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sexta-feira, 31 de maio de 2013

TOMIE OHTAKE : “7 CARTAS E 2 SONHOS”



TOMIE OHTAKE :  “7  CARTAS E 2 SONHOS”
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB) 

Em todas as épocas, o homem atribuiu às cores um caráter mágico, criando um código ou uma simbologia próprios de cada estágio de civilização.
                        (Laura Sandroni. De Lobato a Bojunga: as reinações renovadas).
            

Este ano Tomie Othake, japonesa nascida em Kyoto e radicada desde1936 em São Paulo, completa cem anos. Muitas exposições irão acontecer durante as homenagens que serão prestadas a esta ilustre artista plástica que tem  pinturas e esculturas espalhadas por várias partes do Brasil e do mundo.  Associamo-nos a estas homenagens e relembramos o livro “7 Cartas e 2 Sonhos”, da escritora Lygia Bojunga Nunes, que contém 9 ilustrações, representando  telas de Tomie Ohtake. A 1ª edição deste livro saiu pela Berlendis & Vertecchia, em 1982, posteriormente houve uma reedição da editora Agir com novo título “Meu amigo pintor”. A bonita edição da Berlendis &Vertecchia não foi mais reeditada, mas é possível encontrar uma nova edição deste livro na editora Fundação Casa Lygia Bojunga Nunes.    
Se, em livros anteriores, Lygia apresentava animais como protagonistas, e citamos: “Os Colegas”, “Angélica”, “O sofá estampado”, aqui vamos encontrar apenas personagens humanos, centrados no menino Cláudio, no amigo pintor (inominado) e em Tomie Ohtake, que comparece com as ilustrações, sendo também a destinatária de várias cartas do menino. 
A leitura deste livro proporciona uma melhor compreensão da pintura d renomada artista  e conduz o leitor jovem para os meandros da arte pictórica  e  reflexão sobre a morte.
Cláudio, o protagonista da história, utiliza-se de nove cartas, incluindo dois relatos de sonhos para contar à Tomie  as impressões causadas pelas suas telas.  É um romance juvenil ligado ao gênero missivista.
O livro se inicia com a primeira carta de Cláudio para a pintora. Nessa primeira carta, ele revela que tomou conhecimento das telas de Tomie Othake por intermédio de um livro que ganhou de presente do seu amigo pintor.  O menino era muito ligado na cor e revela isso na carta. Quando olhava para gente, casa ou livro, sempre ficava olhando para a cor do olho da pessoa, para a cor da porta da casa, e para a cor da capa do livro. Nesse ponto, era igualzinho ao amigo pintor.
Ainda, nessa carta, o menino fala um pouco sobre o amigo, uma pessoa muito tranquila, “[...] ele era quieto demais, tinha mania de só fazer coisa que não faz barulho: fumar cachimbo, pensar, pintar”. (1982: p. 4).  A única coisa que fazia barulho na casa do pintor era o relógio. Os pais do menino reclamavam da chateação das batidas, mas Cláudio gostava muito – ele sabia que as batidas do relógio indicavam a presença do amigo.
A partida repentina do pintor deixou o menino muito triste, ele começou a ver o significado de certas cores dos quadros de Tomie – o branco era o silêncio total, doía mais do que o preto, o amarelo denotava alegria, o azul enrolado, achatado, sumindo para dentro de outra cor, era o pedaço de céu.  
Na segunda carta, há um flashback e o menino recorda o tempo que passava na casa do pintor – as partidas de gamão, o folhear de livros de pintura e as histórias que ouvia – biografias de artistas. Muitas vezes não entendia a pintura que o pintor mostrava, mas ficava quieto fazendo de conta que estava entendendo.
As outras cartas que se seguem, sempre endereçadas a Tomie,  falam sobre arte, pintura e o menino procura analisar os quadros da artista com base no que ouviu do seu amigo.
Depois que soube como foi a morte do pintor, ele quer compreender o porquê dessa morte.  Seria por motivos políticos? (O pintor foi preso algumas vezes por sua luta em favor da democracia e dos direitos humanos). Seria por uma paixão não correspondida? Existia uma mulher na vida do pintor ?  Era Dona Clarice, a mulher que ele pintou toda de amarelo? São perguntas que exigem respostas.
“7 cartas e 2 sonhos” integra a coleção “Arte para criança” da editora Berlendis&Vertecchia. É um livro de arte que desperta o interesse  de  jovens leitores e de  adultos.
Muitos estudiosos já se  debruçaram sobre a instigante literatura produzida por Lygia Bojunga Nunes, ressaltamos  a crítica de literatura infantil Laura Sandroni,  que, ao analisar os livros de Bojunga,  afirma:   

“Lygia Bojunga Nunes constrói um mundo. Um mundo de fantasia e realidade e expresso em palavras. E as frases formadas por essas palavras são como troncos de árvores bem grossos. A cada casca que se tira surge outra em baixo. Cada frase numa segunda leitura traz uma nova ideia.” (1982. Posfácio do livro “7 Cartas e 2 Sonhos”). 

