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terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Um passeio cheio de graça pela vida e obra de Machado de Assis


Um passeio cheio de graça pela vida e obra de Machado de Assis
(Neide Medeiros Santos – Crítica FNLIJ/PB)

O Tempo inventou o almanaque... E choviam almanaques, muitos deles entremeados de figuras, de versos, de contos, de anedotas, de mil coisas recreativas.
(Machado de Assis).

O almanaque é um livreto muito antigo e já circulava, no Brasil, na época de Machado de Assis. Apresentava assuntos variados, curiosidades, contos, poemas, matéria humorística e recreativa. As pessoas mais antigas guardam lembranças dos velhos almanaques que eram distribuídos, gratuitamente, nas farmácias brasileiras.
Nas primeiras décadas do século XX, Monteiro Lobato criou a história de Jeca Tatu, veiculada no Almanaque do Biotônico Fontoura. Jeca Tatu era vítima de “amarelão”, doença causada pela “ancilostomíase” e Lobato recomendava que o personagem tomasse Biotônico Fontoura para curar a doença. Lobato foi, assim, o maior divulgador do “santo remédio”.
Luiz Antônio Aguiar se inspirou nos antigos almanaques, no que se refere à diversidade de assuntos, para escrever o Almanaque Machado de Assis – vida, obra, curiosidades e bruxarias literárias (Editora Record, 2008), A respeito desse livro, Anna Maria Rennhack, Gerente de Relações Institucionais da Editora Record, assim se expressou:
Almanaque Machado de Assis, de Luiz Antonio Aguiar, tem objetivos ambiciosos. O primeiro, despertar o leitor iniciante para o mundo do escritor, através de informações sobre vida, obra e outras curiosidades. O segundo, levar os leitores que já conhecem a obra de Machado de Assis a reler seus títulos e reviver deliciosas passagens de seus textos.
Luiz Antonio Aguiar divide o livro em duas fases. A primeira compreende dados biográficos do autor, atividades literárias e curiosidades machadianas. A segunda se detém na análise das principais obras de Machado de Assis e nas bruxarias literárias. Na última parte, há citações e breves comentários sobre biografias e estudos críticos a respeito do autor de Dom Casmurro.
Vamos iniciar o passeio seguindo a ordem de apresentação do livro. Conta-se que Memórias Póstumas de Brás Cubas nasceu em Nova Friburgo para onde Machado fora passar uma temporada com a esposa com o objetivo de curar-se de uma terrível crise intestinal e de uma infecção ocular. Incapaz de escrever, Machado ditara o livro ou partes dele para sua mulher.
A denominação “Bruxo do Cosme Velho” adveio do último e definitivo endereço de Machado de Assis no Rio de Janeiro. Rua Cosme Velho, 18, Laranjeiras. A casa era um sobrado com um jardinzinho na frente e havia um plantio de rosas. Machado gostava de cuidar das rosas do jardim.
O excerto do poema de Drummond, “A um bruxo com amor”, inserido no livro “A vida passada a limpo”, é outra referência feita por Luiz Antonio que remete para a leitura integral do poema de Drummond e sugere também um mergulho na obra machadiana. São tantas as citações de Drummond à galeria de personagens criadas pelo bruxo de Cosme Velho que o leitor fica querendo conhecer um pouco mais das obras de Machado de Assis.
O sentimento de vazio, após a morte de Carolina, companheira de 35 anos de casamento, se revela no trecho da carta enviada por Machado ao amigo Joaquim Nabuco:
Note que a solidão não me é enfadonha, antes me é grata, porque é um modo de viver com ela, ouvi-la, assistir aos mil cuidados que essa companheira de 35 anos de casados tinha comigo, mas não há imaginação que não acorde, e a vigília aumenta a falta da pessoa amada. (Almanaque M. de Assis, p. 54).
Quatro anos depois da morte de Carolina, Machado parte, e entre os amigos que presenciaram a sua morte estava José Veríssimo. Foi este quem ouviu de Machado a sua última frase:
A vida é boa!
No capítulo “Mapa da obra”, com o título “Não deixe de ler”, o autor recomenda algumas leituras imprescindíveis dentro do universo machadiano: crônicas, contos, romances, poesia, crítica e teatro.
Para quem gosta de citar frases e aforismos de Machado de Assis, aconselhamos a leitura do capítulo “Assim falou Machado de Assis...” (p.189-195). Nessa parte se encontram frases, pensamentos e relíquias machadianas.
A Fase II se abre com “Poções Machadianas” e aparecem excertos de contos e romances comentados por Luiz Antonio Aguiar e por outros críticos de Machado de Assis. Ainda, no espírito da Fase II, Luiz Antonio Aguiar dá indicações sobre biografias e a fortuna crítica do autor de Dom Casmurro.
Não poderia faltar nesse livro o dilema: Capitu – culpada ou inocente? E vêm as diferentes opiniões dos críticos.
As fotografias que aparecem no livro, todas em tom sépia, retratam o sobrado da Rua Cosme Velho, ruas do Rio na época de Machado de Assis, objetos pertencentes ao escritor, retratos de Machado e da esposa Carolina em diferentes fases da vida, retratos de companheiros e amigos de Machado de Assis e uma pequena galeria de quadros, entre estes “A Dama do Livro”, quadro de Roberto Fontana que lhe foi presenteado por amigos.
Almanaque Machado de Assis: vida obra, curiosidades e bruxarias literárias pode ser lido em conta-gotas, cada dia um pouquinho. É uma leitura para “conhecer, pensar e se divertir”. Esse bruxo é mesmo “Indispensável”. Com sua fina ironia, Machado de Assis diverte, zomba e brinca com o leitor.
Este livro de Luiz Antonio Aguiar, fruto de pesquisas de mais de vinte anos, conforme declaração do próprio autor no Salão do Livro (2008), traz uma boa contribuição para a fortuna crítica de Machado de Assis no ano do centenário de sua morte. É um convite à leitura.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Nas Trilhas de Clarice e Beatriz


Nas Trilhas de Clarice e Beatriz

 

(Neide Medeiros Santos – Crítica literária da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil na Paraíba)

 

As palavras vão e vêm levando

sentimentos e afetos. Estamos tão longe, e, ao mesmo tempo,

tão perto!

(Eloí Elisabete Bocheco)

 

Eloí Elisabete Bocheco é professora e escritora de livros infanto-juvenis. Durante 13 anos, publicou crônicas no jornal “A Notícia”, de Joinville (SC). Algumas dessas crônicas foram reunidas em livro e publicadas com o título “Pedras Soltas” pela Editora da Universidade Federal de Santa Catarina. São textos revestidos de muita poeticidade. Peter O´Sagae, editor de “Dobras da Leitura”, foi muito feliz no comentário que fez sobre este livro: 

“As crônicas mostram seu bordado: não vem à toa nenhuma frase, por mais travestida de non-sense que se pareça: a linha evola da referência local e da prisão do tempo. São como mimos de coral, ou riscos de groselha, em que o precioso e o efêmero provocam espanto”.

Eloí Elisabete e Zenilde Durly são responsáveis pelo jornal de literatura infantil e juvenil “O Balainho”, uma publicação da Universidade do Oeste de Santa Catarina (Unoesc). “O Balainho” tem divulgado autores nordestinos que trabalham com a literatura infantil.

 Em 2003, Eloí foi vencedora do Concurso “Leia Comigo”, da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, com a bonita história ”Não vá embora, Clarice!”, um relato ficcional que prende o leitor do inicio ao fim do texto.

Antonio Candido, no livro “Personagem de Ficção”, fala sobre o processo de criação de personagens e afirma que todo escritor se revela um pouco através de seus personagens. Eloí Bocheco coloca muito de sua vivência nessa poética história de Clarice, uma professora que faz um trabalho de leitura com as mulheres que varrem a rua e freqüentam a Praça XV. Não sabemos onde fica a Praça XV, pode ser em Curitiba, Rio, Florianópolis ou qualquer cidade do Nordeste brasileiro, mas a Praça XV do relato de Eloí é uma praça especial. É lá que a professora Clarice vai encontrar as mulheres que varrem a rua e começa o seu trabalho de ler histórias para aquelas mulheres de vida tão simples. O interesse pela literatura começa a crescer, de simples ouvintes elas passam a ser leitoras, mas chega o momento da partida de Clarice, e elas (as mulheres leitoras) fazem esse apelo comovente: “Não vá embora, Clarice! “

Beatriz em trânsito (Ed. Dimensão, 2006) recebeu vários prêmios no Brasil e até no exterior. O livro foi selecionado para o catálogo White Ravens, da Biblioteca de Munique, com crítica de Ninfa Parreiras. No Brasil, foi o vencedor do prêmio Casa da Cultura Mário Quintana (RS), e consta do Acervo Básico da FNLIJ (2006).  

Na entrevista, concedida à Assessoria de Imprensa da Secretaria de Educação e Cultura do Rio Grande do Sul, indagada a respeito do possível leitor de “Beatriz em trânsito”, a escritora respondeu: “é uma obra para todas as idades”.   

Aliando os dois lados de sua vida – professora/escritora, Eloí gosta de escrever sobre livros, leitura e professores. “Beatriz em trânsito” não foge dessa temática. Aqui vamos encontrar a protagonista, uma menina de 10 anos, que descobre o mundo através dos livros.

Beatriz é uma menina inteligente, mora com os avós e está sempre de mudança, não tem um pouso certo, daí o título do livro – “Beatriz em trânsito”, mas no meio dessas mudanças acontecem coisas interessantes, como conhecer vários amigos e, entre eles, o menino Samuel que anda em cadeiras de rodas e a menina Mariana, mais uma vez aparece uma professora – Guiomar – que cada semana traz uma novidade para a classe.  Além do armário cheiinho de livros, há o mural com textos escritos pelos alunos, textos que falam sobre medos, tristezas, alegrias, sonhos.

A maneira inovadora de a professora Guiomar ensinar, leva Beatriz a dizer: “A Guiomar é uma grande misturadora de aula e de vida”. (p.33)

Com sentimento e muito afeto, recebi o último livro de Eloí Bocheco – “Gaitinha tocou, bicharada dançou” (Ed. Paulinas, 2008). É um livro indicado para crianças que estão se alfabetizando. 

Antes de se encantar em passarinho, Elias José fez a apresentação deste livro com palavras cheias de fantasia e falou de forma carinhosa sobre a bruxinha Elisa, personagem sempre presente nos livros da autora catarinense.

