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segunda-feira, 17 de julho de 2017







 POEMAS PARA JOÃO 
(Neide Medeiros Santos – FNLIJ/PB)
Blog: nastrilhasdaliteratura

dorme, meu João, dorme
dorme agora sossegado
que eu cantarei baixinho 
para sempre do seu lado. 
(Peter Sagae. VII Canção de Isabel) 

Peter Sagae reúne neste bonito livro “Uma noite para João e outros poemas” (Paulinas, 2017), com ilustrações de Sandra Jávera, quatorze poemasque entrelaçam o nascimento de João, os festejos juninos, canções de ninar e o nascimento de Jesus. O autor transitou com muita naturalidade pelas veredas poéticas, alinhando seu gosto musical com as pesquisas sobre o folclore. 
No seu caminhar pelas veredas da poesia, encontrou uma fada ilustradora que deu beleza aos poemas com seus traços delicados e cores suaves proporcionadas pela técnica da aquarela. 
Dispostos em conjunto de dois blocos de sete poemas, eles vêm separados pela ilustração de duas páginas que lembram as bandeirinhas de Volpi. Os sete primeiros poemas estão ligados ao nascimento de João, o festejado santo dos nordestinos. Seu nascimento é celebrado no dia 24de junho e muito comemorado em todo Nordeste brasileiro. Os outros sete poemas referem-se ao primo de João, o Salvador do Mundo. 
No poema “Canção para Isabel”, poema VII,ecoam vozes de autores de literatura infantil – Maria Clara Machado e Cecília Meireles. 
O cavalinho de Vicente, na peça teatral de Maria Clara Machado, era apenas um pangaré marrom, bem magro, mas para o menino era um lindo cavalinho azul.  Com esse cavalinho imaginário Vicente percorre a cidade.
O cavalinho, no poema de Cecília Meireles, era branco e tinha crina dourada.  Descansava entre flores. 
Descansa entre flores, o cavalinho branco.
De crina dourada.  
No poema “Canção para Isabel”, de Peter O´Sagae, o cavalinho dorme debaixo de véu estrelado. De forma inusitada, o poeta não diz – céu estrelado – o que seria mais comum  mas, “véu estrelado”. 
A noite varreu as nuvens
que deixavam triste o céu
também dorme o cavalinho 
debaixo do véu estrelado
Para ilustrar esse poema, Sandra Jávera colocou um menino (João), deitado com a cabeça sob um travesseiro e um círculo azulado envolvendo todo o menino.  O ambiente onírico do poema se transfere para a ilustração. O branco e o azul estão presentes conferindo um clima de paz e tranquilidade. 
O poeta Manuel Bandeira, na apresentação que fez para o livro “O cavalinho azul”, lembra que a cor azul “sempre foi símbolo de sonho, de ideal, de infinito” As cores frias, verde e azul predominam nas ilustrações feitas por Sandra Jávera corroborando a afirmativa do poeta Manuel Bandeira. 
Ainda, nas ilustrações, chama à atenção do leitor as delicadas figuras que representam o menino João, o avô e Isabel. Até mesmo as libélulas queenfeitam a parte interna da capa, são delicadas, simétricas, pequeninas. 
O primeiro poema – “Quem é o menino” – iniciacom a inocente pergunta: 
Vô, quem é
aquele menino 
com o carneiro  
na mão? 
E vem a resposta do avô: 
Aquele é João. 
O último poema – “O outro menino” – também se inicia com outra pergunta: 
Vô, quem era
aquele Menino
com olhos de luz? 
E o avô responde com a mesma naturalidade: 
João,
aquele é seu primo
O menino com olhos de luz é Jesus, que nasceu depois de João. Conta a história que quando Mariavisitou a prima Isabel que estava grávida de João o menino exultou de alegria no ventre de Isabel. Maria também estava grávida daquele que seria o Salvador do Mundo.  
“Uma noite para João e outros poemas” é um livro que trata de uma temática religiosa cristã.   São textos que vêm envolvidos de muita ternura e sensibilidade. A musicalidade dos versos e a criação de imagens de grande riqueza poética atraem o leitor que fica seduzido por essa linguagem e pelas bonitas ilustrações. 
Para concluir, comprova-se a criatividade poética do autor com a transcrição do poema “III – E foi bem assim”:  
 quando nasceu
o menino, Isabel
mandou acender 
uma fogueira
no ponto mais alto 
da montanha

