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segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

leituras natalinas (1)


LEITURAS PARA O NATAL 2010 (1)
(Neide Medeiros Santos – Crítica Literária FNLIJ-PB)

- Sino, claro sino,
tocas para quem?
- Para o Deus menino
que de longe vem.
(Carlos Pena Filho. Poema de Natal)

João Luís Ceccantini escreveu um longo artigo que foi publicado no jornal “Notícias – FNLIJ, setembro de 2010” sobre a literatura infantil contemporânea –” Vigor e diversidades: a literatura infantil e juvenil no Brasil em 2008”. Neste texto, além da referência ao livro de Ignácio de Loyola Brandão – “O menino que vendia palavras” (Ed. Objetiva), ganhador do Jabuti 2008, na categoria de Livro do Ano (Ficção), o ensaísta apresenta comentários a respeito de livros destinados ao público infanto-juvenil.
A seleção feita pelo crítico literário e professor da UNESP, abrange livros publicados em 2008 e que ganharam prêmios no Brasil e no exterior. A nossa seleção para leituras no Natal de 2010 é bem mais modesta. A lista compreende alguns livros que consideramos relevantes e que foram publicados em 2010.
Destacamos, entre as aquisições mais recentes, os seguintes livros: Crítica, Teoria e Literatura Infantil (Ed. Cosac Naify) de Peter Hunt; Contos de fadas de Perrault, Grimm, Andersen & outros (Ed. Zahar), com apresentação de Ana Maria Machado; Neruda para jovens. Antologia Poética bilíngüe (Ed. José Olympio). Os livros selecionados se destinam, de acordo com a ordem de citação, aos educadores, compreendendo: professores e pais; à criança e ao jovem.
Crítica, Teoria e Literatura Infantil foi escrito pelo ensaísta britânico Peter Hunt. No Brasil, a tradução ficou a cargo de Cid Kpinel; o prefácio é de Seymor Chatman e a orelha é de João Luís Ceccantini.
Peter Hunt é considerado um dos melhores críticos de literatura infantil do mundo ocidental. Seus livros tratam de aspectos ligados à literatura infantil, como operacionalizá-la e como levar o livro infantil até á criança. Dividido em 12 capítulos, o ensaísta trata, entre outros aspectos, da situação da literatura infantil no contexto literário, da relação texto/leitor, política, ideologia e literatura infantil, do livro ilustrado e da literatura infantil diante das novas mídias.
Contos de Fadas de Perrault, Grimm, Andersen & outros reúne 20 contos de fadas, de princesas, de bruxas e histórias de encantamentos. Na apresentação, com o título “Um eterno encantamento”, Ana Maria Machado lembra que a maioria dos leitores teve seu primeiro contato com os contos de fadas antes de saber ler e chama essas histórias de “baú de tesouros”.
Esta edição apresenta ilustrações de artistas antigos e consagrados como Gustavo Doré, Walter Crane, Bertall. Alguns contos vêm acompanhados da moral da história, uma paratextualidade sempre presente nas fábulas de La Fontaine. Antes dos contos, o leitor encontra uma breve biografia dos autores.
Com a exigência do idioma espanhol no ensino médio brasileiro a partir de 2010, encontramos alguns livros destinados ao jovem em edição bilíngüe português/espanhol. Neruda para jovens é um livro que poderá ser muito útil ao professor nas aulas de espanhol. Esta antologia poética contém poemas que abrange toda a produção poética do escritor chileno. Os poemas mais longos, como “Canto Geral” e “Diplomatas” aparecem em fragmentos.
No Brasil, os poetas Ferreira Gullar e Thiago de Mello muito contribuíram para a divulgação da poesia de Neruda. A respeito de Neruda, Ferreira Gullar assim se expressou: “... graças à sua magia vocabular, consegue tocar um número muito grande de pessoas que ao longo dos anos constituíram o seu público espalhado pelo mundo inteiro.”
Para as leituras natalinas, citamos três livros que interessam ao professor ou teórico da literatura, às crianças e ao jovem. Os Contos de Fadas podem ser lidos pelas crianças ou pelos adultos, alguns desses textos estão presentes nas histórias contadas por Totonha (José Lins do Rego) e por Tia Nastácia (Monteiro Lobato).
Tenham todos um Natal com boas leituras. O cardápio está variado – leituras teóricas, contos de fadas e poesia.

sábado, 18 de dezembro de 2010

ERA UMA VEZ UMA ÁRVORE-Bartolomeu Campos de Queiros






ERA UMA VEZ UMA ÁRVORE
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ-PB)
Tenho uma árvore que me espia pela janela, e decidi que ela é minha, mesmo sabendo que ela dá sombras para todos aqueles que passam pela rua.
( Bartolomeu Campos de Queirós. A Árvore)

Ser dono de uma árvore que serve também de morada para os passarinhos e pequenos insetos é a temática do livro de Bartolomeu Campos de Queirós, “A Árvore”, ilustrado por Mário Cafiero , uma publicação da Editora Paulinas (2010).
Cada animalzinho é examinado e descrito com muita poeticidade por esse escritor que busca na infância – que vive em sua memória – os assuntos para os seus livros. Vamos visitar a árvore e conhecer os personagens dessa história.
Os passarinhos pousam e repousam nos galhos. Às vezes cantam, outras vezes “ficam calados para bem escutar o mar”. (p.7). Os ninhos são costurados com as agulhas dos bicos e os ovos são escondidos em espumas do mar.
As borboletas evocam saudades. Se as borboletas não chegam, instala-se um estado de saudade e “saudade só é saudade de coisas boas” (p.8)
As cigarras cantam a mesma canção todo dia e se camuflam entre as cores das folhas. “Elas têm asas de papel celofane, mais transparentes do que as palavras”. (p.10)
Os grilos não cantam, eles gritam e gritam “tão alto que até violino guarda inveja.” (p.11)
Engana-se quem pensa que as lagartas só servem para roer as folhas, elas têm vocação para rendeira.
As formigas já nascem com vontade de comer açúcar. “Se a árvore tem alguma resina ou flor doce, as formigas ficam mais resignadas”. (p. 15)
As abelhas são interesseiras. Elas sabem o local que as folhas escondem o mel e acariciam com suas delicadas perninhas o pólen, extraindo o açúcar que está escondido.
Da janela da sala, o dono da árvore navega em frágeis barcos sem bússola ou vela.
Ele desconfia que a árvore guarde esperanças escondidas, ela o faz pensar . Sentado no sofá, deita o olhar sobre a árvore e aprende muitas lições, é a professora verde que todo dia ensina que a liberdade “permite até viver em um mesmo lugar, a vida inteira, contemplando uma árvore crescendo para o céu”. (p. 32)
Mário Cafiero já ilustrou vários livros de Bartolomeu Campos de Queirós e afirma que cada livro do escritor mineiro lhe traz sempre uma surpresa. Surpresa que se manifesta com a beleza de suas palavras e a seriedade que ele dispensa à literatura brasileira.
Bartolomeu percorre as mesmas águas de Cecília Meireles, são irmãos das coisas fugidias. O poeta vê sempre, com um novo olhar, um rio de águas mansas que passa pelas pequenas cidades mineiras, fica enternecido diante de um passarinho que pousa na varanda de sua casa e agora é dono de uma árvore que está plantada na sua rua. Reinventa os fatos e escreve textos poéticos como “A Árvore”.
ERA UMA VEZ UMA CASA
1984 – nascia a casa. Era uma casa toda branca com janelas e portas azuis, contornadas por frisos amarelos – uma típica casa portuguesa.
Os anos se passaram. Foram feitas pequenas reformas – portão novo com controle remoto, muro mais alto, porém o interior da casa permanecia o mesmo. Lá estavam, também, as mesmas janelas azuis com detalhes amarelos, as varandas com flores nas janelas, um jardim bem cuidado.
2010. A casa foi vendida a uma construtora que só gosta de casas verticais. Vão derrubar a casa de janelas azuis. Diante da morte da casa, resta-nos o consolo desses versos:
Vão derrubar a casa
mas as janelas azuis ficarão
“intactas, suspensas no ar”.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Encontros com o cordel








Encontros com o cordel
( Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ-PB)

Leandro Gomes de Barros transfigura a linguagem popular e a oralidade. Sua poesia é expressão individual e coletiva. É tessitura singular de sons, ritmos, cores, visões imagens, palavras, frases – na criação e na recriação.
( Vera Lúcia de Luna e Silva. A Tessitura poético-gramatical de um autor popular: Leandro Gomes de Barros)