“A bruxinha Elisa renova. É bruxa, criança e fada. Ela se envolve com a natureza, com árvores, peixes, pássaros e outros bichinhos. (...) Fica na memória afetiva do leitor, mesmo não sendo descrita pela autora, que prefere contar com a imaginação de quem lê.”

Ouso parafrasear Elias José e aposto: leiam “Pedras Soltas”, “ Não vá embora, Clarice!” “ Beatriz em trânsito” e as histórias da bruxinha Elisa. Se vocês começarem a ler os livros de Eloí Bocheco  vão gostar, é só começar. 

sábado, 15 de novembro de 2008

uma casa povoada de poesia



Artigo - Uma casa povoada de poesia

E o carteiro todo dia leva um pouco de menino envelopando curiosidades onde se lê apenas o silêncio. 
(André Neves. A Caligrafia de Dona Sofia)

Neide Medeiros Santos, Professora e Crítica Literária - FNLIJ/PB

André Neves nasceu em Recife e atualmente está morando em Porto Alegre, escreve e ilustra livros para crianças, já ganhou muitos prêmios literários. Seus livros circulam pelo mundo, viajaram para a Feira de Ilustração de Livros Infantis da Bolonha, na Itália, e estiveram presentes na Feira de Livros da Bratislava, na Eslovênia.

A Caligrafia de Dona Sofia (Ed. Paulinas) teve uma 2ª edição em 2006 e foi indicado pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil para compor o Acervo Básico. A indicação de um livro para o Acervo Básico significa ser distribuído para todas as bibliotecas públicas do Brasil, é um livro, portanto, que será lido por um número muito grande de leitores. A respeito desse livro, Elias José escreveu um belo texto que só os poetas sabem escrever e fez o maior elogio que se pode fazer a um escritor:

É um livro que a gente lê e diz com uma invejinha positiva: por que não fui eu quem o escreveu? Que ideia genial: criar uma velha que ama, copia, decora sua casa e, mais ainda distribui poemas pela cidade toda, conquistando amigos, dinamizando e enchendo de luz e cores a sua vida antes tão pacata.

Ao examinar a orelha do livro, encontramos dois oferecimentos - um para Badida, que tem uma casa toda escrita e outro para Elma, a irmã do escritor, que tem uma caligrafia tão bonita quanto a de Dona Sofia.

André me fez um oferecimento também carinhoso e me autorizou a entrar na casa de dona Sofia com estas palavras: Professora Neide, por favor entre, a casa já é sua e sem cerimônias eu vou entrando. A casa me atraiu por vários motivos: localização - está situada na parte mais alta da cidade, em uma colina; tem um belo jardim com muitas flores; é toda decorada com poesias espalhadas pelas paredes e pelos móveis. Os livros estão guardados nos armários, nas estantes, em cima da cômoda do quarto, em todos os cantos da casa. Para espalhar poesia para uma cidade inteira, mesmo sendo pequenina, é preciso ler e reler muitos livros.

Mas precisamos primeiro conhecer Dona Sofia. Quem é Dona Sofia? Convidamos o narrador para fazer a apresentação:

Dona Sofia era uma professora aposentada que durante toda a vida se dedicara a ensinar. Ela conhecia os segredos, os sonhos, as sensações e as emoções que as palavras dos poetas despertam no coração de cada um. Agora, cultivava flores em seu jardim para serem vendidas na cidade, garantindo assim algum dinheiro, além do que recebia de sua fraca aposentadoria. (...) Lia romances, contos, crônicas e, principalmente, poesias. (p.8)

Agora que já sabemos quem é Dona Sofia, vamos dar um ligeiro passeio por sua casa. Era uma casa diferente de todas as outras - as paredes estavam decoradas com poesias, não havia mais lugar para colocar os poemas, assim ela decidiu fazer cartões decorados com flores prensadas, colhidas no seu próprio jardim, escrever, com letra bem caprichada, versos de seus poetas preferidos e enviá-los para os habitantes de sua cidade. Muitos poemas foram resgatados de sua memória, do tempo em que era professora, pesquisou também nos livros de poesias que tinha em casa e contratou Seu Ananias, o único carteiro da cidade, para fazer a entrega dos cartões poéticos.

Diariamente Seu Ananias montava em sua bicicleta e subia até a colina, percorria aquele caminho cheio de curvas - subia a ladeira vazio de poesias e voltava com a sacola cheia de cartões poéticos. 
Um dia, que não Era domingo... mas um dia de semana qualquer, Seu Ananias teve uma surpresa - havia um cartão para ele e logo reconheceu a bonita letra de Dona Sofia. Seu Ananias pensou: 
Quem já viu? Escrever uma carta para o próprio carteiro! (p.18)

Dona Sofia escolheu um poema bem simples, romântico, de Casimiro de Abreu, para presentear Seu Ananias. Lá estava o poema escrito, com sua letra de professora, as duas primeiras estrofes de Meus oito anos.

No outro dia, o carteiro agradeceu o presente e disse que era a primeira vez que ganhava um cartão com poesia e perguntou a Dona Sofia quem era esse poeta que escrevia versos tão bonitos. Depois da explicação, o carteiro saiu procurando pelas paredes, no sofá, na geladeira, nas cortinas, poesias de Casimiro de Abreu.

Depois desse dia, Seu Ananias recebeu muitos outros cartões de Dona Sofia, com versos de poetas diferentes e aos poucos foi conhecendo mais poetas, ficava emocionado quando lia os poemas. O interesse do carteiro por poesias foi crescendo, crescendo. Dona Sofia começou a falar sobre a vida dos poetas, mostrar as diferenças de estilo e Seu Ananias resolveu escrever também um poema para Dona Sofia. O primeiro poema não parecia muito inspirado, era mais uma forma de agradecer à velha professora o bem que ela havia feito para ele, para toda cidade, quem sabe... de tanto ler poesia, de tanto conversar com Dona Sofia sobre os poetas e as diferentes maneiras de poetar, Seu Ananias não se torne algum dia um verdadeiro poeta.

A cidade hoje está repleta de poesia, todos gostam de receber cartões com poemas e flores, cultivam a boa poesia. Dona Sofia é rigorosa na seleção dos poemas, escolhe criteriosamente poetas e poemas e o povo daquela pequena cidade parece mais feliz e alegre.

João Pessoa é conhecida como a 2ª cidade mais verde do mundo, como seria bom se fosse também conhecida como a cidade dos poetas. Vamos adotar Dona Sofia como modelo e mandar cartões para os amigos povoados de poemas, há tantos bons poetas na Paraíba e, para não desgostar os vivos, cito apenas nosso poeta maior - Augusto dos Anjos.

Fizemos uma entrevista com André Neves que foi publicada no jornal O Balainho, da Universidade Oeste de Santa Catarina, ele confessou que seu gosto pela ilustração adveio do curso que fez com a artista plástica Badida, que mora em Olinda e tem uma casa toda decorada com quadros e poesia. Vale a pena uma visita à casa de Badida. Já estive lá e vi, na sala de visitas, uma cesta com livros e mais livros e entre eles - A Caligrafia de Dona Sofia.

sábado, 25 de outubro de 2008

lista de honra ibby 2008



Lista de Honra IBBY/2008
(Neide Medeiros Santos – crítica literária FNLIJ/PB)

O livro traz a vantagem de a gente poder estar só e ao mesmo tempo acompanhado.
(Mário Quintana. Caderno H).

Dois livros publicados no Brasil – Lampião e Lancelote, de Fernando Vilela (texto e ilustração), da CosacNaify, e Os Corvos de Pearblossom, de Aldous Huxley, editora Record, ilustrações de Beatrice Alemagna, com tradução de Luiz Antônio Aguiar, figuraram na Lista de Honra do 31º. Congresso do IBBY (International Board on Books for Young People), realizado em Copenhague, entre os dias 7 e 10 de setembro de 2008.
O livro de Fernando Vilela já havia conquistado, em 2007, vários prêmios no Brasil – Melhor livro de Poesia da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil 2007, Melhor Projeto Editorial e Melhor Ilustração da mesma Fundação, Jabuti 2007, na categoria de livro infantil. A escolha de Lampião e Lancelote, na lista de Honra IBBY/2008, não causou surpresa entre os especialistas de literatura infantil.
Os Corvos de Pearblossom recebeu, no Brasil, o prêmio de Melhor Tradução pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil em 2007. Luiz Antônio Aguiar é autor consagrado de livros infanto-juvenis e tem feito ótimas traduções na área dos livros destinados a crianças e jovens.
É sobre os dois livros premiados que voltamos nossa atenção.
Para escrever Lampião e Lancelote, Fernando Vilela imaginou um encontro inusitado entre dois cavaleiros – Lancelote (cavaleiro medieval) e Lampião (cangaceiro nordestino).
O cavaleiro medieval considera a luta como uma “justa”; o cangaceiro, “um duelo”. A disputa é ferrenha entre os dois cavaleiros, mas é uma luta de caráter mais cultural do que física, e o embate se verifica, principalmente, entre a linguagem de cavalaria e a linguagem de cordel.
Quem será o vencedor? Quem é o melhor repentista? Cabe ao leitor fazer a leitura do livro e tirar suas conclusões.
Lancelote se utiliza da setilha, versos de sete sílabas para desafiar Lampião, e o cangaceiro empregou a sextilha, a métrica mais tradicional do cordel, para desbancar o cavaleiro medieval.
Texto em prosa e em poesia, espadas, entrecruzar de armas, lanças e flechas atravessam todas as páginas do livro, conferindo um colorido especial e atraente.
Fernando Vilela recorreu aos desenhos que aparecem nos livros da Idade Média para representar Lancelote e as xilogravuras nordestinas e as fotografias da época do cangaço serviram para retratar a indumentária do cangaceiro Lampião. A prata, o cobre e o negro são as cores utilizadas nas ilustrações.
A respeito do livro Lampião e Lancelote, Bráulio Tavares, profundo conhecedor do cordel e ele mesmo autor de cordéis, assim se expressou:
As aventuras de cavaleiros medievais estão no repertório dos livros infantis e juvenis do mundo inteiro. Já as histórias de cangaceiros são um dos ciclos mais populares da literatura de cordel nordestina. Para o ilustrador e autor Fernando Vilela, o encontro entre o cavaleiro Lancelote e o cangaceiro Lampião foi uma idéia irresistível, que lhe permitiu mostrar as semelhanças entre dois universos que parecem distantes. (Contra capa do livro Lampião e Lancelote).
Os Corvos de Pearblossom, como todo livro, tem sua história. Aldous Huxley escreveu este livro para sua sobrinha Olívia Melusine de Haulleville que gostava de visitar os tios que moravam em Llano, no Antelope Valley, deserto de Mojave, Califórnia.
Aldous Huxley e a esposa viviam muito isolados e a sobrinha costumava passar as férias com a família Huxley, eles davam longos passeios com Olívia e contavam histórias para entretê-la. Foi o único livro que Huxley escreveu para crianças. Durante muitos anos a história ficou esquecida, guardada, só depois de três anos da morte do autor, apareceu a 1ª. edição (1967). O livro alcançou sucesso desde a 1ª edição e muitas outras se seguiram. Em 2006, Luiz Antônio Aguiar fez a tradução para o português.
O conto é bem simples – um casal de corvos observa que os ovos que a senhora corvo põe no ninho desaparecem misteriosamente. Certo dia a mãe regressa mais cedo para casa e encontra o ladrão com a “mão na botija”, era uma serpente. A partir dessa descoberta, começa a luta do casal para se livrar de tão terrível animal e a sábia coruja vai ajudá-los na empreitada.
Embora se utilize de poucas cores, Beatrice Alemagna fez belas ilustrações para este livro. O tamanho descomunal da serpente contrasta com os diminutos corvos. Beatrice teve a preocupação de utilizar cores neutras – cinza e tons ocres para representar a região árida do deserto de Mojave.
Estes dois livros, que consideramos objetos de arte, devem constar nas estantes dos bons leitores e como estamos nos aproximando do Natal vamos seguir o exemplo de muitas pessoas – dar presentes de livros. Lampião e Lancelote e os Corvos de Pearblossom serão bem-vindos como presentes de Natal para crianças e adolescentes. São livros-companheiros para toda a vida.





