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terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Mulheres Extraordinárias

 MULHERES EXTRAORDINÁRIAS
            (Neide Medeiros Santos – Leitora Votante FNLIJ/PB)

            A pintura, mesmo com o doente calado, permite que você olhe, ainda que pelas frestas, para dentro do interno.
            (Nise da Silveira. O Globo, 1987).

            Duda Porto de Souza e Aryane Carraro escreveram o livro “Extraordinárias: mulheres que revolucionaram o Brasil”, selo da Editora Seguinte, 2017 (Companhia das Letras). Nove ilustradoras fizeram o trabalho de traçar o perfil fisionômico das 44 mulheres que contribuíram para o engrandecimento das letras, das artes, das causas sociais e da história do Brasil. Figuram 40 mulheres e quatro “abrasileiradas”. O livro se destina ao público jovem, mas poderá ser lido de forma prazerosa por todos – mulheres e homens, jovens e adultos.  

            Ao longo dos textos, aparecem explicações com o objetivo de torná-los mais acessível ao leitor.  Nas últimas páginas, encontram-se: “Linha do Tempo. A vida das mulheres no Brasil”, “Glossário” e informações sobre as autoras e as ilustradoras
......
            O livro seguiu uma ordem cronológica temporal.  O primeiro nome que desponta nesse variado universo feminino é o de Madalena Caramuru, a primeira brasileira alfabetizada. Não se sabe com precisão a data de seu nascimento, existe o registro de seu casamento em 1554 com o português Afonso Rodrigues. Madalena era filha do náufrago português Diogo Álvares Correia, casado com a índia Paraguaçu. Somente no século XVIII as meninas brasileiras passaram a frequentar as escolas, mas com muitas restrições. Há um fato relevante envolvendo Madalena, ela escreveu uma carta ao padre Manuel da Nóbrega pedindo o fim dos maus-tratos às crianças indígenas e o início de uma educação feminina com o aprendizado da leitura e da escrita. Esse pedido foi levado à rainha de Portugal, mas não foi colocado em prática. Além de ter sido a primeira mulher brasileira alfabetizada, Madalena lutou pelos direitos da mulher no século XVI.

A matriarca da família Alencar, Bárbara de Alencar, é outra figura feminina de destaque no cenário nacional. Nasceu em Exu (PE) em 1760 e morreu em 1832, em Fortaleza. Foi uma das primeiras prisioneiras políticas do Brasil. Foi presa por lutar contra o domínio português.  Após a independência do Brasil, Bárbara continuou contestando o autoritarismo do governo e opondo-se às políticas centralizadoras da Constituição do Império. O nome de Bárbara Alencar está gravado no Livro de Aço no Panteão da Pátria e da Liberdade Tancredo Neves, na Praça dos Três Poderes, em Brasília. No Livro de Aço, estão gravados os nomes dos heróis e heroínas da Pátria.     

Nísia Floresta é outra nordestina que merece figurar entre as mulheres extraordinárias. Seu nome verdadeiro era Dionísia Pinto Lisboa, depois de adulta resolveu adotar o pseudônimo de Nísia Floresta Augusta Brasileira. Natural de Papari (RN) nasceu em 1810 e morreu em Rouen, na França, em 1885.  Por sua inteligência, sua luta pela educação das mulheres, abolição da escravidão, liberdade para os índios e liberdade religiosa, Nísia Floresta ultrapassou as fronteiras do Brasil. Era um espírito revolucionário e publicou o primeiro livro de caráter feminista no Brasil quando contava apenas 22 anos – “Direitos das mulheres e injustiça dos homens” (1832). Como educadora, batalhou por uma escola igualitária para meninos e meninas. . Com o segundo marido, Augusto, criou um educandário feminino no Rio de Janeiro e oferecia às meninas as mesmas disciplinas que eram ofertadas aos meninos. Em reconhecimento a seu trabalho pioneiro, a cidade de Papari mudou o nome para Nísia Floresta.

A presença da mulher nas artes plásticas do Brasil é recente. Um pouco antes do brilho de Anita Malfatti e Tarsila do Amaral, encontra-se a figura de Georgina de Albuquerque, nascida no interior de São Paulo (1885). Desde pequena, revelava pendores artísticos. Estudou pintura com o pintor italiano Rosalbino Santoro . Aos dezessete anos estava tão confiante da sua arte que enviou uma tela de sua autoria para a ENBA – Escola Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro. O quadro foi considerado excelente e os críticos de arte achavam que se tratava de uma cópia, viram depois que era um trabalho original. Georgina casou com o artista plástico Lucilo de Albuquerque e juntos foram estudar em Paris na École de Beaux-Arts e na Académie Julian. De volta ao Brasil, continuou sua carreira artística e em 1919 ganhou a Medalha de Ouro por seu quadro “Família”. Ela abriu caminho para outras pintoras e foi a primeira mulher a dirigir a Escola Nacional de Belas Artes (ENBA), no Rio de Janeiro.

