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sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Ondjaki: expoente da moderna literatura angolana





Ondjaki: expoente da moderna literatura angolana
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária da FNLIJ/PB)

que o céu dançante, vestido de estrelas caintes, possa bailar outra e outra vez, que as crianças aprendam sempre com os pássaros a secreta magia dos gritos azuis.
(Ondjaki. Carta à amiga Ana Paula. Em “AvóDezanove e o segredo do soviético”).

Ondjak, pseudônimo artístico de Ndalu de Almeida, pertence à novíssima geração de escritores de Angola. Na língua umbundu ou quimbundo, Ondjaki significa “guerreiro”, nome apropriado para aquele que se destina a apresentar as lutas do seu povo e coloca a liberdade como uma meta a ser conquistada.
Romancista. poeta, pintor, licenciado em Sociologia pela Universidade de Lisboa, já fez teatro e documentário sobre a cidade de Luanda. É um artista múltiplo e versátil.
Muitos dos seus livros retratam fatos vivenciados na sua infância. “Os da Minha Rua” recebeu o Grande Prêmio de Contos Camilo Castelo Branco 2007. É um relato que tem a sua própria infância como motivo condutor.
Ondjaki procura valorizar os contadores de história e os velhos têm um papel primordial nos seus contos e romances. A figura da avó, presente no primeiro livro infantil “Ynari: a menina das cinco tranças”, (Luanda: Chã de Caxinde, 2002), retorna no romance juvenil “AvóDezanove e o segredo do soviético (Cia Das Letras, 2009). Este livro conquistou o prêmio de Literatura em Língua Portuguesa da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil em 2010.
No ensaio que escrevemos “A arte de contar histórias” (In: “Guriatã: uma viagem mítica ao país-paraíso”), destacamos o papel do narrador nas histórias infantis, utilizando o texto de Walter Benjamin – “O Narrador. Considerações sobre a obra de Nikolai Leskov”.
Há uma passagem no texto de Benjamin em que o autor apresenta dois tipos de narradores: “o marinheiro comerciante e o camponês sedentário”. O provérbio popular “Quem viaja muito tem o que contar” se coaduna com o primeiro grupo de narrador – o narrador marinheiro ou marujo. É alguém que veio de longe, viajou muito, teve experiências diferentes, por isso muito tem o que contar. O narrador representado pelo camponês sedentário é aquele que não saiu de seu país ou de sua região, mas conhece bem suas histórias, lendas, tradições.
No romance juvenil de Ondjaki – “AvóDezanove e o segredo do soviético” (Cia Das Letras, 2009), vamos encontrar a figura de duas avós que são representantes do segundo tipo de narrador apresentado por Walter Benjamin – “camponês sedentário”. AvóCatarina e AvóAgnette, esta última mais conhecida como com AvóDezanove, pouco saem de casa, mas são detentoras de muitos saberes. Elas sabem tudo que se passa na PraiaDoBispo e nos seus arredores e têm muito o que contar.
Depois da independência, Angola recebeu muitos cubanos e soviéticos, eles vieram para ajudar na reconstrução do país. Algumas histórias sobre a vinda dos cubanos e soviéticos surgiram nesse período. O livro de Ondjaki retrata essa fase.
A trama do romance se desenvolve em torno da construção de um mausoléu que vai abrigar o corpo do ex-presidente e líder angolano Agostinho Neto na PraiaDo Bispo, em Luanda.
Meninos, avós, o russo Bilhardov, mais conhecido como Botardov, e o cubano EspumaDoMar são os principais personagens do livro. O apelido Botardov foi motivado pelo falar arrevesado do soviético.
O narrador de ´”AvóDezanove e o segredo do soviético” é um menino. É sob o olhar desse menino que percorremos as páginas do romance. O oficial soviético (Botardov) comanda os “lagostas azuis”, assim eram chamados os soviéticos, ele guarda um segredo sobre a construção do mausoléu.
Existia um segredo a ser desvendado, mas o menino narrador estava mais interessado em saber a cor do grito dos pássaros e a fala dos peixes. As coisas abstratas e possíveis de acontecer eram mais atraentes do que o cotidiano que cercava a vida dos habitantes da PraçaDoBispo.
A liberdade de linguagem, a criação de neologismos e a motivação semântica de certas palavras imprimem um caráter diferenciado na prosa desse escritor angolano. A força da literatura de Ondjaki tem o poder de transformá-lo em um escritor “singular e plural” no cenário das letras de língua portuguesa.

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