terça-feira, 21 de outubro de 2008

lembranças da revista tico-tico


Lembranças da revista O Tico-Tico
Neide Medeiros Santos – Professora e crítica literária

A criança está perdendo a infância, a infância que eu tive lendo o meu Tico-Tico, Almanaque d´O Tico-Tico.
(Lygia Fagundes Telles)

Para quem nasceu na primeira metade do século passado, a publicação comemorativa do centenário da revista O Tico- Tico (Vinhedo: SP: Opera Graphica Editora, 2005) foi um verdadeiro presente.
No prefácio da luxuosa e bem cuidada edição, Sérgio Augusto afirma que essa revista fez mais pela educação do Brasil do que todos os ministros que disso se encarregaram nos últimos cem anos. (p.6)
A revista O Tico- Tico nasceu em 1905, no dia 11 de outubro de 1905, e durante quase seis décadas educou e divertiu várias gerações de brasileiros, como Francisco Campos, Gustavo Barroso, Assis Chateaubriand e os acadêmicos Josué Montello e Raimundo Magalhães Júnior. Os intelectuais Alceu Amoroso Lima e Gilberto Freyre também foram leitores de O Tico-Tico. Conta-se que Rui Barbosa era leitor assíduo da revista e, certa vez, quando lhe pediram para explicar uma informação que dera, disse: Ora, tirei do Tico-Tico.
Ainda, com relação a Rui Barbosa, Rejane M.M.A. Magalhães, no depoimento do capítulo 24, declara que:
Rui Barbosa todas as semanas comprava O Tico-Tico para os netos, mas era o primeiro a ler a revista. Numa das ocasiões, o Desembargador Palma, seu amigo, encontrou-o mergulhado na leitura e gracejou: “Você virou criança?” Ruy, sério, respondeu: “O espírito tem necessidade de distrações amenas , e nada melhor para conservá-lo jovem do que as leituras infantis.” (p. 185)
O criador da revista foi Luís Bartolomeu de Sousa e Silva que já editava O Malho e Renato de Castro é considerado o pai d´O Tico-Tico. Foi uma revista pioneira nas histórias em quadrinhos no Brasil. Era uma leitura mais destinada para meninos, mas era lido também por meninas.
Na coletânea Memórias Rendilhadas: vozes femininas (João Pessoa: Editora Universitária/UFPB, 2006), as escritoras Mila Cerqueira, Socorro Loureiro, Vitória Lima e Yolanda Limeira fazem referências à revista O Tico-Tico. Socorro Loureiro achava delicioso ler, no Almanaque Tico- Tico, as aventuras de Reco-Reco, Bolão e Azeitona. Dar gostosas gargalhadas com as trapalhadas do casal Zé Macaco e Faustina. (p.77)
Esses depoimentos das mulheres escritoras comprovam a grande aceitação dessa revista pelo público infantil, independente da região e do sexo. O Tico-Tico não conhecia fronteiras, era lido no Sul/Sudeste, Norte/ Nordeste do Brasil.
A edição comemorativa do centenário da revista apresenta, entre outras coisas, uma entrevista com o bibliófilo José Mindlin. Mindlin permitiu que os organizadores do livro consultassem a sua coleção particular de livros e revistas na vasta biblioteca que reuniu através dos anos e fotografassem o 1º. número da revista O Tico – Tico.
A paixão pelos livros do bibliófilo Mindlin transparece em vários momentos dessa entrevista. O cultor dos livros não sente o peso dos anos (91 anos na época da entrevista, 2003) e fala sobre projetos de incentivo à leitura – “Estado Leitor”, uma idéia de transformar o estado de São Paulo em um “estado leitor” através de investimentos na formação dos professores. Outro projeto de Mindlin é instituir nas escolas a hora “Prazer da Leitura”. Nesse caso, a leitura não seria uma obrigação nas aulas, mas uma fonte de prazer. Professores e alunos, em conjunto, comentariam os livros, fariam leitura em voz alta, emitiriam opiniões sobre os livros. Estas sugestões podem ser seguidas por outros estados do Brasil.
Há, ainda, depoimentos de escritores e textos de críticos analisando a revista sob vários ângulos: psicológico, jornalístico, pedagógico, sociológico. Dentro desse rico universo de depoimentos, não poderíamos deixar de citar o belo texto de Moacyr Cirne:
Sou do interior do Rio Grande do Norte, sertão do Seridó, nascido em 1943. Aprendi a ler através de O Tico-Tico, no final dos anos 40. Quem o adquiria era minha mãe, que me ensinou a penetrar em seu mundo vocabular, ao mesmo tempo em que eu “lia” as imagens. Reco-Reco, Bolão e Azeitona, de Luiz Sá, por exemplo, eram personagens que me encantavam vivamente. Confesso: tudo aquilo era muito mágico, era muito envolvente. (Capítulo 6, p. 55).
Para os depoimentos que abrem os capítulos foram escolhidas pessoas que tiveram uma relação emocional com a revista, como José Mindlin, Lygia Fagundes Telles, Moacyr Cirne, Moacyr Scliar, Ziraldo, Érico Veríssimo, Carlos Drummond de Andrade.
Na página 172, capítulo 21, com o título O Tico-Tico e a Cultura Nacional, o leitor encontra a reprodução da crônica de Drummond, publicada no Correio da Manhã – Um passarinho, uma crônica cheia de poesia e de humor, uma homenagem à revista que foi pai e avô de muita gente importante.
É possível descobrir fatos interessantes e pouco conhecidos do público lendo esta edição comemorativa dos 100 anos. Sérgio Buarque de Holanda, mais conhecido como pai de Chico Buarque e autor de Raízes do Brasil e Visões do Paraíso, quando tinha 9 anos compôs a valsa “Vitória Régia” que foi publicada na revista O Tico-Tico. Compor valsinhas é, portanto, uma tradição da família Buarque de Holanda.
Entre os poetas e romancistas que colaboraram com a revista, destacam-se: Coelho Neto, Bastos Tigre, Malba Tahan, Osvaldo Orico, Josué Montello. Figuravam entre desenhistas e cartunistas: Ângelo Agostini, Alfredo Storni, Luiz de Sá, J. Carlos.
Colada na contra capa interna, o leitor encontra uma reprodução integral de O Tico-Tico número 1. É uma edição fac-símile.
Se houve influências americanas e francesas nos quadrinhos da revista O Tico- Tico pouco importa. A revista marcou época e deixou boas lembranças nos assíduos leitores de um tempo em que a leitura era o passatempo predileto das crianças.
Não fui leitora de O Tico-Tico, mas esta edição comemorativa do centenário da primeira revista de quadrinhos do Brasil veio preencher o vazio da leitura que deveria ter sido e que não foi.







marc chagall e suas imagens aladas



Marc Chagall e suas figuras aladas
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB)

“Só é minha
a terra que está
em minha alma.” (...)
(Marc Chagall. Trecho do poema Minha Terra).

