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sábado, 5 de maio de 2012


OS CLÁSSICOS INFANTIS ESTÃO DE VOLTA
( Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB)

            Clássico não é livro antigo e fora de moda. É livro eterno que não sai de moda.
( Ana Maria Machado. Como e por que ler os clássicos infantis desde cedo)

            Leonardo Arroyo, no livro “Literatura Infantil Brasileira”, apresenta um minucioso estudo sobre a literatura infantil no Brasil, com destaque para  aspectos relevantes das leituras feitas pelos estudantes brasileiros, futuros escritores,  nos fins do século XIX e início do século XX. Estão registradas opiniões de Manuel Bandeira, Gilberto Freyre, Gilberto Amado e de muitos outros escritores desse período.   As leituras escolares, as revistas infantis,  almanaque do Tico-tico e  os livros que eram lidos por esses futuros escritores estão registrados.  
            O que nos levou ao livro de Leonardo Arroyo? Foram as recentes publicações de “Coração”, de Edmondo de Amicis e “Pinóquio”, de Carlo  Collodi, publicados pela Cosac Naify (2011).
             “ Coração”,  livro sempre citado pelos escritores brasileiros  no início do século XX, às vezes era adotado como livro de leitura. A respeito desse livro, Manuel Bandeira revelou em nota autobiográfica:
             “Coração” era o livro de leitura adotado na minha classe. Para mim, porém, não era um livro de estudo. Era a porta de um mundo, não de evasão, como o da “Viagem à roda do mundo numa casquinha de nozes” , mas de um sentimento misturado, com a intuição terrificante das tristezas e maldades da vida.”
            O livro de Edmondo de Amicis andava esquecido e fazia tempo que não era reeditado, a editora Cosac Naify tomou a iniciativa de apresentar um nova edição  e aqueles que  conheciam  o livro só de “ouvir falar” poderão agora ler o texto integral, não é uma edição adaptada, é o texto na íntegra, muito bem  traduzido por Nilson Moulin.
            Quanto a “Pinóquio”, é um boneco que não envelhece. Todos os anos saem novas edições da história que encanta meninos e adultos,  até um antigo cordelista, como Manoel Monteiro, foi flechado pelas artimanhas do menino levado e escreveu um folheto que, posteriormente,  foi transformado em livro infantil, contando as proezas de Pinóquio.
            Esta nova edição de “Pinóquio” traz um posfácio de Ítalo Calvino que é um incentivo para a leitura integral do texto. Calvino escreveu o ensaio em 1981, quando o livro completou 100 anos. A paixão do ensaísta por este boneco é tão grande que confessa: “não é possível imaginarmos um mundo sem Pinóquio”.
            Vamos dar um leve passeio por esses dois livros.
            “Coração” é composto por um diário de Enrico, personagem principal da história, entrecortado por cartas do pai e da mãe para o menino que estuda em um internato e por contos mensais ditados por um professor. Nas cartas enviadas ao filho, os pais dão conselhos e orientações: o menino  deve ser leal, abnegado e ter força de vontade para vencer na vida.
            No diário, Enrico fala sobre os colegas, analisa o temperamento de cada um, aponta as virtudes e os defeitos. Nesse ponto, o livro apresenta semelhanças com  “O Ateneu”, de Raul Pompéia.
            Edmondo de Amicis foi militar e não faltam neste livro lições de patriotismo, preceitos morais e cívicos, aspectos condenados por alguns críticos.     
            Bem diferente é “ Pinóquio”. Aqui o boneco é um personagem  livre, não tem peias, “faz e acontece”. Se vem o castigo, logo esquece o motivo da repreensão  e parte para nova aventura. Pinóquio tem um pouco de João Grilo, Pedro Malazarte e de outros pícaros que povoam a literatura universal.
            “As aventuras de Pinóquio. História de um boneco”  recebeu tradução de   Ivo Barroso e traz ilustrações de Alex Cerveny. Vale destacar a técnica utilizada por Ceverny  - durante meses, o ilustrador se dedicou a criar as imagens pinoquianas. Utilizou uma técnica do fim do século XIX, contemporânea do livro, chamada “clichê verre”, que consiste em chamuscar uma placa de vidro com uma vela, tornando-a opaca com a fuligem. Segue-se o desenho sobre essa superfície com agulha ou objeto pontiagudo. O desenho deve ser feito de modo rápido e delicado.  O resultado é o negativo do desenho.
            Collodi, pseudônimo de Carlo Lorenzini, é contemporâneo de Edmondo de Amicis, os dois são italianos, mas como são diferentes na maneira de escrever e de retratar o mundo!
            Li várias versões de Pinóquio, mas esta é especial e me transportou para os idos de 1950. Era criança, e fui com minha mãe assistir ao desenho animado de Pinóquio no cine Avenida, em Campina Grande. Não havia mais cadeiras para sentar e ficamos em pé. Estava adorando as estripulias do boneco de pau, identificando-me com aquele personagem travesso, mas minha mãe não me deixou ver o fim do filme, estava cansada de ficar em pé e me levou para casa. Relendo este livro, voltei ao passado e vi o filme todinho, voltei a ser criança.

                        NOTA  LITERÁRIA

            A entrega dos prêmios FNLIJ/2012 será feita no dia 23 de maio, no Palácio Gustavo Capanema, no Rio de Janeiro. Nesta data é o aniversário da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil que  está completando 44 anos de existência. Todos os membros-votantes da FNLIJ foram convidados para esta grande festa do LIVRO.   


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