Minhas primeiras lembranças do cordel estão associadas à figura de Chicuta, uma contadora de histórias, natural do Engenho Baixa Verde (PB). Eu era criança e ouvia embevecida as histórias de “A Princesa da Pedra Fina”, “Juvenal e o dragão” e não sabia que elas pertenciam à literatura de cordel. Muitos anos mais tarde descobri que essas histórias eram do cordelista paraibano Leandro Gomes de Barros.
Leandro Gomes de Barros nasceu nos meados do século XIX (1865), na Fazenda Melancia, município de Pombal (PB) e cedo revelou pendores para a poesia. Escreveu cerca de 600 folhetos que tiveram inúmeras edições. Cancão de Fogo é seu personagem mais marcante.
A produção literária do vate paraibano despertou a atenção dos estudiosos da poesia popular, de professores e pesquisadores. A tese de doutorado da professora Vera Luna (UFPB) versou sobre a poesia de Leandro. Carlos Drummond de Andrade, em crônica publicada em jornal, afirmou que considerava “ Leandro Gomes de Barros o rei da poesia do sertão e do Brasil em estado puro”. Existe uma vasta bibliografia a respeito desse poeta.
Se durante a minha vida acadêmica estava sempre em contato com a literatura popular através de trabalhos realizados no Programa de Pesquisas em Literatura Popular (PPLP-UFPB), atualmente esse encontro ocorre por meio da literatura infantil. Nessa mesma coluna, já escrevemos sobre livros de Manoel Monteiro,( Pinóquio), Arievaldo Viana ( João de Calais), Chico Sales ( Cordelinho), Ferreira Gullar ( Romances de cordel), todos vinculados à literatura de cordel. Voltamos, mais uma vez, a bater na mesma tecla, mas não é uma música de uma nota só, desta vez recebemos um presente triplo – três histórias de Leandro Gomes de Barros recriadas por Rosinha.
Os livros chegaram pelo correio em uma bonita caix a de papel reciclado contendo os seguintes textos: ‘ A história de Juvenal e o Dragão”, “A história da Princesa do Reino da Pedra Fina” e “A história da Garça Encantada”, com o título: “ Coleção Palavra Rimada com Imagem” (Ed. Projeto, 2010). Todas essas histórias estão associadas a minha infância e foram recontadas e ilustradas por Rosinha. Na parte da ilustração, técnica da xilogravura, Rosinha contou com a ajuda valiosa dos xilógrafos pernambucanos – Meca Moreno e Davi Teixeira. Rosinha Campos também é pernambucana, arquiteta de formação, e hoje se dedica a escrever e ilustrar livros para crianças.
Na orelha dos livros, encontramos esta explicação:
“ A Coleção Palavra Rimada com Imagem reconta três romances do nosso mais importante poeta popular , Leandro Gomes de Barros. Foi um trabalho desafiador garimpar e escolher, dentro da sua vasta obra, histórias que se aproximassem do conto maravilhoso e transformá-las em textos tão curtos e com poucas imagens. (...) o livreto com o formato original e com versão integral da história vem encartado para que seja lido, antes ou depois do reconto.” ( Rosinha)
A história de Juvenal e o dragão recontada por Rosinha é cheia de aventuras e envolve princesas, cavaleiros e dragões. Num reino distante, vivia um terrível dragão que ameaçava destruir tudo se não recebesse cada ano a oferta de uma bela moça. Um dia chegou a vez da filha do rei. Para contornar essa terrível situação, aparece o herói Juvenal que vai dar solução ao caso. Surge um vilão, o cocheiro do rei, que tenta ficar com a princesa, mas será desmascarado.
A princesa do reino da Pedra Fina fala sobre o encontro de José com as moças do reino da Pedra Fina. Nesta história, novamente aparece um vilão, barbeiro do rei, que atuava também como conselheiro, e sugere ao rei desafios que deveriam ser superados por José para conseguir a mão da filha caçula do rei. Como sempre ocorre nas histórias maravilhosas, com muita luta, José sai vencedor.
A garça encantada trata de um feitiço contra uma princesa que foi transformada em garça. Esse feitiço é quebrado quando um caçador retira um espinho de laranjeira da cabeça da ave que retorna a sua condição de princesa. Para não voltar à condição de garça, a princesa pede ao caçador que não conte a ninguém esse segredo. Até que um dia Gelmires, este é o nome do caçador, conta a história a um amigo e a princesa desaparece. Vem a luta para encontrá-la, os obstáculos que o caçador terá de enfrentar. Feitiçeiro e feiticeira irão ajudar o caçador a reencontrar a princesa amada.
Esta coleção contém a história recriada por Rosinha com ilustrações em xilogravuras, um folheto com a história integral contada por Leandro Gomes de Barros e informações sobre o cordel, a xilogravura e uma breve biografia de Leandro Gomes de Barros.

Recebi um bonito presente de Natal da editora Projeto e a leitura dos textos me proporcionou mais um encontro com o cordel.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Os menores e os maiores livros de Rachel de Queiroz








Os menores e os maiores livros de Rachel de Queiroz
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB)

Netos são como heranças: você os ganha sem merecer. Sem ter feito nada para isso, de repente eles caem do céu.
(Rachel de Queiroz)

Talvez o leitor estranhe o título do artigo. Muitas pessoas costumam se referir à literatura infantil como uma literatura menor. Queremos romper esta mentalidade acanhada. A literatura infantil, embora destinada àqueles de pouca idade, não significa que seja uma literatura menor, de pouco valor literário. “O menino mágico”, “Cafute & Pena de Prata” e “Andira” foram escritos com a mesma preocupação literária que norteou Rachel de Queiroz para escrever “O Quinze”, “Dôra Doralina”, “Memorial de Maria Moura” e outros livros consagrados, não deixando de mencionar as saborosas crônicas que escrevia para a última página da revista “O Cruzeiro”. São, portanto, livros do mesmo quilate dos livros para adultos.
Nosso passeio vai passar pelas ruas dos três livros infantis que a escritora cearense deixou de presente para as crianças e para os pais que não perderam o gosto da infância. Cada livro foi inspirado em algum fato ou experiência da escritora. Maria Luiza de Queiroz, irmã da escritora, afirma que eram os livros infantis que Rachel mais gostava de escrever. Foram livros escritos na fase da maturidade, livros escritos para os netos.
“O menino mágico” foi o primeiro para crianças. Para escrever este livro, Rachel submeteu a história à apreciação do sobrinho Daniel, menino de sete para oito anos. Os palpites do sobrinho ajudaram na urdidura da trama.
Daniel, o protagonista, era um menino diferente, ele sabia fazer mágicas. Não era ligado a futebol como o irmão, gostava de aventuras, de viajar por toda parte – Teresópolis, São Paulo e até o Ceará, de avião, naturalmente. Todas essas viagens eram inventadas pelo menino mágico e ele contava tudo direitinho como se fossem verdadeiras. Mas aparece na história um primo que era um “gênio”, um verdadeiro Einstein na Matemática, o primo Jorge. Fica difícil a competição – Daniel, o mágico ou Jorge, o matemático? Quem será o vencedor? Para solucionar o problema, surgiu a seguinte proposta: Daniel ficaria com a mágica e Jorge com a inteligência, os dois juntos podiam ganhar a vida e correr o mundo, e foi o que fizeram. Desapareceram. Onde os dois fujões se esconderam? Só a polícia poderá descobri-los.
Este livro traz bonitas ilustrações de Laurabeatriz que entrou no clima da fantasia e pintou e bordou junto com os dois meninos.
“Cafute & Pena-de-Prata” é uma história inspirada nos pintinhos da fazenda e trata de um tema recorrente na literatura – a luta pela sobrevivência e as desigualdades sociais. Cafute era pinto-de-pobre, vivia debaixo das asas da mãe; Pena-de-Prata era pinto-de-rico, não sabia nem quem era sua mãe. O primeiro nasceu no meio do mato; o segundo nasceu em chocadeira elétrica. Mas,quando crescessem, iriam ter o mesmo destino – seriam mortos e servidos para almoço dos patrões. Para fugir da triste sina, resolveram se unir e saíram pelo mundo afora como os músicos de Bremen e vivem mil e uma aventuras.
Para retratar os perigos e as ameaças sofridas pelos pintinhos, a ilustradora Maria Eugênia desenhou galos bem grandes, com bicos ferozes que tomam toda a página. Quando se trata de encontros amigáveis, tudo é delicado, olhares cheios de ternura.
“Indira” nasceu de um equívoco. Uma amiga de Rachel de Queiroz, Dolores, veio passar uns dias na fazenda “Não me deixes” e de noite ouviu uns gritinhos estranhos. De manhã cedo, falou para Rachel:
“- Ah, Rachel, que coisa mais linda – acordei com o canto das andorinhas no beiral do alpendre”.
Rachel ficou calada, ela bem sabia do que se tratava, não falou nada para não tirar o encanto da ilusão da amiga. Na realidade os gritinhos eram de morcegos, animais muito comuns nos tetos das casas de fazenda.
Foi, assim, que surgiu a história de uma andorinha que vive em perfeita harmonia com os morcegos, adquire até os hábitos comuns aos morcegos, assume-se “andorinha/morcego”.
Até que um dia, cansada de fingir ser morcego, descobre que os morcegos são bem diferentes das andorinhas e resolve partir com suas irmãs verdadeiras.
Rachel afirmou que criava suas histórias inspiradas em fatos reais. Os três contos infantis mesclam fantasia com realidade. A escritora partiu de alguma coisa concreta, deu asas à imaginação e surgiram três encantadoras histórias que foram reeditadas em 2010 para homenagear o centenário de nascimento de Rachel de Queiroz. Louvada iniciativa da editora Caramelo!

janelas do mundo




terça-feira, 16 de novembro de 2010

João de Calais: do cordel à literatura de quadrinhos




João de Calais: do cordel à literatura de quadrinhos
(Neide Medeiros Santos – Crítica Literária – FNLIJ/PB)

Cantam nautas choram flautas
Pelo mar e pelo mar
Uma sereia a cantar
Vela o Destino dos nautas.
(Augusto dos Anjos. Barcarola)