Marc Chagall nasceu em 1887, na cidade de Vitebsk, na Rússia. Seu nome verdadeiro era Moshe Segall, mais tarde adotou o nome artístico de Marc Chagall e assim ficou conhecido no mundo das artes plásticas.
Embora tenha vivido grande parte de sua vida fora da Rússia, o bairro judeu de Vitesbsk , sua cidade natal, os músicos, os rabinos, cabras, bois e galinhas estão sempre presentes em seus quadros e murais. Pessoas, animais, objetos são retratados como figuras aladas.
Para conhecer mais sobre a vida aventurosa do precursor da pintura surrealista, encaminhamos o leitor para o bonito livro de Bimba Landmann Como me tornei Marc Chagall (Editora SM, 2007).
Bimba Landmann se utilizou do livro autobiográfico de Chagall (Minha Vida) e conta a história deste pintor que conseguiu alcançar sucesso na França e nos Estados Unidos, recriando o mundo através da pintura. Chagall também escreveu poesias.
Um pintor com alma de poeta, assim o romancista Henry Miller se referia a Marc Chagall.
Certa vez perguntaram a Chagall porque ele pintava cabras e peixes que voavam, violinistas de rosto verde trepados em telhados, casas que boiavam no céu de cabeça para baixo e ele respondeu de forma poética:
“Pintei meu mundo, minha vida
aquilo que vi e aquilo que sonhei:
pintei minha Rússia querida,
a Vitesbsk onde nasci,
o bairro dos judeus pobres onde cresci,
assim como os via quando era criança,
quando meu nome era Moshe Segall”.
Chagall morreu com 97 anos e morou muito anos na França. Em 1963, atendendo a um convite do governo francês, pintou o teto da Ópera de Paris. A respeito desse fato, Jude Welton, no livro Marc Chagall (Ed. Ática, 2006), afirma que alguns críticos foram contra a idéia de um judeu russo decorar esse monumento nacional francês, outros consideravam que a arte moderna era inadequada para um edifício do século XIX. Chagall estava com 77 anos. Quando a pintura ficou pronta, todos concordaram que o resultado foi uma obra-prima. Um crítico escreveu:
“Dessa vez, os melhores lugares do teatro são os mais altos”.
Se livros são destruídos nas guerras, nos regimes totalitários, os artistas (pintores) e seus quadros também são vítimas de perseguições.
Em 1933, foi organizada, na Basiléia, Suíça, uma grande retrospectiva em homenagem a Chagall e, nessa mesma época, na Alemanha, seus quadros foram queimados por ordem do governo nazista. Eram obras de um judeu, foi a justificativa.
Os déspotas não entendem que a Arte desconhece as fronteiras de raça, credo. O Belo deve ser admirado por todos, independente de ideologias.
Chagall era religioso, temente a Deus, e cenas bíblicas aparecem sempre na sua pintura, nos vitrais. Um dos seus quadros mais conhecidos traz o título Solidão. Nesse quadro, Chagall retratou uma vaquinha tranqüila, deitada junto a um violino, casas russas em um plano de fundo e uma enorme figura de um judeu em primeiro plano. O judeu se apresenta como uma pessoa melancólica, pensativa, segurando um rolo de Torá, o livro sagrado dos judeus. Complementando a cena, vemos um anjo voando. Anjos são imagens recorrentes nos quadros de Chagall.
Os vitrais das igrejas foram outra paixão de Chagall e o pintor só começou a se dedicar a essa arte aos 70 anos. O vitral da janela da Catedral de Chichester foi terminado quando Chagall tinha mais de 90 anos.
O crítico brasileiro Ferreira Gullar escreveu um livro que analisa, com bastante lucidez, obras de arte de artistas nacionais e internacionais e Chagall é objeto de análise de um artigo do crítico de arte. O livro de Gullar foi editado pela Cosac&Naify em 2003 e traz o título de “Relâmpagos”. É leitura essencial para quem gosta de Arte.
Para conhecer um pouco da obra de Marc Chagall, indicamos esses dois livros: “Como me tornei Marc Chagall” (Ed. SM) e “Marc Chagall” (Ed. Ática). São livros indicados para um público juvenil e para todo leitor que gosta de Arte. São livros bem escritos, com boa ilustração e que apresentam um pouco da vida e da obra artística desse cidadão do mundo.
No Brasil, é possível admirar alguns quadros de Chagall nos museus MAC-USP, São Paulo; MASP – São Paulo; MAB FAAP – Museu de Arte Brasileira, São Paulo; MNBA – Museu Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro, MAM – Museu de Arte Moderna da Bahia, Salvador.
Se você for a uma dessas cidades brasileiras (São Paulo, Rio e Salvador), aproveite para visitar os museus e procure ver os quadros de Marc Chagall. Enquanto a viagem não chega, a leitura desses dois livros vão suprir a ausência do que os olhos não vêem.
(Em tempo): O crítico brasileiro Antonio Candido, que teve alguns aspectos de sua obra analisada no artigo – Antonio Candido – um mestre da crítica literária no Brasil (O Norte, Show, C4, 02 de agosto de 2008), recebeu, no dia 20 de agosto, o Troféu Juca Pato, Intelectual do Ano, da União Brasileira de Escritores de São Paulo.




















sexta-feira, 17 de outubro de 2008

O gosto de brincar com as palavras





O gosto de brincar com as palavras

 (Neide Medeiros Santos – Ensaísta e Crítica literária – FNLIJ/PB)

 

  Palavras

Gosto de brincar com elas.

Tenho preguiça de ser sério.

(Manoel de Barros. Tratado Geral das Grandezas do Ínfimo).

 

Manoel Wenceslau Leite de Barros, ou simplesmente Manoel de Barros como é conhecido nacionalmente, nasceu em Cuiabá, em 1916, estudou e formou-se em Direito no Rio de Janeiro e por lá trabalhou durante muitos anos.  Na década de 60, aposentado das atividades profissionais, voltou para seu estado natal. Atualmente mora em uma fazenda nas proximidades de Campo Grande.

A carreira literária do poeta teve início na década de 30, com a publicação de livro “Poemas concebidos sem pecado” (1937). Somente nos anos 60, livre de outros compromissos, o poeta se dedicou às atividades agrícolas e, de maneira mais intensa, à poesia.

Ricardo Alexandre Rodrigues, na sua dissertação de mestrado, defendida na Universidade Federal do Rio de Janeiro, em 2006, com o título A Poética da Desutilidade. Um passeio pela poesia de Manoel de Barros afirma que, embora tenha publicado vários livros entre os anos 40 e 70, o reconhecimento do público só aconteceu por volta dos anos 80. O ensaísta lembra que as composições de Manoel de Barros nos despertam para reflexões em torno da poesia e de suas brincadeiras com as palavras. 

 Se fizermos um levantamento em torno da produção literária de Manoel de Barros, iremos constatar que a partir dos anos 80 o poeta intensificou a publicação de livros, mas foi em 2000 que o poeta começou a escrever livros destinados ao público infantil. Será que Exercícios de ser criança (2000), O Fazedor de Amanhecer (2001), Cantigas para um passarinho à toa (2003) e Poeminha em língua de brincar (2007) são livros para crianças? Sabemos que os rótulos nem sempre são fiéis ao conteúdo do texto literário, por isso preferimos dizer que, nesses livros, afloram sentimentos inerentes à criança e o leitor infantil se identifica com o poeta que sabe dar voz às pedras, aos passarinhos, às árvores.

 Exercícios de ser criança recebeu o Prêmio Odylo Costa filho (2000),  na categoria de poesia, da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil e Prêmio da Academia Brasileira de Letras nesse mesmo ano. As belíssimas ilustrações da família Dumont para esse livro formam um rendilhado perfeito entre texto (poemas) e tecido (bordados das irmãs Dumont, sob desenhos de Demóstenes Vargas).

O Fazedor de Amanhecer, com ilustrações de Ziraldo, ganhou em 2002 o Prêmio Jabuti de Literatura na categoria livro de ficção; agora, em 2008, Poeminha em língua de brincar, com ilustrações de Martha Barros, ganhou o Prêmio FNLIJ Odylo Costa filho – O Melhor Livro de Poesia. É sobre este último livro de Manoel de Barros que iremos tecer algumas considerações.

Em Poeminha em língua de brincar, o poeta escolhe, cuidadosamente, cada palavra e vai tecendo uma renda que às vezes é labirinto, como neste exemplo:

Gostava mais de fazer floreios com as palavras do que de fazer idéias com elas.

 Outras vezes é renascença:

 Pois frases são letras sonhadas, não têm peso,

nem consistência de corda para agüentar uma rã em cima dela.

O labirinto é um bordado feito à mão, cheio de floreios; a renascença é uma renda tecida ponto por ponto, muito fina, delicada, leve, muito leve, quase sem peso.

Como as bordadeiras nordestinas que brincam com as linhas e os desenhos, construindo rendas e sonhos, o poeta brinca com as palavras e constrói poemas.  

 Martha Barros fez as ilustrações do livro. A capa se assemelha a um rio com peixes que flutuam em águas alaranjadas, ou será um pauta com notas musicais, povoada de meninos e passarinhos? Talvez o menino travesso saiba responder.

Nas páginas internas do livro, as ilustrações que acompanham os poemas guardam afinidades com desenhos e letras de um menino aprendiz.

As duas linguagens (verbal e pictórica) se enlaçam, se abraçam, caminham pari-passu formando um único texto, rico em simbologias. O poeta e a ilustradora têm uma maneira particular de “transver” o mundo.

Manoel de Barros, em entrevista concedida ao Jornal do Brasil  (Caderno Idéias, 30 de março de 2002) afirmou que trabalha cada letra, cada sílaba, cada palavra para conseguir certa harmonia para o verso ou a palavra. O apuramento na escolha de cada palavra, cada verso em Poeminha em língua de brincar comprova que estamos diante de um poeta comprometido com a linguagem e consciente do fazer poético.  

terça-feira, 14 de outubro de 2008

DILA - O ARTISTA DO POVO, O POETA DA MAO


DILA – O ARTISTA DO POVO, O POETA DA MÃO 
Neide Medeiros Santos 

O poeta popular Dila adota vários nomes – José Soares da Silva, José Cavalcanti Ferreira e Dila José Ferreira. Sua biografia vem envolvida de um certo mistério: antes de se estabelecer em Caruaru (PE), ele afirma que teria sido um dos integrantes do grupo de Lampião ou irmão de Lampião. Nasceu em 1937, na cidade de Bom Jardim (PE), sinal de que a sua afirmativa é fruto de fértil imaginação.
Como poeta popular, já publicou inúmeros folhetos, quase todos voltados para a temática do cangaço. Na sua tipografia, que funciona na casa onde mora com a mulher e os filhos, em Caruaru, Rua Antônio Satu, 36, conserva, sobre Lampião e cangaceiros, exemplares de folhetos de sua autoria que somam mais de cem títulos. Em alguns folhetos, além do seu próprio nome, Dila José Ferreira da Silva, acrescenta outros, como Barba Nova, no folheto Zé Baiano; e Marechal do Cordel do Cangaço, no folheto Viver de Cangaceiro.
O professor e pesquisador de literatura popular, Roberto Câmara Benjamin(1), um profundo conhecedor da arte do xilógrafo, faz uma pertinente observação a respeito das ilustrações que aparecem nas capas de seus folhetos: Dila se auto-retrata nas capas dos folhetos em trajes de cangaceiro. Examinando mais de cinqüenta folhetos do autor, atestamos a validade da observação do pesquisador. No livro Guriatã: um cordel para menino (2), livro de poemas do poeta pernambucano Marcus Accioly, Dila faz um auto-retrato em uma das páginas do livro e, nesse auto-retrato, não está vestido de cangaceiro, o que constitui uma raridade.
Como poeta da palavra, Dila está distante de Leandro Gomes de Barros ou mesmo de Manoel Camilo dos Santos: falta-lhe sopro poético. Escreve versos, geralmente em sextilhas, e as histórias não obedecem a uma seqüência lógica. Aproveita os versos das capas dos folhetos para fazer propaganda de sua tipografia e de outros estabelecimentos comerciais de Caruaru.
É como poeta da mão, e aqui usamos uma expressão de Bachelard (2) que o trabalho de Dila se destaca. No ensaio Matéria e Mão, Bachelard analisa o trabalho do gravador e averba: A gravura é a arte que não pode enganar. É pré-histórica, pré-humana.
Os desenhos feitos por Dila apresentam as características mencionadas por Bachelard – são primitivos e ligam-se a um tempo pré-histórico. Os animais (bois, touros,cães) e os instrumentos de corte ( faca, facão, quicé, lâminas), que ilustram o livro Guriatã: um cordel para menino, trazem a marca da gravura primitiva.
O professor Roberto Benjamin (3), na comunicação apresentada no IX Encontro Nacional de Pós-Graduação em Letras e Lingüística, com o título Em torno do texto- aparatos dos livros populares - Dila editor popular, chama-nos a atenção para algumas técnicas empregadas pelo xilógrafo que o tornam um artista singular. Dentre as técnicas inovadoras, Benjamin destaca a introdução da borracha como matéria prima em substituição à madeira. Sem recorrer a sofisticados processos químicos, Dila obtém resultados semelhantes à impressão off-set, daí Benjamin denominá-la folk-off-set. Outra técnica utilizada por Dila na produção de xilogravuras é a impressão das capas de folhetos e álbuns em cores. Benjamin atribui esse recurso à grande aceitação popular dos folhetos editados pela Luzeiro de São Paulo, com capas em policromia industriais. Dila procurou competir com a tipografia Luzeiro, oferecendo aos leitores de cordel capas também coloridas.
Em Guriatã: um cordel para menino, Dila não utilizou o recurso das cores. A xilogravura impressa em quase todas as páginas do livro segue o caminho tradicional ( preto e branco). O poeta da mão procurou traduzir plasticamente a linguagem verbal: Accioly vai descrevendo paisagens, animais, mitos populares e Dila vai procurando dar sopro de vida a esses seres que povoam a mata norte de Pernambuco. Podemos dizer, portanto, que houve uma feliz união entre os poemas de Accioly e a xilogravura primitiva do poeta da mão.