A caricatura sempre foi a marca forte de Nair de Teffé. Nascida no Brasil, passou a infância e adolescência em diferentes países da Europa. Quando voltou a residir no Brasil estava com dezessete anos e já sabia o que queria fazer – caricatura. Inicialmente utilizou o pseudônimo de Rian em seus trabalhos. Sua estreia como caricaturista aconteceu na revista ilustrada Fon-Fon e colaborou em diversos periódicos e revistas do Rio de Janeiro. Nair foi casada com o Marechal Hermes da Fonseca que foi presidente do Brasil em concorrida eleição com Rui Barbosa.   Uma das charges mais famosas de Nair é a de Rui Barbosa que se tornou ridículo aos olhos da caricaturista. Até hoje são poucas as mulheres que lidam com a caricatura, Nair foi pioneira nessa arte.

Quando se fala em inovação no campo da psiquiatria brasileira aflora o nome da Dra. Nise da Silveira, médica alagoana que foi uma revolucionária nas ideias políticas e na medicina. Presa no governo ditatorial de Getúlio Vargas sob a acusação de comunista, Dra. Nise conviveu com Graciliano Ramos e Olga Benário no período em que esteve presa no Rio de Janeiro.  Adepta da psicologia junguiana, fundou a Casa das Palmeiras e deu início a um trabalho terapêutico em prol dos doentes mentais que foi reconhecido internacionalmente. Ela pregava o tratamento psiquiátrico através da arte, dos trabalhos manuais e da fraterna convivência com cães e gatos.  É autora de vários livros, entre eles “Jung: vida e obra”. No estado de Alagoas, a Medalha Nise da Silveira é concedida a mulheres que se destacam nas letras e nas artes.

Entre as quatro mulheres abrasileiradas, desponta Dorothy Stang, uma missionária americana que dedicou quarenta anos de sua vida em defesa do desenvolvimento sustentável da Amazônia e dos direitos dos camponeses. O brutal assassinato de que foi vítima comoveu a todos. Seu nome ficou gravado para sempre entre aqueles que lutaram por um Brasil mais justo, mais fraterno e mais humano.

Há muitas outras mulheres que desempenharam papéis importantes na história do Brasil. Você é convidado a ler este livro e conhecer mais um pouco sobre a vida e o trabalho de outras mulheres extraordinárias.  

( Publicado no jornal "Contraponto". Paraíba, fevereiro de 2018) 


POEMA DA SEMANA
MULHER PROLETÁRIA
MULHER PROLETÁRIA - única fábrica
que o operário tem, (fábrica de filhos)
            tu
na tua superprodução de máquinas humanas
forneces anjos para o Senhor Jesus,
forneces braços para o senhor burguês.

            Mulher proletária
o operário, teu proprietário,
há de ver, há de ver:
a tua produção,
a tua superprodução,
ao contrário das máquinas burguesas
salvar teu proprietário.

( Jorge de Lima. Poemas Escolhidos).






quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Direitos do pequeno leitor

Direitos do pequeno leitor
            (Neide Medeiros Santos – Leitora Votante – FNLIJ/PB)
            O tempo para ler, como o tempo para amar, dilata o tempo para viver.
                        (Daniel Pennac. Como um romance).


            Daniel Pennac escreveu vários livros destinados às crianças e aos adultos, entre eles “Como um romance”, publicado no Brasil pela Editora Rocco. Neste livro de ensaios, o autor apresenta, de maneira agradável e prática,  os “direitos imprescritíveis do leitor”. Professor de francês, Pennac tem uma vasta experiência com o magistério e conhece os meios de cativar o leitor sem forçá-lo para a leitura deste ou daquele livro.

            Quando o livro passa a ser um dever escolar, o jovem tende a se afastar da leitura. Qual seria o grande segredo deste professor de francês que tem atraído leitores de todas as idades?  Pennac é um grande leitor e gosta de ler em voz alta para os alunos, chamando a atenção para determinados aspectos, mas tudo de maneira bem livre, sem as peias da obrigação. Com esse método aberto, conseguiu agradar adultos e adolescentes. Seus livros já alcançaram inúmeras edições e incentivaram outros escritores a seguir o mesmo caminho.   

            No Brasil “Como um romance”, encontrou ressonância no livro “Direitos do pequeno leitor” (Ed. Companhia das Letrinhas, 2017), com texto de Patrícia Auerbach, ilustrado por Odilon Moraes. Convém destacar que tanto Patrícia como Odilon são escritores/ilustradores. Neste livro, Patrícia escreveu o texto e Odilon fez as ilustrações. 

