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sábado, 8 de agosto de 2009

Amor no tempo de madureza- ricardo azevedo







Livros & Leituras
Amor no tempo de madureza
(Neide Medeiros Santos – crítica literária FNLIJ/PB)
e-mail: neidemed@gmail.com

Deus me deu um amor no tempo de madureza,
quando os frutos ou não são colhidos ou sabem a verme.
(Carlos Drummond de Andrade. “Campo de Flores”).

Ricardo Azevedo é escritor, ilustrador e pesquisador de literatura popular. É bacharel em Comunicação Visual pela Faculdade de Artes da Fundação Álvares Penteado (FAAP) e doutor em Teoria Literária pela USP. Já escreveu mais de cem livros. Ganhou várias vezes o prêmio Jabuti e o APCA. Seus livros foram publicados em Portugal, México, França, Holanda e Alemanha. Em 2008, pela Editora Moderna, publicou Cultura da Terra, Papagaio come milho, periquito leva a fama! Vou-me embora desta terra, é mentira eu não vou não! Todos esses livros ligados à cultura popular.
Há um livro de Ricardo de Azevedo que fez muito sucesso entre a criançada nos anos 80 - Araújo ama Ophelia. Este livro reapareceu em 2006, revisto e ampliado, agora destinado a um público mais experiente. Veio com nova roupagem, até o título é outro – Chega de saudade (Ed. Moderna).
Na primeira versão, o motivo condutor da história era a derrubada de uma árvore em uma praça de São Paulo para dar lugar a um grande edifício. Dois velhinhos, Araújo e Ophélia, antigos colegas de escola e ex-namorados, protestam contra a atitude da construtora e tomam uma decisão – sobem na árvore e impedem que os empregados da construtora a derrubem. A história é curtinha e termina sem sabermos o destino dos personagens que se reencontram na maturidade da vida.
Ricardo Azevedo sentiu que a história precisava ter continuidade e resolveu reescrevê-la, acrescentando pormenores, misturando vozes, intercalando cartas. O livro se tornou mais volumoso e cheio de detalhes.
Na nova versão, ficamos sabendo que Ophélia era professora, viúva, aposentada. Seu único filho, André, morava com a mulher e três filhos na casa da professora. Araújo era solteiro, músico, aposentado e morava sozinho.
Ophélia tinha quase oitenta anos quando reencontrou Araújo e passava por uma crise pessoal, sentia-se velha, doente e inútil. Longe da cátedra, via o mundo desmoronar-se. Araújo havia tocado flauta e saxofone na Orquestra do Estado de São Paulo. Depois que deixou a orquestra, “reunia-se toda quarta-feira e sexta com os amigos músicos e varava a noite tocando e bebendo cerveja”. (p.39). Estava satisfeito e, ao contrário de Ophélia, achava a vida de aposentado uma delícia. Era quase da idade de Ophélia, ia completar 78 anos.
A partir desse reencontro, Ophélia mudou seu sistema de vida, arrumava-se para visitar o amigo, não se queixava mais de doenças, encontrava-se regularmente com o ex-namorado. Aceitando o convite de Araújo, resolveu partir para uma grande viagem e realizar um desejo acalentado há muitos anos – conhecer o Brasil. Essa decisão foi considerada insensata pelo filho, mas recebeu o apoio da nora e dos netos.
Durante um ano de viagens muita coisa aconteceu – conheceram a Floresta Amazônica, assistiram a um Quarup, subiram o rio São Francisco,visitaram o Pantanal, viram o carnaval e o maracatu de Olinda e o São João da Paraíba. Em uma das cartas endereçada ao filho, à nora e aos netos, Ophélia comunica que se casou com Araújo. Casaram-se na Igreja de Nossa Senhora das Graças, em uma pequena cidade de Goiás – Monte Alegre.
A história do amor de madureza traz uma surpresa no capítulo 18. Se o leitor for músico, poderá tocar o chorinho “Monte Alegre”, uma composição de Araújo para Maria Ophélia Fagundes. A partitura musical se encontra nas páginas 111 e 112.
Ricardo Azevedo afirmou, certa vez, que “ler é como viajar para outro universo sem sair de casa”. Ele tem razão. A leitura permite viagens imaginárias, descortina horizontes e ajuda a “compreender melhor sua própria vida, as outras pessoas e as coisas do mundo”.
Chega de saudade é uma viagem por ruas e praças de São Paulo, por paisagens brasileiras inesquecíveis. Aliado a tudo isso, possibilita o desvelamento do íntimo de seus personagens por meio da voz do narrador, leitura das cartas de Ophélia para o filho, a nora e os netos.
( Jornal Contraponto, Coluna Livros &Leituras, 10 de agosto de 2009, B2)

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