sábado, 4 de outubro de 2008

Linguagem poetica de Bartolomeu Campos de Queiros
















Artigo - A linguagem poética de Bartolomeu Campos de Queirós
"Do diálogo entre o sonhado e o desejo que se atreve é que inventamos a vida." (Bartolomeu Campos de Queirós)
Neide Medeiros Santos, Professora e Crítica Literária - FNLIJ/PB
Bartolomeu Campos de Queirós já escreveu cerca de 50 livros. É um escritor de valor reconhecido no Brasil e no exterior, muitos de seus livros já foram traduzidos. Entre os prêmios internacionais recebidos pelo autor, destacam-se: Diploma de Honra IBBY (Londres), Prêmio Rosa Blanca (Cuba), Quatriéme Octogonal (França) e Finalista do Prêmio Andersen 2008 (IBBY, Copenhague). No Brasil, ganhou inúmeros prêmios e, mais recentemente, Jabuti (2008), com o livro "Sei por ouvir dizer" (Ed. Edelbra, 2007).
Mas o que será que torna este escritor tão querido e amado pelos leitores espalhados por diferentes regiões do Brasil?
Atribuímos a boa receptividade de seus livros à poeticidade da linguagem. Se o menino do dedo verde tinha o poder de transformar tudo que tocava em verde, Bartolomeu tem o poder de transformar toda e qualquer palavra em poesia.
O crítico Fábio Lucas, conhecedor dos meandros da literatura, define, assim, o texto desse escritor singular:
"O que há de invulgar no texto de Bartolomeu Campos de Queirós é uma leveza, uma transparência que não se traduz em superficialidade. Antes, constitui abertura para regiões profundas da comunicação poética. Ler o seu texto é envolver-se de imediato com a magia das palavras, é seduzir-se com a beleza e a musicalidade da prosa". (In: Longe do mar inventa-se um oceano).
Para o leitor que ainda não conhece os livros de Bartolomeu, recomendamos aqueles que têm o signo pássaro como motivo condutor - "Para criar passarinho" (Ed. Miguilim, 2000) foi considerado Altamente Recomendável pela FNLIJ/2001 e selecionado entre os cinco finalistas do Prêmio Jabuti - CBL/2001 e "Até passarinho passa" (Ed. Moderna, 2003) que recebeu, entre outros prêmios, FNLIJ - Prêmio Ofélia Fontes (2004), Prêmio da ABL e Menção Honrosa Jabuti (2004).
Com relação à comovente história "Até passarinho passa", podemos dizer que vem revestida de poeticidade, de lições de vida, de reflexões filosóficas. Se encontrar um amigo é encontrar um tesouro, o que dizer se esse amigo é cauteloso, constante, fiel? Como suportar a dor da partida desse amigo? De forma sutil, o autor leva o leitor a refletir sobre a efemeridade da vida, a alegria do encontro e a tristeza da partida.
Em 2007, Bartolomeu Campos de Queirós publicou três livros: "Para ler em silêncio (Ed. Moderna), "Sei por ouvir dizer" (Ed. Edelbra) e "O ovo e o anjo" (Ed. Global)".
"Para ler em silêncio" integra a série "A palavra é sua". Neste livro, o autor relata as experiências de um narrador-personagem quando criança e discorre sobre a arte de ouvir o silêncio, sobre o tempo da infância que desconhece ainda o ler e o escrever. Cada capítulo se inicia com um poema que se entrecruza com o texto em prosa e, diante de tanta beleza poética, o leitor perguntará: onde está a verdadeira poesia - na prosa ou nos versos? Está em tudo.
Há alguma coisa inusitada neste livro, depois da palavra FIM aparece um capítulo conclusivo de teor memorialista em que o narrador-personagem fala sobre as folhas do seu primeiro livro - "a parede da casa do avô" e as folhas do seu primeiro caderno - "os muros da casa do avô". (A casa do avô é tema recorrente em outros textos de Bartolomeu). O menino cresceu, freqüentou a escola e houve o encontro com os livros de verdade - "O livro de Lili", na escola primária; os de literatura, no ginasial, aí o menino grande criou gosto pela leitura e conclui: "Hoje todo livro literário me alfabetiza". (p. 64)"Sei por ouvir dizer" (Prêmio Jabuti 2008), na categoria infantil, apresenta como protagonista uma senhora com três idades distintas: uma idade passada, uma idade presente e outra idade futura, ela tinha três óculos - um para ver o longe, outro para ver o perto e um terceiro para procurar os dois óculos. Havia um menino no meio dessa história que fez uma visita a casa dessa senhora e resolveu ficar com os três pares de óculos e um dia eles também desapareceram, mas o menino já tinha aprendido a olhar a vida.
Suppa fez as ilustrações do livro com um colorido bem forte, vibrante, e predomínio da cor azul celeste. Em algumas ilustrações, a senhora está com os olhos fechados, em outras passagens os olhos estão bem abertos, instigantes, como se estivesse procurando algo perdido. Os óculos? O tempo?
No nível do parecer, é um livro jocoso, lúdico e as ilustrações seguem esse caminho; no nível do ser, apresenta uma proposta filosófica, é uma reflexão sobre a própria vida.
"O ovo e o anjo" é constituído de pequenos poemas que trazem a marca do lúdico, mas um ludismo que, como bem afirma Peter O´Sagae, em texto publicado em Dobras da Leitura, "desperta espantos do ninho das palavras - e, então vai acalentando o cotidiano e a imaginação como se fossem feitos da mesma matéria.".
Helena Alexandrino ilustrou o livro com cegonhas, anjos e paisagens tingidas de verde-água. A leveza do vôo dos pássaros e dos anjos combina com a leveza poética dos versos.
A ensaísta Stella de Moraes Pelllegrini, no livro "Caminhos e encruzilhadas: percursos poético e político de Bartolomeu Campos de Queirós, da formação do leitor à formação de leitores" (Ed. RHJ, 2005), ressalta que os textos de Bartolomeu Campos de Queirós são poéticos, políticos e revelam uma profunda preocupação com a formação de leitores e a construção de uma escola leitora.
Depois desses comentários certamente o leitor vai bisbilhotar livrarias, bibliotecas, estante da sua escola, casa do (a) amigo (a), e procurar livros desse escritor/passarinho e, com toda certeza, irá encontrá-los. Eles (os livros) têm alma, passeiam por livrarias, bibliotecas, por sebos culturais e pelas casas daquelas pessoas que gostam de poesia, estão apenas esperando por um leitor que leia em silêncio, entre "o sonho e o desejo

