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sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

1822: o que está por trás da História

1822: o que está por trás da História
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB)

Uma sociedade que não estuda a história não consegue entender a si própria, porque desconhece as razões que a trouxeram até aqui.
(Laurentino Gomes. Entrevista concedida à jornalista Rita Barreto)

Em 2011, o jornalista Laurentino Gomes ganhou o Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, em duas categorias: “Melhor Livro-Reportagem” e “Livro do Ano de Não Ficção” com “1822: como um homem sábio, uma princesa triste e um escocês louco por dinheiro ajudaram D. Pedro a criar o Brasil – um país que tinha tudo para dar errado”.(Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2011). Este livro foi eleito o “Melhor Ensaio de 2008” pela Academia Brasileira de Letras. Em maio de 2011, chegou às livrarias uma versão simplificada destinada ao público juvenil com ilustrações de Rita Bromberg Brugger. É sobre esta edição que iremos fazer algumas considerações.
Laurentino Gomes é paranaense de Maringá, formado em jornalismo pela Universidade Federal do Paraná, com pós-graduação em administração de empresas pela USP. Trabalhou em importantes jornais e revistas do Brasil, como “O Estado de S. Paulo”, a revista “Veja” e foi diretor da editora “Abril”.
Na entrevista que concedeu à jornalista Rita Barreto, “Revista Panorama Editorial”, Ano VII, No. 62, o escritor destaca a importância da leitura em sua vida. Explica que a História sempre foi uma paixão paralela ao jornalismo e que a leitura pode proporcionar transformações na vida de uma pessoa. Os pais tinham pouco estudo, mas valorizavam muito a educação, e, em especial à leitura. Foi sempre um leitor voraz – lia tudo: gibis, bulas de remédio, jornais velhos, revistas de consultórios e, naturalmente, muitos livros.
Foi esta paixão pela leitura e História que fez do jornalista um pesquisador da História do Brasil. Os dois consagrados livros do autor – “1808” e “1822” comprovam que estamos diante de um jornalista que gosta de escrever textos sob a ótica da reportagem, como ele mesmo confessa: “em linguagem acessível para um leitor comum não habituado à historiografia acadêmica”.
Laurentino afirma que não se limita a pesquisar apenas nos livros, gosta de ir aos locais dos acontecimentos. Para escrever “1822”, foi à Bahia assistir à festa de Dois de Julho, data da expulsão das tropas portuguesas de Salvador em 1823, e cantada em versos por Castro Alves no poema – “Ao dois de julho”. Foi, ainda, ao município de Campo Maior, no Piauí, local do maior confronto da Independência, a Batalha do Jenipapo, travada no dia 13 de março de 1823. Os tempos mudaram a face das cidades, mas a visita a esses locais foi importante para a reconstituição da história.
A Independência do Brasil está imortalizada no famoso quadro do paraibano Pedro Américo, nas margens do riacho Ipiranga. O desfecho do gesto do príncipe foi mais além do que conta a história oficial. O grito de “Independência ou Morte!” resultou de uma série de acontecimentos, de acasos, de sorte e de improvisação.
Para entender melhor o gesto ousado de D. Pedro I, temos que conhecer duas pessoas intrinsecamente ligadas ao príncipe – Dona Leopoldina, sua mulher, e José Bonifácio de Andrada e Silva, um homem sábio.
José Bonifácio estudou em Coimbra, era formado em direito, filosofia e matemática. Foi um aluno brilhante e ganhou uma bolsa para estudar química e mineralogia em outros países europeus. Morou muitos anos na Europa. Quando regressou ao Brasil, estava com 56 anos, e pretendia retirar-se da vida pública, mas foi convocado pelo príncipe regente e futuro imperador D. Pedro I para auxiliá-lo no governo. E passou para a história com o título de Patriarca da Independência.
O convite para ser ministro de D. Pedro I a princípio foi rejeitado por José Bonifácio, porém não resistiu aos apelos de Dona Leopoldina. Ela sabia que o marido era inexperiente, impulsivo e precisava do apoio de uma pessoa mais forte. Ao apresentar os filhos pequenos a Bonifácio, disse-lhe: “Estes dois brasileiros são vossos patrícios e eu peço que tenhais por eles um amor paternal”. (p. 110)
José Bonifácio aceitou o cargo de ministro depois que teve um conversa a sós com o monarca, uma conversa “de homem para homem”. Nunca se soube qual foi o teor dessa conversa, mas foi decisiva para Bonifácio aceitar o cargo que lhe era oferecido.
Compara-se José Bonifácio ao americano Thomas Jefferson, patriarca da Independência dos EUA. Laurentino mostra a grande diferença que existe entre os dois homens públicos. Thomas Jefferson apregoava “todos os homens nascem iguais”, mas era dono de 150 escravos. Como bom representante da aristocracia rural do estado da Virgínia, bateu-se até o fim de sua vida contra a proposta da abolição da escravatura. José Bonifácio nunca teve escravos e era um abolicionista convicto e condenava veementemente o tráfico bárbaro e carniceiro dos escravos.
Se Dona Leopoldina e José Bonifácio aparecem nesse livro como verdadeiros heróis, o escocês Thomas Alexander Cochrane desponta como o grande vilão. Alçado a almirante da Marinha de Guerra Brasileira, utilizava métodos carniceiros para vencer o inimigo, no caso os portugueses. Sabendo da vulnerabilidade dos navios, Cochrane utilizava barcos incendiários e espalhava chamas em todas as direções. Era mercenário e gozou de prestígio perante D. Pedro I durante um bom tempo. A história se encarregou de mostrar sua verdadeira face.
Aqui, neste livro, o leitor encontra fatos curiosos e surpreendentes, faz uma viagem ao passado e descobre que a independência do Brasil não foi tão tranquila como pode parecer. Maria Quitéria, a moça guerreira, travestida de soldado Medeiros, o padre carmelita Joaquim do Amor Divino Caneca, Frei Caneca, são alguns vultos da história do Brasil que merecem ser cultuados. Felizmente, os escritores e poetas já cantaram em prosa e verso os feitos gloriosos de Maria Quitéria e Frei Caneca. Joel Rufino escreveu o livro “O soldado que não era” e João Cabral de Melo Neto o “Auto do Frade”, poema para vozes que foi encenado pelas ruas do Recife.
( Publicado no jornal “ Contraponto”. João Pessoa, fevereiro de 2012)
CATÁLOGO
Já saiu no site da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil o catálogo da Feira Internacional de Livros Infantis que se realizará em Bolonha (Itália) de 19 a 22 de março de 2012. O texto, todo em inglês, apresenta breves resenhas dos melhores livros infantis e juvenis publicados no Brasil. A bonita capa é um trabalho do escritor e ilustrador pernambucano André Neves. Para nossa alegria, o livro ilustrado por Veruschka Guerra “A princesa, o pássaro e a sabedoria” consta no catálogo de Bolonha. O leitor poderá consultá-lo no portal www.fnlij.org.br. Onze críticos da FNLIJ participaram dessa seleção. Fizemos a resenha de nove livros para este catálogo com a identificação (NM e NMS).

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