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sábado, 5 de junho de 2010

Breves histórias de livros e de leituras


Breves histórias de livros e de leituras
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB)

A casa da ficção não tem uma, mas um milhão de janelas – ou melhor, um número incalculável de possíveis janelas.
(Henry James. A arte do romance)

Lígia Cademartori, ensaísta e tradutora, doutora em Teoria da Literatura (RS), já escreveu vários livros em que a reflexão recai sobre a criança, a literatura e a educação. O Professor e a literatura para pequenos, médios e grandes (Autêntica Editora: 2009), seu último livro, compreende depoimentos de escritores brasileiros e passagens envolvendo personagens ficcionais. Este livro conquistou o Prêmio “Melhor Livro Teórico” da FNLIJ, 2010, produção 2009.
Vamos seguir a trajetória de Lígia Cademartori em alguns desses ensaios, passando por histórias de livros e de leituras. No primeiro ensaio, “Literatura infantil: a narrativa e o tumulto do mundo”, a autora nos fala sobre o livro do jornalista Lloyd Jones: “O Sr. Pip”.
Llody Jones cobriu a guerra civil na década de 1990, na ilha de Bougainville. Esta ilha fica situada entre Papua - Nova Guiné e as ilhas Salomão. Por ordem do governo, os habitantes de Papua ficaram sem rádio, sem jornal, sem eletricidade e sem escola. Foi sobre essa experiência que o jornalista Llody Jones criou uma narrativa ficcional envolvendo o Sr. Watts, um professor improvisado que convoca as crianças da ilha a retornarem à sala de aula.
O professor não dispõe de material didático, mas é apaixonado por literatura e possui um único livro – “Grandes Esperanças”, de Charles Dickens. É através da leitura desse livro que o professor conduz os alunos ao mundo imaginário da ficção.
A professora Magda Soares, no prefácio que fez para o livro de Lígia Cademartori, afirmou que a leitura dos originais da ensaísta brasileira deu-lhe um desejo irreprimível de ler “O Sr. Pip”, adquiriu-o e sentiu-se imersa na própria ilha de Bounganville. (O livro de Llody Jones foi traduzido para o português pela Rocco, 2007).
“O menino e o poeta” é um ensaio que se inicia com o depoimento de Armando Freitas Filho sobre as atividades escolares nos idos de 1948. Na sala de aula, um cavalete era armado e sobre ele “colocavam-se cartazes com cenas coloridas, geralmente rurais” (2009: p.99) e o menino navegava naquelas paisagens e escrevia uma composição de 20 a 30 linhas. Ali estava nascendo o futuro poeta.
A realidade vivenciada por Armando Freitas Filho foi a mesma de muitos meninos e meninas do Brasil nos anos 40 e 50 do século XX. O livro Memórias “Rendilhadas: vozes femininas” (João Pessoa: UFPB, 2006), que reúne depoimentos de 15 mulheres leitoras, é um bom exemplo do ler e do escrever no Nordeste brasileiro na segunda metade do século XX.
Em “A construção e o vazio”, a ensaísta chama a atenção para a distinção entre “literatura infantil” e “mero livro para criança”. No primeiro caso, ela cita a obra de Bartolomeu Campos de Queirós, autor que se destaca pela criação de um mundo próprio, de uma literatura que reage ao mundo fora do texto, que revoga as suas leis naturais, reverte e revisa seus postulados, suas crenças. E vem esta afirmativa:
“... um livro de literatura não serve como porta-voz de nenhuma causa, programa, doutrina, ideologia. Não prega. Não faz propaganda de nada. Não se submete ao politicamente correto. Não representa interesse de ninguém, porque uma de suas funções é construir contra-afirmações às crenças de todo tipo”. (2009: p. 50)
A autora não se detém nos livros considerados “mero livro para criança”, mas por seus comentários sobre “livro de literatura infantil”, tomando como exemplo textos de Bartolomeu Campos de Queirós, deduzimos que seriam aqueles que não privilegiam a fantasia, que doutrinam, diidatizam, não surpreendem o leitor, são por demais plausíveis.
Vamos procurar ler e indicar livros que abram milhões de janelas. A seleção rigorosa feita pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) e a atribuição de prêmios nacionais é um dos caminhos.

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