terça-feira, 23 de novembro de 2010

Os menores e os maiores livros de Rachel de Queiroz








Os menores e os maiores livros de Rachel de Queiroz
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB)

Netos são como heranças: você os ganha sem merecer. Sem ter feito nada para isso, de repente eles caem do céu.
(Rachel de Queiroz)

Talvez o leitor estranhe o título do artigo. Muitas pessoas costumam se referir à literatura infantil como uma literatura menor. Queremos romper esta mentalidade acanhada. A literatura infantil, embora destinada àqueles de pouca idade, não significa que seja uma literatura menor, de pouco valor literário. “O menino mágico”, “Cafute & Pena de Prata” e “Andira” foram escritos com a mesma preocupação literária que norteou Rachel de Queiroz para escrever “O Quinze”, “Dôra Doralina”, “Memorial de Maria Moura” e outros livros consagrados, não deixando de mencionar as saborosas crônicas que escrevia para a última página da revista “O Cruzeiro”. São, portanto, livros do mesmo quilate dos livros para adultos.
Nosso passeio vai passar pelas ruas dos três livros infantis que a escritora cearense deixou de presente para as crianças e para os pais que não perderam o gosto da infância. Cada livro foi inspirado em algum fato ou experiência da escritora. Maria Luiza de Queiroz, irmã da escritora, afirma que eram os livros infantis que Rachel mais gostava de escrever. Foram livros escritos na fase da maturidade, livros escritos para os netos.
“O menino mágico” foi o primeiro para crianças. Para escrever este livro, Rachel submeteu a história à apreciação do sobrinho Daniel, menino de sete para oito anos. Os palpites do sobrinho ajudaram na urdidura da trama.
Daniel, o protagonista, era um menino diferente, ele sabia fazer mágicas. Não era ligado a futebol como o irmão, gostava de aventuras, de viajar por toda parte – Teresópolis, São Paulo e até o Ceará, de avião, naturalmente. Todas essas viagens eram inventadas pelo menino mágico e ele contava tudo direitinho como se fossem verdadeiras. Mas aparece na história um primo que era um “gênio”, um verdadeiro Einstein na Matemática, o primo Jorge. Fica difícil a competição – Daniel, o mágico ou Jorge, o matemático? Quem será o vencedor? Para solucionar o problema, surgiu a seguinte proposta: Daniel ficaria com a mágica e Jorge com a inteligência, os dois juntos podiam ganhar a vida e correr o mundo, e foi o que fizeram. Desapareceram. Onde os dois fujões se esconderam? Só a polícia poderá descobri-los.
Este livro traz bonitas ilustrações de Laurabeatriz que entrou no clima da fantasia e pintou e bordou junto com os dois meninos.
“Cafute & Pena-de-Prata” é uma história inspirada nos pintinhos da fazenda e trata de um tema recorrente na literatura – a luta pela sobrevivência e as desigualdades sociais. Cafute era pinto-de-pobre, vivia debaixo das asas da mãe; Pena-de-Prata era pinto-de-rico, não sabia nem quem era sua mãe. O primeiro nasceu no meio do mato; o segundo nasceu em chocadeira elétrica. Mas,quando crescessem, iriam ter o mesmo destino – seriam mortos e servidos para almoço dos patrões. Para fugir da triste sina, resolveram se unir e saíram pelo mundo afora como os músicos de Bremen e vivem mil e uma aventuras.
Para retratar os perigos e as ameaças sofridas pelos pintinhos, a ilustradora Maria Eugênia desenhou galos bem grandes, com bicos ferozes que tomam toda a página. Quando se trata de encontros amigáveis, tudo é delicado, olhares cheios de ternura.
“Indira” nasceu de um equívoco. Uma amiga de Rachel de Queiroz, Dolores, veio passar uns dias na fazenda “Não me deixes” e de noite ouviu uns gritinhos estranhos. De manhã cedo, falou para Rachel:
“- Ah, Rachel, que coisa mais linda – acordei com o canto das andorinhas no beiral do alpendre”.
Rachel ficou calada, ela bem sabia do que se tratava, não falou nada para não tirar o encanto da ilusão da amiga. Na realidade os gritinhos eram de morcegos, animais muito comuns nos tetos das casas de fazenda.
Foi, assim, que surgiu a história de uma andorinha que vive em perfeita harmonia com os morcegos, adquire até os hábitos comuns aos morcegos, assume-se “andorinha/morcego”.
Até que um dia, cansada de fingir ser morcego, descobre que os morcegos são bem diferentes das andorinhas e resolve partir com suas irmãs verdadeiras.
Rachel afirmou que criava suas histórias inspiradas em fatos reais. Os três contos infantis mesclam fantasia com realidade. A escritora partiu de alguma coisa concreta, deu asas à imaginação e surgiram três encantadoras histórias que foram reeditadas em 2010 para homenagear o centenário de nascimento de Rachel de Queiroz. Louvada iniciativa da editora Caramelo!

