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sábado, 2 de fevereiro de 2013


NO REINO DO FAZ-DE-CONTA

(Neide Medeiros Santos – Critica literária FNLIJ/PB)

 

            A incrível facilidade com que o indígena ouve, retém e transmite já inconscientemente modificada, qualquer estória, multiplica o mundo fantástico, alargando as fronteiras da imaginação criadora.

            (Câmara Cascudo. Geografia dos mitos brasileiros).

 

            Yaguarê Yamã é amazonense, descendente do povo indígena Maraguá. Formado em Geografia pela UNISA (SP), lecionou no ensino público por dois anos, depois resolveu se dedicar à carreira de escritor e retornou a seu estado. Atualmente, além das atividades literárias, é responsável pelo projeto “De volta às origens”, que tem como objetivo a conscientização, revitalização cultural e a luta pela demarcação das terras do povo Maraguá, mas não abandonou a carreira de professor, continua dando aulas de Geografia.

            “Contos da Floresta” (Peirópolis, 2012), com ilustrações de Luana Geiger é mais um livro deste autor que procura resgatar suas origens através da literatura e apresenta estórias que falam em mitos e lendas indígenas.  

            Yaguarê Yamã é autor de mais de dez livros e “Sehaypóri” foi selecionado pelo catálogo White Ravens para a Biblioteca de Munique e para a Feira de Bolonha. Espera-se que “Contos da Floresta”, seu livro mais recente, tenha o mesmo destino. 

            O leitor talvez não saiba o que significa “Sehaypóri’”. É uma palavra de origem “Sateré- Mawé” e indica a coleção de mitos, fábulas, lendas desse povo. É a Bíblia do povo Sateré-Mawé. Conta as crenças transmitidas de uma geração para outra.

            “Contos da Floresta” apresenta seis mitos e seis lendas. “Os mitos são matéria de fé e traduzem valores sagrados. As lendas também têm caráter mágico, mas não tratam de figuras ou elementos sagrados.” (2012: p.56).

            Os três mitos são: “História de Kãwéra”, “As makukáwas” e “História de Mapinguary”. As lendas: “O pescador e a onça”, “O bicho e o casamento”, “Dois velhos surdos.” Pelos próprios títulos, sentimos que as lendas estão mais próximas do ser humano, os mitos ligam-se ao divino.

            O povo Maraguá é conhecido por suas histórias de assombração e os três mitos apresentados vêm marcados por histórias de magia e suspense.   “História de Kãwéra” – Kãwéra é um mito amazônico que tem corpo de homem, garras e asas de pássaro.  É protetor da floresta e dos animais e não admite ser contrariado. Nessa história, um caçador por  desafiar as ordens de um kãwéra é levado para uma gruta e se transforma em um novo kãwéra.

            “As makukáwas” - Makukáwa é um pássaro amazônico que, segundo a religião dos Maraguá e Sateré, é um bicho “visagento”. Visagento significa visagem. Neste mito, um homem sai para caçar e mata muitas makukávas, muito além do que necessitava para comer. Por conta dessa ambição desmedida, é admoestado por Makukawaguá, pai dos pássaros makukáwas, e recebeu esta lição: “De hoje em diante, você só matará pássaro para seu consumo, caso contrário, eu voltarei e não darei perdão”. (p.24).

            “História de Mapinguary” – Mapinguary é uma entidade maligna da floresta com o corpo coberto de pelos e uma grande boca situada na altura do estômago.

            Mais uma vez estamos diante de um mito ligado à caça.  Dois amigos partem para caçar e encontram um lindo pedaço de carne pendurado em uma forquilha. Um deles resolve comer aquele pedaço de carne, o outro fica receoso e avisa ao amigo que deve ser artes de Mapinguary. Indiferente aos conselhos do mais avisado, o teimoso comeu e foi deitar satisfeito em uma rede. Não consegui dormir direito, era só cochilar que vinha uma “visaje” e o jogava no chão, assim passou a noite, da rede para chão, do chão para rede.

            Quando o dia amanheceu, o homem que não havia comido da carne, levantou-se e foi chamar o amigo. Chamou, chamou e não obteve resposta. Resolveu ir até à rede do amigo e notou que ele estava embrulhado em um lençol, apenas com a cabeça de fora. Os olhos estavam arregalados denotando espanto. Chamou-o novamente e não sentiu nenhuma reação, resolveu puxar o lençol e tomou um grande susto – o corpo do amigo não estava lá, apenas a cabeça. O Mapinguary tinha levado o corpo. A artimanha do Mapinguary continuou e outros rapazes comeram as carnes deixadas nas forquilhas e tiveram o mesmo destino – todos foram transformados em mapinguarys.          

            Este terceiro mito é o mais longo e o mais cruel. Aqui não se reverencia a bravura e a verdade. É um mito cheio de suspense e de medo.

            As lendas são mais humanas e as histórias mais amenas. “O pescador e a onça” é um relato de amizade entre um homem e uma onça; “O bicho e o casamento” é uma versão indígena de um conto popular – um homem tinha quatro filhas, todas muito bonitas, mas não queria que elas se casassem. Um caçador muito valente chegou à aldeia e apaixonou-se por uma das filhas do pai ciumento. Para conseguir realizar seu desejo, teria que matar um bicho que estava devorando a sua plantação de mandioca. O trato foi feito e o rapaz consegue capturar e matar o monstro que era a própria mãe das moças que à noite se transformava em monstro.

            A última história – “Dois velhos surdos” é bem engraçada. Um casal de velhos ouvia muito pouco e se tornava difícil a comunicação entre eles. Por conta dessa deficiência auditiva, são vítimas de “visajes”.   

            Yaguaré Yamá afirma que algumas dessas histórias foram criadas por ele, outras foram recontadas,  amparadas em histórias tradicionais e narrativas dos seus antepassados.

            Não poderia deixar de fazer referências às ilustrações de Luana Geiger. A artista usou poucas cores, apenas cores primárias – o amarelo, vermelho e azul, a única exceção é o verde para simbolizar a floresta, mas tanto os desenhos como as ilustrações representam bem o clima de medo, espanto, amizade e afeto. 

  

            LIVROS PARA BIBLIOTECAS

            Segundo dados da pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil”, as bibliotecas escolares são essenciais na formação do leitor e o Nordeste é carente de bibliotecas. Algumas escolas não possuem nem mesmo um local de leitura.

            Em 2012, através do projeto “ Mandala de Livros”, fizemos as seguintes doações de livros de literatura infantojuvenil para bibliotecas públicas e escolares:

            Março de 2012 – Biblioteca da Escola Municipal Agostinho Fonseca Neto – 200 livros

            Maio de 2012 – Biblioteca da Escola Piolin: 50 livros. Cristina Strapação foi a intermediária da entrega dos livros

            Junho de 2012 – Biblioteca da Comunidade da Penha: 100 livros.  William Costa foi o intermediário da entrega dos livros

            Agosto de 2012 – Biblioteca Pública Estadual – General Osório: 250 livros

            Novembro de 2012 – Biblioteca da Escola Municipal Augusto dos Anjos: 200 livros

            Dezembro de 2012 – Biblioteca Pública da cidade de Cuité: 150 livros. Yó e Cláudio Limeira foram responsáveis por esta doação.

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