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sábado, 23 de maio de 2009

Sociedade da Informação: a construção da inteligência coletiva : além do simplesmente literário

Sociedade da Informação: a construção da inteligência coletiva : além do simplesmente
literário *

Um país melhor é um país de leitores
(Ziraldo)

NEIDE MEDEIROS SANTOS

Com o objetivo de aproximar o escritor do leitor (e aqui tomamos o vocábulo escritor em sentido bem amplo – missivista, cordelista, jornalista), vamos trilhar alguns caminhos da informação, partindo, inicialmente, de uma prática muito utilizada pelos mais antigos: cartas.
CARTAS – Quando revestidas de teor literário, as cartas recebem a denominação de literatura epistolar. Na literatura brasileira, encontramos modelos exemplares de cartas trocadas entre os escritores. Monteiro Lobato e Godofredo Rangel se corresponderam por mais de 40 anos, posteriormente essas cartas foram reunidas e publicadas com o título “A Barca de Gleyre”. Através dessas cartas, ficamos conhecendo muitas idéias de Lobato, seu interesse pela literatura infantil, seu exacerbado amor à pátria, a luta em prol do petróleo brasileiro. São cartas que trazem a marca do tom confessional.
Mário de Andrade foi outro missivista compulsivo. As cartas de Mário para Bandeira, de Mário para Drummond, também publicadas em livros, já deram origens a inúmeras pesquisas, dissertações de mestrado, mas é possível encontrar cartas familiares que revelam o gosto literário do missivista, embora o autor ou autora não seja escritor(a). O exemplo que vamos apresentar é uma carta familiar e a missivista denota ser uma pessoa de sensibilidade literária. A leitura dessa carta permite reconstituir um pouco o ambiente literário da época. Segue excerto da carta:
Campina Grande, 25 de setembro de 1991.

Minha querida N.
abraço-a carinhosamente.