A história de João de Calais pertence ao ciclo de cordel denominado “morto agradecido”. Câmara Cascudo inclui este romance entre os “Cinco Livros do Povo”, juntamente com “Donzela Teodora”, “Imperatriz Porcina”, “Roberto do Diabo” e “Princesa Megalona”.
A origem de João de Calais é francesa. Atribui-se à Madeleine Angélique Poisson a autoria da história. Casando-se com um espanhol, a escritora passou a ser conhecida como Madame de Gómez. No Brasil, a história de João de Calais foi divulgada por Câmara Cascudo ( prosa) e pelos cordelistas (poesia).
Na década de 1990, a editora Scipione publicou oito contos tradicionais de literatura popular, reescritos e ilustrados por Ricardo Azevedo e Ciça Fittipladi. “João de Calais” integra essa coleção.
Em 2010, a editora FTD lançou “História do navegador João de Calais e de sua amada Constança”, versão de Arievaldo Viana. Os textos da Scipione eram em prosa, a nova edição da FTD alia o cordel ( sextilhas) à literatura de quadrinhos.
Arievaldo Viana, conhecido cordelista cearense, criou o texto verbal e Jô Oliveira fez as ilustrações. Nos dados biográficos do cordelista e do ilustrador, aparecem essas informações: Arievaldo Viana nasceu em uma fazenda do Ceará nas proximidades de Quixeramobim e sua diversão de criança era ouvir a avó Alzira ler os folhetos de cordel. Jô Oliveira nasceu em Pernambuco, mas passou parte de sua infância em Campina Grande, Paraíba. Nos idos de 1950, envolveu-se com quadrinhos e cordel e esse gosto, adquirido na infância, perdura até hoje.
Depois dessas informações, caminhemos em direção ao livro de Arievaldo Viana e Jô Oliveira.
Para escrever a história de João de Calais, Arievaldo partiu do texto em prosa apresentado por Câmara Cascudo e procurou uma maneira fácil de ser compreendido por leitores de “qualquer idade... dos oito aos 80 anos” ( o cordel). Quando criança, teve contato com a versão de Severino Borges da Silva, uma edição da Luzeiro do Norte, folheteria de João José da Silva.
A história quadrinizada se inicia com invocação às musas e o poeta pede a proteção divina para falar sobre João de Calais. Embora o texto original tenha vindo da França, o cordelista prefere a pronúncia portuguesa – Calais e não Calé.
Dirigindo-se aos leitores, afirma que vai falar do amor de Constança e das batalhas de João. Dois motivos quase universais aparecem na história – “o morto agradecido” e a “esposa resgatada”.
No universo dos personagens, destacam-se: João de Calais, Constança e a prima Isabel, o pai de João de Calais, o rei de Palermo, pai de Constança, e o sobrinho do rei – Florimundo, “um jovem mau e egoísta/ sujeito péssimo e imundo” e um morto insepulto.
É uma história marcada por aventuras marítimas, pirataria, traições e ciúmes.
O traço vigoroso de Jô Oliveira captou os momentos de tensão e os personagens revelam aflição no olhar, medo diante das adversidades e assombro perante fatos estranhos. As cores fortes, com predomínio do amarelo e vermelho, condizem com o sol tropical do Nordeste.
Este folheto tem despertado a atenção dos estudiosos da literatura de cordel. A professora Neuma Fechine Borges, na década de 1970, analisou-o à luz da semiótica na sua dissertação de mestrado na Universidade Federal da Paraíba. O trabalho da professora Neuma Fechine foi apresentado em diversas cidades brasileiras, em Portugal e na França ( Universidade de Poitiers).
Neuma Fechine não teve a oportunidade de conhecer a versão de Arievaldo Viana, partiu antes do tempo, mas, certamente, iria gostar de saber que o folheto de Severino Borges foi revisitado por um cordelista jovem que imprimiu uma nova feição à velha história de João de Calais.

domingo, 31 de outubro de 2010

Tesouro escondido no livro “Mil e uma noites”


Tesouro escondido no livro “Mil e uma noites”
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB)

Com arte, a nossa vida fica mais rica, e a gente fica mais feliz.
(Maté)

As histórias contadas por Sherazade, no livro “Mil e uma noites”, foram recriadas por muitos escritores. Cada um procurou dar um toque pessoal a esses contos. Quem não se recorda de “Aladim e a lâmpada maravilhosa” ou de “Ali-Babá e os quarenta ladrões” nas versões de Malba Tahan? São histórias que povoam a nossa infância.
A escritora e ilustradora Maté fez uma viagem a Marrocos e lá encontrou uma história pouco divulgada que integra o corpus do livro “Mil e uma noites”. Quando regressou ao Brasil, resolveu escrever e ilustrar esta bonita história – “A árvore que canta, o pássaro que fala e o a fonte que rejuvenesce” (Ed. Brinque-Book, 2007).
O colorido das vestes dos marroquinos foi o ponto de partida para as ilustrações aquareladas em cores vibrantes. O cenário é a Pérsia. Lá vivia um rico sultão que estava à procura de uma noiva. Os anos iam passando e ele continuava solteiro, precisava arranjar uma noiva para casar. Resolveu vestir-se como um comerciante de tapetes, e saiu a percorrer o seu reino à procura de uma noiva ideal.
Certo dia, passando por uma casa humilde, ouviu o relato de três moças – a mais velha contava que sonhara que estava casada com o cozinheiro do palácio; a segunda tinha tido um sonho semelhante: sonhou que estava casada com o mordomo do sultão. Quanto à caçula, ela revelou que sonhara que ia casar com um vendedor de tapetes.
A resposta da mais nova despertou riso e deboche das outras irmãs e a reação foi dizer:
“- Como você é boba, contentar-se com um simples vendedor de tapetes! Assim nunca melhorará de vida!” (p. 8)
Mal tinham pronunciado estas palavras, surge à porta o falso vendedor de tapetes que, tendo ouvido as conversas das irmãs, resolveu entrar na casa das moças.
Depois de apresentar os tapetes e tomar água límpida da fonte trazida pela irmã mais nova, ele se desfez das vestimentas de vendedor e revelou que era o sultão e que iria realizar os desejos das irmãs – a mais velha casaria com o cozinheiro do palácio, a do meio com o mordomo e a mais nova seria sua esposa. Levou-as para o palácio e os casamentos foram realizados.
As duas irmãs ficaram com muita inveja da caçula e traçaram um plano de vingança, decidiram demonstrar que estavam muito felizes para não despertar nenhuma suspeita. A sultana engravidou, e quando foi ganhar o bebê as irmãs se ofereceram para ser parteiras. Nasceu um lindo menino que foi substituído por um filhote de macaquinho, cuidadosamente vestido com as roupas do enxoval do principezinho. O sultão quando soube ficou desapontado, mas resolveu aceitar o fato. A mesma cena se repetiu mais duas vezes – o segundo filho foi substituído por um filhote de cachorro e o terceiro, uma menina, por uma porquinha.
O leitor deve estar curioso para saber o destino dos filhos do sultão... eles foram colocados dentro de um cesto e jogados pelas irmãs malvadas na correnteza do rio que passava nos jardins do palácio. Um velho jardineiro recolheu-os e criou-os como se fossem seus filhos.
E o que aconteceu com a sultana?
Depois de três grandes decepções, o sultão resolveu castigá-la trancando-a em uma torre muito alta. As irmãs continuaram morando no palácio e o sultão não quis mais saber de casamento.
Os anos se passaram... Os meninos e a menina se tornaram adolescentes muito bonitos e começa um novo ciclo de aventuras. O resto da história envolve uma árvore que canta, um pássaro que fala a verdade, uma água dourada que tem o poder de rejuvenescer. Para saber o final da história, só lendo o livro escrito e ilustrado com muito carinho por Maté.
Vamos conhecer um pouco sobre esta escritora/ilustradora que tem um nome que parece um apelido.
Maté, na realidade é Marie Thérèse Kowalczyk, nascida na França, neta de poloneses. Veio adulta para o Brasil, gostou e ficou. Vai completar 30 anos que mora no Brasil, já podemos considerá-la brasileiríssima. É professora de Artes nas Faculdades Integradas Teresa D´Ávila na cidade de Lorena, interior de São Paulo.
Além desse livro, Maté já escreveu e ilustrou vários outros com temáticas africanas e indígenas. Maté está presente na orelha de “Livros à espera do leitor” com uma mensagem que nos enviou através do blog – nastrilhasdaliteratura. blogspot.

sábado, 23 de outubro de 2010

As cores do mundo de Lúcia


(Neide Medeiros Santos – Crítica literária – FNLIJ/PB)

Saiba que os poetas como os cegos
podem ver na escuridão.
(Edu Lobo/Chico Buarque de Holanda. Choro Bandido)

A temática dos excluídos na literatura infantil vem crescendo nos últimos anos. No Brasil, encontramos muitos livros de literatura infantil que tratam de aspectos ligados àqueles que vivem isolados da sociedade por algum tipo de deficiência ou discriminação. Nos livros para o público infantojuvenil, encontramos assuntos que transitam da marginalidade à intolerância racial, Os livros “Marginal à esquerda”, de Ângela Lago, “Carvoeirinhos” de Roger Mello, “Sapato Alto” de Lygia Bojunga Nunes abordam temas modernos que antes não apareciam na literatura infantil brasileira.
Daniel Munduruku, com muita propriedade, procura redimir a figura do índio; Rogério Andrade Barbosa valoriza a cultura africana com histórias que remontam aos países africanos. Luciana Savaget, com uma série de livros sobre os árabes, traz uma nova visão a respeito de palestinos e árabes.
Da Editora Paulus, recebemos, recentemente, (outubro de 2010), um bonito livro “As cores do mundo de Lúcia”, de Jorge Fernando dos Santos, com ilustrações de Denise Nascimento. Com sutileza, autor e ilustradora retratam o problema da cegueira.
Jorge Fernando dos Santos é mineiro, escritor de livros infantis e autor de peças teatrais. Denise Nascimento é, também, mineira, já ilustrou vários livros infantojuvenis e participou da Feira do Livro de Bolonha (Itália) e da Bienal de Ilustrações, na Eslováquia.
Na história de Lúcia, Jorge Fernando conta e Denise ilustra. O leitor percorre caminhos com a pequena personagem e vai descobrindo pouco a pouco como a menina celebra a vida e se encanta com as coisas simples que estão ao seu redor.
As associações dos sentidos com as cores é a tônica constante do livro. Cada cor tem um simbolismo distinto e a menina aprende a conviver com o mundo da escuridão através dos aromas, do tato, do som.
O branco lhe lembrava o algodão e o sabor “variava da acidez do sal de cozinha ao aroma adocicado das flores da jabuticabeira do jardim de sua casa”. Na época da floração, vinham abelhas com seus zumbidos e surge outra associação – “o som do branco era um zumbido suave e constante”.
E o verde? Está presente nas folhas da roseira, na folha cheirosa da hortelã, no vestido de aniversário presenteado pela avó, por isso o som do verde se assemelha à melodia “Parabéns pra você”.
A laranja é a cor do amanhecer, do canto do galo é a “cor do céu depois que amadurece”. À tardinha, um pouco antes do pôr do sol, o céu fica todo alaranjado.
O azul é a cor do mar e tem gosto de bala de anis. E o mar reflete tantas cores! Às vezes é de um azul profundo, torna-se prateado nas noites de lua cheia, dourado quando o sol está muito forte. As espumas colorem o mar de branco e aí tem “um forte gosto de sal.”
E o vermelho? Esta cor tem sabores variados. Gosto de batom, de pimenta e de frutas deliciosas, como a cereja e o morango. É a cor do sangue que pulsa nas nossas veias.
O amarelo tem o cheiro de banana madura, o gosto lembra o doce de pêssego em calda. Será que Lúcia já ouviu alguém dizer que esta cor era a preferida do pintor Van Gogh? A história não fala sobre isto, mas é bom acrescentar.
Por fim, vem o negro. Esta era a única cor que a menina podia ver. Mas ao lado do negro, vem uma feliz descoberta – ao receber do jardineiro o presente de uma jabuticaba bem madurinha, vem a delícia de saber que esta cor resulta da mistura de todas as cores.
Não poderia concluir este passeio com Lúcia pelo mundo das cores, sem fazer o registro das ilustrações suaves e sugestivas de Denise Nascimento.
Um fato chama a atenção do leitor. Lúcia, a mãe, a avó e os demais personagens da história aparecem sempre com os olhos fechados, só o jardineiro, encarregado de cuidar das flores do jardim, está com os olhos bem abertos.
Quem cuida de flores deve estar com os olhos abertos para não perder os momentos do desabrochar das pétalas. Quem não pode vê-las, deve ter sensibilidade para senti-las através do tato e dos aromas.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