            A respeito do contato com Pennac, a autora revela que conheceu os livros desse autor quando cursava Pedagogia e a leitura dos “Direitos Imprescritíveis do Leitor” passou a ser uma referência maravilhosa, uma verdadeira libertação.

            Para Odilon Moraes, “Comme um Roman” foi um presente que ganhou quando foi morar na França em 1990 e foi nesse livro que aprendeu francês e descobriu os direitos do leitor. O ilustrador vai um pouco além – ele defende a inclusão de mais um direito entre eles: O DE SE DEMORAR NAS IMAGENS.

            É na companhia desses dois autores brasileiros que caminhamos para o encontro com “Direitos do pequeno leitor”.

            Na capa, o título em letras vermelhas, chama a atenção por um detalhe – o (I) de leitor vem representado por uma chave e essa chave, de forma reiterada, também aparece na primeira página do livro na companhia da dedicatória: “Para grandes leitores em começo de carreira”.

            O livro é direcionado para os pequenos leitores, para aqueles que estão entrando no reino encantado das palavras, isso não significa que os leitores graúdos não possam usufruir dessa leitura, eles podem e devem – é um direito imprescritível. 

             O mundo da literatura é rico e fabuloso, o leitor pode se identificar com o herói ou a heroína, pode decidir como e quando quer ler, pode brincar com as palavras, criar novas histórias e tornar “outras mais belas”, contar e ouvir histórias e dar um final diferente do que leu ou ouviu alguém contar. Muitas vezes o leitor se identifica tanto com uma história que sofre as mesmas dores da personagem. Fernando Pessoa já dizia que o poeta finge a dor que deveras sente.

            Ângela-Lago, que tinha sensibilidade poética, leu esse livro ainda em 2017, antes de sua partida inesperada, e assim se expressou:
            Eis um livro ilustrado.  As palavras e os desenhos brincam entre si e a poesia acontece, mas que uma declaração de direitos, temos um manifesto, uma comemoração. Um viva à liberdade que existe no mundo dos pequenos grandes leitores. Patrícia e Odilon têm uma chave especial que serve para todos os tamanhos e abre todas as portas.  

            É muito bom começar o ano com a leitura de um livro que leva o leitor a sonhar sempre, a inventar tudo outra vez, a fazer amigos incríveis.

            Um livro bem lido é um “passaporte para a fantasia e o despertar de si mesmo”. “Direitos do pequeno leitor” convida aqueles que estão se adentrando no mundo da leitura para uma viagem inesquecível com novas descobertas e apontando caminhos que devem ser trilhados.

            NOTAS LITERÁRIAS E CULTURAIS

            Três livros de escritores brasileiros integram a Lista de Honra do IBBY 2018. São eles: “A boca da noite”, de Cristiano Wapichana, ilustrado por Graça Lima; “Lá e aqui”, texto de Carolina Moreyra, com ilustrações de Odilon Moraes e “O conto do carpinteiro” de Iban Barrenetxea, tradução de Eduardo Brandão.  Nesta lista são escolhidos os melhores livros de literatura infantojuvenil publicados no Brasil em 2016. É uma referência para o mercado editorial internacional e esses livros circulam em feiras de livros, congressos internacionais de literatura infantil e irão fazer parte do acervo da Biblioteca Internacional de Munique e do Instituto Suiço de Mídia Infantil e Juvenil em Zurique.  (Pesquisa feita no Boletim “Notícias” – FNLIJ, no. 10, outubro de 2017).

            No que se refere ao livro “A boca da noite”, transcrevo a resenha que fiz para a seleção de livros premiados pela FNLIJ e que foi publicada no Boletim “Notícias” (FNLIJ) no. 06, em junho de 2017 (p.2). Este livro ganhou o Prêmio FNLIJ Ofélia Fontes – o Melhor Livro para a Criança.  

A boca da noite: histórias que moram em mim. Cristiano Wapichana. Il. Graça Lima. Rio de Janeiro, Ed. Zit, 2016.
            Os curumins gostam de ouvir histórias dos pais, dos avós, eles consideram que os 
mais velhos são detentores do saber. À noite, depois do jantar, é a melhor hora para a família se reunir e vêm as histórias fabulosas, as lendas. As crianças ficam atentas ouvindo tudo. Na história “A boca da noite”, o curumim Kupai conta o dia a dia na aldeia. Uma travessura dos curumins Kupai e Dum (subir no alto da pedra da Laje do Trovão), motivou o pai a contar a história da boca da noite. Kupai ficou tão impressionado que queria saber o que era a tal da boca da noite.  Não encontrando uma explicação razoável que satisfizesse sua curiosidade, foi dormir e teve um pesadelo terrível. A mãe aflita, diante do choro do menino, procura acalmá-lo. As ilustrações de Graça lima acompanham o clima sombrio da noite, hora de contar e ouvir histórias, hora dos sonhos e dos pesadelos, das assombrações e dos medos. (Neide Medeiros – Leitora Votante FNLIJ/PB).

