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sábado, 15 de agosto de 2009

José Mindlin e o baú de memórias da infância

















José Mindlin e o baú de memórias da infância
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária da FNLIJ/PB)
e-mail: neidemed@gmail.com

O grande teste do livro infantil é interessar aos adultos.
(José Mindlin. Transcrito do texto de Daniel Piza. “O menino travesso que amava livros”. O Estado de São Paulo. Sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008, Caderno 2).

José Mindlin sempre gostou muito de ler. Colecionar livros antigos foi a grande paixão de sua vida. Sobre essa saudável mania, o bibliófilo escreveu Uma Vida entre Livros, mas sentiu que estava faltando um texto que falasse sobre a sua infância. Reinações de José Mindlin por ele mesmo (Ed. Ática, 2008) veio suprir a lacuna.
Para entender o porquê da decisão de Mindlin de escrever um livro para crianças recorremos, mais uma vez, ao artigo de Daniel Piza, publicado no jornal O Estado de São Paulo:
O bibliófilo decidiu escrever um livro infantil depois que viu sua neta Ana, de 9 anos, lendo alguns autores brasileiros recentes. [...] E ao contrário do que se poderia esperar, não fez um texto sobre suas lembranças de leitor, uma versão para crianças de suas memórias Uma Vida entre Livros. Escreveu sobre as travessuras – as “reinações” - que cometeu ou testemunhou quando criança.
A capa do livro apresenta o retrato de um menino de olhar maroto e riso contido. O menino está vestido de marinheiro (tipo de roupa muito utilizado pelas crianças nas primeiras décadas do século XX). Devia ter cerca de oito anos de idade.
A artista plástica Luise Weiss, responsável pelas ilustrações, desenhou flores multicoloridas para complementar a paisagem do retrato que está na capa. A técnica da sobreposição (retratos, pinturas, desenhos) está presente em quase todas as páginas. A responsabilidade do projeto gráfico e da diagramação ficou a cargo da filha caçula do escritor, Diana Mindlin.
Só para despertar o desejo de saber um pouco mais sobre as travessuras do menino Mindlin segue o relato de algumas malandragens. Não vamos contar tudo, deixamos o resto para os leitores que, certamente, irão procurar o livro de Mindlin nas livrarias.
Vejam que a sagacidade do bibliófilo vem de longe.
Certa vez, na aula de Geografia, o professor pediu, em uma prova, que os alunos fizessem uma lista com o nome de dez cidades do Egito. Mindlin só sabia duas, não teve dúvidas – inventou nome para mais oito. Resultado: tirou dez na prova e ficou orgulhoso da malandragem. Em casa, contou a façanha ao pai, este lhe disse que devia pedir desculpas ao professor e contar que havia inventado aqueles nomes inexistentes. Ordem de pai não podia ser descumprida e, envergonhado, pediu desculpas ao professor. O melhor da história – o professor manteve o dez.
De outra vez, Mindlin estava de férias em Guarujá com os primos, e o pai havia sido operado em São Paulo. O menino escreveu uma carta para a família com estes dizeres: “espero que todos estejam bem, menos papai.” A família estranhou a maneira de se referir ao pai e o pequeno deu a seguinte explicação: papai não podia estar bem, ele tinha sido operado na véspera.
Esse Mindlin! A carinha malandra que está na capa do livro e se repete em outras páginas e já diz tudo – só pode ser parente do menino maluquinho.
Vale a pena transcrever o recado de José Mindlin que se encontra nas últimas páginas:
[...] gostaria de contar uma coisa que fiz em 1927, e que eu acharia ótimo que vocês também fizessem, mesmo que seja mais tarde: comecei a ir aos sebos de São Paulo para comprar livros! Foi assim que comecei a formar a biblioteca aqui de casa. Acho possível, vendo meus bisnetos de 5 anos, que vocês já tenham começado a formar a biblioteca de vocês – seria ótimo! Mas se ainda não começaram, pensem em fazer isso, porque ler e juntar livros é uma das coisas mais gostosas da vida! Dá vontade, como me deu, de também escrever livros, como este que escrevi para vocês. (2008: p.43)
E aqui vai o nosso recado: Conselho de quem entende de livros não merece ser desprezado.
O título deste artigo foi inspirado em texto crítico de Antonio Candido que se encontra no verso da capa de Reinações de José Mindlin por ele mesmo.

(Neide Medeiros Santos – Crítica literária da FNLIJ/PB)
e-mail: neidemed@gmail.com




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2 comentários:

Anônimo disse...

Parabéns pelo Blog!

Visite o nosso ....minervapop@blogspot.com

Rosana Campos disse...

Conheço-a pelas palavras de um estudioso da literatura infantil: Rosemar Coenga. Na última semana, tivemos o lançamento, aqui em Cuiabá-MT, do livro "Leitura e Literatura Infanto-Juvenil Redes de Sentido, e lá aparece um artigo de sua autoria, professora. Ao tentar descortinar os caminhos que engendram a leitura do texto poético, começa nos lembrando da ambiguidade de uma coisa e outra: o mundo dos "apressados" e o tempo destinado ao prazer calmo e refletido de uma leitura poética. E ainda que autores como Bauman (2009) insistam em nos ambientar na "vida líquida" na qual as coisas mudam e se apresentam num tempo muito curto e sem "permanência" solidificada, somos íntegros ao que exige um certo "ritual" e ao que conduz a novas descobertas.

Rosana Campos