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sábado, 10 de dezembro de 2011

AUGUSTO DOS ANJOS REVISITADO





AUGUSTO DOS ANJOS REVISITADO
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária –FNLIJ/PB)

Eu sou aquele que ficou sozinho
Cantando sobre os ossos do caminho
A poesia de tudo quanto é morto!
(Augusto dos Anjos. O Poeta do Hediondo)

Dois bons livros para jovens publicados em 2011 se voltam para a poesia e, de forma mais específica, para a poesia de Augusto dos Anjos. Da editora Noovha América, recebemos “13 Contos de Medos e Arrepios com Poemas de Augusto dos Anjos”, de Almir Correia, ilustrado por Alexandre Jubran. A editora Ática nos enviou “Poesia faz pensar”, da série “Para gostar de ler”, coletânea de poemas que contou com a organização de Carlos Felipe Moisés.
O livro de Almir Correia se compõe de 13 contos. As tramas do conto interagem com 13 poemas de Augusto dos Anjos. As ilustrações de Alexandre Jubran são todas em preto e branco e criam uma atmosfera soturna. Alguns títulos já deixam transparecer o ambiente fantasmagórico do livro – “A bota do cemitério”, “O caixão fantástico”, “A noiva suicida”, “O carrinho de bebê macabro”.
“O caixão fantástico” é título do conto e do poema de Augusto dos Anjos. O conto relata a morte de um homem muito rico que foi enterrado em um caixão de ouro. Raul, o protagonista do conto, observa o interesse que o precioso objeto desperta em várias pessoas – elas vão ao cemitério na calda da noite para roubar o caixão de ouro, mas o caixão era amaldiçoado, morreram todos que tentaram roubá-lo.
O poema de Augusto dos Anjos “O caixão fantástico” é menos tenebroso. No “Caixão fantástico”, talvez repousem musas ou o próprio Pai do poeta.
Se a poesia “além de levar a sentir também faz pensar,” como afirma Carlos Felipe Moisés, o livro organizado pelo crítico literário atende aos dois sentidos: reúne poemas que se caracterizam pelo alto grau de sensibilidade e outros que oferecem ferramentas de indagação com o objetivo de compreender o mundo.
“Poesia faz pensar” está dividido em cinco tópicos: “É tudo quanto sinto um desconcerto”; “Um contentamento descontente”; “Errei todo o discurso de meus anos”; “Continuamente vemos novidades”; “Se lá no assento etéreo onde subiste”. O organizador da coletânea atribuiu títulos aos tópicos partindo sempre de versos de poetas consagrados: Camões, Augusto dos Anjos, Fernando Pessoa.
Cada grupo temático vem constituído de três partes: uma reflexão sobre o fazer poético, reunião de poemas de autores de épocas diversas e um comentário sobre os poemas que integram cada grupo.
Na terceira parte que traz o título - “Errei todo o discurso dos meus anos”, o crítico assim se expressa: “O ponto de partida da reflexão que conduz a esses e outros temas correlatos pode ser assinalado em sua expressão mais singela na tríplice interrogação de Augusto dos Anjos: Quem sou? Para onde vou? Qual a minha origem?” (p.50)
Na apresentação deste tópico, Carlos Felipe Moisés assevera que essas perguntas traduzem uma dúvida universal de todos os tempos – os poetas estão à procura da verdade, mas é necessário que esta resista ao assédio da dúvida e à lucidez do espírito crítico.
Mas quem são os poetas que estão reunidos nesse tópico que parte da tríplice interrogação augustiniana? Por ordem de apresentação: Camões, Bocage, Castro Alves, Augusto dos Anjos, Alberto Caeiro, Carlos Drummond de Andrade, Vinicius de Moraes e João Cabral de Melo Neto.
O poema selecionado de Augusto dos Anjos é “Poema Negro” (p.50). O texto não aparece integral, apenas as três primeiras estrofes, mas são suficientes para constatar num “misto de revolta e perplexidade” que a passagem dos séculos assombra o poeta do EU.
Do heterônimo Alberto Caeiro, o crítico chama a atenção do leitor para o aparente jogo de palavras: “O que nós vemos das cousas são as cousas./ Por que veríamos nós uma cousa se houvesse outra?”. E vem a lição do mestre Caeiro: chegou a hora de desnudar a alma e começar a “desaprender”.
Os dois livros apresentados são publicados um ano antes do centenário da publicação do EU. A Academia de Letras e Artes do Nordeste, sob a presidência da professora Maria do Socorro Aragão, em parceria com o Programa de Pós-Graduação em Letras da UFPB, está organizando um congresso para o próximo ano em comemoração ao centenário da publicação do EU. Certamente, aqui, na Paraíba, terra de Augusto dos Anjos, serão publicados muitos livros sobre o poeta mais lido do Brasil.


A Esperança não murcha, ela não cansa,
Também como ela não sucumbe a Crença.
Vão-se sonhos nas asas da Descrença,
Voltam sonhos nas asas da Esperança.

Muita gente infeliz assim não pensa;
No entanto o mundo é uma ilusão completa,
E não é a Esperança por sentença
Este laço que ao mundo nos manieta?

Mocidade, portanto, ergue o teu grito,
Sirva-te a crença de fanal bendito,
Salve-te a glória no futuro - avança!

E eu, que vivo atrelado ao desalento,
Também espero o fim do meu tormento,
Na voz da morte a me bradar: descansa!


Augusto dos Anjos

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