NOTA 1:
 A nossa edição de “7 Cartas e 2 Sonhos” é de 1982, da Berlendis Vertecchia, e foi presente de uma amiga muito querida – Margaret Asfora, autora de uma dissertação de mestrado na pós-graduação em Literatura Brasileira (UFPB) sobre Lygia Bojunga Nunes.  Um bom presente não se acaba com o tempo.
  
                        NOTA 2: 

            Para quem quiser saber mais sobre a vida de Tomie Ohtake, recomendamos o livro “Tomie: cerejeiras na noite”, de Ana Miranda sobre depoimento de Tomie Ohtake, com ilustrações de Maria Eugênia, publicação da Companhia das Letrinhas.                                                                                                                                                  
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  

sábado, 11 de maio de 2013

LEITURA: UM UNIVERSO DIVERSIFICADO




 LEITURA: UM UNIVERSO DIVERSIFICADO 


(Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB) 

           
            A leitura é uma atividade maior do que ler livros [...] é se sentir desconcertado ante o mundo, procurar signos e construir sentido.
                        ( Graciela Montes. Lectura, literatura y poder)


            Escritores, linguistas, psicólogos, fenomenólogos e teóricos da leitura procuraram responder à inquietante pergunta: O que é leitura? As respostas são diversificadas. Atento à amplitude do vocábulo, Paulo Freire, no livro “A importância do ato de ler” (1995), explica que a “leitura do mundo é anterior à leitura da palavra.” Muito antes de decodificar palavras, o menino Paulo Freire, morando em Recife, em uma casa com muitas salas e quartos, um amplo pomar, lia as árvores do quintal, os quartos, as salas, o corredor. Tudo era objeto de leitura.
            Jean-Paul Sartre, no livro de caráter autobiográfico, “As Palavras” (1990), relata suas experiências com a leitura. Criado no meio dos livros (no gabinete do avô havia livros por toda parte), o pequeno Sartre antes de aprender a ler, já reverenciava os livros como coisa sagrada. O avô, mostrando ao neto grandes volumes cartonados e recobertos de pano escuro, dizia:
            “Estes aí, menino, foi teu avô que os fez” Que orgulho! Eu era neto de um artesão especializado na confecção de objetos sagrados, tão respeitável quanto um fabricante de órgãos, quanto um alfaiate de eclesiástico. (1990: p. 32)
De forma poética, Sartre recorda as “densas lembranças” do seu contato com a biblioteca do avô:
Nunca esgaravatei a terra nem farejei ninhos, não herborizei nem joguei pedras nos passarinhos. Mas os livros foram meus passarinhos e meus ninhos, meus animais domésticos, meu estábulo e meu campo; a biblioteca era o mundo colhido num espelho; tinha a sua espessura infinita, a sua variedade e a sua imprevisibilidade (p. 37).
O mundo de Sartre sempre foi povoado de livros. Seu avô era um artesão de livros; sua avó frequentava a biblioteca da cidade e toda sexta-feira ia à biblioteca devolver livros e tomar outros emprestados; a mãe lia narrativas extraídas do folclore e adaptadas ao gosto da infância. Não nos causa estranheza essa sua confissão:
Comecei minha vida como hei de acabá-la, sem dúvida: no meio dos livros (p.30).  
            Alberto Manguel, um leitor voraz e consciente do amplo significado da leitura, no livro Uma história da leitura (1997) fala sobre a metáfora da leitura. São palavras do autor:
            Dizer que lemos - o mundo, um livro, o corpo... não basta. A metáfora da leitura solicita por sua vez outra metáfora, exige ser explicada em imagens que estão fora da biblioteca do leitor e, contudo, dentro do corpo dele, de tal forma que a função de ler é associada a outras funções corporais essenciais. (1997: p.198).
            Manguel fala sobre suas duas maneiras de ler o texto literário: a primeira, apressada, ofegante, às vezes arremessando a história para além da última página. Foi assim que fez as leituras de Rider Haggard, Conan Doyle e Karl May. Foram as leituras juvenis; a segunda, mais voltada para o intelecto, uma leitura racional, um exame mais acurado do texto, isso só foi possível com as leituras dos livros de Lewis Carroll, Dante, Kliping e Jorge Luís Borges.
            Ressaltamos que existe interação entre as duas maneiras citadas por Manguel – a leitura emocional e a racional. O bom leitor é aquele que degusta o livro sensorialmente, emociona-se com a leitura, mas é capaz, também, de fazer uma leitura objetiva, reflexiva.
            O poeta e autor de livros infantis Elias José, em um texto-depoimento – Leitura: prazer, saber e poder, publicado na revista “Leitura: teoria e prática” (1997),  relata sua experiência com os livros  e assim se expressa:
            Somos capazes de sentir no texto os cheiros, os gostos, os sons, as cores e as formas do mundo, quando tocados pela magia das palavras. Os bons leitores também são artistas. Artistas recebedores, recriadores do texto. Eles enriquecem o jogo com suas vivências. Acrescentam sonhos aos sonhos, mistérios aos mistérios. [...] Na soma de experiências entre o que vivi e a porção diferente de vida que o poema e a ficção me trazem, como autor ou leitor, está o prazer do texto. É um prazer sensual, uma fruição. (1997: p.67)
            Paulo Freire, Sartre, Manguel e Elias José são bons leitores - eles complementam, recriam, acrescentam sonhos e enriquecem o texto-mãe. Participam do livro como coautores, sentem o sabor e o  saber do texto, identificam-se com ele. Ser coautor de um texto (poema ou prosa) é o sonho de todo bom leitor.