            FÉRIAS - Aqui estão quatro boas indicações  de leitura para as crianças durante o mês de janeiro – “Direitos do pequeno leitor” (Ed. Companhia das Letrinhas); “A boca da noite” (Ed. Zit); “Lá e aqui” (Ed. Zahar);” O conto do carpinteiro” (Ed. Companhia das Letrinhas). 

            POEMA DA SEMANA
                            I
            Trago dentro de mim
                                               a voz do tempo,
            sonhos de alguém que fui
                                                    e já não sou,
            subterrânea luz ,
                                   dias de vento
            olhos voltados
                        para o que passou.


            Trago dentro de mim
                                               a voz da infância
            acordando o menino  
                                   que ainda sou,
            fazendo adormecer
                                    o homem-criança

            reinventando o tempo
                                          quase-avô.

            ( José Rodrigues de Paiva. Vozes da Infância)


            Nota: José Rodrigues de Paiva nasceu em Coimbra, Portugal e veio morar em Recife quando contava seis anos. Fez o curso de Direito na Universidade Católica de Pernambuco, mestrado e doutorado em Teoria Literária pela UFPE.  É poeta, ensaísta e foi professor de Literatura Portuguesa na UFPE.              

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

O Diário de Anne Frank 1

O Diário de Anne Frank – versões em quadrinhos
            (Neide Medeiros Santos – Leitora votante FNLIJ/PB)

            Erguemos os olhos os olhos para o céu, muito azul.
            Despedidos de folhas e úmidos de orvalho,
            os galhos do castanheiro-da-índia brilhavam.
                        (Anne Frank)

            O Diário de Anne Frank tem me acompanhado em diferentes fases da vida. Cada ano descubro uma nova edição e releio esse livro escrito por uma adolescente judia que não resistiu aos horrores da 2ª. Guerra Mundial. Já li diversas versões: o texto completo (traduzido para português), textos resumidos e adaptados, peça de teatro e sempre descubro alguma coisa que desconhecia, Recentemente recebi três versões em quadrinhos do diário e um livro sobre o castanheiro-da-índia, árvore centenária situada próxima a um dos canais da cidade de Amsterdam, perto do anexo onde Anne Frank ficou com a família por dois anos.  Dos quatro livros recebidos, este último é o mais poético.   

            Da editora  Record, chegou “O Diário de Anne Frank”, uma edição oficial autorizada pelo  “Anne Frank Fonds”. O roteirista e diretor cinematográfico Ari Folman e o ilustrador (quadrinista) David Polonsky traduziram muito bem o contexto da época.  Anexaram informações importantes que levam o leitor a compreender  melhor o drama vivenciado por Anne e sua família.

            Esta edição registra o último texto escrito por Anne Frank no seu diário com a data de 1º. de agosto de 1944.  Ela faz uma análise de sua personalidade. Transcrevemos um pequeno texto para demonstrar o grau de maturidade da menina/moça de 15 anos:     
   
            Como já disse muitas vezes, sou dividida em duas. Um lado contém minha animação  exuberante, minha petulância, minha alegria de viver e, acima de tudo, minha capacidade de apreciar o lado mais leve das coisas.
            (...)
            Na verdade, sou aquilo que um filme romântico representa para um pensador profundo - uma simples diversão, um interlúdio cômico, algo a ser logo esquecido; que não é ruim, mas que também não é particularmente bom. Tenho medo de que as pessoas que me conhecem descubram que tenho outro lado, um lado melhor e mais bonito.  (2017: p.150).
 
            “Anne Frank: a biografia autorizada em colaboração com a Casa de Anne Frank” traz o selo da Companhia das Letrinhas. Sid Jacobson foi o roteirista e Ernie Colon o responsável pela quadrinização do texto. A vida de Anne é contada de forma detalhada, desde o seu nascimento, em 1929, a infância passada em Frankfurt, a ida para Amsterdam ,  os anos no esconderijo  até sua morte precoce no campo de concentração de Bergen-Belsen, na Alemanha. Este livro apresenta uma Cronologia com fotos de Anne, de sua família e de outros personagens envolvidos na história.

            O terceiro livro, também em quadrinhos, é da editora Nemo e foi escrito por Mirella Spinelli, uma mineira de São João del-Rey que é autora  do roteiro e  das ilustrações. É uma adaptação resumida do texto original e termina com a prisão das pessoas que estavam escondidas no anexo.

