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domingo, 28 de setembro de 2014

O rio de Pessoa e das pessoas

        




                                         O RIO DE PESSOA E DAS PESSOAS
                            (Neide Medeiros Santos – Leitora votante FNLIJ/PB)

            O TEJO é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,
            Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
            Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.
            (Alberto Caeiro. Poema XX. O guardador de rebanhos).


       O rio está sempre presente na vida das cidades e das pessoas.  Quando pensamos em Lisboa, vem logo a imagem do rio Tejo e lembramo-nos de Fernando Pessoa. Em Paris  é o Sena que nos deslumbra e o Danúbio inspirou Strauss a compor lindas valsas.  Recife, cidade cortada por rios, o Capibaribe e Beberibe serviram de inspiração para poetas de todos os tempos. O mesmo acontece em João Pessoa com os rios Sanhauá e Jaguaribe. Os dois rios pessoenses foram louvados e cantados por vários poetas paraibanos.
        É sobre rios que voltamos nossa atenção esta semana. Da editora FTD,  recebemos “Entre rios”, coletânea de textos que reúne sete escritores que escreveram a respeito de rios que marcaram suas vidas.  O livro foi organizado por Maria José Silveira e as ilustrações são de Roger Mello. Um destaque especial para a capa do livro – recortes vazados simulam a sinuosidade do leito dos rios Alguns escritores apelaram para a ficção; outros se mantiveram fiéis a fatos acontecidos na infância.      
        Domingos Pellegrini nasceu no Paraná (Londrina). “A sereia do rio Paraná” é um conto que descreve uma viagem de um menino com a mãe e o tio à procura do pai por terras paranaenses. Eles utilizam vários transportes para chegar ao destino almejado -  jipe, caminhão, barcos, botes e gaiolas. Na companhia da mãe e do filho vai um tio, resmungão e mal humorado, que reclama de tudo. Para o menino foi uma aventura cheia de encantos – até uma sereia ele viu na viagem pelo rio.
     Índigo é o nome artístico de Ana Cristina Ayer de Oliveira. Ela é natural de Campinas (SP). O texto “O enterro do rio Tietê” traz uma marca singular -  pessoas e rios convivem e conversam fraternalmente.  No velório do rio Tietê,  os comentários se referem à doença do rio e da sua morte. Há referências a outros rios, afluentes do Tietê, que também estão doentes – Pinheiros, Aricanduva, Capivari, Tamanduateí.
      Marcelino Freire nasceu em Pernambuco e hoje mora em São Paulo. “Ir embora” é um conto que se caracteriza por linguagem poética e pela   presença de termos regionais do Nordeste. O autor fala sobre despedida, abandono da Chapada das Mangabeiras (situada na divisa Goiás, Bahia, Piauí e Maranhão)  por conta do progresso. A predominância de diálogos confere um tom teatral ao texto.
      Márcio Souza, amazonense, comparece com “Canoagem no Solimões” e nos traz a lenda do Curupira aliada com a história de um jovem que gostava de fazer esportes radicais no rio.
       “Cy do Araguaia” é o conto de Maria José Silveira que é natural de Jaraguá, cidade histórica de Goiás. É um texto epistolar. Cy escreve uma longa carta para o namorado e recorda os dias que passaram juntos à margem do rio Araguaia, ressaltando fatos ligados às memórias de sua infância.
       Maria Valéria Rezende nasceu em Santos (SP) e está radicada há muitos anos na Paraíba. “O amor é correnteza” é um texto que fala do amor entre dois adolescentes – Pedro e Iara. O cenário do rio São Francisco emoldura a história e Pedro rememora as lendas contadas pelos barqueiros e pescadores – “deliciosas e apavorantes histórias do sono do rio, do Negro – d´água, do Minhocão, dos afogados, das grutas e dos castelos submersos lá no fundo, que embalaram suas noites de criança” (2014: p.104).   
       O último texto é do gaúcho Moacyr Scliar – “Os piratas do Guaíba”. Scliar se volta para a infância e apresenta uma história cheia de ternura entre um filho e o pai. Uma mentira criada pelo menino na escola – no quintal da sua casa havia um tesouro enterrado – fez o pai enterrar no quintal uma arca de madeira velha, colocar algumas moedas e objetos antigos, tudo para que o filho não recebesse a alcunha de mentiroso. No domingo, diante dos colegas, o tesouro foi desenterrado e a arca foi encontrada. O que deixou o menino mais feliz não foi o fato dos colegas terem encontrado um tesouro e a mentira se tornar verdade,  mas descobrir “o afeto do pai”.
     Para concluir essas histórias de rios, recorremos a Maria José Silveira e citamos esses versos:
            Para preservar os rios é preciso conhecê-los.
            E, se os conhecemos, fica muito fácil amá-los.

            NOTAS LITERÁRIAS E CULTURAIS

            Se para preservar os rios é preciso conhecê-los, vamos transcrever uma carta de um aluno do Colégio Apoio (Recife) que fez uma viagem pelo rio Capibaribe na companhia de professores e colegas. Como tarefa dessa atividade extra curricular, ele   escreveu uma carta ao Prefeito da cidade. O aluno é Davi Pessoa, tem 11 anos, cursa a 5ª série do Ensino Fundamental. Procuramos respeitar a linguagem descontraída da criança e não fizemos nenhuma interferência no texto.

            Prezado Prefeito,

                Olá, eu sou um aluno do Colégio Apoio e lhe envio esta carta apresentando críticas e sugestões em relação ao rio Capibaribe que corta a nossa cidade Recife. Espero que me ouça com atenção, pois estou tratando de um assunto importante.
Como todos sabem, o rio Capibaribe está extremamente sujo. Há muita poluição e o que era pra ser um orgulho da cidade acaba sendo uma vergonha. É claro que eu não posso colocar toda a culpa em cima de você, pois não é você que suja os rios, são os cidadãos, mas você é o Prefeito e poderia fazer algo.
O rio Capibaribe não passa apenas pelo Recife, ele tem 270 quilômetros de extensão e passa por vários municípios de Pernambuco, por isso não somos só nós que sujamos o rio. Você poderia se unir com os outros prefeitos e até com o Governador para fazer um projeto de despoluição.  Assim o rio chegaria à nossa cidade bem mais limpo.
Eu li num livro “Um rio de Gente” que antigamente era comum tomar banho no rio Capibaribe. Quem sabe isso não possa se repetir?
Com tantos carros nas ruas, acho que você poderia promover também o transporte fluvial. Eu sei que tem um projeto, mas ele anda meio parado, deveria ser uma prioridade. Seria até mais seguro que as bicicletas, pois ainda hoje morrem muitos ciclistas no trânsito do Recife.
Se Recife é a “cidade das pessoas”, por que não pode ser também a cidade dos rios?
Atenciosamente,
DAVI MEDEIROS PESSOA


Nota: Os rios que cortam a cidade de João Pessoa também estão poluídos. Fica a sugestão para os professores – dar um passeio com os alunos pelo rio Sanhauá e pedir que escrevam cartas para o Prefeito sugerindo providências. “Se Recife é a cidade das pessoas,” João Pessoa tem pessoa até no próprio nome. 

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