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quinta-feira, 15 de março de 2012

A lua no cinema:quatro momentos distintos


A lua no cinema: quatro momentos distintos
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB)


Tenho fases, como a lua.
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
(Cecília Meireles. Lua adversa. In: Vaga Música).

Eucanaã Ferraz organizou a seleção de poemas “A lua no cinema e outros poemas” ( Cia. Das Letras, 2011), livro destinado, “preferencialmente, aos jovens”. Vinte poetas integram a coletânea, sendo sete portugueses e treze brasileiros. Apenas duas poetisas – Fiama Hasse Pais Brandão e Sophia de Mello Breyner Andresen. As duas são portuguesas.
Ao todo são 68 poemas. O leitor encontra um índice como o título dos poemas, os nomes dos autores e uma breve nota sobre cada poeta. Aparecem, ainda, informações do exemplar de onde foram retirados os textos.
O título do livro remete ao poema de Paulo Leminski – “A lua no cinema” que se encontra na p. 59. Transcrevemos a primeira estrofe do poema:

“A lua foi ao cinema,
passava um filme engraçado,
a história de uma estrela
que não tinha namorado.” (p.59).

Os poemas estão divididos em quatro momentos distintos. No primeiro, com o subtítulo de “o verbo ser e outros verbos”, encontram-se poemas que mostram o decorrer da vida do homem: nascimento, infância, juventude, maturidade e velhice.
“não sei se isto é amor e outras dúvidas” é o subtítulo do segundo momento e compreende poemas que falam do amor, das incertezas e das dúvidas desse sentimento complexo. O terceiro momento – “na ribeira deste rio e outras paisagens” apresenta poemas voltados para a natureza. Verso de Fernando Pessoa é utilizado no subtítulo. No quarto e último momento – “não coisa e outras coisas”, os poemas selecionados reúnem seres e coisas que se misturam e se transformam, superando limites.
Vamos examinar alguns poemas da primeira parte, eles estão relacionados com as diferentes fases da vida do homem.
O primeiro é uma canção de Caetano Veloso – “Boas-vindas” (LP Circuladô, 1991). O poeta celebra o nascimento do filho e convida-o a conhecer a vida – que é gostosa, tem o sol e tem a lua, tem a poesia e tem a prosa.
O segundo poema – “A um recém-nascido”, José Paulo Paes saúda um bichinho tenro, frágil, o filho do homem. Entre uma estrofe e outra, aparece um refrão que se repete de forma variada – “é o filho do homem”, “é o filho da mulher”, “é o filho da fome,” “é o filho da fartura”, “é o filho do mundo.” Por fim, “É um filho de Deus”. Atente-se para a sutileza poética e a substituição do artigo definido (o) para o indefinido (um).
Manoel de Barros comparece com o poema “Infantil”. Aqui, o poeta explora o lado criativo da criança. Um menino conta uma história absurda à mãe e conclui:

“Olha, mãe, eu só queria inventar uma poesia”.
Eu não preciso fazer razão”. (p. 18)

Manoel de Barros gosta de aproximar a criança do poeta. Os dois são inventivos e não precisam dar explicações lógicas para entender as coisas.
Mário Quintana, no poema “O adolescente”, chama a atenção do jovem para a beleza da vida e alerta que essa beleza pode gerar o medo, mas um medo “fascinante e fremente de curiosidade”.
O poeta português Alexandre O´Neill, com o poema “Amigo”, refere-se à idade adulta do homem e faz uma reflexão sobre o que é um amigo e recomenda que se tenha cuidado com a palavra amigo.
E o que seria amigo?

“Amigo é o erro corrigido,
não o erro perseguido, explorado
é a verdade partilhada, praticada.” (p. 26)

Chega-se à maturidade, à velhice. Para essa fase ingrata da vida só recorrendo a Paulo Leminski e enfrentá-la com uma doce ironia.

[quando eu tiver setenta anos]
“quando eu tiver setenta anos
então vai acabar essa adolescência
vou largar da vida louca
e terminar minha livre-docência” (p.44)

Os outros três momentos poéticos permanecem encobertos esperando o leitor.
Resta uma pergunta: Por que as poetisas brasileiras modernas não entraram na coletânea? Onde estão Roseana Murray, Marina Colasanti, Neide Archanjo, Zila Mamede? E Cecília Meireles – que é atemporal e eterna?

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