leve e ligeira
muito branca, subiu 
uma fumaça
aberta em bandeira 
no pano de estrelas 
bem alto no céu  
Se a primeira estrofe segue uma linguagem denotativa, a segunda apresenta riqueza metafórica.Atente-se para o recurso estilístico do “enjambement”. 
Que venham outros poemas da lavra de quem lapida as  palavras com a mesma sensibilidade poética  de Cecília Meireles e de Elias José. 




segunda-feira, 10 de julho de 2017


                                   Livros que falam
            (Neide Medeiros Santos – Leitora votante FNLIJ/PB)
                        Ler é sonhar pela mão de outrem.
                                    (Fernando Pessoa)

            Pessoas que gostam de ler livros é um caso bem comum, mas livros que leem pessoas é alguma coisa estranha. “O livro que lê gente” (Ed. Cortez, 2016), de Alexandre de Castro Gomes, ilustrado por Cris Alhadeff, conta a história de livros falantes que moram em uma biblioteca.

            Na biblioteca pública de uma cidade não identificada, os livros velhos e pouco lidos ficavam sempre localizados nas prateleiras mais altas das estantes. Afinal os leitores nunca procuravam por aqueles que estavam carcomidos pelo tempo, apresentavam manchas amareladas, alguns estragados pelas traças, esses não precisavam ficar em local acessível.  Vez por outra chegava um livro velhinho e vinha fazer companhia aqueles mais antigos. 

            À noite, quando a biblioteca fechava as portas, os livros saiam dos seus lugares e conversavam sobre suas próprias histórias. Aladim era um dos habitantes da casa, tinha muita história para contar e sentia-se desprezado.   Crianças e jovens procuravam livros mais modernos que falavam sobre futebol, esportes, vampiros, terror. Isso deixava Aladim muito triste. O novo companheiro, Pinóquio, era mais otimista. Aguardava novos leitores e começou a contar para Aladim as peripécias do boneco de madeira que tinha encantado crianças do mundo inteiro.

            Lamentar o desprezo dos leitores não adiantava muito, Pinóquio afirmou que seria bem melhor observar os frequentadores da biblioteca. Aladim confessou que achava muito divertido ler as pessoas.  Chamou a atenção do amigo para um menino de dez anos que lia um livro sobre esportes. Estava com a roupa que apresentava manchas de barro, devia ter vindo de um treino de futebol. A menina, sentada ao lado do menino, tinha outros interesses – segurava um livro sobre vampiros. Era possível sentir pela fisionomia o interesse de cada leitor.

            A bibliotecária supervisionava tudo. Chamava-se Anita. Pinóquio perguntou a Aladim se ele já tinha lido a história da bibliotecária. Morando há algum tempo na biblioteca, claro que ele sabia de muitos fatos relacionados com a vida de Anita. Havia um rapaz que vez por outra visitava a biblioteca e  deixava a bibliotecária toda suspirosa. Devia ser seu namorado, ela se dirigia ao rapaz de forma carinhosa, chamava-o de “Mozinho”.  Ele gostava de ajudar a arrumar os livros nas prateleiras. Depois de certo tempo, “Mozinho” desapareceu. Anita agora vivia triste, olhava para a janela com um olhar comprido, suspirava cada vez mais. Um dia, Anita amanheceu toda alegre. Trazia uma carta na mão, certamente era do namorado. Guardou a carta na gaveta. Abria a gaveta, tirava a carta e lia, relia, fez isso inúmeras vezes. Acredito que as noticias eram boas. O semblante da bibliotecária denunciava sua alegria. O resto da história eu não conto não.