sábado, 27 de setembro de 2008

Uma triplice aliança

Uma tríplice aliança de escritores/leitores – Ana Maria Machado, Luiz Ruffato e Moacyr Scliar
(Neide Medeiros Santos – crítica literária FNLIJ/PB)
“Como leitores, começamos todos mais ou menos da mesma maneira, lendo um ou outro livro por indicação, por curiosidade ou por mero acaso. Mas, a partir de determinado momento, começamos por meio de nossas próprias decisões.”
(Luiz Ruffato. Literatura como alumbramento).
A editora SM convidou três bons escritores/leitores (Ana Maria Machado, Luiz Ruffato e Moacyr Scliar) para organizar uma antologia de textos curtos direcionados ao jovem leitor, e o resultado foram três excelentes livros – “Leituras de escritor” (Editora SM. Comboio de Cordas, 2008). Cada livro contém 14 pequenas histórias entremeadas por breves comentários sobre autor e obra selecionada.
A apresentação de Ana Maria Machado, traz o título “De memória, com afeto”. De maneira sucinta, Ana Maria fala sobre sua carreira de leitora voraz e confessa que prefere ler romance, ensaio e poesia e que relutou na escolha dos contos – “é um gênero muito difícil porque só admite a perfeição”. (p. 7)
A respeito do critério adotado para a seleção, a escritora explica que funcionou, inicialmente, a memória, acrescido depois da admiração. Fez questão de escolher os contos que foi lembrando como inesquecíveis.
“Literatura como alumbramento” é o título da apresentação de Luiz Ruffato que revela as dificuldades financeiras de sua família quando ele era criança e o pouco contato com os livros nessa fase de formação do leitor; era preciso ajudar o pai no orçamento doméstico, felizmente havia uma biblioteca na sua escola e este local, pouco freqüentado pelos alunos, foi o refúgio das suas primeiras leituras.
Ruffato acrescenta que depois as coisas mudaram, ele leu muito ao longo da vida e cita três autores selecionados para a antologia que se tornaram seus companheiros constantes: Machado de Assis, Anton Tchekhov e Luigi Pirandello.
“Do mito ao conto: o fogo das histórias” foi o título dado por Moacyr Scliar para sua apresentação. O escritor discorre a respeito de uma exposição fotográfica que circulou pelo mundo que se chamava “A família do homem”. Havia fotografias de vários lugares, mas uma chamava a sua atenção – numa pequena aldeia africana, à noite, ao pé de uma fogueira, um homem muito velho falava aos ouvintes, todos estavam sentados no chão. Era interessante observar como as pessoas pareciam atentas à fala daquele orador africano, encantados com o que ele transmitia.
Diante desse quadro descrito por Moacyr Scliar, perguntamos: O que estava fazendo aquele narrador? Certamente contando histórias para deleite do auditório. Era um “griot” ou “arokin” (um contador de histórias) que tinha poderes de encantar os ouvintes por meio da palavra.
Quanto ao critério da seleção dos contos, o organizador explica que foi uma escolha inteiramente pessoal e que é fanático por contos há muito tempo. Procurou reunir aqueles que mais o impressionaram, mais o comoveram.
Depois dessas considerações, vejamos os livros como um todo. Machado de Assis é uma unanimidade – ele está presente na antologia organizada pelos três escritores/leitores. Ana Maria escolheu o conto “Pai contra mãe”; Ruffato, “Conto de escola” e Scliar, um leitor que dialoga muito com Machado de Assis, selecionou “Missa do galo”.
Os textos vêm acompanhados de uma pequena biografia do autor e comentários sobre o conto apresentado. Os escritores/leitores têm uma maneira peculiar de apresentar os contistas e as observações sobre os contos são bem distintas.
Ana Maria Machado afirma que o conto, “A última folha”, de O. Henry, traz o ambiente cultural urbano do bairro de Greenwich Village, em Nova York, muito antes de se tornar uma atração turística. O. Henry revela certo olhar de ternura sobre suas personagens e, por meio de um “truquezinho no final do conto”, surpreende o leitor.
“Paco Yunque”, de César Vallejo, escritor peruano, integra a antologia de contos de Luiz Ruffato. Este texto foi extraído do livro “Escalas melografiadas” e, na época (1923), foi rejeitado pelos editores, hoje é leitura obrigatória nas escolas peruanas.
Qual teria sido o motivo tão forte para este conto ser rejeitado? “Paco Yunque” é a história de um menino maltratado por um outro menino poderoso e arrogante que lhe faz lembrar “todo o tempo sua função subalterna” (p. 104). É um texto de denúncia que deixa no leitor um sentimento de revolta e um desejo de mudança. Nos anos 20, do século passado, era considerado um conto subversivo.
Scliar, um apaixonado pela obra de Machado de Assis, escolheu um conto que encantou e encanta ainda todos os leitores. “Missa do galo” já proporcionou muitas releituras, recriações de escritores, professores e alunos.
Scliar considera-o um “conto clássico” cheio de insinuações e subentendidos. O clima envolvente da narrativa permanece inalterado, o passar dos anos não diminuiu o interesse pela trama bem urdida do seu criador.
Cada escritor/leitor selecionou 14 contos, perfazendo um total de 42. Dentro desse universo seleto, escolhemos um conto que representasse bem cada um dos organizadores da antologia.
O conto “A última folha”, por seu clima de mistério, seu caráter premonitório, condiz com Ana Maria Machado. Não foi uma escolha aleatória, não se deveu só a memória, houve uma empatia afetiva.
Ruffato apresenta, em seus textos ficcionais, personagens sofridas e abandonadas, sua prosa guarda semelhanças com a prosa graciliânica e “constrói seu texto com tintas políticas fortes”. Para representar Ruffato, nada melhor do que o conto “Paco Yunque”.
Vincular Scliar ao conto “Missa do galo” é quase uma obrigação. Scliar tem retrabalhado textos machadianos com tanta mestria que conseguiu prêmios como estudioso e pesquisador da obra de Machado de Assis. “O menino e o bruxo” e “Ciumento de carteirinha” atestam o que afirmamos.
Ainda uma palavrinha: a tríplice aliança não objetivou provocar nenhuma guerra, nenhuma defesa contra os inimigos, mas proporcionar uma agradável viagem através da boa leitura.

sábado, 20 de setembro de 2008

Livros à espera do leitor


Artigo - Livros à espera do (a) leitor (a)
Ó Bendito o que semeia/livros, livros à mão cheia/e manda o povo pensar!/ O livro caindo n´alma é gérmen - que faz a palma/ é chuva - que faz o mar. (Castro Alves)
Neide Medeiros Santos, Professora e Crítica Literária - FNLIJ/PB
Ana Maria Machado é uma escritora múltipla, escreve livros para crianças e jovens, romances e livros teóricos sobre leitura e literatura. "Balaio: livros e leituras (Ed. Nova Fronteira, 2007), objeto de nossa atenção, se enquadra na linha dos teóricos".
Na apresentação do livro, com o título "Começo de conversa", Ana Maria Machado afirma que é o quarto volume em que reúne textos de palestras e artigos esparsos, acrescido de seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras, antes divulgado apenas na internet.
Marisa Lajolo, responsável pela orelha do livro, destaca dois momentos que considera muito belos nesse universo do livre pensar: o momento em que a literatura infantil brasileira é objeto de uma reflexão muito original, aproximando a literatura infantil brasileira da literatura latino-americana não infantil e a parte em que o conjunto de obras e de autores perpetua o imaginário e a identidade brasileira. "Balaio: livros e leituras" está dividido em 16 textos que se agrupam em quatro blocos: "A hora da escrita, Quem somos nós? Crescendo com os livros e Instantâneos".
No artigo "Pelas frestas e brechas: importância da literatura infanto-juvenil brasileira", resultado de uma palestra proferida na Academia Brasileira de Letras em maio de 2005, a ensaísta relata a sua participação no júri Hans Christian Andersen em 1978 e o grande volume de livros que leu durante o período de dois anos. Convém lembrar que este prêmio, na área da literatura infanto-juvenil internacional, corresponde ao Nobel da Literatura.
Investida, naquele momento, na função de crítica literária, Ana Maria Machado chegou à "súbita percepção iluminadora": a literatura infantil brasileira do século XX, por sua originalidade e qualidade, não ficava nada a dever aos livros dos autores estrangeiros. A conquista do prêmio Andersen, alguns anos depois por Lygia Bojunga Nunes e pela própria Ana Maria Machado, comprova que ela estava com razão - a "súbita percepção iluminadora" vinha revestida de um caráter premonitório.
Quais seriam os fatores que contribuíram para que a nossa literatura infanto-juvenil atingisse a sua maioridade? Não tivemos a tradição no século XIX de autores como Robert Louis Stevenson, Beatriz Potter, C.S. Lewis e outros nomes emblemáticos, no entanto a literatura infanto-juvenil brasileira do século XX despontava como uma das mais brilhantes e criativas.
E vem a resposta de quem entende do risco do bordado. Vários foram os fatores que motivaram o apuramento desse tipo de literatura, um deles pode ser atribuído à repressão política dos anos da ditadura militar. Heloísa Buarque de Holanda, em um número especial da revista "Tempo Brasileiro", com uma retrospectiva analítica sobre a década de 70, apresentou uma hipótese crítica de rara agudeza: os intelectuais brasileiros, pressionados pelo regime autoritário, saíram em busca de novas expressões, "de brechas" e surgiram a poesia do mimeógrafo, letras das canções e a literatura infantil.
A Revista Recreio, a criação da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (1969), a instituição de prêmios para livros na área de literatura infanto-juvenil contribuíram para a divulgação de novos escritores.
Ana Maria Machado não esquece a importância exercida por Monteiro Lobato, muito antes do boom da literatura infantil brasileira. Lobato sabia transitar do real para o fantástico com a naturalidade de um grande sábio, deu ênfase ao falar brasileiro coloquial e instigou, nas crianças, o amor à literatura clássica. Abriu o caminho para a futura geração de escritores.
Não poderíamos deixar de registrar nesse belo ensaio um aspecto ressaltado pela autora: "o essencial da literatura infantil não deve ser o infantil, mero adjetivo. Deve ser a literatura, isso sim, substantivo". (p. 120)
Outro texto que merece atenção é o discurso de posse na Academia Brasileira de Letras, apresentado, pela primeira vez, em livro. O discurso começa e termina com poesia. Inicialmente, a autora improvisa uma canção à moda dos cantadores populares (oitava) e abençoa e agradece essa hora encantada. Na conclusão, apresenta o poema-canção de Chico Buarque de Holanda - "Tempo e artista", frisando que é necessário ter humildade e lembra "que a glória não passa de uma companheira das rugas e de um efeito do tempo que nos carrega". (p. 222)
Ana Maria Machado sucedeu, na ABL, a Evandro Lins e Silva, jurista e advogado consagrado no Brasil e grande amigo da escritora. Embora a cadeira tenha sido ocupada anteriormente por Luís Murat, Visconde de Taunay, Múcio Leão, Bernardo Elis, seu texto enfatiza a figura do jurista brasileiro e revela um profundo respeito e admiração pelo autor de "O Salão dos Passos Perdidos".
Há um fato relatado no discurso de posse que demonstra o grande apreço que a escritora tinha pelo jurista brasileiro. Em 1977, Ana Maria Machado foi processada, juntamente com seu editor, pelos herdeiros de Monteiro Lobato, que se sentiram atingidos por seu livro "Amigos Secretos" que homenageava, entre outros, o escritor paulista. Naquela ocasião, procurou André Martins, seu irmão e advogado para defendê-la e falou também com Técio Lins e Silva. Nessas idas e vindas aos escritórios dos advogados acabou conversando com Evandro Lins e Silva que se interessou pelo caso. Para se inteirar bem do assunto e do motivo da queixa dos familiares de Monteiro Lobato, Evandro Lins e Silva pediu o livro que Ana Maria havia escrito e depois lhe disse: "li-o com encantamento", rascunhou uma defesa brilhante, mas os advogados da editora preferiram entrar em acordo e a circulação do livro foi suspensa.
Cinco anos depois morre Evandro Lins e Silva. Ana Maria vai ao sepultamento e passou uma noite com um sono agitado, acordou de madrugada e lembrou-se de que sonhara com o advogado se despedindo dela e perguntando: "gostou da minha defesa?"
Para sua grande surpresa, no final desse mesmo dia, recebeu um telefonema que a deixou pensativa - os herdeiros da família tinham mudado de idéia e lhe comunicavam que o livro que escrevera poderia ser publicado e sua circulação restabelecida. Coincidência ou não, a pergunta do sonho de Evandro Lins e Silva tinha sua razão de ser. O fato merece uma explicação junguiana.
O discurso de posse de Ana Maria Machado traz a marca da afetividade, do carinho e da amizade que uniam jurista/escritora. É uma bonita peça literária que estava exigindo uma divulgação maior. A inclusão do discurso de posse no balaio de livros e leituras foi oportuna.
Se o (a) leitor (a) quiser saber mais sobre livros e leituras, não deixe de examinar o balaio - ele está cheio de comentários inteligentes à sua espera.

