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segunda-feira, 10 de julho de 2017


                                   Livros que falam
            (Neide Medeiros Santos – Leitora votante FNLIJ/PB)
                        Ler é sonhar pela mão de outrem.
                                    (Fernando Pessoa)

            Pessoas que gostam de ler livros é um caso bem comum, mas livros que leem pessoas é alguma coisa estranha. “O livro que lê gente” (Ed. Cortez, 2016), de Alexandre de Castro Gomes, ilustrado por Cris Alhadeff, conta a história de livros falantes que moram em uma biblioteca.

            Na biblioteca pública de uma cidade não identificada, os livros velhos e pouco lidos ficavam sempre localizados nas prateleiras mais altas das estantes. Afinal os leitores nunca procuravam por aqueles que estavam carcomidos pelo tempo, apresentavam manchas amareladas, alguns estragados pelas traças, esses não precisavam ficar em local acessível.  Vez por outra chegava um livro velhinho e vinha fazer companhia aqueles mais antigos. 

            À noite, quando a biblioteca fechava as portas, os livros saiam dos seus lugares e conversavam sobre suas próprias histórias. Aladim era um dos habitantes da casa, tinha muita história para contar e sentia-se desprezado.   Crianças e jovens procuravam livros mais modernos que falavam sobre futebol, esportes, vampiros, terror. Isso deixava Aladim muito triste. O novo companheiro, Pinóquio, era mais otimista. Aguardava novos leitores e começou a contar para Aladim as peripécias do boneco de madeira que tinha encantado crianças do mundo inteiro.

            Lamentar o desprezo dos leitores não adiantava muito, Pinóquio afirmou que seria bem melhor observar os frequentadores da biblioteca. Aladim confessou que achava muito divertido ler as pessoas.  Chamou a atenção do amigo para um menino de dez anos que lia um livro sobre esportes. Estava com a roupa que apresentava manchas de barro, devia ter vindo de um treino de futebol. A menina, sentada ao lado do menino, tinha outros interesses – segurava um livro sobre vampiros. Era possível sentir pela fisionomia o interesse de cada leitor.

            A bibliotecária supervisionava tudo. Chamava-se Anita. Pinóquio perguntou a Aladim se ele já tinha lido a história da bibliotecária. Morando há algum tempo na biblioteca, claro que ele sabia de muitos fatos relacionados com a vida de Anita. Havia um rapaz que vez por outra visitava a biblioteca e  deixava a bibliotecária toda suspirosa. Devia ser seu namorado, ela se dirigia ao rapaz de forma carinhosa, chamava-o de “Mozinho”.  Ele gostava de ajudar a arrumar os livros nas prateleiras. Depois de certo tempo, “Mozinho” desapareceu. Anita agora vivia triste, olhava para a janela com um olhar comprido, suspirava cada vez mais. Um dia, Anita amanheceu toda alegre. Trazia uma carta na mão, certamente era do namorado. Guardou a carta na gaveta. Abria a gaveta, tirava a carta e lia, relia, fez isso inúmeras vezes. Acredito que as noticias eram boas. O semblante da bibliotecária denunciava sua alegria. O resto da história eu não conto não.

            Vamos conhecer um pouco do autor do livro e da ilustradora. Alexandre de Castro Gomes já escreveu inúmeros livros para o público infantojuvenil. Atualmente é o presidente da Associação de Escritores e Ilustradores de Literatura Infantil e juvenil (AEILIJ). Recebeu vários prêmios nacionais, entre eles o Prêmio Cidade de Manaus de Teatro Infantil.

Cris Alhadeff tem formação em Desenho Industrial pela Escola de Belas Artes da UFRJ.  Como ilustradora, já participou do Catálogo de Bolonha e foi a idealizadora e uma das fundadoras do movimento “Nós, Ilustradores, somos Autores”.  Esse movimento tem por objetivo informar sobre a importância e o peso da ilustração na literatura infantil e juvenil.

            Na ilustração deste livro, há um detalhe que chama a atenção do leitor – a presença de um gato em todas as páginas. Às vezes o bichano apresenta um ar sonolento, fica circunspecto se o momento exige atenção, risonho quando tudo está bem. É companheiro dos usuários da biblioteca, de Anita e dos livros.  É um personagem observador que tem um papel tão importante na história quanto os outros personagens.

            Se você gostou desse breve resumo da história, procure ler o texto na íntegra, irá descobrir muita coisa que não foi revelada, inclusive o teor da carta que Anita recebeu. Ainda há outras boas surpresas nesse livro.

            LEITURA RECOMENDADA

            O editor José Xavier Cortez completou 80 anos. Para marcar esta data, a Cortez Editora lançou o livro “Cortez em seus 80 anos” que conta um pouco da vida desse nordestino de Currais Novos (RN).  A vida de um menino pobre, nascido no sítio Santa Rita, que se tornou livreiro e, posteriormente, dono de editora, é um exemplo para todos aqueles que acreditam no poder da leitura e do estudo.

            O livro se inicia com depoimentos das filhas do editor e termina com uma entrevista que inclui alguns fatos do cotidiano de José Cortez. Um dos capítulos – “O cidadão Cortez” apresenta fatos ligados às suas atividades como livreiro e editor. A experiência no ramo proporcionou curiosas histórias que descrevem bem o homem e a índole de Cortez. Certa vez, um professor confessou que roubara livros da Livraria Cortez. A reação do livreiro ao saber da história foi desejar que os livros surrupiados tivessem ajudado a formar alunos que demonstrassem apreço ao livro e ao conhecimento. Um assalto à editora também foi motivo para dar  uma lição a um dos assaltantes. Era um rapaz nordestino como ele. Na conversa com esse assaltante, ofereceu-lhe dezoito livros recém-lançados da linha infantojuvenil com esta recomendação: “Garoto, espero sinceramente que estes livros ajudem seus filhos a não terem uma vida como a sua.”.   


            Com duas biografias publicadas: “Cortez- a saga de um sonhador” (finalista do Prêmio Jabuti) e “Como um rio – o percurso do menino Cortez”, destinado ao público infantojuvenil, José Xavier Cortez relembra sua trajetória em prol do livro e da leitura com muito orgulho. Sente-se realizado com tudo que conquistou, mas principalmente com o que fez para tornar uma sociedade mais justa e mais consciente através do conhecimento dos livros.

2 comentários:

Alexandre de Castro Gomes disse...

Obrigado! Adorei a resenha!

Anônimo disse...

Amei a resenha !