O vendedor de jornais revisitado-dav pilkey


O vendedor de jornais revisitado
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB)

São tantas as palavras
- como as pessoas -.
mas descobri-las poéticas é um exercício
secreto e refeito dia a dia.
(Arriete Vilela. Poema 37. In: Vadios Afetos)


Dav Pilkey é natural de Cleveland (EUA) e mora, atualmente, em Washington. É autor, entre outros livros, da série “As aventuras do Capitão Cueca”, “Ricky Ricota e Super–Robô”, traduzidos e publicados pela Cosac Naify.
Em 2010, a Cosac Naify publicou mais um livro de Dav Pilkey – “O menino entregador de jornais” (The Paperboy) que recebeu menção honrosa na Medalha Caldecott. No Brasil, o livro foi traduzido por Otávio Frias Filho, autor de livros infantis e diretor de redação do jornal “Folha de São Paulo” desde 1984.
As ilustrações deste último livro são de Dav Pilkey e chamamos a atenção do leitor para as páginas 24 e 25, elas foram inspiradas no quadro de Van Gogh – “Noite estrelada”. Acrescentamos que a ilustração da última página - um menino voando com um cachorro nos braços nos faz lembrar os quadros de Marc Chagall. Isso demonstra o estreito vínculo do escritor com a pintura.
Em nota inserida no livro, ficamos sabendo que a história do menino entregador de jornais é baseada na vida do próprio Pilkey, quando tinha treze anos.
O menino não é identificado pelo nome, é apenas um entregador de jornais. De manhã bem cedo, quando a cidade está escura e as pessoas ainda dormem, o pequeno se levanta bem sutil para não acordar o pai, a mãe e a irmã, chama seu cachorro, pega a bicicleta, arruma os jornais em uma sacola e faz a entrega dos jornais aos assinantes. Cumprida a tarefa, volta para casa e vai dormir.
A história é bem simples. Pilkey utiliza frases curtas, ritmadas. As palavras adquirem um tom poético, como neste exemplo:
“O mundo todo dorme,
menos o menino
e seu cachorro.
E é nessa hora
que eles são mais felizes. (p.24)

A página com este texto traz a ilustração que remete à famosa pintura de Van Gogh – “Noite estrelada” (1889).
A leitura do livro de Pilkey nos levou a uma crônica escrita por Graciliano Ramos em 1915 – “O vendedor de jornais”, publicada no jornal “Paraíba do Sul”, Rio de Janeiro, 20 de maio de 1915.
Nessa crônica, Graciliano descreve o dia a dia de um menino que vende jornais e encontramos afinidades com o texto de Pilkey. A mesma concisão e poeticidade do escritor americano se apresentam no texto graciliânico. Para descrever o menino jornaleiro, o escritor alagoano se esquece da prosa e “penetra surdamente” no reino da poesia. O fragmento que se segue poderia ter sido escrito por Carlos Drummond de Andrade ou Bandeira:

“O vendedor de jornais é o tipo mais despreocupado e alegre do mundo.
Tem uma alma de pássaro.
(...)
Dir-se-ia que tem asas.”
(Linhas Tortas. 2005: p.42)

Os tempos mudaram, hoje os jornais são distribuídos nas bancas de revistas ou entregues por adultos que se utilizam de motos. Ainda é possível encontrar alguns vendedores de jornais, mas em número reduzido. A figura do menino “trêfego, ativo, tagarela como uma pega, travesso como um tico-tico” que cantava o dia inteiro, anunciando grandes acontecimentos está desaparecendo. Felizmente existem os escritores, os poetas, os jornalistas, pintores e escultores que não deixam que essas figuras populares fiquem esquecidas.

sábado, 2 de outubro de 2010

José Jorge Letria e o poder encantatório da palavra.




José Jorge Letria e o poder encantatório da palavra.
( Neide Medeiros Santos – Crítica literária da FNLIJ/PB)

Cada palavra que aprendes
tem o gosto da aventura
e a magia secreta
que há no ato da leitura.
(José Jorge Letria. Versos para os Pais lerem aos Filhos em Noites de Luar)

José Jorge Letria, escritor português, é autor de vasta e diversificada obra. Na literatura portuguesa, tem lugar de destaque como dramaturgo, romancista, poeta, jornalista. Com o ilustrador André Letria, seu filho, publicou, pela Editora Peirópolis (2010), dois bonitos livros de poesia para crianças – “Avô, conta outra vez” e “Versos para os Pais lerem aos Filhos em Noites de Luar”.
O título do livro “Avô, conta outra vez” leva o leitor a pensar que se trata de um texto em prosa. Ledo engano, aí reside pura poesia, tudo perpassado por um lirismo encantatório. O avô se utiliza de versos para explicar ao neto que tem um saco cheio de histórias e no momento oportuno irá contá-las.

“Tenho em casa um saco cheio
de histórias para te contar
e só ando a fazer tempo
para as poderes escutar.

São histórias de outros tempos
que a minha avó me contou
com fadas e lobisomens
que a imaginação guardou.”

O avô e o neto têm um encontro marcado “na esquina de um livro / ou num quadro bem pintado”. O refrão “Ó avô, conta outra vez” aparece de forma reiterada, no decorrer do poema, sempre no último verso da quadrinha.
Não poderia deixar de fazer referência às ilustrações de André Letria. Desenhos e mais desenhos de livros se espalham pelas páginas, coroando os momentos mágicos de enlevo que envolve o contar histórias para o neto. Só quem já vivenciou essa experiência sabe a delícia que envolve esse terno momento.
Em nota da editora, na contracapa, vem esta observação que merece a transcrição: “Um livro para avós, pais e netos se lembrarem sempre do valor e da ternura que é capaz de unir gerações”.
Carlos Drummond de Andrade, no poema “Poesia”, revela o duro ofício de escrever um verso quando diz: “ele está cá dentro/ inquieto/vivo/ e não quer sair.” E prossegue o poeta: “Mas a poesia deste momento/ inunda minha vida inteira”.
Não sabemos se José Jorge Letria teve dificuldades para escrever os poemas do livro “Versos para os Pais lerem aos Filhos em Noites de Luar”, se lutou com as palavras, mas se torna evidente que a poesia inunda todas as páginas do livro. Terá sido influência da noite de luar? Pouco importa a resposta, o importante é a beleza poética do texto.
Se no livro anterior, a preocupação residia nas histórias contadas ao pé do ouvido, aqui esta preocupação está afeita à palavra. O adulto procura ensinar a criança o valor da palavra. Estes versos comprovam o que afirmamos:

“Cada palavra que dizes,
mesmo que seja hesitante,
tem a beleza sonora
da cantilena distante
que te entra no ouvido
vinda de uma tal distância
que, ao procurá-la no mapa,
encontramos a infância.”

E o poeta, pesquisador do significado das palavras, debruça-se sobre o aprender de novas palavras, sobre o ato da leitura, sobre cada palavra escrita.
E onde se guardam os afetos?

“E aquilo que tu sentes
passa de avós para netos,
é o livro onde se guarda
o tesouro dos afetos.”

Letria foi mais ousado nas ilustrações deste último livro – elas extrapolam o texto verbal, permitindo, assim, uma nova leitura.
Ler esses dois livros inundou, também, a minha vida de poesia.

sábado, 25 de setembro de 2010

Sociedade da informação: cartas, jornais, e-book

Sociedade da informação: cartas, jornais, e-book
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária da FNLIJ/PB)

Há muito tempo, sim, que não te escrevo.
Ficaram velhas todas as notícias.
Eu mesmo envelheci: Olha, em relevo,
estes sinais em mim, não das carícias

(tão leves) que fazias no meu rosto:
são golpes, são espinhos, são lembranças
da vida, a teu menino, que ao sol-posto
perde a sabedoria das crianças.
(Carlos Drummond de Andrade. Carta. Lição das Coisas)

