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sábado, 6 de setembro de 2008

kafka um carteiro de bonecas


Artigo - Kafka - um carteiro de bonecas
"Só a inocência e a ignorância são Felizes, mas não o sabem". (Fernando Pessoa. O horror de conhecer. Segundo Tema, V. In: Poemas Dramáticos).
Neide Medeiros Santos, Professora e Crítica Literária (FNLIJ/PB)
O escritor Franz Kafka viveu uma experiência bem singular um ano antes de sua morte - passeando, certo dia, pelo parque Steglitz, em Berlim, encontrou uma menina chorando. Qual seria o motivo daquele choro? Dirigiu-se à pequena, indagou-lhe o porquê do choro tão desconsolado e ela lhe explicou que havia perdido uma boneca no parque. Para alegrar a menina, Kafka inventa uma história - a boneca não se perdera, ela estava viajando e resolve criar cartas imaginárias escritas pela boneca endereçadas à menina, transformando-se, assim, em um carteiro de bonecas.
Este é o pequeno resumo da história de Jordi Sierra i Fabra - "Kafka e a boneca viajante", Ed.Martins Fontes, 2008, traduzido por Rubia Prates Goldoni, com ilustrações em tons neutros de Pep Montserrat.
Com esta bonita e comovente história, junção de um fato real e muita imaginação, Jordi Sierra ganhou o Prêmio Nacional de Literatura Infantil e Juvenil em 2007, concedido pelo Ministério de Cultura da Espanha. O autor é natural de Barcelona e, nesta cidade, criou a Fundação Jordi Sierra i Fabra e a Fundação Taller de Letras para a América Latina, na Colômbia, onde desenvolve um trabalho com crianças e jovens visando estimular o gosto pela leitura.
Vamos ao encontro do carteiro de bonecas e falar um pouco sobre essa trama que envolve um escritor e uma menininha que se sente feliz por receber cartas de uma boneca.
Para escrever esta bonita história, Jordi Sierra i Fabra se baseou em depoimentos de Dora Dymant que conviveu com Kafka nos seus últimos anos de vida, recriou as cartas que Kafka escreveu para a menina Elsi, a dona da boneca Brígida desaparecida em um banco de um parque de Berlim. (O nome da menina e da boneca são criações de Jordi Sierra i Fabra).
Foram 21 cartas endereçadas à menina, escritas de várias partes do mundo. Na primeira, Brígida tinha viajado para Londres e fala dos passeios pelo rio Tâmisa, da visita ao Picadilly Circus, das caminhadas pela Trafalgar Square, até peças de teatro a boneca assiste.
Essas cartas vêm revestidas de ensinamentos para a vida, de conselhos, de frases poéticas.
A segunda carta vem de Paris e diante da pergunta da pequena:
"- O senhor pode ler para mim?" Vem a resposta: "- Claro" (p. 61)
E o narrador comenta:
"Nenhuma dúvida nem questionamento. Pelo menos essa era a parte do encanto infantil mais bem aproveitada pelos adultos: a credulidade". (p. 61)
As cartas vão chegando de lugares os mais distantes - Moscou, China, México, Colômbia, cruzam os mares, alargam os horizontes. Em duas semanas, foram catorze cartas. Mas, chega um momento que a boneca deseja descansar, ela viaja à Tanzânia e as coisas vão mudando pouco a pouco.
Se a história de uma boneca que escreve cartas condiz com o inverossímil, mais inverossímil se torna quando essa boneca se apaixona por um explorador da selva africana. É na Tanzânia que Brígida conhece um moço alto, bonito, chamado Gustav e o coração bate mais forte, ela está apaixonada e os dois vivem um grande e intenso amor.
E vem mais uma vez a voz do narrador:
"Franz Kafka permaneceu no parque, saboreando aquela sensação tão curiosa. Por um lado, a felicidade pelo trabalho bem-feito. Por outro lado, o prazer de seu ofício muito bem entendido. Era um alquimista de palavras e emoções, um mago da natureza humana." (p. 95).
Com o casamento da boneca, as coisas parecem que chegam ao fim, mas vem a surpresa final, Kafka compra e presenteia Elsi com uma linda boneca e os sonhos vão continuar. Até quando? Até a menina crescer e se apaixonar por um moço verdadeiro.
A boneca presenteada pelo carteiro de bonecas já vem com um nome. Adivinhem? Dora, a musa inspiradora de Kafka e sua companheira devotada.
Não poderia deixar de registrar esta passagem grávida de poeticidade que se encontra nas últimas páginas do livro. É o narrador que expressa o pensamento de Kafka através do discurso indireto livre: "Por que ele não encontrou um carteiro de bonecas quando era menino?
Por que sempre teve que enfrentar o pai?
Por que não havia bonecas viajantes na vida real?
A infância é o tempo de acreditar em bonecas. É na infância que existem os finais felizes. Mas são muito mais necessários na maturidade os carteiros capazes de receber cartas que só um louco é capaz de escrever" (p. 113-114).
Jordi Sierra i Fabra, o escritor/poeta catalão, conclui o livro explicando como surgiu esta história.
Kafka morreu no sanatório Kierling, perto de Viena, um ano depois desta história, estava com 41 anos de idade. Nunca se soube o nome da menina que perdeu a boneca nem tampouco foram encontradas as cartas escritas para a menina. O conhecimento desses fatos se deve à Dora Dymant que na época vivia com o escritor.
Klaus Wagenbach, estudioso da obra de Kafka, durante muitos anos procurou por essa menina nos arredores do parque, colocou anúncios nos jornais, foi tudo em vão.
E vem a justificativa do escritor Jordi (Jorge) para o leitor:
"Quanto a mim, permiti-me a transgressão: inventar essas cartas, terminar a história, dar-lhe um final imaginário. (...) O que aconteceu é tão belo que o resto carece de importância. A única coisa evidente é que aquelas cartas devem ter sido mais lúcidas que as recriadas por mim". (p. 125).
Não podemos comparar as cartas escritas pelo carteiro de bonecas e as cartas recriadas por Jordi. As de Kafka se perderam no emaranhado do tempo. Não vamos chorar pelo que se perdeu, resta-nos o consolo das bonitas cartas do escritor catalão

2 comentários:

elida disse...

O livro kafka e a boneca viajante ée um livro mt legal eu amii sse livroo eu conseguii ler ele todo!!pois eu nunka lii um livro todoo rsrsrsrs!!

Jorge Ramiro disse...

Kafka é um dos melhores escritores de sua geração. Eu tenho um petshop e eu trabalho em adestramento de cães, ao meu petshop eu nomeei Kafka, em homenagem ao grande escritor.