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sábado, 13 de junho de 2009

Machado de Assis: jovens e crianças





Machado de Assis para jovens e crianças


NEIDE MEDEIROS SANTOS

Para que o prazer da leitura firme raízes e continue a ser cultivado pela vida afora, é de boa política não o atrelar, de saída, à esfera dos deveres escolares.
(José Paulo Paes. Por uma literatura de entretenimento ou o mordomo não é o único culpado).

O ano de 2008 registra o centenário da morte de Machado de Assis e foi considerado o Ano Nacional Machado de Assis. Para marcar essa data, surgiram, no mercado editorial brasileiro, vários livros para crianças e jovens que, de forma lúdica e criativa, centram-se nos personagens machadianos e na própria figura do Bruxo do Cosme Velho.
Moacyr Scliar, bibliófilo machadiano, escreveu dois livros para jovens que se caracterizam pelo lúdico e inventividade. O primeiro, Ciumento de Carteirinha (Editora Ática, 2006), finalista do prêmio Jabuti 2007, é centrado na história de Dom Casmurro.
O enredo gira em torno de quatro estudantes – duas moças e dois rapazes que se empenham na reconstrução da escola onde estudavam, destruída por um acidente. O cenário escolhido é a cidade de Itaguaí, a mesma cidade que serviu de cenário para o conto O Alienista. Os personagens Vitório, Fernanda, Júlia e Francesco (Queco) resolvem participar de um concurso literário na cidade vizinha – Santo Inácio. O tema do concurso é julgar e debater a traição de Capitu. Os vencedores ganhariam um bom dinheiro, quantia suficiente para reconstruir a escola. Com esse objetivo, o “quarteto” se articula para ganhar o prêmio, mas o ciúme entre Queco e Júlia segue os passos de Bentinho/ Capitu.
De maneira criativa e com grande destreza narrativa, Scliar recria Dom Casmurro, modernizando o enigma da traição de Capitu.
O menino e o bruxo, também de Moacyr Scliar e publicado pela Ática (2007), trata do encontro entre o menino Joaquim Maria, de 15 anos, e o escritor Machado de Assis, conhecido no bairro onde morava como o Bruxo do Cosme Velho. O encontro entre o menino Joaquim Maria, que vendia os doces feitos pela madrasta, e o escritor Machado de Assis acontece numa noite de Natal. Joaquim Maria é Machado de Assis quando jovem. Nesse romance juvenil, Scliar estabelece um jogo muito bem urdido entre passado, presente e futuro. Ele partiu do princípio de que o escritor Machado estava presente no garoto que mal freqüentou o colégio, que era pobre e vendia doces para ajudar no sustento da casa.
Tomando como base a biografia do autor de Memórias Póstumas de Brás Cubas, Scliar apresenta uma história instigante e justifica a inventividade de alguns fatos com a seguinte explicação: Podemos completar as lacunas na biografia de Machado com nossa imaginação. O autor de O Menino e o Bruxo afirma, ainda, que para escrever esse livro leu várias biografias e releu muitos livros do escritor carioca.
Mas não foram apenas os jovens que tiveram o privilégio de reviver as histórias criadas por Machado de Assis, as crianças não foram esquecidas e o leitor indaga intrigado: Machado de Assis para crianças?! Ele que é tão sério em tudo que escreve, embora goste da ironia! Mas a ironia é para os iniciados, aqueles que sabem ler nas entrelinhas. Será possível, Machado de Assis para crianças? Sim, e de modo muito interessante.
Sílvia Eleutério e Márcia Kaskus escreveram O Baú de Seu Machado (Editora Zeus, 2007), fruto de um trabalho que vêm desenvolvendo na Academia Brasileira de Letras com o título Ciclo de Leitura – Dramaturgia de Sempre. A finalidade desse projeto é apresentar autores consagrados para o público que freqüenta a ABL. Em 2003, as duas se reuniram e dramatizaram o texto infantil O Baú de Seu Machado que agora é transformado em livro pela Editora Zeus/ Lucerna.
Para fazer as ilustrações do livro foi convidado Victor Tavares que pesquisou muito sobre o Rio antigo, o Rio da época de Machado de Assis e com seu talento de ilustrador e desenhista criou cenários, casarios, ruas estreitas, lampiões, tudo à moda antiga.
Os personagens/habitantes do livro são aqueles criados por Machado de Assis. Figuram, entre outros, Quincas Borba (o cão), a cartomante Dona Bárbara Barbarrosa, Helena, o imperador D. Pedro II, Deolindo Venta-Grande e o próprio Machado de Assis. Todos são apresentados de maneira jocosa, exagerados no linguajar, nos trajes, na maneira de proceder.
A peça foi apresentada nos jardins da Academia Brasileira de Letras, no Rio de Janeiro, que tem servido de palco para essas apresentações, e alcançou tanto sucesso e interesse por parte do público que ficou um semestre inteiro em cartaz.
A Academia Paraibana de Letras dispõe também de um belo jardim que algumas vezes tem sido utilizado para lançamentos de livros, atividades culturais. Fica a sugestão para o presidente Juarez Farias – convidar um bom grupo teatral da Paraíba para representar uma peça para o público no jardim da APL com atores que tenham vivência no palco. O teatrólogo Tarcisio Pereira entende bem do riscado. Um dos contos do bruxo do Cosme Velho ou mesmo essa peça de Sílvia Eleutério e Márcia Kaskus poderia ser encenada como parte das homenagens da APL ao criador de Capitu. Repito: é apenas uma sugestão.
( Texto publicado no Jornal O Norte).

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