janelas do mundo




terça-feira, 16 de novembro de 2010

João de Calais: do cordel à literatura de quadrinhos




João de Calais: do cordel à literatura de quadrinhos
(Neide Medeiros Santos – Crítica Literária – FNLIJ/PB)

Cantam nautas choram flautas
Pelo mar e pelo mar
Uma sereia a cantar
Vela o Destino dos nautas.
(Augusto dos Anjos. Barcarola)

A história de João de Calais pertence ao ciclo de cordel denominado “morto agradecido”. Câmara Cascudo inclui este romance entre os “Cinco Livros do Povo”, juntamente com “Donzela Teodora”, “Imperatriz Porcina”, “Roberto do Diabo” e “Princesa Megalona”.
A origem de João de Calais é francesa. Atribui-se à Madeleine Angélique Poisson a autoria da história. Casando-se com um espanhol, a escritora passou a ser conhecida como Madame de Gómez. No Brasil, a história de João de Calais foi divulgada por Câmara Cascudo ( prosa) e pelos cordelistas (poesia).
Na década de 1990, a editora Scipione publicou oito contos tradicionais de literatura popular, reescritos e ilustrados por Ricardo Azevedo e Ciça Fittipladi. “João de Calais” integra essa coleção.
Em 2010, a editora FTD lançou “História do navegador João de Calais e de sua amada Constança”, versão de Arievaldo Viana. Os textos da Scipione eram em prosa, a nova edição da FTD alia o cordel ( sextilhas) à literatura de quadrinhos.
Arievaldo Viana, conhecido cordelista cearense, criou o texto verbal e Jô Oliveira fez as ilustrações. Nos dados biográficos do cordelista e do ilustrador, aparecem essas informações: Arievaldo Viana nasceu em uma fazenda do Ceará nas proximidades de Quixeramobim e sua diversão de criança era ouvir a avó Alzira ler os folhetos de cordel. Jô Oliveira nasceu em Pernambuco, mas passou parte de sua infância em Campina Grande, Paraíba. Nos idos de 1950, envolveu-se com quadrinhos e cordel e esse gosto, adquirido na infância, perdura até hoje.
Depois dessas informações, caminhemos em direção ao livro de Arievaldo Viana e Jô Oliveira.
Para escrever a história de João de Calais, Arievaldo partiu do texto em prosa apresentado por Câmara Cascudo e procurou uma maneira fácil de ser compreendido por leitores de “qualquer idade... dos oito aos 80 anos” ( o cordel). Quando criança, teve contato com a versão de Severino Borges da Silva, uma edição da Luzeiro do Norte, folheteria de João José da Silva.
A história quadrinizada se inicia com invocação às musas e o poeta pede a proteção divina para falar sobre João de Calais. Embora o texto original tenha vindo da França, o cordelista prefere a pronúncia portuguesa – Calais e não Calé.
Dirigindo-se aos leitores, afirma que vai falar do amor de Constança e das batalhas de João. Dois motivos quase universais aparecem na história – “o morto agradecido” e a “esposa resgatada”.
No universo dos personagens, destacam-se: João de Calais, Constança e a prima Isabel, o pai de João de Calais, o rei de Palermo, pai de Constança, e o sobrinho do rei – Florimundo, “um jovem mau e egoísta/ sujeito péssimo e imundo” e um morto insepulto.
É uma história marcada por aventuras marítimas, pirataria, traições e ciúmes.
O traço vigoroso de Jô Oliveira captou os momentos de tensão e os personagens revelam aflição no olhar, medo diante das adversidades e assombro perante fatos estranhos. As cores fortes, com predomínio do amarelo e vermelho, condizem com o sol tropical do Nordeste.
Este folheto tem despertado a atenção dos estudiosos da literatura de cordel. A professora Neuma Fechine Borges, na década de 1970, analisou-o à luz da semiótica na sua dissertação de mestrado na Universidade Federal da Paraíba. O trabalho da professora Neuma Fechine foi apresentado em diversas cidades brasileiras, em Portugal e na França ( Universidade de Poitiers).
Neuma Fechine não teve a oportunidade de conhecer a versão de Arievaldo Viana, partiu antes do tempo, mas, certamente, iria gostar de saber que o folheto de Severino Borges foi revisitado por um cordelista jovem que imprimiu uma nova feição à velha história de João de Calais.

domingo, 31 de outubro de 2010

Tesouro escondido no livro “Mil e uma noites”


Tesouro escondido no livro “Mil e uma noites”
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB)