Os caminhos da informação partem, inicialmente, de uma prática muito comum entre os mais antigos: as cartas e os bilhetes, depois aparecem caminhos mais modernos: jornais, revistas, e-mails e os modernos e-books.
Cartas – Quando revestidas de teor literário, as cartas recebem a denominação de literatura epistolar. Na literatura brasileira, encontramos modelos exemplares de cartas trocadas entre os escritores. Monteiro Lobato e Godofredo Rangel se corresponderam por mais de 40 anos. Posteriormente, essas cartas foram reunidas e publicadas com o título “A Barca de Gleyre”. Através dessas cartas, ficamos conhecendo muitas ideias de Lobato: seu amor pela literatura infantil, a luta em prol da defesa do petróleo. São cartas que trazem a marca do tom confessional.
Mário de Andrade foi um missivista compulsivo. As cartas de Mário de Andrade para Bandeira, de Mário para Drummond, publicadas em livros, já deram origens a inúmeras pesquisas, dissertações de mestrado. Recentemente, a editora Peirópolis publicou “Correspondência Mário de Andrade &Henriqueta Lisboa”, uma co-edição da EDUSP/IEB/Peirópolis, organização e notas de Eneida Maria de Souza. A correspondência de Mário de Andrade, por determinação do autor, só foram publicadas 50 anos após a sua morte. A leitura dessas cartas permite que o leitor conheça bem as artes e a vida cultural do Brasil até a segunda metade do século XX. Mário de Andrade morreu em 1945.
Encontramos também cartas familiares que são bem espontâneas e apresentam um retrato de uma época, os costumes de uma geração, as leituras preferidas. São relíquias que vão além do simplesmente literário.
Jornais – O jornal está presente em quase todas as bibliotecas brasileiras e pode ser utilizado com grande criatividade por professores e bibliotecários. Escritores, muitas vezes, escrevem textos para os jornais que depois são publicados em livros. Marina Colasanti, escritora e jornalista, em depoimento a Pedro Benjamin Garcia e Tânia Dauster (Teia de Autores: Ed. Autêntica), declara seu amor ao jornal com estas palavras:
“Serei sempre mais leitora que escritora. Imagino que todo escritor lê mais do que escreve. Mesmo quando não estou lendo livros, todos os dias gasto uma hora e meia, pelo menos, para ler os jornais. Isso também é leitura.”
Manuel Bandeira escreveu “Poema tirado de uma notícia de jornal”, partindo de uma notícia veiculada em um jornal do Rio de Janeiro. Mais recentemente, Moacyr Scliar utilizou notícias tiradas dos jornais para escrever contos. Um dos seus livros traz o título “Deu no jornal”, fruto dessa leitura de jornais.
O jornal deve, portanto, ser aproveitado, não só como veículo de informação, mas também como fonte literária.
A cidade de João Pessoa conta com um bom número de cronistas que falam sobre a beleza da cidade, sobre os ipês amarelos que enfeitam o Parque Sólon de Lucena no mês de dezembro, sobre o verde da mata do Buraquinho. O rio Sanhauá já foi cantado em verso e prosa.
Heriberto Coelho organizou uma coletânea de textos com imagens da cidade de João Pessoa – “Sonho de Feliz Cidade”. Imprell / Edições O Sebo Cultural. Nesses textos, os cronistas resgatam pontos pitorescos da cidade, suas ruas e avenidas. É um material valioso para a sala de aula.
E-book - O e-book (eletronic book) foi assunto muito discutido na última Bienal Internacional do Livro de São Paulo (agosto de 2010). Consiste em um pequeno aparelho de leitura eletrônica que procura substituir o livro tradicional.
Umberto Eco e Jean-Claude Carrière, em “Não contem com o fim do livro” (Ed. Record: 2010), debateram, de forma inteligente, sobre o destino dos livros. Será que o livro irá desaparecer? Foram longas conversas entre o semiólogo e o roteirista de cinema. Os encontros aconteceram em Paris, na casa de Jean-Claude Carrière e em Monte Cerignone, na casa de Umberto Eco. É leitura que recomendamos.

sábado, 4 de setembro de 2010

Retalhos da infância de um menino poeta- Bartolomeu Campos Queiroz





Retalhos da infância de um menino poeta
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária da FNLIJ/PB)

Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais.
(Meus oito anos. Casimiro de Abreu)

O poeta Casimiro de Abreu louvou a infância no poema antológico “Meus oito anos”. Nos versos do poeta romântico, a infância é apresentada como uma fase dourada, alegre e descontraída. De forma bem diferente, o escritor Bartolomeu Campos de Queirós trata do mesmo tema em livros de caráter autobiográfico. “Ciganos”, “Indez”, “Por parte de pai”, “Ler, escrever e fazer conta de cabeça” e” O olho de vidro do meu avô” são textos memorialísticos que contêm retalhos da vida da infância do “menino poeta”.
Em comentário crítico sobre esses livros, a professora Maria José Nóbrega assim se expressa: “Bartolomeu recria a infância com a poética das palavras: os sentimentos vividos, os episódios cuidadosamente guardados se extravasam em linguagem permeada de música e de silêncio que rompe as fronteiras do tempo”. (Encarte do livro “O olho de vidro do meu avô.” Ed. Moderna, 2004).
No nosso exercício diário de crítica literária da literatura infantil, sempre nos deparamos com livros de Bartolomeu Campos de Queirós e, quando se refere à infância, o escritor adota uma postura realista e melancólica, mas sensivelmente poética.
“Ciganos”, um dos primeiros livros do escritor na linha memorialística, foi reeditado pela Global em 2004. É o relato da vinda dos ciganos a uma pequena cidade do interior do Brasil. Seria Papagaio, cidade onde Bartolomeu viveu a sua infância? É possível. Os ciganos andavam muito, eram eternos viajantes.
Diante daquelas criaturas que causavam apreensão aos adultos. Surgiam as interrogações. De onde vinham os ciganos? Alguns diziam que vinham das terras de Espanha ou das areias de Portugal. Havia aqueles que afirmavam que os ciganos deixaram a Índia, em busca de um caminho para se chegar ao sol. Era um povo cheio de mistérios.
E a presença dos ciganos modificava os hábitos da pacata cidadezinha. Portas eram cerradas, as roupas não dormiam no varal, os cavalos permaneciam presos. Os ciganos incomodavam pessoas grandes, infundia medo aos meninos, pois contavam que eles roubavam crianças. Mas, para o menino/poeta os ciganos exerciam uma atração especial.
Os ciganos traziam música à cidade durante o dia com o martelar incessante da fabricação de tachos de cobre. A música era repetitiva e monótona, estava associada ao trabalho, mas a noite ouvia-se o som dos violinos e das guitarras. Os cantos e as danças alegres enchiam a noite de uma música suave, enternecedora. O canto era em língua diferente, tão bonito que “mesmo o silêncio quietava para escutar.”
Havia música também nos ruídos do chicote do pai nas costas do menino. Era uma música dolorida, sofrida, diferente da música do trabalho e do som dos violinos.
Mais dolorido era o silêncio. Ele chegou de mansinho, de madrugada, na morte silente da mãe, no “momento frágil em que nem mesmo a natureza se define”.
E o menino recorda a mãe naquele instante de infinita dor. Ela não tinha vaidade, era incapaz de escolher o colorido de seus vestidos, tudo na mãe irradiava simplicidade. Morreu silente como os pássaros morrem. As mãos trancadas sobre o peito “como que avisando que nada mais poderia ser feito”.
Era no silêncio da madrugada que os ciganos partiam, deixando a cidade mais triste e desolada. Para o menino poeta, “os ciganos eram uma espécie de sol que acordava os afetos. E era tanto o amor, que muitas vezes ele duvidava de tudo, pensava ser um cigano, esquecido em porta de família alheia.”
De modo bem lírico, como costumam ser os livros de Bartolomeu Campos de Queirós, ficamos conhecendo retalhos da vida de um menino que cresceu e resolveu um dia contar fatos de sua infância como se poeta fosse. E Lili perguntou:
- Mas ele não é poeta?

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Eros e Psiquê: a velha/nova história




Eros e Psiquê: a velha/nova história
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária da FNLIJ/PB)

Conta a lenda que dormia
Uma princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada.
(Fernando Pessoa. Eros e Psiquê)

A história de Eros e Psiquê está inserida no livro do escritor latino Apuleio: “O Asno de Ouro”. É um relato da Antiguidade latina que trata do amor entre um deus (Eros) e um ser humano (Psiquê).
O jornalista William Costa, na coluna “Almanaque” (O Norte, domingo, 15 de agosto de 2010), com aguda sensibilidade literária, discorreu sobre “Eros e Psiquê” [Ed. FTD, 2009), versão de Ferreira Gullar e fez um bom resumo da história. Não vamos bater na mesma tecla, encaminhamo-nos para outra versão – “Psiquê”, texto e ilustração de Ângela Lago (Ed. Cosac Naify, 2010), dando ênfase à ilustração.
A versão de Ângela Lago chama a atenção do leitor a partir da capa. Capa toda preta perfurada por pequenos pontos de tamanhos diferentes, deixando-se entrever a cor prateada. Em destaque, na cor branca, apenas o título do livro e o nome da autora.
Examinando a capa, a primeira impressão é de uma noite escura iluminada pelas estrelas. No posfácio do livro, Ângela Lago dá a seguinte explicação – quando era pequena, devia ter cerca de quatro anos, viu um céu cheio de estrelas e esta imagem tem acompanhado sua trajetória de ilustradora.
Adélia Prado confessa que ficou cheia de gratidão por estar na quarta capa do livro e ficou imaginando como era possível alguém perfurar um papel de fundo preto e dizer: “é um céu estrelado”! É possível, sim. Antes de ler a explicação de Ângela Lago, ao examinar a capa, tive a sensação de estar no sertão do Seridó em uma noite bem escura com o céu cheio de estrelas. E a noite invade todas as páginas do livro.

Na história de Apuleio, os amantes eram tão bonitos que seria impossível descrevê-los. Ângela Lago procurou ser fiel à informação do autor, os personagens aparecem sempre envoltos em sombra, parecem silhuetas. As feições dos enamorados são indistintas. Acrescente-se que Eros era um deus e não podia ser visto pelos mortais.
Cada ilustração exige um olhar atento do autor. As páginas não vêm numeradas, mas há uma ilustração que merece um destaque especial – a noite vai alta, a lua minguante quase não é divisada, o céu contém algumas estrelas e, através da janela aberta, é possível divisar lençóis sobre uma cama, tudo envolto em azul profundo, confundindo-se com a escuridão da noite.
A cama dos amantes vem representada por diferentes matizes: ora é um campo de flores, ora é o mar ou o céu estrelado.
O vocábulo Psiquê pode ter dois significados: alma e borboleta e as borboletas povoam as páginas do livro. Aparecem em forma de asas, nas costas de Eros; entalhadas nos dourados das portas ou em algum cantinho da ilustração, De forma pequena, discreta, elas se espalham pelas páginas do livro.
Troncos de árvores em tons escuros e manchados e pequenos ramos sombredos contrastam com o amarelo dourado de algumas ilustrações, entre elas as borboletas douradas em tamanhos distintos.
Se a história de Eros e Psiquê é uma brincadeira de ocultar e revelar, a narradora conseguiu atingir esse objetivo. Texto verbal e pictórico brincam de se esconder e o leitor tenta adivinhar o que está oculto.
Para concluir, é válido repetir a epígrafe de abertura do livro:
“Esta história é de encantamento. Traz vida longa e boa sorte a todos que a escutam ou a leiam”.
Com estas palavras, convidamos o leitor a se debruçar sobre este livro, ter uma vida longa, pesquisar sobre mitos, ler o poema de Fernando Pessoa “Eros e Psiquê” na íntegra e ser feliz para sempre.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Ondjaki: expoente da moderna literatura angolana





Ondjaki: expoente da moderna literatura angolana
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária da FNLIJ/PB)

que o céu dançante, vestido de estrelas caintes, possa bailar outra e outra vez, que as crianças aprendam sempre com os pássaros a secreta magia dos gritos azuis.
(Ondjaki. Carta à amiga Ana Paula. Em “AvóDezanove e o segredo do soviético”).