(Texto publicado no jornal CONTRAPONTO. João Pessoa, maio de 2013)

quarta-feira, 1 de maio de 2013


As múltiplas vozes de Ilan Breman

(Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB)

            O gosto de contar é idêntico ao de escrever – e os primeiros narradores são os antepassados de todos os escritores.

            (Cecília Meireles. Problemas da literatura infantil).

 

            Ilan Breman é um escritor de múltiplas vozes: contador de histórias, autor de livros infantis e ensaísta. Filho de pais argentinos, nasceu em Israel e se mudou para o Brasil quando contava seis anos. Já andou por muitos países, contou inúmeras histórias, escreveu vários livros. É graduado em Psicologia (PUC/SP), fez mestrado e doutorado em Educação na USP.

            Em 2012, “O Alvo” ganhou o Prêmio “Melhor para Criança” – FNLIJ e foi considerado um dos 30 Melhores Livros Infantis na seleção da revista Crescer (Ed. Globo). Este livro foi objeto de comentários em nossa coluna “Livros&Literatura” – Contraponto.   

            A trajetória literária de Ilan Breman teve início com leituras de histórias para crianças.  Participou do Projeto “Biblioteca Viva”, da Abrinq, pelos direitos da criança, iniciando-se no ofício de “leitor profissional” de literatura. Posteriormente, integrou-se ao Projeto “Biblioteca Viva em Hospitais” e passou a ler histórias para crianças e jovens que estavam internadas. 

            De tanto conviver com a literatura infantil como leitor e contador de histórias, resolveu ser escritor e vieram seus primeiros livros, agora já são mais de 50.  A temática judaica está sempre presente, são histórias de rabinos, da tradição oral judaica, histórias bíblicas.  “O Alvo” é mais uma história da sabedoria judaica. Anteriormente, o escritor já havia publicado “As 14 pérolas judaicas”.

            No universo de livros infantis de Ilan Breman, há espaço para os jocosos, aqueles que as crianças sentem um clima de pura brincadeira e citamos: “Até as princesas soltam pum” “Pai, os animais também soltam pum?” Os dois livros foram editados pela Brinque-Book.

            Mas não é apenas o contador de histórias, o escritor de livros para crianças que conhecemos. Em 2012, publicou dois livros teóricos sobre leitura e literatura infantil. Esses livros tiveram sua origem na dissertação de mestrado em Educação – “Através da vidraça da Escola: formando novos leitores” (Ed. Aletria) e na tese de doutorado, também em Educação – “A condenação da Emília: o politicamente correto”. (Ed. Aletria).