sábado, 6 de setembro de 2008

kafka um carteiro de bonecas


Artigo - Kafka - um carteiro de bonecas
"Só a inocência e a ignorância são Felizes, mas não o sabem". (Fernando Pessoa. O horror de conhecer. Segundo Tema, V. In: Poemas Dramáticos).
Neide Medeiros Santos, Professora e Crítica Literária (FNLIJ/PB)
O escritor Franz Kafka viveu uma experiência bem singular um ano antes de sua morte - passeando, certo dia, pelo parque Steglitz, em Berlim, encontrou uma menina chorando. Qual seria o motivo daquele choro? Dirigiu-se à pequena, indagou-lhe o porquê do choro tão desconsolado e ela lhe explicou que havia perdido uma boneca no parque. Para alegrar a menina, Kafka inventa uma história - a boneca não se perdera, ela estava viajando e resolve criar cartas imaginárias escritas pela boneca endereçadas à menina, transformando-se, assim, em um carteiro de bonecas.
Este é o pequeno resumo da história de Jordi Sierra i Fabra - "Kafka e a boneca viajante", Ed.Martins Fontes, 2008, traduzido por Rubia Prates Goldoni, com ilustrações em tons neutros de Pep Montserrat.
Com esta bonita e comovente história, junção de um fato real e muita imaginação, Jordi Sierra ganhou o Prêmio Nacional de Literatura Infantil e Juvenil em 2007, concedido pelo Ministério de Cultura da Espanha. O autor é natural de Barcelona e, nesta cidade, criou a Fundação Jordi Sierra i Fabra e a Fundação Taller de Letras para a América Latina, na Colômbia, onde desenvolve um trabalho com crianças e jovens visando estimular o gosto pela leitura.
Vamos ao encontro do carteiro de bonecas e falar um pouco sobre essa trama que envolve um escritor e uma menininha que se sente feliz por receber cartas de uma boneca.
Para escrever esta bonita história, Jordi Sierra i Fabra se baseou em depoimentos de Dora Dymant que conviveu com Kafka nos seus últimos anos de vida, recriou as cartas que Kafka escreveu para a menina Elsi, a dona da boneca Brígida desaparecida em um banco de um parque de Berlim. (O nome da menina e da boneca são criações de Jordi Sierra i Fabra).
Foram 21 cartas endereçadas à menina, escritas de várias partes do mundo. Na primeira, Brígida tinha viajado para Londres e fala dos passeios pelo rio Tâmisa, da visita ao Picadilly Circus, das caminhadas pela Trafalgar Square, até peças de teatro a boneca assiste.
Essas cartas vêm revestidas de ensinamentos para a vida, de conselhos, de frases poéticas.
A segunda carta vem de Paris e diante da pergunta da pequena:
"- O senhor pode ler para mim?" Vem a resposta: "- Claro" (p. 61)
E o narrador comenta:
"Nenhuma dúvida nem questionamento. Pelo menos essa era a parte do encanto infantil mais bem aproveitada pelos adultos: a credulidade". (p. 61)
As cartas vão chegando de lugares os mais distantes - Moscou, China, México, Colômbia, cruzam os mares, alargam os horizontes. Em duas semanas, foram catorze cartas. Mas, chega um momento que a boneca deseja descansar, ela viaja à Tanzânia e as coisas vão mudando pouco a pouco.
Se a história de uma boneca que escreve cartas condiz com o inverossímil, mais inverossímil se torna quando essa boneca se apaixona por um explorador da selva africana. É na Tanzânia que Brígida conhece um moço alto, bonito, chamado Gustav e o coração bate mais forte, ela está apaixonada e os dois vivem um grande e intenso amor.
E vem mais uma vez a voz do narrador:
"Franz Kafka permaneceu no parque, saboreando aquela sensação tão curiosa. Por um lado, a felicidade pelo trabalho bem-feito. Por outro lado, o prazer de seu ofício muito bem entendido. Era um alquimista de palavras e emoções, um mago da natureza humana." (p. 95).
Com o casamento da boneca, as coisas parecem que chegam ao fim, mas vem a surpresa final, Kafka compra e presenteia Elsi com uma linda boneca e os sonhos vão continuar. Até quando? Até a menina crescer e se apaixonar por um moço verdadeiro.
A boneca presenteada pelo carteiro de bonecas já vem com um nome. Adivinhem? Dora, a musa inspiradora de Kafka e sua companheira devotada.
Não poderia deixar de registrar esta passagem grávida de poeticidade que se encontra nas últimas páginas do livro. É o narrador que expressa o pensamento de Kafka através do discurso indireto livre: "Por que ele não encontrou um carteiro de bonecas quando era menino?
Por que sempre teve que enfrentar o pai?
Por que não havia bonecas viajantes na vida real?
A infância é o tempo de acreditar em bonecas. É na infância que existem os finais felizes. Mas são muito mais necessários na maturidade os carteiros capazes de receber cartas que só um louco é capaz de escrever" (p. 113-114).
Jordi Sierra i Fabra, o escritor/poeta catalão, conclui o livro explicando como surgiu esta história.
Kafka morreu no sanatório Kierling, perto de Viena, um ano depois desta história, estava com 41 anos de idade. Nunca se soube o nome da menina que perdeu a boneca nem tampouco foram encontradas as cartas escritas para a menina. O conhecimento desses fatos se deve à Dora Dymant que na época vivia com o escritor.
Klaus Wagenbach, estudioso da obra de Kafka, durante muitos anos procurou por essa menina nos arredores do parque, colocou anúncios nos jornais, foi tudo em vão.
E vem a justificativa do escritor Jordi (Jorge) para o leitor:
"Quanto a mim, permiti-me a transgressão: inventar essas cartas, terminar a história, dar-lhe um final imaginário. (...) O que aconteceu é tão belo que o resto carece de importância. A única coisa evidente é que aquelas cartas devem ter sido mais lúcidas que as recriadas por mim". (p. 125).
Não podemos comparar as cartas escritas pelo carteiro de bonecas e as cartas recriadas por Jordi. As de Kafka se perderam no emaranhado do tempo. Não vamos chorar pelo que se perdeu, resta-nos o consolo das bonitas cartas do escritor catalão

sábado, 30 de agosto de 2008

ELIAS JOSE NO CEU


Artigo - Elias José no céu
Toc, toc, toc...- Quem bate? - Sou eu, Elias José. - Entra, Elias José. Você não precisa pedir licença.(Diálogo intertextual com o poema de Manuel Bandeira - Irene no céu)
Neide Medeiros Santos, Professora e Crítica Literária (FNLIJ/PB)
Elias José, o poeta mineiro de Santa Cruz da Prata, partiu silenciosamente, sem tempo para despedidas, teve o mesmo destino de Augusto dos Anjos - uma pneumonia levou-o para o céu.
É difícil dizer quantos livros Elias José escreveu, foram muitos e muitos livros. Ultimamente vinha publicando livros dedicados à crítica poética e à leitura. "Poesia pede passagem: um guia para levar a poesia às escolas" (Ed. Paulus, 2003) recebeu o prêmio Altamente Recomendável pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil em 2004. Em 2007, publicou "Literatura Infantil: ler, contar e encantar crianças" (Ed. Mediação).
Os livros teóricos mais recentes atestam a preocupação de um professor de literatura com o fazer poético. Elias José foi professor de Teoria da Literatura e Literatura Brasileira em Guaxupé (MG) e suas aulas deviam ser tão poéticas quanto os textos que escreveu para a meninada e para os adultos que têm alma de criança.
"Literatura infantil: ler, contar e encantar crianças" é direcionado para professores, pais e para aqueles que lidam com leitura e literatura em diferentes níveis. São nove artigos que transitam do universo infantil para o tom confessional. Dentro desse universo de nove textos, destacamos "Sobre canções e leituras" (7º. artigo) e o último -" Como me tornei um escritor".
"Sobre canções e leituras" (p.69-76) fala a respeito do programa "Sem Censura", apresentado por Leda Nagle, na TVE Brasil, no Rio de Janeiro e, de forma especial, uma homenagem que foi prestada à cantora Maria Betânia em janeiro de 2007, na passagem dos 60 anos da grande intérprete brasileira. Naquela ocasião, foi organizada uma mesa-redonda e estavam presentes pessoas envolvidas na carreira da homenageada - entre outros, o maestro Jaime Alem, Bibi Ferreira, a cantora Miúcha, a atriz Renata Sorrah e a professora Vânia Correa Dutra. Vale a pena relatar o trabalho desenvolvido por essa professora entre jovens moradores da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro.
Depois que todos falaram, Betânia cantou e chegou o momento da fala da educadora. Vânia é professora de Filosofia em uma escola pública do Rio. Seus alunos são os moradores da periferia do bairro da Barra da Tijuca e nesse local ela desenvolve um projeto pedagógico sobre a cultura brasileira, apoiando-se no repertório de Maria Betânia. Como material didático utiliza o CD e o DVD que trazem o mesmo título "Brasileirinho". Através das músicas deste disco, que envolve poemas de Ildásio Tavares, Mário de Andrade, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Guimarães Rosa, Vinicius de Moraes e outros escritores, a professora conseguiu transformar suas aulas de Filosofia em maneiras diferentes de ler o mundo, sem o tradicionalismo das noções filosóficas.
Que belo exemplo essa professorinha nos dá! Utilizo o diminutivo de forma carinhosa, afetiva. Precisamos de outras Vânias para que o ensino de certas disciplinas se torne ameno e agradável. "Como me tornei um escritor" (p. 93-103) é um texto que relata, de modo bem simples, o percurso leitor/professor/poeta e vem a revelação:
"Tenho um carinho especial pelos livros de poesia infantil, pois sei que este é um gênero especial, que exige que o autor se torne criança e brinque com as palavras e com o imaginário, com toda liberdade. Escrevendo poesia para crianças, torno-me criança outra vez, faço vir à tona o menino que fui". (p.96).
Conhecendo bem os livros de poesia de Elias José, quando a revista Crescer nos pediu que selecionássemos os 30 Melhores livros de literatura infantil produzidos para crianças entre 2007/2008 não tivemos dúvida, incluímos o livro "Lua no brejo com novas trovas" (Ed. Projeto, 2007), ricamente ilustrado por Graça Lima. Este livro teve a 1ª. edição em 1987 e recebeu, naquela ocasião, o prêmio Monteiro Lobato de melhor livro de poesia para crianças, concedido pela União Brasileira de Escritores.
Muitos já ouviram a expressão popular: "a vaca foi pro brejo", mas o que seria uma lua no brejo? Só a leitura do livro pode nos fornecer alguma pista.
"Lua no brejo e novas trovas" contém 25 poemas. Canções e brincadeiras populares, como "História embrulhada" (atirei o pau no gato); "Acalanto" (boi da cara preta); "Coisas esquisitas" (a barata na careca do vovô); repetições de sons e trava-línguas "O pato", "O rei e o rato", não faltando poemas laudatórios ao mar e à sereia, todos integram esse universo poético encantador. Para concluir o livro, aparece uma seleção de trovas.
A bonita capa criada por Graça Lima apresenta um casal de sapos de mãos dadas, olhinhos fechados, sentados em uma pedra, localizados no meio da lagoa. Vaga-lumes e pontos luminosos (estrelas) dão um toque de brilho ao escuro do céu, mas o que nos chama a atenção é uma enorme lua prateada que toma grande parte da capa. Com esta expressiva capa, Graça Lima conseguiu captar a intenção do poeta - estamos diante de uma noite de lua no brejo.
Se hoje não desfrutamos mais da presença amiga do poeta Elias José, ficaram seus poemas que encantaram os leitores de ontem e, certamente, irão encantar os leitores de amanhã. Tem razão Drummond quando afirmou: "As coisas tangíveis/ tornam-se insensíveis /à palma da mão. /Mas as coisas findas, /muito mais que lindas, / essas ficarão". (Memória. In: Claro Enigma)

