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sábado, 5 de setembro de 2015

Tesouro escondido e descoberto

                        Tesouro Escondido e Descoberto
            (Neide Medeiros Santos – Leitora Votante FNLIJ/PB)

            Gosto dos primeiros minutos da manhã, quando tudo na casa é silêncio e os telhados flutuam pela janela.
            (Roseana Murray. O Silêncio dos Descobrimentos)

            A procura de um livro em uma estante pode nos levar a descoberta de um livro esquecido, escondido no meio de muitos outros, isso aconteceu esta semana quando procurava um livro da escritora Vânia Resende e me deparei com “O Silêncio dos Descobrimentos” (Ed. Paulus, 2000), de Roseana Murray e Elvira Vigna. As duas estão reunidas neste livro no ato de escrever. Elvira Vigna vai mais além, escreve e ilustra.

            “O Silêncio dos Descobrimentos” tem o sabor de um livro antigo, um diário manuscrito, todo feito em letra cursiva. Poemas e textos em prosa convivem harmoniosamente e interagem com as ilustrações em preto e branco. 

            Como distinguir de quem é o texto? Os de Roseana Murray são escritos com um tipo de letra grossa, com uma caneta mais carregada de tinta; o de Elvira Vigna com um tipo de letra mais delicado, uma escrita fina.

            São textos e poemas para ler e curtir. Há outros que sugerem a participação do leitor. Nesse último caso, algumas páginas estão em branco e vêm acompanhados de apelos: “Diga quem você é” (p.6); “Faça aqui o mapa da sua geografia em algum momento do passado” (p.12); “Relate aqui um descobrimento seu” (p.14). E seguem-se muitos outros pedidos Depois da leitura desse livro, o leitor pode não se considerar poeta, mas ficará com a certeza de que dialogou com um texto, assumiu uma atitude de “coparticipação”, expressão utilizada por Gaston Bachelard para estabelecer um elo entre autor e leitor.
            Uma epígrafe poética de Elvira Vigna marca a abertura do livro:

            Este livro tem
            poemas,
            anotações,
            imagens de mares,
            ventos, pedras.
            o silêncio de
            todos os
            descobrimentos.

            O primeiro poema do livro é de Roseana Murray - “Me olho no espelho” (p.7) e guarda afinidades com “Retrato”, de Cecília Meireles. Na página anterior a este poema, aparece o convite de Elvira Vigna que exige a primeira participação do leitor: “Diga quem é você” (p.6).

             Roseana Murray é filha de pais poloneses. Lejbus Kligerman e Bertha Kligerman, pais de Roseana, vieram para o Brasil antes da 2ª. Guerra Mundial, fugindo do antissemitismo. No poema da p. 15, Roseana se refere à morte do pai, ao tio que tocava violino em um país distante, ao rio que atravessava a aldeia e ao barco que atravessou um oceano para que ela nascesse aqui.
            Quando meu pai morreu, eu quis chorar tantas coisas que não foram ditas. (p.15)
            Atente-se para o inusitado da expressão: “eu quis chorar tantas coisas que não foram ditas.”. 

            Elvira Vigna, nas páginas 70 e 71, escreve este poema:
            A foto é sempre muda, a foto dos
            que vieram depois, pelo
            mesmo caminho molhado,
            mas sem as
            calmarias.

            Na página seguinte (p.71), aparece um atestado de  Lejbus Kligerman, com uma foto 3x4 fixada na parte superior do lado direito da folha. É um atestado que foi emitido para o Serviço de Registro de Estrangeiros. Rio de Janeiro, em 13 de agosto de 1943. Vê-se, de forma bem legível, a data da foto  de Lejbus Kligerman: 25-5-1942.  

          No meio dos poemas, aparecem contos que falam sobre histórias cheias de maldade (Roseana) e sobre desenhos decorativos (Elvira Vigna), não faltando frases de poetas e pensadores, como Fernando Pessoa e Gaston Bachelard.


            Este livro está esgotado e uma das autoras (Roseana Murray) resolveu não mais reeditá-lo. É uma pena, um livro bonito e com acesso restrito.  Resta uma esperança: ele pode ser adquirido nos sebos, lido nas bibliotecas públicas e particulares.