo “A educação do ser poético”, reconhece o lado menineiro da poesia, depois abandonado pelo adulto e questiona:
Por que motivo as crianças de modo geral são poetas e, com o tempo, deixam de sê-lo? Será que a poesia é um estado de infância relacionado com a necessidade de jogo, a ausência do conhecimento livresco, a despreocupação com os mandamentos práticos do viver – estado de pureza da mente, em suma? Acho que é um pouco de tudo isso, e mais do que isso, pois já encontra expressão cândida na meninice, pode expandir-se pelo tempo afora conciliada com a experiência, o senso crítico, a consciência estética dos que compõem ou absorvem a poesia.
Drummond admite que as crianças gostam de poesia, e podemos comprovar essa assertiva quando observamos nas escolas, entre os alunos menores, o interesse e o desejo de participar de atividades poéticas, recitar quadrinhas, parlendas, escrever poemas e sobre tudo decorar pequenos poemas com rimas. A rima e o ritmo poético são elementos que atraem as crianças. O jogo com as palavras, as brincadeiras rimadas, adivinhações, as cantigas de roda, tudo é motivo de satisfação para a criança.
Para compreender melhor o mistério que se chama poesia, remetemos a um texto do poeta Elias José – “A importância da poesia” que apresenta seis funções inerentes à poesia: cognitiva, social, política, ideológica, catártica, estética, pragmática ou didática.
A função cognitiva é a do conhecimento, compreende o processo mental da percepção. As funções sociais, políticas e ideológicas devem retratar, de modo implícito, os dramas sociais. Quando explícita, perde o seu valor estético. A função catártica nos leva ao mais íntimo do nosso ser, é o momento da empatia com o texto, da projeção do eu lírico. O lúdico poético se faz presente através dos estratos ópticos, fônicos, do brincar com as palavras. Devemos ter muito cuidado com a função pragmática ou didática para que o poema não se torne panfletário nem tampouco seja utilizado apenas com fins didáticos.
O leitor/professor poderá refletir sobre cada uma dessas funções e certamente irá concluir que a poesia é também uma forma de humanização, deve ser cultivada em casa, na escola, na biblioteca.
   Em 2012, recebemos vários livros de poesia que apresentam características elencadas por Elias José e citamos: “Alfabeto com afeto”, de Dilan Camargo, uma publicação da Edelbra. Neste livro, o lúdico é a tônica mais constante. ‘Poetrix”, de José de Castro, editora Dimensão. Poetrix é uma modalidade poética, criada pelo poeta Goulart Gomes. São poemas curtinhos como haicais que levam o leitor à reflexão. Aqui desponta a função cognitiva. ‘Brinquedos cantados”, de Mônica  Simas e Vera Lúcia Dias, publicado pela editora Callis, é o resgate de cantigas de roda que embalaram muitas crianças do século XX nas ruas das cidades do interior do Brasil. O livro vem acompanhado de um CD, contém  partituras  de cada canção. Novamente estamos diante do lúdico poético
Por fim, vale lembrar, mais uma vez, o poeta Carlos Drummond de Andrade:
“O que eu pediria à escola,  se não me faltassem luzes pedagógicas, era considerar a poesia como primeira visão direta das coisas e depois como veículo de informação prática e teórica, preservando em cada aluno o  fundo mágico, lúdico , intuitivo e criativo que se identifica basicamente com a sensibilidade poética.

NOTAS: As observações de Carlos Drummond de Andrade foram colhidas no texto  “Arte e Educação” 3 (15): 16out,1974.
O texto de Elias José se encontra no catálogo Infantil e Juvenil da  Editora Paulus. 2001,p.9
 ( Texto publicado no jornal Contraponto, Paraíba, outubro de 2012)