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sábado, 8 de março de 2014

O poder da natureza e da poesia







                             “O poder da natureza” e da poesia
            (Neide Medeiros Santos – Leitora-votante FNLIJ/PB)


                                                  Quanto é grande o poder da natureza.
                                                 (Bráulio Tavares. O poder da natureza).



            Dois livros de poesia de autores paraibanos publicados no 2º semestre de 2013 vieram enriquecer a lírica paraibana – “O poder da natureza” (Ed. 34), de Bráulio Tavares, ilustrado por Jô Oliveira e “Ciclo vegetal” (Ed. Forma/Gráfica JB), de Juca Pontes, capa e projeto de Milton Nóbrega e fotografia de Cácio Murilo.
            Bráulio Tavares escreveu romance, livros de contos, crônicas, cordel e literatura infantil. No gênero de livros infantis, ganhou dois importantes prêmios:  Melhor Livro Infantil do Ano (2006) pela – APCA – Associação Paulista de Críticos de Arte com o livro “O flautista misterioso e os ratos de Hamelin” (Ed. 34), em 2006,  e o Prêmio Jabuti pelo livro “A invenção do mundo pelo Deus-curumim” (Ed. 34) – Melhor Livro Infantil de  2009.
            “O poder da natureza” (Ed. 34, 2013) é um retorno à literatura de cordel, gênero muito utilizado por Bráulio em seus livros para o público infantil. Neste livro, que contou com bonitas ilustrações  de Jô Oliveira, são apresentados 15 poemas que seguem o modelo de um “martelo agalopado”, modalidade poética  utilizada pelos poetas nordestinos em suas cantorias de versos improvisados. O consagrado ilustrador Jô Oliveira fez as ilustrações com o emprego de xilogravuras, o que condiz muito bem com o cordel.  
            O martelo agalopado é formado por uma estrofe de dez versos decassílabos, isto é, todos os versos apresentam dez sílabas. Há um detalhe no martelo agalopado que merece ser registrado – ele é cantado ou recitado velozmente, de um só fôlego, numa verdadeira torrente de rimas, num martelar sem pausas, sugerindo o galope de um cavalo.
            O poema que abre o livro é uma louvação à malícia (sensitiva), uma plantinha muito sensível que se encolhe toda quando alguém toca em suas folhas. Todos os outros poemas são dedicados aos animais – baleia, camelo, aranha, abelha, pelicano, gato, escorpião, lagartixa, pavão, castor, João-de-barro e vagalume.
            Está enganado quem pensa que Bráulio Tavares se utilizou apenas de sua verve poética para escrever esse livro, nada disso, ele procurou saber como cada animal reage em determinados circunstâncias, seus hábitos alimentares, como alimentam os filhotes e como as aves fazem seus ninhos.
             
            O exemplo que vem a seguir comprova o que afirmamos, tanto no aspecto técnico como semântico: 

                    Quando um gato-do-mato, no sertão,
        por alguma armadilha é apanhado,
        muito tempo ele fica aperreado
        sem poder encontrar a solução.
        Ele aí faz das tripas coração,
        mete o dente na pata que está presa,
        vai roendo com toda ligeireza,
        corta a pata e nem liga para a dor...
        Dá lição de heroísmo ao caçador
        pelo grande poder da Natureza.    
           
             São esses detalhes que  enchem de  surpresa e admiração que o poeta foi buscar nas suas pesquisas. Ele se utilizou do cordel para expressar  beleza poética e transmitir  conhecimentos científicos.
            Lembramos que este livro foi lançado por Bráulio  Tavares na Feira de Livros Infantis na Semana da Criança ( outubro de 2013),  no Zarinha Centro de Cultura, e que contou também  com a presença do xilógrafo Marcelo Soares.
            LEITURA RECOMENDADA:
            Ciclo vegetal: a presença das águas.
            “A água anônima sabe todos os segredos”
            (Gaston Bachelard. A água e os sonhos).
            O livro de Juca Pontes “Ciclo vegetal” é composto de poemas minimalistas.  Não foi escrito para crianças, mas há muitos poemas que serão lidos e apreciados pelos pequenos.
            A fonte inspiradora é a água dos rios e do mar, “todas as águas”, para utilizar uma expressão cara ao poeta Lúcio Lins. As águas dos rios estão presentes   em muitos poemas e lembramos aqui Políbio Alves com a louvação ao rio Sanhauá;   o mar, presença constante na poesia de Lúcio Lins, encontra um porto seguro em Juca Pontes.  As capas retratam, respectivamente, rastros de pés na areia molhada da praia e ondas que se quebram na beira mar, formando uma espuma branca e transparente.
            O livro vem guardado em uma caixa e encaminhamos o leitor para Bachelard, o filósofo/poeta das águas, dos espaços oníricos. Caixas e gavetas apresentam afinidades, servem para guardar, muitas vezes, coisas preciosas e o  livro é um objeto precioso. Quem duvida?
            Com o título “Leveza e precisão”, Hildeberto Barbosa Filho escreveu o prefácio e afirma que “Ciclo vegetal” se impõe como grata surpresa na lírica paraibana e Sérgio de Castro Pinto, responsável pelo posfácio, ressalta que “Ciclo vegetal” é uma poesia de reflexão, de versos pensados, pesados e medidos.
            Dentro do universo poético deste livro, dividido em 17 momentos, alguns deixaram marcas e cito: “Oceano” – pela presença do mar; “Raízes” que traz de volta a infância perdida: “Borborema, rainha” pela afetividade que sentimos pela mesma cidade – Campina Grande.  
            Escolhemos um poema do livro para expressar o poder da poesia e da natureza no “itinerário lírico”, de Juca Pontes:
            Outono
            1
            Sol e lua
            rio e mar

            compõem
            a paisagem

            de forma
            singular.
              
            Seria difícil selecionar os poemas ligados à infância, às brincadeiras infantis, ao lúdico, ao jogo de palavras, são muitos e todos condizem com o espírito irrequieto de quem está descobrindo a vida.
           
  

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