Ondjak, pseudônimo artístico de Ndalu de Almeida, pertence à novíssima geração de escritores de Angola. Na língua umbundu ou quimbundo, Ondjaki significa “guerreiro”, nome apropriado para aquele que se destina a apresentar as lutas do seu povo e coloca a liberdade como uma meta a ser conquistada.
Romancista. poeta, pintor, licenciado em Sociologia pela Universidade de Lisboa, já fez teatro e documentário sobre a cidade de Luanda. É um artista múltiplo e versátil.
Muitos dos seus livros retratam fatos vivenciados na sua infância. “Os da Minha Rua” recebeu o Grande Prêmio de Contos Camilo Castelo Branco 2007. É um relato que tem a sua própria infância como motivo condutor.
Ondjaki procura valorizar os contadores de história e os velhos têm um papel primordial nos seus contos e romances. A figura da avó, presente no primeiro livro infantil “Ynari: a menina das cinco tranças”, (Luanda: Chã de Caxinde, 2002), retorna no romance juvenil “AvóDezanove e o segredo do soviético (Cia Das Letras, 2009). Este livro conquistou o prêmio de Literatura em Língua Portuguesa da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil em 2010.
No ensaio que escrevemos “A arte de contar histórias” (In: “Guriatã: uma viagem mítica ao país-paraíso”), destacamos o papel do narrador nas histórias infantis, utilizando o texto de Walter Benjamin – “O Narrador. Considerações sobre a obra de Nikolai Leskov”.
Há uma passagem no texto de Benjamin em que o autor apresenta dois tipos de narradores: “o marinheiro comerciante e o camponês sedentário”. O provérbio popular “Quem viaja muito tem o que contar” se coaduna com o primeiro grupo de narrador – o narrador marinheiro ou marujo. É alguém que veio de longe, viajou muito, teve experiências diferentes, por isso muito tem o que contar. O narrador representado pelo camponês sedentário é aquele que não saiu de seu país ou de sua região, mas conhece bem suas histórias, lendas, tradições.
No romance juvenil de Ondjaki – “AvóDezanove e o segredo do soviético” (Cia Das Letras, 2009), vamos encontrar a figura de duas avós que são representantes do segundo tipo de narrador apresentado por Walter Benjamin – “camponês sedentário”. AvóCatarina e AvóAgnette, esta última mais conhecida como com AvóDezanove, pouco saem de casa, mas são detentoras de muitos saberes. Elas sabem tudo que se passa na PraiaDoBispo e nos seus arredores e têm muito o que contar.
Depois da independência, Angola recebeu muitos cubanos e soviéticos, eles vieram para ajudar na reconstrução do país. Algumas histórias sobre a vinda dos cubanos e soviéticos surgiram nesse período. O livro de Ondjaki retrata essa fase.
A trama do romance se desenvolve em torno da construção de um mausoléu que vai abrigar o corpo do ex-presidente e líder angolano Agostinho Neto na PraiaDo Bispo, em Luanda.
Meninos, avós, o russo Bilhardov, mais conhecido como Botardov, e o cubano EspumaDoMar são os principais personagens do livro. O apelido Botardov foi motivado pelo falar arrevesado do soviético.
O narrador de ´”AvóDezanove e o segredo do soviético” é um menino. É sob o olhar desse menino que percorremos as páginas do romance. O oficial soviético (Botardov) comanda os “lagostas azuis”, assim eram chamados os soviéticos, ele guarda um segredo sobre a construção do mausoléu.
Existia um segredo a ser desvendado, mas o menino narrador estava mais interessado em saber a cor do grito dos pássaros e a fala dos peixes. As coisas abstratas e possíveis de acontecer eram mais atraentes do que o cotidiano que cercava a vida dos habitantes da PraçaDoBispo.
A liberdade de linguagem, a criação de neologismos e a motivação semântica de certas palavras imprimem um caráter diferenciado na prosa desse escritor angolano. A força da literatura de Ondjaki tem o poder de transformá-lo em um escritor “singular e plural” no cenário das letras de língua portuguesa.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

O arminho dorme – um romance histórico


O arminho dorme – um romance histórico
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária da FNLIJ/PB)

Miña terra, miña terra,
terra donde me eu criei,
hortiña que quero tanto,
figueiriñas que prantei.
(Rosalía de Castro. Cantares gallegos)

“O arminho dorme” (Ed. SM, 2009) romance juvenil do escritor galego Xosé A. Neira Cruz, com tradução da professora Nilma Lacerda, ganhou o prêmio da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (2010) na categoria Tradução/Adaptação/Jovem.
Xosé A. Neira Cruz nasceu em Santiago de Compostela, cidade que este ano sedia o 32º. Congresso Internacional de IBBY que traz a seguinte temática: “La Forza das Minorias”. É formado em Filologia italiana e Jornalismo. Neira Cruz já escreveu roteiros para televisão e fundou a revista “Fadamorgana”, especializada em literatura infantil e juvenil. É autor de mais de trinta livros para crianças e jovens e recebeu diversos prêmios, entre eles “Barco a Vapor” (1997 e 1999), Merlin (1988 e 2000) e Lazarillo (2004). Atualmente, coordena a Comissão de Desenvolvimento de Projetos da International Board on Books for Young People (IBBY).
“O arminho dorme” foi considerado um dos dez melhores livros juvenis do mundo em 2006, pelo Banco do Livro da Venezuela, ganhou, ainda, o prêmio Raíña Lupa e constou da lista White Ravens, da Biblioteca de Munique. O sucesso do livro extrapolou as fronteiras da Galícia.
Ficamos conhecendo um pouco do autor e do sucesso do livro, vamos entrar no reino da história.

Uma pesquisa histórica envolvendo uma importante família de nobres italianos, assim pode ser definida a trama desse romance de Xosé A. Neira Cruz.
A narrativa começa com a abertura das tumbas da família Médici. Um manuscrito encontrado junto ao corpo de uma jovem vai desencadear o enredo do romance. A partir desse momento, a história é conduzida por esse manuscrito.
A protagonista do romance é jovem Bianca Capello, a dona do manuscrito, ela é filha bastarda do grão-duque Cosimo I, da família Médici, uma família de banqueiros muito rica que, no século XVI, dominou a Itália e transformou Florença a capital da Arte e da Cultura.
Através do manuscrito, uma espécie de diário, acompanhamos a vida da jovem Bianca e ficamos sabendo como foi sua primeira infância, a morte da mãe a sua vinda para o palácio dos Médici, após o reconhecimento da paternidade pelo pai.
A narradora recria o ambiente de Florença do século XVI, os dramas familiares da família Médici, as intrigas palacianas, o luxo e a grandeza desse período.
Bianca se torna uma moça de grande beleza, apaixona-se por Giulio de Camollia, filho mais novo do conde de Camollia e vive um grande amor, mas seu pai, como era costume naquela época, reservou um casamento de conveniência e a jovem recusa aceitar o noivo a ela destinado.
Xosé A. Neira Cruz explica que deve a gênese desse romance a contemplação de um óleo de Bronzino, pintor italiano das famílias palacianas da Itália, que retratou Bia de Médici (Bianca). Este retrato se encontra na Sala della Tribuna da Galeria della Uffizi (Florença). Uma troca de olhares entre a mulher retratada e o romancista deu início a tudo. Esta é a explicação que o autor dá aos leitores. Ficção e história caminham pari-passu.
Não devemos esquecer que o autor é estudioso da história italiana e fez muitas pesquisas para escrever esse romance que encanta pela poeticidade do texto. A lista de agradecimentos que se encontra nas últimas páginas do livro demonstra o teor da reconstituição da história.
Xosé A. Neira Cruz nasceu na mesma cidade de Rosalía de Castro – Santiago de Compostela. Rosalía de Castro é considerada a grande divulgadora da língua galega. O dia 17 de maio, data da publicação de “Cantares Gallegos” (Rosalía de Castro), é considerado o Dia das Letras Galegas.
A língua galega está muito próxima do português. Na formação dos dois povos – o galego e o português – existia uma unidade lingüística, era o galaico-português.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

O lúdico na poesia de Águia Mendes e Eloí Bocheco















O lúdico na poesia de Águia Mendes e Eloí Bocheco
(Neide Medeiros Santos – Critica literária- FNLIJ/PB)

Poesia
é brincar com palavras
como se brinca
com bola, papagaio, pião.
(José Paulo Paes. Convite. In: Poemas para brincar)