            Vamos conhecer um pouco do autor do livro e da ilustradora. Alexandre de Castro Gomes já escreveu inúmeros livros para o público infantojuvenil. Atualmente é o presidente da Associação de Escritores e Ilustradores de Literatura Infantil e juvenil (AEILIJ). Recebeu vários prêmios nacionais, entre eles o Prêmio Cidade de Manaus de Teatro Infantil.

Cris Alhadeff tem formação em Desenho Industrial pela Escola de Belas Artes da UFRJ.  Como ilustradora, já participou do Catálogo de Bolonha e foi a idealizadora e uma das fundadoras do movimento “Nós, Ilustradores, somos Autores”.  Esse movimento tem por objetivo informar sobre a importância e o peso da ilustração na literatura infantil e juvenil.

            Na ilustração deste livro, há um detalhe que chama a atenção do leitor – a presença de um gato em todas as páginas. Às vezes o bichano apresenta um ar sonolento, fica circunspecto se o momento exige atenção, risonho quando tudo está bem. É companheiro dos usuários da biblioteca, de Anita e dos livros.  É um personagem observador que tem um papel tão importante na história quanto os outros personagens.

            Se você gostou desse breve resumo da história, procure ler o texto na íntegra, irá descobrir muita coisa que não foi revelada, inclusive o teor da carta que Anita recebeu. Ainda há outras boas surpresas nesse livro.

            LEITURA RECOMENDADA

            O editor José Xavier Cortez completou 80 anos. Para marcar esta data, a Cortez Editora lançou o livro “Cortez em seus 80 anos” que conta um pouco da vida desse nordestino de Currais Novos (RN).  A vida de um menino pobre, nascido no sítio Santa Rita, que se tornou livreiro e, posteriormente, dono de editora, é um exemplo para todos aqueles que acreditam no poder da leitura e do estudo.

            O livro se inicia com depoimentos das filhas do editor e termina com uma entrevista que inclui alguns fatos do cotidiano de José Cortez. Um dos capítulos – “O cidadão Cortez” apresenta fatos ligados às suas atividades como livreiro e editor. A experiência no ramo proporcionou curiosas histórias que descrevem bem o homem e a índole de Cortez. Certa vez, um professor confessou que roubara livros da Livraria Cortez. A reação do livreiro ao saber da história foi desejar que os livros surrupiados tivessem ajudado a formar alunos que demonstrassem apreço ao livro e ao conhecimento. Um assalto à editora também foi motivo para dar  uma lição a um dos assaltantes. Era um rapaz nordestino como ele. Na conversa com esse assaltante, ofereceu-lhe dezoito livros recém-lançados da linha infantojuvenil com esta recomendação: “Garoto, espero sinceramente que estes livros ajudem seus filhos a não terem uma vida como a sua.”.   


            Com duas biografias publicadas: “Cortez- a saga de um sonhador” (finalista do Prêmio Jabuti) e “Como um rio – o percurso do menino Cortez”, destinado ao público infantojuvenil, José Xavier Cortez relembra sua trajetória em prol do livro e da leitura com muito orgulho. Sente-se realizado com tudo que conquistou, mas principalmente com o que fez para tornar uma sociedade mais justa e mais consciente através do conhecimento dos livros.

terça-feira, 4 de julho de 2017

de volta a Neide Medeiros Santos
Nas Trilhas da Literatura


no meio do caminho de nossas vidas
esta pedra sobrevoa agora minha memória
meu carinho por suas lições
por fazer-me acreditar em poetas
o muito obrigado por esta pedra, pessoa

esta pedra guriatã das asas de suas mãos
vem me contar a história de suas artes, todas
silenciosamente, silenciosas outras

esta pedra, como fala, esta pedra passagem
ensina a não sentir-me onde estou...
esta pedra voa em versos de ocasião
de 
almas habitando-me, alma pintora
( Peter O´Sagae)

Nota:  Recebemos do poeta Peter O´Sagae este belo poema que compartilhamos com os nossos leitores do blog nastrilhasdaliteratura.