Com arte, a nossa vida fica mais rica, e a gente fica mais feliz.
(Maté)

As histórias contadas por Sherazade, no livro “Mil e uma noites”, foram recriadas por muitos escritores. Cada um procurou dar um toque pessoal a esses contos. Quem não se recorda de “Aladim e a lâmpada maravilhosa” ou de “Ali-Babá e os quarenta ladrões” nas versões de Malba Tahan? São histórias que povoam a nossa infância.
A escritora e ilustradora Maté fez uma viagem a Marrocos e lá encontrou uma história pouco divulgada que integra o corpus do livro “Mil e uma noites”. Quando regressou ao Brasil, resolveu escrever e ilustrar esta bonita história – “A árvore que canta, o pássaro que fala e o a fonte que rejuvenesce” (Ed. Brinque-Book, 2007).
O colorido das vestes dos marroquinos foi o ponto de partida para as ilustrações aquareladas em cores vibrantes. O cenário é a Pérsia. Lá vivia um rico sultão que estava à procura de uma noiva. Os anos iam passando e ele continuava solteiro, precisava arranjar uma noiva para casar. Resolveu vestir-se como um comerciante de tapetes, e saiu a percorrer o seu reino à procura de uma noiva ideal.
Certo dia, passando por uma casa humilde, ouviu o relato de três moças – a mais velha contava que sonhara que estava casada com o cozinheiro do palácio; a segunda tinha tido um sonho semelhante: sonhou que estava casada com o mordomo do sultão. Quanto à caçula, ela revelou que sonhara que ia casar com um vendedor de tapetes.
A resposta da mais nova despertou riso e deboche das outras irmãs e a reação foi dizer:
“- Como você é boba, contentar-se com um simples vendedor de tapetes! Assim nunca melhorará de vida!” (p. 8)
Mal tinham pronunciado estas palavras, surge à porta o falso vendedor de tapetes que, tendo ouvido as conversas das irmãs, resolveu entrar na casa das moças.
Depois de apresentar os tapetes e tomar água límpida da fonte trazida pela irmã mais nova, ele se desfez das vestimentas de vendedor e revelou que era o sultão e que iria realizar os desejos das irmãs – a mais velha casaria com o cozinheiro do palácio, a do meio com o mordomo e a mais nova seria sua esposa. Levou-as para o palácio e os casamentos foram realizados.
As duas irmãs ficaram com muita inveja da caçula e traçaram um plano de vingança, decidiram demonstrar que estavam muito felizes para não despertar nenhuma suspeita. A sultana engravidou, e quando foi ganhar o bebê as irmãs se ofereceram para ser parteiras. Nasceu um lindo menino que foi substituído por um filhote de macaquinho, cuidadosamente vestido com as roupas do enxoval do principezinho. O sultão quando soube ficou desapontado, mas resolveu aceitar o fato. A mesma cena se repetiu mais duas vezes – o segundo filho foi substituído por um filhote de cachorro e o terceiro, uma menina, por uma porquinha.
O leitor deve estar curioso para saber o destino dos filhos do sultão... eles foram colocados dentro de um cesto e jogados pelas irmãs malvadas na correnteza do rio que passava nos jardins do palácio. Um velho jardineiro recolheu-os e criou-os como se fossem seus filhos.
E o que aconteceu com a sultana?
Depois de três grandes decepções, o sultão resolveu castigá-la trancando-a em uma torre muito alta. As irmãs continuaram morando no palácio e o sultão não quis mais saber de casamento.
Os anos se passaram... Os meninos e a menina se tornaram adolescentes muito bonitos e começa um novo ciclo de aventuras. O resto da história envolve uma árvore que canta, um pássaro que fala a verdade, uma água dourada que tem o poder de rejuvenescer. Para saber o final da história, só lendo o livro escrito e ilustrado com muito carinho por Maté.
Vamos conhecer um pouco sobre esta escritora/ilustradora que tem um nome que parece um apelido.
Maté, na realidade é Marie Thérèse Kowalczyk, nascida na França, neta de poloneses. Veio adulta para o Brasil, gostou e ficou. Vai completar 30 anos que mora no Brasil, já podemos considerá-la brasileiríssima. É professora de Artes nas Faculdades Integradas Teresa D´Ávila na cidade de Lorena, interior de São Paulo.
Além desse livro, Maté já escreveu e ilustrou vários outros com temáticas africanas e indígenas. Maté está presente na orelha de “Livros à espera do leitor” com uma mensagem que nos enviou através do blog – nastrilhasdaliteratura. blogspot.

sábado, 23 de outubro de 2010

As cores do mundo de Lúcia


(Neide Medeiros Santos – Crítica literária – FNLIJ/PB)