Se fizermos uma retrospectiva da poesia infantil brasileira nos últimos trinta anos, iremos encontrar um bom número de poetas voltados para o lúdico. Nesta nova linha, destacamos José Paulo Paes e, mais recentemente, Manoel de Barros. A respeito desses dois poetas, há um fato curioso que merece ser registrado – José Paulo Paes e Manoel de Barros só começaram a escrever para crianças na maturidade. Estavam, portanto, como disse certa vez Manoel Bandeira, amadurecidos para a vida e para a poesia.
“Poemas para brincar”, de José Paulo Paes, na acepção da professora Regina Zilberman “Como e por que ler a literatura infantil” (Objetiva: 2005): ”...talvez seja o texto que melhor esclarece o que significa escrever para crianças e esperar que o leitor aprecie, pois o escritor estabelece uma conexão entre brincar e escrever.” (p.129)
Manoel de Barros começou a escrever livros para crianças em 1999. O primeiro foi “Exercícios de ser criança” (Ed. Salamandra), depois vieram muitos outros. É um poeta que trabalha cada letra, cada sílaba, cada palavra, procurando dar harmonia ao texto. Nos seus poemas afloram sentimentos inerentes ao leitor infantil. Passarinhos e outros pequenos animais têm voz.
A poesia lúdica de Paes e Manoel de Barros foi bem assimilada por poetas mais novos. A trilha de poetar com ludicidade encontra boa receptividade no paraibano Águia Mendes – “O boi pastando nas nuvens” (Ed. Ideia, 2010) e na catarinense Eloí Bocheco –” Pomar de brinquedo” (Ed. Larousse Jovem, 2009).
O título do livro de Águia Mendes já nos transporta para o mundo onírico, da fantasia, dando-nos a impressão de que estamos diante de quadros de Marc Chagall.
Quando abrimos o livro e começamos a ler os poemas, sentimos que o poeta está mesmo disposto a brincar com as palavras. A brincadeira se evidencia nas repetições, no jogo de palavras, no inusitado de certas imagens. Vejamos este exemplo:
A escova de dente
da boca
é o pente

escova cabelo
de dente. (p.15)
O ludismo também se faz presente na linguagem visual, como neste poema:
árvores
são aves
de chão
eternamente
pousadas. (p.36)
A ilustração criada por Horiéby Ribeiro apresenta troncos de árvores providos de bicos de passarinhos, olhos de gente e asas de anjo.
Eloí Bocheco transformou “as caras lembranças da infância numa ciranda poética para celebrar o sonho e a fantasia”. Vamos dar um passeio pelo pomar de brinquedo e desfrutar da ludicidade dos poemas.
No poema “Na roda”, o eu-lírico intertextualiza com as cantigas de roda:
O limão entrou na roda
não sabia dançar
chamou a tangerina
para ser seu par.
(...)
Assim assim
assim assado
dança o limão
todo requebrado. (p.7)
O processo de associação por semelhança está presente nestes versos que mais parece uma adivinhação:
Por que será que
a fruta do conde
tem rugas?
Quem saber contar
é a tartaruga. (p.11)
Eloí Bocheco é pesquisadora do folclore brasileiro e da poesia popular, daí seu gosto pelas quadrinhas populares como neste exemplo:
De pertinho, as amoras
são uvas em miniatura.
Bote os cachinhos na mão
e veja se são ou não são! (p.27)
Os poemas apresentados demonstram que estamos diante de dois poetas comprometidos com o lúdico que sabem fazer “peraltagens” com as palavras e cantar antigas cantigas de roda.
Para caracterizar o menino/poeta Águia Mendes, escolhemos esses versos de Manoel de Barros:
O menino aprendeu a usar as palavras
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras
E começou a fazer peraltagens. (Exercícios de ser criança)
Eloí Bocheco condiz com os versos de Cecília Meireles:
Chegaremos de mãos dadas
cantando canções de roda.
E então nossa vida toda
será das coisas amadas. (Cançãozinha para Tagore)

sexta-feira, 30 de julho de 2010

MALBA TAHAN: O mago da literatura juvenil brasileira









MALBA TAHAN: O mago da literatura juvenil brasileira
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária da FNLIJ/PB)

O viajante deslumbrado
lê o livro com a certeza
de que o deserto tão falado
é um oásis de beleza!
(A. Monteiro. A sombra do arco-íris. Para Malba Tahan)

Júlio César de Mello e Souza foi figura de destaque no magistério brasileiro no início do século XX. Nasceu no Rio de Janeiro e aí estudou. Formou-se em engenharia e dedicou-se ao ensino como professor de matemática no Colégio Pedro II e na Universidade do Brasil (Rio de Janeiro). Publicou livros didáticos de matemática e geometria. Anos mais tarde enveredou para a literatura e utilizou o pseudônimo de Malba Tahan. Nessa fase, escreveu livros que retratavam as tradições e os costumes árabes. O pseudônimo suplantou o nome próprio e ficou conhecido no mundo das letras como Malba Tahan. O professor e autor de livros didáticos caiu no esquecimento.
A professora Nelly Novaes Coelho, no Dicionário Crítico da Literatura Infantil/Juvenil Brasileira, afirma que Malba Tahan não foi um “inventor literário, no sentido amplo do termo, mas com um talento especial conseguiu recriar ou inventar, a partir de modelos originais, uma série de lendas, romances ou contos maravilhosos, onde a atmosfera oriental era o ponto básico”. ( 1983: 575)
“O homem que calculava” é um dos seus livros de mais sucesso e com maior número de edições. Em 2002, a editora Record publicou duas edições – a 59ª. e 60ª. O ambiente do livro é árabe, mas aflora a faceta didática, o tom educativo e cultural. É considerado um clássico brasileiro e foi traduzido para o inglês e o espanhol.
Sobre os costumes e lendas do povo árabe, Malba Tahan publicou mais de 20 livros. Os personagens dos seus contos são sultões, califas, príncipes e princesas, beduínos e escravos. A leitura desses contos nos transporta para as histórias das “Mil e Uma Noites” contadas por Sherazade.

O livro “Os Melhores Contos” (Ed. Record) reúne 28 histórias que foram pinçadas de vários livros do autor. Uma das histórias traz o curioso título “O sábio da efelogia” (De “Maktub”). Será que o leitor sabe o que é efelogia? Em caso negativo, aconselhamos que faça a leitura do conto. Se já leu e está esquecido não perca tempo, faça uma releitura e terá de volta as lembranças das leituras juvenis.
“Os trinta e cinco camelos” (De “O homem que calculava”) envolve um intrincado problema de herança. O pai morre e deixa para três filhos 35 camelos que deveriam ser divididos da seguinte forma: para o filho mais velho, caberia a metade dos camelos; o segundo filho deveria receber a terça parte e o mais novo apenas a nona parte. Os irmãos discutiam, discutiam e não chegavam a um acordo. Nas contas havia sempre uma fração de camelos. Como dividir? O inteligente Beremiz foi chamado para resolver o problema. Como era exímio algebrista, deu uma solução que satisfez a todos. Beremiz que não era herdeiro recebeu dois camelos – demonstrou ser inteligente e sagaz.
“O tesouro de Bresa” (de “Lendas do Deserto”) conta a história de um pobre alfaiate que morava na Babilônia e desejava ser um dia dono de palácios e grandes tesouros, mas isso parecia quase impossível. Certo dia recebeu a visita de um velho mercador da Fenícia que vendia tapetes, caixas de ébano, pedras coloridas, objetos desejados pelos babilônios. No meio das preciosidades, Enedim, este era o nome do alfaiate, descobriu um livro cheio de caracteres estranhos e indecifráveis. O comerciante ladino disse-lhe que era um livro valioso e custava três dinares. Era muito dinheiro, o alfaiate pediu abatimento e conseguiu comprar por dois dinares. Debruçado sobre o livro, decifrou uma legenda: “O segredo do tesouro de Bresa”. Com vivo interesse, continuou lendo o livro com o objetivo de descobrir o tesouro de Bresa. Será que Enedim encontrou o cobiçado tesouro? Leiam e me contem depois.
Ainda há vinte cinco histórias esperando pelo leitor.
O dicionário de Aurélio registra que o vocábulo “mago” significa o homem que pratica a magia, o feiticeiro, o bruxo, o mágico. Nesse sentido, Malba Tahan é o mago da literatura juvenil brasileira. Com suas histórias cheias de encanto, consegue ser mágico, bruxo e feiticeiro ao mesmo tempo.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Roger Mello: o poeta da ilustração.


Roger Mello: o poeta da ilustração.
( Neide Medeiros Santos – Crítica literária da FNLIJ/PB)

O que se espera de um livro para crianças é que as imagens contenham arte, que tenham sido feitas por um verdadeiro artista.
(Rui de Oliveira. Pelos jardins Boboli: reflexões sobre a arte de ilustrar livros para crianças e jovens)

Nosso convidado desta semana é o ilustrador e escritor Roger Mello. Ele vem acompanhado do poeta Manuel Bandeira e me traz um livro de presente – “Carvoeirinhos”, editado pela Companhia das Letrinhas em 2009, e que recebeu vários prêmios no Brasil, entre eles o Prêmio de Melhor Livro Ilustrado para Crianças da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (2010). O título do livro nos conduz ao poema de Bandeira – “Meninos Carvoeiros”.
Na entrevista que concedeu a Sérgio Maggio, no jornal “Correio Brasiliense”, em 26/10/2009, o escritor falou sobre a gênese do livro e deu as seguintes explicações: na sua infância, quando viajava de carro, saindo de Brasília, o menino via umas “casas redondas que soltavam fumaça” e o pai explicava que não eram casas, mas fornos de fazer carvão. Anos mais tarde, deparou-se com o poema de Manuel Bandeira “Meninos carvoeiros” e voltou a lembrança da infância e das casinhas de fazer carvão. Da junção dessas duas coisas, surgiu a ideia de escrever e ilustrar “Carvoeirinhos” que traz como epígrafe esses versos do poema de Manuel Bandeira:
Os meninos carvoeiros
Passam a caminho da cidade
- Eh, carvoeiro!
E vão tocando os animais com um relho enorme [...]

