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sábado, 7 de março de 2009

Rubens Matuck: um artista de muitas faces


Artigo - Rubens Matuck: um artista de muitas faces

Multipliquei-me, para me sentir,
Para me sentir, precisei sentir tudo,
Transbordei, não fiz senão extravasar-me,
Despi-me, entreguei-me,
E há em cada canto da minha alma um altar a um deus diferente.
(Álvaro de Campos. Passagem das Horas)

Neide Medeiros Santos, Crítica literária da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil/PB

A vocação para as artes começou muito cedo na vida de Rubens Matuck. Oscar D´Ambrosio, crítico de arte da APCA, no livro biográfico "Contando a arte de Rubens Matuck" (Noovha América, 2005), afirma que, aos 12 anos, Rubens já mostrava tendências para o mundo artístico. Diante da inclinação do filho para as artes, o pai perguntou ao menino se ele desejava mesmo levar a sério essa atividade, o filho respondeu que sim e ouviu este conselho que guarda até hoje: "Então vai ter que fazer bem feito".

Seguindo a orientação do pai, Rubens Matuck é um artista que procura fazer bem feito trabalhos em aquarela, pintura a óleo, gravura, escultura, trabalhos em madeira e sementes e tem o reconhecimento da classe artística no Brasil e no exterior. É também um ardoroso defensor da natureza.

Formado em Arquitetura pela FAU/USP, começou a se destacar como artista ainda na faculdade com uma exposição em aquarela. Terminado o curso, realizou várias viagens de pesquisas, atualmente mantém em seu ateliê, em São Paulo, cursos de História da Arte e um canteiro de mudas de árvores de nossa flora para presentear aos amigos e àquelas pessoas que pensam em humanizar sua rua ou sua cidade plantando árvores. Profere palestras e dá aulas de Arte Ambiental em escolas de nível médio e superior.

Estudou pintura com Aldemir Martins, Flexor e Jorge Mori; gravura com Evandro Carlos Jardim e Renina Katz; escultura com Van Acker, fez também cursos de fotogravura e fotografia.

No ensaio "O olhar atento", Oscar D´Ambrosio considera Rubens Matuck um cronista de viagens e, na sua coleção de cadernos, estão registradas as viagens a locais como o Pantanal, a Amazônia. Estão presentes também, nesses cadernos, peixes, pássaros e árvores da rica fauna e flora do Brasil. É possível encontrar, ainda, nos seus "moleskines", imagens relacionadas com as fascinantes jornadas empreendidas pela China, Estados Unidos e Itália.

Oscar D´Ambrosio, no ensaio citado, chama a atenção para o interesse de Matuck pela arqueologia, as culturas do passado e o domínio do trabalho com papéis japoneses, esta última técnica utilizada como suporte na pintura e trabalhos delicados.

Aliado a tudo isso, Matuck é também ilustrador de livros infantis. Com a ilustração para o livro de Mário Quintana - "Sapato Florido", ganhou o prêmio Jabuti de Ilustração em 1993.

Em 2007, Nilson Moulin (texto) e Rubens Matuck (ilustração) publicaram, pela Editora Cortez, "Leonardo desde Vinci", que ganhou o prêmio "Melhor Livro Informativo" da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil.

Para escrever e ilustrar este livro, Moulin e Matuck fizeram três viagens à Itália em diferentes estações do ano, trilharam os caminhos de Leonardo e afirmam, em nota introdutória, que para conhecer bem Leonardo da Vinci não basta apenas ir a Florença e Milão, nem tampouco visitar museus e centros de estudos, é necessário começar pela cidade de Vinci, percorrer os "lugares de Leonardo", ler a "biografia fundadora" do toscano Giorgio Vasari sobre Leonardo da Vinci e ler muitos outros textos que falam, descrevem e interpretam os vários Leonardos.

Após estas considerações, vamos viajar pelas páginas do livro e conhecer um pouco dos artistas múltiplos: Leonardo, Moulin e Rubens. O texto de Moulin intercala aspectos biográficos da vida e da arte de Leonardo da Vinci com textos poéticos de autores consagrados. Matuck ilustra com desenhos, aquarelas, sanguíneas.

No início do livro, o leitor se depara com o belíssimo poema "Ítaca" (p.8-9) do grego Constantino Caváfys, traduzido por Jorge de Sena. A respeito do poema, Moulin comenta: Caváfys escreveu este poema "com olhos e coração voltados para a História Antiga do Egito e da Grécia, sonhando com o mosaico mediterrâneo..." (p.11).

Para ilustrar o poema de Caváfys, Matuck repetiu o texto em letra manuscrita utilizando o amarelo, laranja, vermelho, roxo e azul. Uma primeira leitura nos dá a impressão de que estamos diante de um amontoado de letras, examinando, com mais atenção, verificamos que é o mesmo poema com uma nova roupagem.

Nas páginas 26 e 27, quatro aquarelas retratam a cidade de Vinci em diferentes estações do ano. Um pequeno texto verbal fala sobre a pequena aldeia Vinci, na época de Leonardo, e o interesse que esta cidade desperta hoje aos visitantes e turistas.

Moulin recorreu a um texto de Stendhal (p.48) para descrever a cidade de Florença. Uma aquarela (p.49) apresenta a bonita cúpula da igreja de Santa Maria del Fiore, uma obra-prima de Brunelleschi.

Neste livro, encontramos aforismos, provérbios da tradição oral toscana, coletados por Leonardo e, entre os 18 provérbios elencados, pinçamos este pelo vínculo natureza/poesia:

"É muito mais difícil entender obras da natureza que o livro de um poeta". (p.58).

Leonardo tencionava organizar um livro de pintura, mas não o fez, um discípulo e amigo, o pintor Francesco Melzi, foi quem concretizou a idéia. Esse tratado se refere a conselhos de um professor a seus alunos. Destacamos, entre essas orientações, os passos que devem ser seguidos por um aspirante a pintor. Com o título "Tratado da Pintura", extraímos o primeiro princípio:

"O princípio da ciência da pintura é o ponto, o segundo é a linha, o terceiro é a superfície, o quarto é o corpo que se reveste de tal superfície..." (p. 81).

Depois da leitura do livro de "Leonardo desde Vinci", aflora o desejo de fazer o mesmo percurso de Moulin e Matuck - visitar Vinci, Florença, toda região da toscana em diferentes estações do ano, visitar os museus e as bibliotecas, sentir o deslizar do tempo e as mudanças das estações. Se não for possível realizar o sonho de uma viagem à região da toscana, contentemo-nos com a leitura do livro que permite conhecer um pouco da vida e da obra desse artista de muitas faces - Leonardo da Vinci. Rubens Matuck, pela multiplicidade de sua obra, também pode ser considerado um artista de muitas faces.

Saiba mais

Em parceria com o físico Walmir Cardoso, Rubens Matuck desenvolveu um projeto próximo ao de Fernando Pessoa. Na exposição intitulada "Viagem ao Urupin", o artista e o físico apresentaram cinco visões de um planeta, cinco artistas fictícios cada um com seu "modus operandi" e uma viagem a um locus imaginário.

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