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domingo, 19 de abril de 2009

Nise da Silveira Uma vida não basta apenas ser vivida: também precisa ser sonhada.




NISE DA SILVEIRA
Neide Medeiros Santos
Crítica de Literatura

Uma vida não basta apenas ser vivida:
também precisa ser sonhada.
(Mário Quintana)

Nise da Silveira nasceu em Maceió em 1905, era filha única. A escolha de seu nome foi uma homenagem à musa inspiradora do poeta inconfidente Cláudio Manoel da Costa. Estudou medicina na Faculdade de Medicina da Bahia e era a única mulher na turma de 150 formandos. Terminado o curso, mudou-se para o Rio de Janeiro e fez concurso para o Hospital de Assistência a Psicopatas e Profilaxia Mental em 1933. Por perseguições políticas foi afastada do cargo de 1936 a 1944 e ficou presa durante alguns meses, no período da ditadura de Vargas.

Graciliano Ramos, em Memórias do Cárcere (vol.1), relembra seu encontro com Nise da Silveira na prisão.

Certo dia foi chamado. Uma das mulheres recolhidas à sala 4 desejava falar com ele. Graciliano estranhou. Quem seria? Afinal dirigiu-se ao pátio e viu uma senhora pálida e magra de olhos fixos, arregalados. O rosto ainda era moço, mas revelava fadiga, alguns fios grisalhos misturavam-se aos cabelos negros. Apresentou-se: Nise da Silveira.

Graciliano lamentou encontrar sua conterrânea longe da profissão do hospital, dos seus queridos loucos. Perguntou pelo marido, seu velho conhecido, também médico, Mário Magalhães, ele estava em liberdade. De pijama, sem sapatos, Graciliano achou-se ridículo e o jeito doce de falar de Nise causava-lhe perturbação. Alguns anos mais tarde, Graciliano homenageou sua conterrânea ao criar a princesa Caralâmpia, no conto A terra dos meninos pelados, uma figura meiga e doce, inspirada em Nise da Silveira.

Em 1946, Nise foi reintegrada à função e fundou a Seção de Terapêutica Ocupacional no antigo Centro Psiquiátrico Nacional. A Casa das Palmeiras, centro de reabilitação psiquiátrica de esquizofrênicos, foi criada em 1952. Nesta casa, fruto de um ideal de uma mulher que acreditava que a vida não é apenas para ser vivida, mas também para ser sonhada, como bem disse o poeta Mário Quintana, a psiquiatra desenvolveu um trabalho em que os pacientes tinham a oportunidade de se expressar através da Arte - madeiras, pinturas, modelagens, colagens, argila, teatro, dança, expressão corporal. Nise hoje é lembrança, mas a Casa das Palmeiras persiste no tempo.

Além de adotar métodos para tratamento da esquizofrenia, considerados avançados para a sua época - a terapia ocupacional -, a doutora Nise condenava o eletrochoque e a lobotomia. Os recursos utilizados pela médica alagoana para tornar a vida dos esquizofrênicos mais amena estão explicados no livro O mundo das imagens.

Nise da Silveira não foi apenas uma médica que se preocupava com a saúde de seus clientes, era uma pessoa sensível e amante das artes. Estudiosa de Jung nos legou um livro que resume as principais idéias do psicanalista suiço - Jung vida e obra.

No capítulo A obra de arte e o artista, Nise da Silveira discorre sobre os dois processos diferentes de criação artística: o processo psicológico e o visionário e revela que as obras de arte, resultantes da primeira maneira são facilmente compreendidas por seus leitores. Os temas abordados são conhecidos - as paixões, os sofrimentos do homem, seus feitos, as tragédias de seu destino. Os romances de amor, o romance social, a poesia lírica, a poesia épica, comédia e tragédia pertencem ao processo psicológico. Podemos acompanhar as peripécias que se desenrolam nessas obras, mas nunca nos causam sentimentos de estranheza.

As obras de arte visionárias nos proporcionam uma profunda estranheza. O artista sente-se dominado pelo ímpeto da inspiração, a sua obra é maior do que ele. Muitos artistas têm dado depoimentos sobre o processo criador e podemos vislumbrar, nesses depoimentos, lampejos de obras visionárias.

A autora ilustra muito bem a arte visionária de Jorge de Lima. Os primeiros livros do poeta alagoano retratam temas da infância e motivos regionais, tudo bem simples e de fácil compreensão. Houve, depois, uma total transformação na poética de Jorge de Lima. Em Mira Celi e Invenção de Orfeu, o mundo do poeta é o mundo das imagens arquetípicas. Essas imagens não podem ser aprisionadas dentro do nosso mundo lógico, as palavras adquirem autonomia, tornam-se independentes, obscuras, enigmáticas.

Admiradora de Jung, Nise da Silveira afirma que as mais belas páginas que Jung escreveu sobre a alma da criança estão nos dois primeiros capítulos de sua autobiografia - Memórias, Sonhos, Reflexões.

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