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Uma vida tecida de palavras


Uma vida tecida de palavras
Neide Medeiros Santos*
Tece, tece,tece, tece, Bem tecida essa cançãoUm a um, fio por fio, Como faz o tecelãoQue fabrica o seu tecidoDe cambraia de algodão. (Marcus Accioly. "Poemeto do Tecelão ou A Canção Tecida") **A trajetória literária de Arriete Vilela começou muito cedo, não importa a data da publicação do seu primeiro livro. No texto de teor autobiográfico, "Alma rendilhada, alma enrodilhada" (1), vamos encontrar a menina de olhar buliçoso a observar a avó fazendo rendas na almofada de bilros e, diante da fascinação do movimento ligeiro e preciso das mãos da avó, a “menina miúda” faz uma revelação: Avó, quando eu crescer, também quero fazer renda, mas não é de linha, não, é de papel. (2) E esse tem sido o trilhar da poeta, cronista, contista, ensaísta e romancista Arriete Vilela – tecer rendas de papel. A leitura dos poemas, contos, crônicas, memórias e romance de Arriete Vilela revela-nos uma escritora preocupada com a arte da palavra, com a tessitura do fazer poético. Se há recorrência temática, essa recorrência vem sempre revestida de uma roupagem nova, o bordado nunca é o mesmo, a palavra tecida adquire nuances diferentes. Arriete gosta de reescrever seus textos e elementos intratextuais se apresentam de forma reiterada. Edilma Bomfim (3), no livro A escritura do desejo, dissertação de mestrado sobre Fantasia e avesso, afirma que: "O recurso do fio da meada faz que o texto de Arriete seja tecido de tal forma que cada novo texto é a paráfrase do primeiro, ou melhor, dizendo; Fantasia e avesso é um intertexto do próprio texto, que se revela na intratextualidade do discurso."Sônia van Dijck, no ensaio "Arriete e o mergulho na palavra" (4), destaca que a produção espaçada de Arriete se deve a necessidade de tempo para amadurecer o texto, e complementa: "Quando um livro seu é entregue ao público, lá estão as palavras exatas, prenhes de polissemia." O professor e crítico literário Roberto Sarmento (5) faz uma observação sobre Fantasia e avesso que pode ser aplicada a outros livros de Arriete. Diz o crítico:
"O grande herói do texto de Arriete, que parece ser o amor, é, na verdade, a palavra. A fantasia e o seu avesso entregam-se, em todas as páginas, a uma luta de vaivéns, avanços e recuos. Todo o texto é a discussão acerca da palavra poética: pretextando falar do amor, o texto fala de si mesmo." (p.31. grifos do autor)Feitas essas considerações preliminares, caminhemos ao encontro do mais recente livro da autora – Ávidas paixões, áridos amores (6). Comecemos pela capa – fotografia de um mar sereno; galhos secos retorcidos que aparecem em primeiro plano e flores de vermelho intenso contrastando com o verde-azul do mar. Esse contraste das cores condiz com o título do livro. “Ávidas paixões” se associam a um desejo intenso, ardoroso, inflamado; “Áridos amores” remetem à dureza, algo seco, frio. O livro, como um todo, compõe-se de 40 poemas não nominados, apenas numerados; os poemas 35, 36, 37 e 38 foram pinçados do livro Vadios afetos. 36 poemas vêm antecedidos por epígrafes e uma epígrafe de Machado de Assis antecede a apresentação dos poemas. Machado de Assis, profundo conhecedor da alma humana, filosofa, com certo pessimismo, na epígrafe escolhida para abertura do livro: "Alguma coisa escapa ao naufrágio das ilusões". No que se refere à escolha das epígrafes, sentimos que foi um trabalho de garimpagem, a escolha acertada para cada poema. Uma breve amostragem dessas escolhas comprova o que afirmamos. O poema 25 traz uma epígrafe de Baudelaire: "O tempo é o obscuro inimigo que nos corrói o coração", e o primeiro verso do poema ratifica a epígrafe: O tempo des/const/rói a vida, e a 5ª. estrofe, formada apenas por um verso, é uma repetição compartilhada da desconstrução: O tempo nos tem des/const/ruído. O poema 38, publicado anteriormente em Vadios afetos, vem acompanhado de uma epígrafe de Mário Quintana: "Amar é mudar a alma de casa." Essa epígrafe se contextualiza, de forma mais evidente, na última estrofe:
E como não recomeçar o jogose, à maneira de Quintana,é o amor que muda a minha alma de casa?Há muito coisa ainda para dizer, mas isso exige um estudo centrado apenas nas epígrafes e há poemas que precisam ser descobertos, palavras que merecem ser contempladas mais de perto. No universo poético de Ávidas paixões, áridos amores, o "Poema 17", que vamos transcrever na íntegra, talvez seja o mais representativo do trabalho artesanal de Arriete Vilela com a palavra:
Poema 17
Não enxerguem um símbolo onde nenhum foi pretendido.Samuel Beckett
Não me interessa o lado direito do bordadoda minha escrita.
Prefiro emaranhar-me aos fiaposdo avesso que sou – em que o tecer, pelos repetidos caprichos, deixa de ser revelador. Não me interessam os registros, à esquerda do bordado, que parecem contar a históriaque os outros pensam ser a minha- e que não é - .
Prefiro pelejar-me nos esgarçamentosdas pontas que não foram devidamentearrematadas e em que ressoam vozes femininas,como se bisavó e avó, mãe e tia pudessem, enfim, reconhecerque se desperdiçaram em amores abrasadorese tirânicos. Aliás, sinto-me cansada da herança dessas mulherescujo bordado da própria vida deixou à mostracores desesperadas, ciúmes desnecessáriose afetos enrodilhados.
Por isso permaneço quietanas flores azuis do linho:só o que me interessaé a interioridadedo bordado. A epígrafe de Samuel Beckett é retomada em forma de versos na 3ª. estrofe do poema, quando o eu-lírico assim se expressa:
Não me interessam os registros, à esquerda do bordado, que parecem contar a história que os outros pensam ser a minha - e que não é -.
Muitas vezes o leitor quer atribuir certos registros como símbolos de uma vida, mas as palavras camuflam sentimentos, dores, afetos e amores. Tudo é e não é, como bem disse Guimarães Rosa. O direito do bordado, na sua aparência, é o lado revelador da verdade, por isso o eu-lírico prefere emaranhar-se nos fiapos do avesso, nas pontas que não foram devidamente arrematadas e permanecer oculta na interioridade do bordado. No início do nosso texto, falamos sobre a presença da intratextualidade nos poemas, contos e crônicas de Arriete Vilela. O "Poema 17" contém muitos elementos intratextuais. “Avesso”, “bordado”, “fiapos”, “tecer”, “afetos” são vocábulos reiterados em seus inúmeros livros. Arriete é uma tecelã que sabe, como nos versos de Marcus Accioly, tecer bem tecida uma canção. Na sua fábrica, ela produz tecidos de cambraia de algodão e borda as palavras em folhas de papel que são lançadas ao vento. Felizes são aqueles que conseguem apanhar algumas dessas folhas.
* Neide Medeiros Santos é ensaísta e crítica literária. ** "Poemeto do Tecelão ou A canção tecida" foi dedicado a Hermilo Borba Filho e publicado no Diário de Pernambuco, Recife, 16 jul. 1967.
NOTAS E REFERÊNCIAS
1. O texto "Alma enrodilhada, alma rendilhada" se encontra no livro Artesanias da palavra. Arriete Vilela et al. Maceió: Grafmarques, 2001, p. 21-22. Esse mesmo texto foi transcrito no livro Memórias rendilhadas: vozes femininas. Neide Medeiros e Yolanda Limeira (orgs.) João Pessoa: UFPB/ Ed. Universitária, 2006. p. 13-14.2. Essa citação está presente no texto "Alma enrodilhada, alma rendilhada", op.cit. 3. A dissertação de mestrado de Edilma Bomfim versou sobre o livro de Arriete Vilela Fantasia e avesso com o título A escritura do desejo. Cf: BOMFIM , Edilma Acioli. Maceió: EDUFAL, 2001, p. 56.4. DIJCK, Sônia van. Arriete e o mergulho na palavra. http://www.soniavandijck.com/arriete.htm. Este texto também foi publicado em Fabulação. Um novo tempo, João Pessoa, ano I, n.5, set.2003, p.12-14 e em O Jornal, Maceió, 12 out. 2003. 5. LIMA, Roberto Sarmento. Da palavra amor ao amor da palavra. In: Leitura. Revista do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da Universidade Federal de Alagoas, Maceió, n. 4, p. 9, jul.-dez. 1988.6. VILELA, Arriete. Ávidas paixões, áridos amores. Maceió: Grafmarques, 2007.