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segunda-feira, 16 de setembro de 2013

CORDEL E LITERATURA INFANTIL



CORDEL  E  LITERATURA  INFANTIL
            (Neide Medeiros Santos – FNLIJ/PB)


            No Brasil, o problema da Arte popular identifica-se, pois, com a própria Arte nacional. Entre nós, só a Arte e Literatura populares – ou a Arte e a Literatura a ela ligados – são verdadeiramente brasileiras pelo caráter, pelos temas, pelas formas.
            (Ariano Suassuna. Apresentação do livro “Poesia e gravura de J. Borges,” do xilógrafo e cordelista J. Borges)

            Bráulio Tavares, no livro “Contando histórias em versos: Poesia e Romanceiro Popular no Brasil” (Ed. 34, 2005), afirma que a literatura de cordel nordestina é uma parte do romanceiro e que adquiriu um perfil próprio, embora o folheto de cordel não tenha sido inventado no Nordeste.
            Os folhetos já existiam em Portugal e um folheto mais longo como “A Princesa Magalona” é uma história de origem europeia; ao chegar ao Brasil,  aqui sofreu adaptações dos cordelistas brasileiros.
            No Brasil imperial, vendiam-se folhetos nas ruas e Machado de Assis cita esse fato em uma de suas crônicas. No conto “Uns braços”, ambientado no Rio de Janeiro, há referências à venda de folhetos nas ruas do Rio.
            Os folhetos não nasceram no Nordeste, mas aqui criaram raízes e aqui se fixaram. Raymond Cantel, professor e estudioso do cordel  esteve diversas vezes no Brasil, visitou e deu cursos sobre cordel na UFPB.  Para Cantel, a literatura popular existe em outros países, mas nenhuma é tão relevante quanto à do Nordeste. Ele também definiu, de maneira muito simples, o que é o cordel: “é uma poesia narrativa, popular, impressa.”.
            O cordel recebe outra denominação – “folheto de feira”, isso porque era vendido nas feiras livres das cidades do interior nordestino. Em Recife, no Mercado São José, de 1930 a 1950 encontravam-se muitas bancas que vendiam folhetos, ainda hoje é possível encontrar alguém vendendo folhetos nesse mesmo mercado, mas em número bem reduzido.
            O poeta pernambucano Marcus Accioly, um apaixonado pelo cordel, assim definiu o cordel: “É um tipo de literatura do povo – literatura de cordel – escrita em livrinhos mal acabados, de 11 por 15 centímetros, que se padronizam (através do papel dobrado em quatro) com 8, 16, 24, 32, 48 e 64 páginas. O cordel de 8 e 16 páginas é chamado folheto, o de 24 e 32 é conhecido como romance, e o de 48 e 32 páginas, bem como o que aparece seriado e em mais de um volume, é o romance exagerado”. ( Guriatã: um cordel para menino. 2006: p.187).
O paraibano Leandro Gomes de Barros é considerado um dos pioneiros do cordel no Brasil, ele foi responsável pela iniciativa do movimento editorial do cordel, juntamente com outro paraibano – Francisco das Chagas Batista. Tudo isso no início do século XX. Leandro Gomes de Barros faleceu em 1918, no Recife,  e Chagas Batista em 1930, em João Pessoa.
Em 1950, outro paraibano, Manoel Camilo dos Santos, criou a editora “Estrela da Poesia”, inicialmente na cidade de Guarabira, depois  se transferiu para Campina Grande e continuou imprimindo seus folhetos e de seus amigos cordelistas. Manoel Camilo desapareceu e com ele a sua tipografia. O seu folheto mais famoso é “Viagem a São Saruê” que apresenta inúmeras afinidades com “Viagem ao Céu”, de Leandro Gomes de Barros.
 A partir dos anos 1980, morando e radicado em Campina Grande, vamos encontrar o cordelista pernambucano Manoel Monteiro que faz um trabalho de resgate  dos vultos da Paraíba que se destacaram nas letras, nas artes e na política.  O trabalho de Manoel Monteiro é tão importante que o projeto de levar sua produção de cordel às escolas foi aprovado pelo FIC- SECULT/PB e seus folhetos são lidos e discutidos em salas de aulas nas escolas públicas do Estado.
Os bibliotecários da Fundação Casa de José Américo – Nádigila, Francisco de Assis, o professor Bené e Tatiana – estão organizando o acervo sobre cordel disponível na biblioteca da FCJA.  De Manoel Monteiro, já foram catalogados mais de 120 folhetos. Ligados à literatura infantil, encontramos esses folhetos de Manoel Monteiro: “Chapeuzinho Vermelho”, “O cavalo encantado”, “O gato de botas”, “A gata borralheira”, “A dança das 12 princesas” e “Os três cabelos do diabo”.
O folheto de feira ou cordel é apresentado em forma de poesia, geralmente em sextilhas em que o 2º, 4º e 6º versos rimam entre si, os outros não precisam rimar.  Sextilha é uma estrofe com seis versos de sete sílabas, mas encontramos folhetos com sete versos (sétima), oito (oitava) e até com 10 versos (décima).
O exemplo que vem a seguir é de Manoel Monteiro, uma estrofe em sétima, a preferida deste autor:


A Chapeuzinho Vermelho
Um dia alegre brincava
Atrás de uma borboleta
Que de flor em flor pousava
Nisso ouviu a mãe chamar
E dar-lhe um cesto a levar
Para a vó que o aguardava.
(Manoel Monteiro. Chapeuzinho Vermelho. Versão versejada).
 
 Existe uma preocupação muito grande entre os cordelistas com relação às rimas, à musicalidade e à métrica. As composições devem ser bem rimadas, musicais e metrificadas. O poeta pode ser analfabeto ou semianalfabeto, mas deve ter bom ouvido, saber rimar e metrificar seus versos.
( Texto publicado no jornal “Contraponto”. Paraíba, 13 a 19 de setembro de 2013. Caderno B-4).  
 

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