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sexta-feira, 15 de novembro de 2013

"Primeira Palavra" e o Jabuti de Ilustração



“PRIMEIRA PALAVRA”  E O JABUTI DE ILUSTRAÇÃO
(Neide Medeiros Santos – Leitora votante FNLIJ/PB) 

Acredito na possibilidade de um livro influenciar o pensamento e, portanto, a vida de alguém.
(Elvira Vigna. Nota apensa ao livro “Primeira Palavra”).


            “Primeira Palavra” (Ed. Abacatte, 2012), texto de Tino Freitas e ilustrações de Elvira Vigna, ganhou o prêmio Jabuti de Ilustração 2013.   Tino Freitas é escritor cearense radicado em Brasília, e este texto já havia sido publicado na antologia de contos de autores de literatura infantojuvenil brasileira em espanhol no livro “Cuentos infantiles brasileños”, uma publicação da embaixada do Brasil na Costa Rica. Agora os leitores brasileiros desfrutam desta bonita história com belíssimas ilustrações de Elvira Vigna.
            Em 2011, publicamos na coluna “Livros&Literatura”, no jornal “Contraponto”, o artigo “A literatura brasileira vai à Costa Rica” com breves comentários sobre alguns dos 25 contos selecionados. Para compor essa antologia, foram escolhidos textos de literatura infantil publicados no Brasil  durante 40 anos (década de 1960 até o ano 2000).   
             “Primeira Palavra” ganhou o prêmio Jabuti de Ilustração, assim é bom conhecer um pouco do trabalho de Elvira Vigna. A ilustradora, que também escreve livros para crianças e adultos, nasceu no Rio de Janeiro, tem formação acadêmica em Jornalismo e cursos na área de Artes Plásticas, Cinema e Teatro.
Fui apresentada aos livros de Elvira Vigna por intermédio da professora Maria Antonieta Antunes Cunha. Nos idos de 1980, Elvira Vigna escreveu livros infantis para a editora Miguilim (na época esta editora era coordenada por Antonieta Cunha), e destacamos, entre eles, “Problemas com cachorro” (Ed. Miguilim, 1982) e “A pontinha menorzinha do enfeitinho do fim do cabo de uma colherzinha de café” (Ed. Miguilim, 1983). Depois vieram muitos outros livros escritos e ilustrados por essa autora. Roseana Murray escreveu vários livros de poesia que receberam ilustrações de Elvira Vigna. A produção literária e pictórica da artista da palavra e dos pincéis é vasta.
            Comecei a ler “Primeira Palavra” atraída pela ilustração. A capa apresenta um gato com pelos dourados e eriçados, tem um  olhar firme e está apoiado nas patas dianteiras em cima de livros  ou de uma mesa;  a seu lado aparecem alguns livros sem identificação dos títulos e dos autores. A quarta capa é toda em azul escuro e traz o chamamento da editora para o conteúdo do livro.
            Depois que terminei de ler a história, lembrei-me do conto de Andersen “A pequena vendedora de fósforos”. Tenho preferência especial por este conto.  Posteriormente, fui ler as observações feitas pelo autor na última página do livro e me deparo com esta afirmativa: A história... “que escrevi neste livro foi inspirada numa adaptação do conto “A Menininha dos Fósforos”, de Hans Christian Andersen que ganhei de minha mãe e li, emocionado, quando tinha cinco anos”.
            Vamos percorrer as páginas de “Primeira Palavra”, examinar o texto e as ilustrações. A intertextualidade já foi detectada com a explicação de Tino Freitas. 
              O cenário escolhido para o desenvolvimento da história é uma livraria, ou melhor, um local que vendia livros usados, um sebo. Um sebo contém livros mais valiosos do que uma livraria comum, lá se acham preciosidades. Livros de todo tipo são encontrados – livros de arte de literatura infantil, de imagens, romances, poesia, gibis, revistas antigas, almanaques, dicionários. Uma coleção variada que já passou pelas mãos de inúmeros leitores.  
             É nesse local cheio de livros antigos que mora um gato siamês.  O local era frequentemente visitado por uma menina, uma pedinte de rua, que não sabia ler, mas adorava mergulhar naquele labirinto de livros, principalmente na seção de livros infantis. Os preferidos eram aqueles que continham figuras. Havia um que cativava mais do que os outros – era um livro apenas de imagens – neste livro aparecia a ilustração de uma bruxa e um gato. Entre a menina e o gato do sebo se estabelece uma cumplicidade, um entendimento mútuo.
            Muitas vezes a menina adormecia encostada numa estante. Quando era hora de fechar o estabelecimento, o dono aparecia e a acordava, mostrando-lhe o caminho da rua.  Parecia não ter família, estava com sete anos e não sabia ler, nunca fora à escola. Contar, ela sabia. As pessoas davam-lhe algumas moedas, mas só sabia contar até vinte, Não havia necessidade de saber mais do que vinte, não conhecia dinheiro maior do que uma nota de vinte reais.
            No dia que completou oito anos, desejou ganhar um presente de aniversário e o melhor presente seria o livro da bruxa e do gato. Era um sonho quase impossível. Como arranjar dinheiro para comprar o livro?  O pouco que recebia das pessoas só dava para comprar alguma comida. Foi o medo e o desejo que forjaram um plano. O que aconteceu é surpresa, está bem contado na história de Tino Freitas. No desfecho, mais uma vez, encontramos intertextualidade com o conto de Andersen.
            Nas  ilustrações, um aspecto nos chama a atenção é  a presença das cores fortes – o azul intenso, o vermelho e o tom sombrio do local que aparece nas paredes da livraria. A figura da menina é vista sempre através de um reflexo de vidro ou espelho. Quando está fora da livraria,  olha para as estantes cheias de livros com olhos de espanto. O gato é retratado  muito bem postado em cima dos livros. Vigiando-os ou tentando adivinhar os segredos guardados nas páginas dos livros?  Gato é bom pensador!
            Visualizamos  lombadas de vários livros, só é possível ler o nome de um autor - Autran Dourado. Os outros não trazem títulos nem nomes dos autores.  Por que a escolha recaiu em Autran Dourado? Alguma ligação entre esta menina abandonada e a personagem Biela, de Autran Dourado? Conjeturas.
             Se o leitor ficar encantado pelas ilustrações como eu fiquei, irá gostar, também, da história urdida por Tino Freitas. Boa leitura é o que desejamos.
            Nota: Este texto vai para o menino Davi Pessoa que está aprendendo o que é intertextualidade.  

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