            Mas foi “A árvore no quintal” o que mais me cativou, uma edição da Galera Jovem (Record)  com texto de Jeff Gottesfeld,  ilustrado por Peter McCarty. A tradução para edição brasileira  é de Luiz Antonio Aguiar.    

            A árvore que aparece na história é um castanheiro-da-índia, personificado,  que tudo vê e observa.   As ilustrações são todas em tom sépia. A sensibilidade artística de Peter McCarty atrai os leitores.   Agindo como uma pessoa, o castanheiro faz um relato do que estava acontecendo a seu redor, principalmente o que se passava no anexo situado na Rua Prinsengracht, 263, em Amsterdam. Via uma menina sempre escrevendo em um caderno, isso  despertava muito interesse. O que estaria escrevendo?   Ele adquire personalidade semelhante à amiga imaginária de Anne Frank, Kitty. 

 Jeff Gottesfeld assim descreve a árvore:  “Suas folhas eram estrelas verdes; suas flores,  delicadíssimos cones bancos e rosa.”  As flores floresciam na primavera, no outono, desprendiam  frutos espinhentos e no inverno se cobria de neve. Com o passar dos anos, a árvore adoeceu, injetaram medicamentos, colheram sementes. Em 2010, foi atingida por uma tempestade forte e um raio cortou seu tronco ao meio. Não resistiu. As  sementes colhidas  espalharam-se  por diversas partes do mundo. Mudas dessa árvore foram plantadas nos Estados Unidos em locais famosos por sua relação com a luta pela liberdade e tolerância, como Colégio Central, Little Rock, Arkansas (Luta pelo fim da segregação, 1957), Museu das Crianças de Indianápolis, Indiana (Parque da Paz Anne Frank), Escola Distrital de South Cayuga, Aurora, Nova York (Parque Histórico Nacional dos Direitos da Mulher). Outras mudas e sementes da árvore foram plantadas pelo mundo afora.   

Concluímos com um pequeno excerto do livro “A árvore no quintal”:
A árvore, assim como a menina, entrou para a história. Assim como a menina, ela vive até hoje.

POEMA DA SEMANA

INTENTO

Quero a solidão que entretém
o pássaro altivo que repousa
no ramo de uma árvore.

Quero a mais elevada companhia.
O pensamento desnudo
na mais lata noite sem presságios.
( Rafael Vasconcelos , Ofício)



domingo, 12 de novembro de 2017

Um amigo para sempre está de volta

Um amigo para sempre” está de volta
            (Neide Medeiros Santos – Leitora Votante – FNLIJ/PB)

                         Cada pássaro,
            Com sua plumagem, seu voo, seu canto,
                        Cada pássaro é um milagre.
            (Manuel Bandeira. Preparação para a morte).  

 O livro de Marina Colasanti “Um amigo para sempre” (Ed. FTD, 2017), com ilustrações de Guazelli, ganhou nova roupagem e não se perdeu na volta. A 1ª edição do livro foi em 1988 e retorna depois de quase 30 anos, vem com ares de livro artesanal, bonito e enriquecido com o trabalho artístico de Guazelli. Este livro conta a história de uma amizade entre um homem e um pássaro.

            Para Fanny Abramovich, é um conto poético que entrelaça história, biografia, parábola e poesia. Encanta por sua refinada simplicidade. É uma história real: a história da vida do escritor Luandino Vieira que nasceu em Portugal, mas radicou-se ainda criança em Angola e muito lutou pela liberdade do país que o recebeu como filho. Por suas ideias consideradas revolucionárias pelo regime salazarista, pelo desejo de ver Angola livre de Portugal, Luandino ficou preso por vários anos em Luanda, depois foi enviado para o campo de concentração de Tarrafal, situado na Ilha de Santiago, em Cabo Verde.  Os dois últimos anos de prisão foram passados em Lisboa, em prisão domiciliar.  Com a Revolução dos Cravos de 25 de abril de 1974 que pôs fim ao regime de Salazar, Luandino adquiriu liberdade e Angola ficou livre do jugo português.    

             José Luandino Vieira é pseudônimo literário do autor, nasceu em Ourém, Portugal.  Seu nome verdadeiro é José Mateus Vieira da Graça, mas ficou conhecido internacionalmente por Luandino Vieira.  É autor de inúmeros livros, entre eles muitos livros de contos, alguns romances, novelas e um livro de literatura infantojuvenil – A guerra dos fazedores de chuva com os caçadores de nuvens.

             Um amigo para sempre surgiu de um encontro entre Marina Colasanti e Luandino Vieira em Cuba. Nesse encontro, o escritor falou sobre o período que esteve preso e a amizade que fez com um pardal que vinha visitá-lo todos os dias quando ia tomar banho de sol.
 