Fiquei encantada com a sua carta e o seu poema, e mais encantada, ainda, com a sua dedicatória.
Quanta coisa linda você me disse! Muito obrigada. Eu, sem falsa modéstia, sou tão insignificante... pois apenas sei DATILOGRAFIA e ORTOGRAFIA, mas felizmente foi com esses dois substantivos que consegui ser professora de DATILOGRAFIA e FUNCIONÁRIA PÚBLICA FEDERAL durante 35 anos... hoje, aposentada do Ministério da Fazenda como TÈCNICO DO TESOURO NACIONAL, octogenária, vivo tranquilamente e em paz com a minha família, com dinheiro, saúde, paz e amor. É isso aí...
Estava ansiosa para ler o último livro de Zélia Gattai – O SEGREDO DA RUA 18- é um livro infantil muito interessante que a gente lê em 30 minutos. Vale a pena transcrever o texto que está na capa:
“Nasci em São Paulo há muitos e muitos anos, tantos que nem é bom pensar. Meus pais eram italianos, vindos ao Brasil no começo do século, gente simples, de vida modesta. Menina sem brinquedos nem luxos, fui, no entanto, uma criança feliz. Naquela época não havia rádio nem televisão, e meu maior divertimento era ouvir histórias contadas por meus pais e minhas irmãs mais velhas. Sonhava com os personagens, me encarnava neles: fui Narizinho Arrebitado, outras vezes Chapeuzinho Vermelho, oh, maravilha: cheguei a ser a própria Cinderela. Ai, quem me dera ser a Branca de Neve, ter meu príncipe encantado”. (1)
(...)
A missivista prossegue citando mais um pouco da autobiografia de Zélia Gattai. O trecho que transcrevemos nos oferece uma visão parcial do mundo da autora da carta. Examinemos aspectos dignos de registro: a carta traz a data – 25 de setembro de 1991. Nesse período, a escritora Zélia Gattai estava no início de sua carreira literária e a prosa enxuta, sem artificialismos, mesclada de poeticidade, já encantava os leitores.
Quanto a Brígida, uma senhora de 80 anos, sentimos que era uma pessoa que gostava de livros e ficava ansiosa aguardando a publicação do último livro de Zélia Gattai. Como boa leitora, Brígida revela, nessa carta familiar e despretensiosa, um certo toque literário. Vejamos como pontua bem esse aspecto: com esses dois substantivos DATILOGRAFIA e ORTOGRAFIA consegui ser professora de DATILOGRAFIA e FUNCIONÁRIA PÚBLICA FEDERAL. Parece que estamos diante de uma página de Graciliano Ramos.
As cartas familiares são bem espontâneas e apresentam um retrato de uma época, os costumes de uma geração, as leituras preferidas. Está na hora de espanar o pó que envolve o baú das cartas familiares e trazer para o conhecimento do público essas relíquias que vão além do simplesmente literário.
CORDEL – Outro meio de informação muito utilizado nas décadas de 30, 40 e 50 do século XX, no meio rural nordestino, era a literatura de cordel. João Cabral de Melo Neto escreveu um poema de caráter autobiográfico “Descoberta da literatura” que descreve muito bem o ambiente rural, principalmente a região dos engenhos de açúcar da zona da mata pernambucana.
Os estados de Pernambuco e da Paraíba já foram centros divulgadores da boa literatura de cordel. Aqui viveram muitos cordelistas, repentistas e havia tipografias que publicavam exclusivamente folhetos de feira, isto é, literatura de cordel. Esses folhetos atravessavam as fronteiras regionais e chegavam aos grandes centros. O folheto “Viagem a São Saruê”, do poeta paraibano Manoel Camilo dos Santos, alcançou grande popularidade, foi estudado e analisado por pesquisadores estrangeiros. Muitos outros folhetos continuam sendo estudados. A Universidade de Poitiers, na França, mantém, nos dias atuais, um setor de pesquisas, Centro de Pesquisas Raymond Cantel, todo dedicado à literatura de cordel.
A literatura de cordel também está presente na literatura infantil. No cotejo literatura de cordel/literatura infantil, não poderíamos deixar de citar Guriatã: um cordel para menino do poeta pernambucano Marcus Accioly. Na história/estória de Sucram e Leunam, Accioly transpõe o leitor de todas as idades para o mundo da fantasia, da poesia, dos mitos. Em 2006, saiu a 5ª. edição de Guriatã:um cordel para menino.
O poema de João Cabral de Melo Neto, os folhetos de cordel e a literatura infantil de Marcus Accioly são contributos para a construção da inteligência coletiva.
JORNAL- O jornal está presente em quase todas as bibliotecas e pode ser utilizado, com grande criatividade, por professores e bibliotecários. Escritores, muitas vezes, escrevem textos para os jornais que depois são publicados em livros. Marina Colasanti, escritora e jornalista, em depoimento a Pedro Benjamim Garcia e Tânia Dauster, declara seu amor ao jornal com estas palavras:
“Serei sempre mais leitora que escritora. Imagino que todos escritor lê mais do que escreve. Mesmo quando não estou lendo livros, todos os dias gasto uma hora e meia, pelo menos, para ler os jornais. Isso também é leitura” (2)
Manuel Bandeira escreveu “Poema tirado de uma noticia de jornal”, partindo de uma noticia veiculada em um jornal do Rio de Janeiro. Mais recentemente, Moacyr Scliar é outro escritor que utiliza, em seus contos, noticias publicadas nos jornais. Um dos seus últimos livros, Deu no jornal é fruto dessa atividade jornalística.
O jornal deve, portanto, ser aproveitado não só como veículo de informação, mas também como fonte literária.
Diante do que apresentamos, constatamos que a construção da inteligência coletiva na sociedade da informação passa por meios bem simples – cartas manuscritas, cordel, jornais até atingir a comunicação via internet, livros, catálogos, feiras de livros, bienais.
Para concluir, gostaríamos de citar palavras da escritora Ana Maria Machado, ganhadora do prêmio Hans Christian Andersen 2000. Quando indagada sobre a idéia de uma política nacional para a leitura, a escritora deu a seguinte resposta:
“Seria através de bibliotecas e o ideal é que elas fossem estaduais. A política do Pará seria diferente da de Santa Catarina, por exemplo. Não tem como escapar da centralização, mas poderia haver um percentual que desse vazão à produção local nos estados, que às vezes nem desperta tanto interesse fora”. (3)