            Vamos tecer algumas considerações sobre uma das múltiplas vozes de Ilan Breman – a de ensaísta.

            “Através da vidraça da Escola: formando novos leitores” relata as experiências do escritor nas visitas às salas de aula das escolas e a recepção dos alunos às histórias contadas. Através da contação de histórias, sentiu que as crianças são receptivas quando estão diante de um bom contador de histórias e pôde aquilatar a importância da literatura oral.

            Mas o ensaísta não se detém só nesse aspecto, ele faz uma retrospectiva histórica do ato da leitura em diferentes tempos e países diversos. Aparecem relatos de escritores sobre hábitos de leitura – Marcel Proust costumava ler à noite escondido dos pais à luz de uma vela; Clarice Lispector revela a felicidade que sentiu ao ter em mãos o livro “Reinações de Narizinho”.

            Uma questão também levantada neste livro é o problema da literatura infantil, considerada por alguns como “gênero menor”. Para o ensaísta, a literatura infantil é coisa séria e afirma que os “livrinhos com historinhas” não são livrinhos, são “livrões” e as historinhas, na verdade, são “historionas”. Naturalmente se refere ao livro infantil de qualidade como desejava Cecília Meireles – um livro para crianças deve ser um livro que qualquer adulto pode ler sem achar mesquinho. 

            Em “A condenação de Emília: o politicamente correto na literatura infantil”, o autor se utiliza da personagem Emília, de Monteiro Lobato, símbolo da liberdade, para defender a autonomia da literatura.  Para Ilan Breman, aqueles que condenam certas cantigas de roda e contos de fadas com final trágico por considerarem “politicamente incorretos” estão incorrendo no erro de tolher a imaginação dos pequenos leitores.

            A literatura infantil não deve ser amordaçada como foram determinados livros nos regimes políticos ditatoriais.  No Brasil, Lobato foi vítima dessa perseguição e acusado de herético, comunista.

            A literatura infantil é arte como qualquer outra literatura e não está condicionada a palavras “bem comportadas”. Através do senso crítico, as crianças aprenderão a mediar seus conflitos e as histórias de ontem (contos de fadas e histórias tradicionais) e as de hoje irão contribuir para a formação de grandes leitores. 

            Se Emília apareceu no início do trabalho de Ilan Breman como símbolo da independência, no final ele revela que teme que esta personagem seja enquadrada como uma “Barbie bem-comportada” e apresenta uma fábula de Lobato– “O homem e a cobra” em que a opinião da Emília, na moral da fábula, está incorreta. Nem sempre a bonequinha tem razão.  

            No momento em que se fala tanto em revisar os livros de Lobato, “A condenação de Emília: o politicamente correto na literatura infantil” surge no momento oportuno. É alerta e reflexão para que não se modifique o pensamento de quem pregou tanto a liberdade de expressão.

            LEITURA RECOMENDADA

A PARAÍBA POR SI MESMA. José Octávio de Arruda Mello ( Org.) Campina Grande: EDUEPB, 2012.

            Este livro reúne especialistas em diversas áreas que tratam de temas relacionados à História, Geografia, Cultura, Literatura e Artes na Paraíba. Nomes reconhecidos no âmbito dos estudos paraibanos foram revisitados, como Irineo Joffily, Celso Mariz, Horácio Almeida, Wilson Nóbrega Seixas,  Humberto Nóbrega, Altimar Pimentel, Eduardo Martins, Walfredo Rodriguez. Ao lado dessas proeminentes figuras, aparecem os nomes do cronista Cristino Pimentel, do historiador Epaminondas Câmara e Guimarães Duque. Na historiografia da imprensa, o destaque vai para Alcides Bezerra, Fátima Araújo e Eduardo Martins. O ensino da Geografia na Paraíba é ressaltado.

            Na área de Direito, desponta a figura do Ministro Oswaldo Trigueiro e a história das constituições da Paraíba. As artes visuais e a música não foram esquecidas.

            Louvamos a iniciativa do professor Cidoval Morais de Sousa pela feliz ideia de editar este livro. Ao professor José Octávio de Arruda Mello cabe o mérito de escolher intérpretes e analistas consistentes que souberam traçar as  diferentes linhas da história e da cultura da Paraíba.

            No soneto “Debaixo do tamarindo”, o poeta Augusto dos Anjos conclui com este verso:

            A minha sombra há de ficar aqui!

             Os ensaios deste livro se eternizarão como eterna ficou a sombra de Augusto dos Anjos.