            Marina Colasanti sempre revelou paixão por pássaros e encontrou um bom motivo para escrever esse livro.  Na apresentação, ela revela que é “uma estória tão bonita que eu gostaria de tê-la inventado”.

            Porque pensava diferente dos que governavam seu país, aquele homem foi preso, assim começa o livro. Todos os dias era a mesma rotina – vinham buscá-lo para tomar banho de sol, era a hora da liberdade e a hora que o pensamento voava como os pássaros. Deitado na grama sonhava, sonhava com a liberdade do seu povo, de um povo que aprendera a amar como se ali tivesse nascido, aquele era o país que havia escolhido para morar e sofria com a falta de liberdade.

            No início, levava um livro para ler, depois preferiu ficar olhando para o céu, para as nuvens, para o verde das árvores que teimavam em pousar suas folhas sobre o muro alto da prisão.  As nuvens, o azul do céu, os passarinhos que passavam voando, tudo era motivo para contemplação e enlevo.

            Resolveu levar um pedaço de pão e ficar mastigando bem devagar. Foi por causa desse pedaço de pão que um passarinho se aproximou do homem. Ele queria as migalhas, o homem observou o interesse do pássaro e de forma bem delicada jogou um pedacinho de pão para o pássaro que logo o recolheu. Todos os dias era a mesma coisa – homem e pássaro dividiam o pão. A partir daí se tornaram amigos – existia uma alegria naquele encontro, alegria do homem e do pássaro, existia a alegria do encontro.

            E o passarinho continuou se aproximando cada vez mais do homem. Passaram-se meses e um dia o passarinho veio comer na sua mão. A notícia se espalhou na prisão – aquele preso político havia domesticado um passarinho Ninguém imaginava que tinha sido fruto de muita paciência, de muita espera. As coisas não se conquistam de forma fácil, foi um longo caminhar.

            Passou o verão, chegou o inverno, mas naquele país o inverno não era rigoroso, daí o espanto do homem no dia em que o passarinho não veio. Ficou aflito. O que teria acontecido? Esperou mais alguns dias, sempre na expectativa de vê-lo outra vez. O passarinho não veio durante semanas, não veio nunca mais. E o homem foi invadido por uma tristeza muito grande, perdera seu amigo.

            Mas como tudo passa, conformou-se. A tristeza foi substituída por outro sentimento e associou o destino do pássaro a seu próprio destino – um dia ele sairia daquela prisão, iria para longe, seria livre e o sol voltaria a brilhar sem a presença de muros e grades, iria sentir o voo da liberdade.

            Para ilustrar esse livro, Eloar Guazelli utilizou sutilezas que combinam com a história. Na capa, vemos um pássaro, folhas de árvores e uma mão que parece chamar o pássaro. As ilustrações internas são simples, poucas cores – nuvens, muros altos, arames farpados, folhas ao vento e a figura constante de um passarinho.

            As páginas do livro são coloridas, mas com tons muito discretos- verde, azul, róseo, apenas um tom mais vibrante – um vermelho alaranjado aparece no meio desses tons suaves. Há outro detalhe que chama a atenção do leitor – todas as folhas do livro vêm coladas à maneira dos livros antigos.  Fui invadida por uma vontade de abri-las, preferi espionar o interior e preservá-las, não quis maculá-las.    
            
            Os textos de Fanny Abramovich, Benjamim Abdala Junior, Ruth Rocha e de Gauzelli que estão encartados no livro ajudam a compreender melhor o trabalho literário de Marina Colsanti e a vida do idealista  Luandino Vieira.

           
            NOTAS LITERÁRIAS E CULTURAIS
EDINÓLIA MARTHA DE SOUZA – UMA LEITORA MUITO ESPECIAL

            Uma visita à biblioteca Durmeval Trigueiro, na Fundação Casa de José Américo, e a descoberta de um tesouro. Familiares de Edinólia Souza doaram à biblioteca Durmeval Trigueiro todos os livros de literatura de quem passou a vida na companhia de bons livros. Há preciosidades, como uma edição de “Crime e Castigo”, de Dostoievski, uma tradução do francês de Raquel de Queirós, com ilustrações de Tomás Santa Rosa. Outros livros, todos muito bons, nos levam a recordar de Edinólia e de sua figura simples, reservada.