NOTAS

1. A carta de Brígida Guimarães dos Santos foi endereçada a Neide Medeiros Santos, nessa época, residindo em Recife, com data de 25 de setembro de 1991.
2. O texto de Marina Colasanti foi extraído do livro Teia de Autores, com o título Ser mais leitora que escritora, organizado por Pedro Benjamim Garcia e Tânia Dauster.
Cf. GARCIA, Pedro Benjamim e Tânia Dauster. Teia de Autores. Belo Horizonte: Autêntica, 2000,p. 100
3. A observação de Ana Maria Machado se encontra no texto Leitura Democratizada.
Cf. GARCIA, Op. Cit., p. 17

• Este texto foi apresentado no Seminário Leitura e Biblioteca com o título: Sociedade da Informação: a construção da inteligência coletiva. Biblioteca Pública de Afogados, Recife, 2005 e publicado no jornal O Balainho. Boletim de Literatura Infantil e Juvenil
• Ano IX, No. 33, Joaçaba, UNOESC, em novembro de 2007.


sexta-feira, 1 de maio de 2009

FERNANDO PESSOA e LUiZ RUFFATO





De mim já nem se lembra: “memórias de afetos estilhaçados”.


As cartas são sinais de separação – sinais, pelo menos, pela necessidade de as escrevermos, de que estamos afastados.
(Fernando Pessoa. Carta a Ophélia. 23/03/1920).

NEIDE MEDEIROS SANTOS

Luiz Ruffato publicou em 2006, pela Editora Objetiva, Fernando Pessoa – Quando fui outro, uma seleção de textos de Fernando pessoa e de seus heterônimos. Textos em prosa, poemas e cartas para Ophélia aparecem de forma não acadêmica, mas revelam um trabalho cuidadoso de um pesquisador que procura apresentar as diferentes facetas de um poeta múltiplo. É um livro para ser lido e amado.
Agora, chega às nossas mãos, também de Ruffato – De mim já nem se lembra (Editora Moderna, 2007), narrativa epistolar, com posfácio de Heloísa Prieto e fotos de Lenise Pinheiro.
O livro se inicia com uma nota que traz o título Explicação necessária e, à medida que prosseguimos na leitura, vamos reconstruindo, junto com o narrador, um passado que deixou marcas e que teima em se tornar presente. Nesse primeiro momento, o ambiente tranquilo de Cataguazes e o linguajar roseano são revividos.
Os “olhos derramados da mãe”, quando encontra o filho que vem visitá-la e “pendurados em cabides de arame, desolados vestidos abraçavam-se pânicos...” visão do narrador ao escancarar o guarda-roupa da mãe, são imagens que remetem à prosa poética de Guimarães Rosa.
A morte da mãe e uma pequena caixa encontrada no quarto da falecida, contendo cartas do irmão, vitimado por um acidente automobilístico, desencadeiam o segundo momento da narrativa. A leitura dessa correspondência é o motivo condutor da narrativa epistolar.
Gaston Bachelard, no livro Poética do Espaço, quando fala sobre as gavetas, cofres e armários, afirma que existem imagens da intimidade que encerram ou dissimulam segredos. As cinquenta cartas do irmão, endereçadas à mãe, cuidadosamente guardadas em uma pequena caixa, guardam afinidades com essas imagens da intimidade.
Cartas verdadeiras ou ficcionais? Isso não tem muita importância, o melhor dessa narrativa epistolar é mergulhar no cotidiano de José Célio, ou simplesmente Célio, o irmão missivista, e reviver os anos 70: os pequenos dramas familiares, a construção do metrô de São Paulo, os preparativos da seleção brasileira na copa do mundo de 1970, as frustrações amorosas, o desejo de possuir um carro. Se a personagem é fictícia, os fatos são verdadeiros.
De mim já nem se lembra é uma história em que o narrador/missivista conta para a mãe detalhes de sua vida através de cartas: seus sonhos, suas esperanças. Passo a passo, o leitor vai se integrando na vida do jovem José Célio como se fosse um parente próximo e muito querido.
A linguagem trabalhada de Ruffato e a maneira como conta a história de “afetos estilhaçados”, como bem denominou Heloísa Prieto, leva o leitor a refletir sobre a vida interior do ser humano.
As ilustrações, em preto e branco de Lenise Pinheiro, são fotos artísticas, algumas mais se assemelham a pinturas. Retratam interiores domésticos, cenas de rua da cidade de São Paulo e todas as páginas trazem o pequeno desenho de um chapeu à moda de Fernando Pessoa. Escolha proposital? Coincidência?!
Ruffato, quando organizou a antologia de Fernando Pessoa, afirmou: “Este é um livro para apaixonados”. De mim já nem se lembra é também um livro para apaixonados. Durante muito tempo os leitores se lembrarão deste livro.


