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domingo, 14 de abril de 2013

A POÉTICA DA ILUSTRAÇÃO



A POÉTICA DA ILUSTRAÇÃO
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB)


O mais interessante na ilustração é o enigma. Não se pode trabalhar com o explícito. A lógica e a clareza são feudos do design. A ilustração é sinuosa, não é reta. O importante é justamente criar narrativas paralelas.
(Rui de Oliveira. Traço e Prosa, p. 41). 


Três livros publicados entre 2008 e 2012 sobre ilustração fornecem informações importantes para compreender melhor o valor e o papel da ilustração nos livros infantojuvenis. São eles: “O que é qualidade em ilustração no livro infantil e juvenil: com a palavra o ilustrador” (DCL: 2008), organizado por Ieda Oliveira, “Livros ilustrados: palavras e imagens”, de Maria Nikolajeva e Carole Scott (Cosac Naify, 2011) e “Traço e Prosa” (Ed. Cosac Naify, 2012), entrevistas com ilustradores de livros infantojuvenis por Odilon Moraes, Rona Hanning e Maurício Paraguassu).
            Vamos começar com o livro organizado por Ieda Oliveira. – “O que é qualidade em ilustração no livro infantil e juvenil: com a palavra o ilustrador”.  Dividido em duas partes, está assim delimitado: Na primeira parte, artigos escritos por ilustradores que refletem sobre a qualidade da ilustração nos livros destinados às crianças e aos jovens; na segunda, depoimentos de ilustradores sobre o próprio fazer artístico.
            Sete ilustradores discorrem sobre aspectos teóricos ligados à ilustração e 14 trazem, em textos sucintos, uma observação bem pessoal sobre os caminhos da ilustração.  
            Nos artigos, destaca-se o texto de Rui de Oliveira, experiente ilustrador e professor de Artes no curso de Comunicação Visual da UFRJ durante trinta anos. Atualmente, aposentado da UFRJ, dedica-se à ilustração de livros.  Rui apresenta um histórico sobre a ilustração do livro infantil e juvenil. O período selecionado pelo ilustrador foi o do século XIX até a década de 1930. Os exemplos apresentados vão de autores estrangeiros aos nacionais. O autor justifica a escolha desse período pelo surgimento e a consolidação profissional dos ilustradores especializados em histórias para crianças.
            Nos depoimentos, vale a pena transcrever o que disse Maurício Veneza:
A relação entre imagem e texto na obra ilustrada não deve ser de vassalagem, e sim de associação. A analogia mais simples que me ocorre é com a música popular. A música de Tom Jobim, por exemplo, tem força própria e independência, assim como os versos de Vinicius de Moraes. Mas, quando se juntam, formam uma terceira coisa que difere das duas anteriores e que não existiria sem essa associação. O mesmo acontece com o livro ilustrado. (2008: p. 185).
“Livro ilustrado: palavras e imagens” é um marco fundamental da pesquisa sobre a teoria da ilustração e explora diversos aspectos do “picture books”, examinando diferentes estilos verbais e icônicos. Como este livro está voltado para autores estrangeiros, fizemos a opção pelos dois livros que discutem a ilustração nos livros brasileiros.
            “Traço e Prosa” é o mais recente, traz entrevistas com 12 ilustradores brasileiros e muitas ilustrações dos livros dos entrevistados. Estão presentes neste livro os seguintes ilustradores: Alcy Linhares, Ângela Lago, Eliardo França, Eva Furnari, Graça Lima, Helena Alexandrino, Mariana Massarani, Nelson Cruz, Ricardo Azevedo, Roger Mello e Rui de Oliveira.
            Para escrever este livro, os organizadores partiram de conversas em ateliês de renomados ilustradores na companhia de suas obras e utilizaram obras de referência sobre o assunto além de catálogos de exposições, como o da Feira de Bolonha e da Bienal de Bratislava.  
            Com o propósito de dar uma melhor organização às entrevistas, Odilon Moraes, Rona Hanning e Maurício Paraguassu dividiram-nas em três tipos de abordagem: histórico-sociológica, pedagógica e formalista. 
            No que se refere à linha histórico-sociológica, os trabalhos de Marisa Lajolo e Regina Zilberman sobre a história da leitura e do livro no Brasil foram de grande valia, bem como as edições da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil.
            Quanto à parte pedagógica, foram extraídos elementos que apontam para a compreensão do livro ilustrado dentro do processo educacional do país. Os trabalhos de Nelly Novaes Coelho reforçam a importância desta autora no panorama nacional da literatura para crianças e jovens no Brasil.
            Na rubrica formalista, vamos encontrar um leque bem variado de estudos, com destaque para a semiótica e as investigações que analisam as relações entre palavra e imagem. Os trabalhos de Rui de Oliveira, Luís Camargo, Guto Lins e Perry Nodelman foram somados às pesquisas de Maria Nikolajeva e Carole Scott e Sophie Van der Linden.
            Dentro dessa linha, indicamos os livros dos autores brasileiros: “Pelos jardins Boboli”, de Rui de Oliveira (Ed. Nova Fronteira), “Ilustração do livro infantil”, Luís Camargo (Ed. Lê) e “Livro infantil?”, de Guto Lins (Ed. Rosari).
            Esses breves comentários nos levam a concluir que a ilustração ocupa um papel preponderante nos dias atuais.  Para bem ilustrar livros para crianças é necessário se imbuir do espírito da poética da ilustração.
(Texto publicado no jornal “Contraponto”. João Pessoa, abril de 2013).

            NOTA:

            No dia 26 de março, a editora COSAC NAIFY foi a vencedora na Feira de Livros Infantis de Bolonha do Prêmio “Melhores Publicações para crianças e jovens em 2012”. O livro “Traço e Prosa”, comentado nesta coluna, é desta editora

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