 Lembro-me muito bem de Edinólia comparecendo aos lançamentos de livros nas livrarias de João Pessoa, na Fundação Casa de José Américo, no Centro Cultural Joacil de Brito Pereira.   Quando lançava meus livros convidava-a, e ela sempre se fazia presente. Descobri, no meio de valiosas relíquias, um livrinho fino que publicamos em homenagem a Violeta Formiga - lá estava um oferecimento carinhoso e um marcador de livro artesanal, confeccionado pelo artista plástico Miguel Bertollo – três singelas violetas, pintadas em aquarela na companhia desses versos: “Eu amo o dia porque dele surge as madrugadas”. 
 
Edinólia me disse certa vez que quando lia um livro de um escritor que gostava, procurava comprar todos os livros daquele autor.  Nesse rico acervo, encontram-se vários livros de José Saramago, Mário Vargas Llosa, Mia Couto, Virgínia Woolf, Fernando Pessoa, Drummond. A bibliotecária Nadígila Camilo e bibliófilo Francisco de Assis me chamaram a atenção para algumas curiosidades guardadas dentro dos livros – recortes de jornais, fotografias dos escritores, breves comentários. As marcas de grifos nas frases, nos parágrafos dos livros indicam que todos foram lidos.  É muito bom que esse acervo esteja abrigado na biblioteca da Fundação Casa de José Américo.  São 538 títulos à espera de novos leitores.



                        POEMA DA SEMANA
                       
                        A vida é um milagre.
                        Cada flor,
                        Com sua forma, sua cor, seu aroma,
                        Cada flor é um milagre.
                        Cada pássaro,
                        Com sua plumagem, seu voo, seu canto,
                        Cada pássaro é um milagre.
                        O espaço infinito,
                        O espaço é um milagre.
                        O tempo infinito,
                        O tempo é um milagre.
                        A memória é um milagre.
                        A consciência é um milagre,
                        Tudo é milagre.
                        Tudo, menos a morte.
                        - Bendita a morte que é o fim de todos os milagres.

                        ( Manuel Bandeira. Preparação para a morte).
                       

                        

sábado, 4 de novembro de 2017

E o poeta virou guriatã

E O POETA VIROU GURIATÂ

(Neide Medeiros Santos – Leitora votante – FNLIJ/PB)
            As pessoas não morrem, ficam encantadas.
            (Guimarães Rosa. Do discurso de posse na ABL).

O poeta Marcus Accioly virou guriatã e partiu deixando saudades e muitos livros de poesia, alguns dedicados à literatura infantil, como o premiado Guriatã: um cordel para menino que teve a 1ª edição em 1980 pela editora EBAL. Seguiram-se outras edições deste livro.

Guriatã: um cordel para menino é uma composição literária de caráter telúrico.  Composto de 91 poemas e cinco notas que explicam a gênese do livro, o poeta procura resgatar a infância perdida, o “país-paraíso” do engenho Laureano. O xilógrafo Dila, o ilustrador, traduziu plasticamente o conteúdo do texto. Modalidades de cantoria (martelos, toada-alagoana, canções suspirosas, desafios, mourões); poemas dialogados (de um Guriatã-de-coqueiro, da volta do Guriatã, dos dois Guriatãs, do retorno de Guriatã, e do Guriatã por último) e poemas independentes, de grande expressividade lírica estão representados por (do-trem-de-ferro, dos elementos).  O grande poema se encerra com um acróstico com o nome do poeta.  

 O “locus amoenus” da região canavieira não é privilégio da zona da mata pernambucana nem paraibana (veja-se José Lins do Rego e os romances do ciclo da cana-de-açúcar) está presente na região da Provence, tão bem retratada por Paul Cézanne em suas telas; nos riachos e rios da Champagne, nos escritos poético/filosóficos de Bachelard; no mundo encantado do sitio do Picapau de Monteiro Lobato; no país de São Saruê, do poeta popular Manoel Camilo dos Santos.

Para ser fiel às origens populares, o livro foi ilustrado com xilogravuras do artista pernambucano – Dila. As xilogravuras impressas, em quase todas as páginas, seguem a técnica tradicional da xilogravura (preto e branco). O “poeta da mão”, parar usar a expressão de Gaston Bachelard, caminhou pari-passu com Accioly que descreve paisagens, animais, mitos populares e eruditos.  Dila procura dar “sopro de vida” a tudo que povoa a mata norte de Pernambuco.

Nos livros de poesia de Accioly, estão presentes o cordelista e o poeta erudito. Na entrevista concedida ao jornalista Mário Hélio (Jornal do Commercio, Recife, 3 de março de 1995, p.10), ele assim se expressou:
O cordel foi a literatura da minha infância, os folhetos do Engenho Laureano, e a cidade de Aliança. Tudo o que consegui com a poesia (e devo tudo a ela) foi encontrar o possível equilíbrio entre a lucidez e a loucura, entre a tradição e a vanguarda, entre a inspiração e a transpiração, entre o popular e o erudito.
[...]
            Sou, como já disse, um profissional do canto. Nada fiz que não fosse poesia. O resto é um arremedo que acabará no silêncio.