As cartas são sinais de separação – sinais, pelo menos, pela necessidade de as escrevermos, de que estamos afastados.
(Fernando Pessoa. Carta a Ophélia. 23/03/1920).

Luiz Ruffato publicou em 2006, pela Editora Objetiva, Fernando Pessoa – Quando fui outro, uma seleção de textos de Fernando pessoa e de seus heterônimos. Textos em prosa, poemas e cartas para Ophélia aparecem de forma não acadêmica, mas revelam um trabalho cuidadoso de um pesquisador que procura apresentar as diferentes facetas de um poeta múltiplo. É um livro para ser lido e amado.
Agora, chega às nossas mãos, também de Ruffato – De mim já nem se lembra (Editora Moderna, 2007), narrativa epistolar, com posfácio de Heloísa Prieto e fotos de Lenise Pinheiro.
O livro se inicia com uma nota que traz o título Explicação necessária e, à medida que prosseguimos na leitura, vamos reconstruindo, junto com o narrador, um passado que deixou marcas e que teima em se tornar presente. Nesse primeiro momento, o ambiente tranquilo de Cataguazes e o linguajar roseano são revividos.
Os “olhos derramados da mãe”, quando encontra o filho que vem visitá-la e “pendurados em cabides de arame, desolados vestidos abraçavam-se pânicos...” visão do narrador ao escancarar o guarda-roupa da mãe, são imagens que remetem à prosa poética de Guimarães Rosa.
A morte da mãe e uma pequena caixa encontrada no quarto da falecida, contendo cartas do irmão, vitimado por um acidente automobilístico, desencadeiam o segundo momento da narrativa. A leitura dessa correspondência é o motivo condutor da narrativa epistolar.
Gaston Bachelard, no livro Poética do Espaço, quando fala sobre as gavetas, cofres e armários, afirma que existem imagens da intimidade que encerram ou dissimulam segredos. As cinquenta cartas do irmão, endereçadas à mãe, cuidadosamente guardadas em uma pequena caixa, guardam afinidades com essas imagens da intimidade.
Cartas verdadeiras ou ficcionais? Isso não tem muita importância, o melhor dessa narrativa epistolar é mergulhar no cotidiano de José Célio, ou simplesmente Célio, o irmão missivista, e reviver os anos 70: os pequenos dramas familiares, a construção do metrô de São Paulo, os preparativos da seleção brasileira na copa do mundo de 1970, as frustrações amorosas, o desejo de possuir um carro. Se a personagem é fictícia, os fatos são verdadeiros.
De mim já nem se lembra é uma história em que o narrador/missivista conta para a mãe detalhes de sua vida através de cartas: seus sonhos, suas esperanças. Passo a passo, o leitor vai se integrando na vida do jovem José Célio como se fosse um parente próximo e muito querido.
A linguagem trabalhada de Ruffato e a maneira como conta a história de “afetos estilhaçados”, como bem denominou Heloísa Prieto, leva o leitor a refletir sobre a vida interior do ser humano.
As ilustrações, em preto e branco de Lenise Pinheiro, são fotos artísticas, algumas mais se assemelham a pinturas. Retratam interiores domésticos, cenas de rua da cidade de São Paulo e todas as páginas trazem o pequeno desenho de um chapeu à moda de Fernando Pessoa. Escolha proposital? Coincidência?!
Ruffato, quando organizou a antologia de Fernando Pessoa, afirmou: “Este é um livro para apaixonados”. De mim já nem se lembra é também um livro para apaixonados. Durante muito tempo os leitores se lembrarão deste livro.