A madrugada parece feita para eles...
Pequenina, ingênua miséria!
Adoráveis carvoeirinhos que trabalhais como se brincásseis”




Repetimos palavras da escritora Eloí Bocheco, ditas em outro contexto. Aproximemo-nos do livro “Carvoeirinhos” com “delicadeza porque Roger Mello tem alma de seda”.
A cor da capa do livro chama a atenção do leitor pelo predomínio do cinza e do preto. O título “Carvoeirinhos” apresenta nuances nas cores: preto, cinza, vermelho, laranja e amarelo, simbolizando, respectivamente, o carvão, as cinzas e o fogo. Na capa aparecem, ainda, casinhas redondas de fazer carvão. Uma labareda laranja e vermelha, saindo de uma das casinhas, dá colorido ao universo cinzento e preto.
Se a capa é inovadora, mais inusitada é a história – um maribondo narrador tudo observa, tudo conta, através do monólogo interior. Há, também, a presença de meninos carvoeiros que interagem com o narrador.
No meio do livro – uma surpresa – recortes de papel coloridos em tons quentes, no formato de labaredas, dão um destaque especial às cores cinza e preto que aparecem no fundo da página.
Duas páginas do livro são ocupadas com casinhas de cupim que mais parecem cidadezinhas iluminadas. As larvas de vaga-lumes, representadas por pontinhos da cor laranja, acendem os cupinzeiros e tudo parece iluminado.
A linguagem é poética, frases curtas, ritmadas. Para Sérgio Maggio, é um livro que denuncia poeticamente os males do trabalho infantil. Denúncia semelhante também pode ser registrada em “Meninos do Mangue” do mesmo autor ( Companhia das Letrinhas, 2001).
Em 2007, a “Folha de São Paulo” publicou uma lista de livros que toda criança deve ler antes de virar adulto e lá estavam três livros de Roger Mello: “A flor do lado de lá” (Ed.Global, livro só de imagens) ; “Todo cuidado é pouco (Ed. Companhia das Letrinhas), “Meninos do Mangue” (Companhia das Letrinhas). Acrescentamos mais dois livros para completar cinco livros: “Jardins” (Ed. Manati, texto de Roseana Murray e belíssimas ilustrações de Roger Mello) e “Carvoeirinhos”, objeto de nossos comentários.
Despedi-me do nosso convidado desta semana com a promessa de que irá escrever e ilustrar livros tão bonitos quanto “Carvoeirinhos”. Alguns já estão em fase de gestação. Aguardemos.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

roseana murray e a poética das transparências e delicadezas




Roseana Murray e a poética das transparências e delicadezas
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária da FNLIJ/PB)

Um dia os homens acordaram
e estava tudo diferente:
das armas atômicas nem sinal havia
e todos falavam a mesma língua,
falavam poesia.
(Roseana Murray. Sonho.)

Os professores falam sempre da dificuldade que sentem em trabalhar com a poesia em sala da aula. O texto poético é sintético, às vezes hermético e, geralmente, simbólico. A soma desses fatores exige mais reflexão por parte dos professores e dos alunos. Vivemos em um mundo de apressados e a poesia desponta como o momento da descontração, da calma, do sentir.
Carlos Drummond de Andrade, no artigo “A educação do ser poético, reconhece o lado menineiro da poesia, depois abandonado pelo adulto e interroga:
“Por que motivo as crianças de modo geral são poetas e, com o tempo, deixam de sê-lo? Será que a poesia é um estado de infância relacionado com a necessidade de jogo, a ausência do conhecimento livresco, a despreocupação com os mandamentos práticos do viver – estado de pureza da mente em suma? Acho que é um pouco de tudo isso...”
A reflexão sobre o pensar drummondiano nos leva à moderna poesia brasileira destinada ao público infantil e juvenil, e encontramos muitos poetas que se preocupam em apresentar livros de poesia que revelam um “estado de infância”. Roseana Murray desponta como poeta voltada para o lado menineiro. Já escreveu mais de 50 livros, quase todos no reino da poesia. Ela costuma dizer que não se considera escritora de ficção, apenas poeta. Filha de imigrantes poloneses que vieram para o Brasil fugindo do antissemitismo atualmente mora em Saquarema, no estado do Rio.
O título de seus livros indica que a poesia está em tudo. “Fardo de carinho” foi o primeiro. Depois vieram muitos outros: “Receitas do olhar”, “Manual de Delicadeza de A a Z”, “Fruta no ponto”. ”Jardins” recebeu o prêmio da ABL- 2002 e foi ilustrado por Roger Mello. É poeta que sabe lidar muito bem com as palavras. É capaz de transformar os classificados de jornais em “Classificados Poéticos”, outro título de um dos seus livros.
Em 2010, pela Editora Lê, Roseana Murray publicou “Carteira de Identidade” com ilustrações em preto e branco de Elvira Vigna. Desta vez o título esconde segredos poéticos.
Os poemas deste livro vêm marcados por inquietantes indagações: Quem sou eu? O que é o mundo?
O poema “Perguntas” está cheio de interrogações. É a procura da memória, de um lobo antigo, a busca de signos.
O olhar para o céu também suscita dúvidas:
“seremos os únicos
a habitar o universo?”(p.14)
No poema “Corpo”, a pergunta:
“Meu corpo vibra,
pulsa,
é uma bomba-relógio?”
“Tamanho”, um dos últimos poemas do livro, é todo pontuado por interrogações:
O meu tamanho
é o mundo?
O que meu corpo
desenha no ar?
Sou uma arquitetura
mutante?”(p. 42)
No último poema, “Impressão Digital”, o leitor pensa que irá encontrar a chave. Ledo engano. O eu lírico conclui:
“Quem sou?” (p.46)
Ferreira Gullar, misto de poeta e crítico literário, considera que a poesia de Roseana Murray “é feita de transparências e delicadezas, como se ela falasse para mostrar o silêncio. E assim a linguagem alcança a condição de pluma e porcelana.”
“Carteira de Identidade” é um livro de poemas para crianças? Difícil responder à questão. É um livro de transparências e delicadezas, como bem definiu Ferreira Gullar.

sábado, 10 de julho de 2010

Platero e Eu – uma história cheia de ternura




Platero e Eu – uma história cheia de ternura
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária da FNLIJ/PB

Para mi, la poesía há estado siempre intimamente fundida com toda mi existência, y no há sido poesía objetiva casi nunca.
(Juan Ramón Jiménez. Poesías Escojidas. Espasa-Calpe)

“Platero e Eu”, de Juan Ramón Jiménez, poeta espanhol, é um livro que teve a 1ª edição em 1916. Continua sendo reeditado e atraindo leitores do mundo inteiro. Este ano (2010), a editora WMF Martins Fontes, em comemoração aos 50 anos da fundação da Livraria Martins Fontes, preparou uma edição especial para este livro – uma edição bilíngue (espanhol/português), traduzida por Mônica Stahel e ilustrada pelo artista plástico Javier Zabala.
O lançamento desta primorosa edição ocorreu no Instituto Cervantes, em São Paulo, com palestra da professora María de La Concepción Piñero Valverde. Pedro Benítez Pérez, do Instituto Cervantes de São Paulo, escreveu a “Apresentação à Edição Brasileira”. O ensaísta tece pertinentes considerações sobre a obra, com destaque para a presença de alguns temas: a dor física, a dor moral, a morte, a atitude crítica diante da sociedade, a natureza, os valores dos homens, seus vícios, sua crueldade. Todas essas ideias desencadeadas pela ótica de um animal-personagem: um burrico.
Alexandre Martins Fontes, um dos filhos do Sr. Martins Fontes, no encarte que vem junto a esta primorosa edição, afirma que seu pai sempre sonhou com a possibilidade de publicar “Platero e Eu”, mas por razões diversas nunca chegou a fazê-lo. A publicação deste livro foi, portanto, uma homenagem à memória do pai.
Juan Ramón Jiménez nasceu em 1881 na cidade de Morguer, região da Andaluzia, no sul da Espanha. Por suas convicções liberais, deixou a Espanha na época do ditador Franco e refugiou-se nos Estados Unidos. Morou, também, em Porto Rico e Cuba. Em 1956 foi o vencedor do Prêmio Nobel de Literatura. Faleceu dois anos depois que recebeu o Prêmio (1958).
Sua vasta produção poética foi reunida em “Poesías últimas escojidas - 1918/1958”, uma edição da Espasa-Calpe. A leitura deste livro permite um melhor conhecimento da poesia de Ramón Jiménez e reúne poemas da fase vivida na Espanha e poemas dos vinte e dois anos fora de sua terra natal.
Vamos caminhar um pouco na companhia desse poeta que considerava a poesia uma parte de sua própria vida e colocava poesia em tudo que escrevia. “Platero e Eu” é um texto em prosa, mas apresenta características de um poema. Consultemos Emil Staiger – “Conceitos Fundamentais da Poética” e chegaremos à conclusão de que o livro se enquadra perfeitamente no gênero lírico.
Vejamos alguns excertos deste livro tão rico de ensinamentos.
“Platero e Eu” vem acompanhado do subtítulo – “Elegia andaluza” e foi escrito entre 1907-1916. O vocábulo “elegia” é usado na poesia para designar uma modalidade poética de canto plangente que remete ao luto e à tristeza. Pelo subtítulo, já pressentimos a leitura que nos aguarda. Quanto à andaluza, refere-se à região espanhola do poeta – a Andaluzia.
No primeiro capítulo, o poeta Juan Ramón Jiménez descreve assim o protagonista:
“Platero é pequeno, peludo, suave; tão macio por fora, que parece todo de algodão, parece não ter ossos.” (2010: p. 5)
Vejamos a imagem: “Parece todo de algodão...” Será que existe algo mais fofinho do que algodão em pluma? E a reiteração: “parece não ter ossos” confirma a maciez do pelo de Platero.
O que mais enternece o leitor é o carinho devotado a Platero e a conversa que o narrador mantém com o burrinho, parece que estamos diante de Vicente e seu cavalinho azul, peça teatral de Maria Clara Machado que apresenta o mesmo processo antropomórfico de Platero e a mesma sensibilidade poética.
Em todo o decorrer da narrativa, Platero é tratado como um ser dotado de sentimentos próprios do homem e o livro conclui de forma nostálgica – Platero morre. Compreende-se, assim, o porquê do subtítulo – “elegia andaluza”.
Para melhor entender a dimensão literária deste livro, repetimos as palavras de Pedro Benítez Pérez, do Instituto Cervantes de São Paulo:
Embora Platero y yo seja considerado com frequência um livro para crianças, na realidade é um compêndio das vivências poéticas de um adulto extremamente sensível, que não perdeu o contato com a pureza da infância e que exalta a vida acima do sofrimento, das misérias morais, das ruínas de um povoado.
(Texto publicado no jornal Contraponto. João Pessoa, 09 a 15 de julho de 2010. Caderno B-5).