            Após essas pequenas digressões, que consideramos válidas para entender um pouco da poesia e do poeta, voltemos ao livro.

            Guriatã: um cordel para menino é uma “história-estória” de dois meninos, que se estrutura seguindo a ordem de um poema épico: prólogo, invocação às musas, episódios, epílogos.
            Todos os poemas do livro vêm numerados por algarismos romanos. O primeiro poema, um dos mais longos do livro, traz o subtítulo de “prólogo” e contém nove estrofes distribuídas em sextilhas; o segundo, com o subtítulo “da família de Sucram”, é formado por quatro estrofes com versos em oitavas. Nesses dois poemas, temos a apresentação dos protagonistas Leunam e Sucram. Esses nomes incomuns resultam dos anagramas dos nomes Manuel e Marcus. Manuel foi um amigo de infância do poeta que morreu muito cedo. No reino do faz de conta, Leunam se transformou em guriatã.

            O terceiro poema apresenta um corte narrativo, traz o subtítulo “Guriatã de coqueiro” e nele aparece a terceira personagem importante da história – o pássaro Guriatã. No decorrer da narrativa poética, observamos que Guriatã passa a integrar a história e recebe o mesmo tratamento dado aos meninos Sucram e Leunam.

            Um dos poemas mais emblemáticos do livro é “do-trem-de-ferro”, uma homenagem ao avô do poeta – José Pedro Bezerra de Mello (Dedé). Esse avô tão querido e admirado pelo neto morreu enfartado na estação ferroviária de Aliança quando Accioly contava dez anos. Com a morte do avô, acabou-se também a infância do menino.

            O poema “do-trem-de-ferro”, visto como um todo, é formado por um refrão que se repete cinco vezes em cinco estrofes com sete versos em redondilha menor. O conjunto, no total de 40 versos, ordena-se de forma simétrica, dando-nos a impressão de um trem com vários vagões encaixados verticalmente. As estrofes com sete versos cada uma seriam os vagões que conduzem os passageiros e os refrões seriam os elos que unem os vagões. 

             Transcrevemos uma das estrofes do poema “do-trem-de-ferro” para que o leitor sinta como ele se estrutura.
            Quem grita na noite?

            Não vejo ninguém,
            é o grito da ponte
            debaixo do trem,
            é o vento que chora
            por morte de alguém,
            é o choro das almas
            que dizem amém.

            Quem grita na noite?
            [...]
            Este poema, na sua íntegra, foi recitado pelo poeta Marcus Accioly durante o Congresso Internacional de Literatura Popular realizado na Fundação Casa de José Américo em 2005. Naquela ocasião, Marcus Accioly compareceu para o lançamento do livro “Guriatã: uma viagem mítica ao país-paraíso”.

            Um lembrete para aqueles que desejarem adquirir o livro “Guriatã: um cordel para menino” existe uma nova edição da editora Bagaço.
( Publicado no jornal “Contraponto”. Paraíba, 27 de outubro de 2017).
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            Nota: O jornal “Contraponto” voltou a circular e com ele o blognastrilhasdaliteratura volta com novidades. Toda semana será publicado um poema de autor brasileiro.  Como leitora e amante da boa poesia, escolheremos poemas que nos cativam pela beleza poética e sensibilidade. Para inaugurar essa nova etapa, segue o poema “trem-de-ferro”, do poeta pernambucano Marcus Accioly, desaparecido recentemente. O poema será sermpre publicado na íntegra.

                        XXXIII - do-trem-de-ferro

            Quem grita na noite?

            Não vejo ninguém,
            é o eco do grito
            do apito do trem,
            é a boca-da-noite
            que grita também,
            é o eco do eco
            que ecoa no além.

            Quem grita na noite?

            Não vejo ninguém,
            é o grito da ponte
            debaixo do trem,
            é o vento que chora
            por morte de alguém,
            é o choro das almas
            que dizem amém.

            Quem grita na noite?
           
            Não vejo ninguém,
            é a boca-do-túnel
            na frente do trem,
            é o grito sem grito
            de um eco que vem
            dos montes que aos montes
            ecoam mais cem.

            Quem grita na noite?

            Não vejo ninguém,
            é o sonho-barulho
            das rodas do trem,
            é a luz de uma estrela
            que tange belém
            no sino-silêncio
            que a noite não tem.

            Quem grita na noite?

            Não grita ninguém,
            é o trem dos fantasmas
            nos trilhas sem trem,
            é a voz dos dormentes
            que às vezes contém
            o grito da vida
            que a morte detém.

( Do livro: Guriatã: um cordel para menino).