Saiba que os poetas como os cegos
podem ver na escuridão.
(Edu Lobo/Chico Buarque de Holanda. Choro Bandido)

A temática dos excluídos na literatura infantil vem crescendo nos últimos anos. No Brasil, encontramos muitos livros de literatura infantil que tratam de aspectos ligados àqueles que vivem isolados da sociedade por algum tipo de deficiência ou discriminação. Nos livros para o público infantojuvenil, encontramos assuntos que transitam da marginalidade à intolerância racial, Os livros “Marginal à esquerda”, de Ângela Lago, “Carvoeirinhos” de Roger Mello, “Sapato Alto” de Lygia Bojunga Nunes abordam temas modernos que antes não apareciam na literatura infantil brasileira.
Daniel Munduruku, com muita propriedade, procura redimir a figura do índio; Rogério Andrade Barbosa valoriza a cultura africana com histórias que remontam aos países africanos. Luciana Savaget, com uma série de livros sobre os árabes, traz uma nova visão a respeito de palestinos e árabes.
Da Editora Paulus, recebemos, recentemente, (outubro de 2010), um bonito livro “As cores do mundo de Lúcia”, de Jorge Fernando dos Santos, com ilustrações de Denise Nascimento. Com sutileza, autor e ilustradora retratam o problema da cegueira.
Jorge Fernando dos Santos é mineiro, escritor de livros infantis e autor de peças teatrais. Denise Nascimento é, também, mineira, já ilustrou vários livros infantojuvenis e participou da Feira do Livro de Bolonha (Itália) e da Bienal de Ilustrações, na Eslováquia.
Na história de Lúcia, Jorge Fernando conta e Denise ilustra. O leitor percorre caminhos com a pequena personagem e vai descobrindo pouco a pouco como a menina celebra a vida e se encanta com as coisas simples que estão ao seu redor.
As associações dos sentidos com as cores é a tônica constante do livro. Cada cor tem um simbolismo distinto e a menina aprende a conviver com o mundo da escuridão através dos aromas, do tato, do som.
O branco lhe lembrava o algodão e o sabor “variava da acidez do sal de cozinha ao aroma adocicado das flores da jabuticabeira do jardim de sua casa”. Na época da floração, vinham abelhas com seus zumbidos e surge outra associação – “o som do branco era um zumbido suave e constante”.
E o verde? Está presente nas folhas da roseira, na folha cheirosa da hortelã, no vestido de aniversário presenteado pela avó, por isso o som do verde se assemelha à melodia “Parabéns pra você”.
A laranja é a cor do amanhecer, do canto do galo é a “cor do céu depois que amadurece”. À tardinha, um pouco antes do pôr do sol, o céu fica todo alaranjado.
O azul é a cor do mar e tem gosto de bala de anis. E o mar reflete tantas cores! Às vezes é de um azul profundo, torna-se prateado nas noites de lua cheia, dourado quando o sol está muito forte. As espumas colorem o mar de branco e aí tem “um forte gosto de sal.”
E o vermelho? Esta cor tem sabores variados. Gosto de batom, de pimenta e de frutas deliciosas, como a cereja e o morango. É a cor do sangue que pulsa nas nossas veias.
O amarelo tem o cheiro de banana madura, o gosto lembra o doce de pêssego em calda. Será que Lúcia já ouviu alguém dizer que esta cor era a preferida do pintor Van Gogh? A história não fala sobre isto, mas é bom acrescentar.
Por fim, vem o negro. Esta era a única cor que a menina podia ver. Mas ao lado do negro, vem uma feliz descoberta – ao receber do jardineiro o presente de uma jabuticaba bem madurinha, vem a delícia de saber que esta cor resulta da mistura de todas as cores.
Não poderia concluir este passeio com Lúcia pelo mundo das cores, sem fazer o registro das ilustrações suaves e sugestivas de Denise Nascimento.
Um fato chama a atenção do leitor. Lúcia, a mãe, a avó e os demais personagens da história aparecem sempre com os olhos fechados, só o jardineiro, encarregado de cuidar das flores do jardim, está com os olhos bem abertos.
Quem cuida de flores deve estar com os olhos abertos para não perder os momentos do desabrochar das pétalas. Quem não pode vê-las, deve ter sensibilidade para senti-las através do tato e dos aromas.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

O vendedor de jornais revisitado-dav pilkey


O vendedor de jornais revisitado
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB)

São tantas as palavras
- como as pessoas -.
mas descobri-las poéticas é um exercício
secreto e refeito dia a dia.
(Arriete Vilela. Poema 37. In: Vadios Afetos)


Dav Pilkey é natural de Cleveland (EUA) e mora, atualmente, em Washington. É autor, entre outros livros, da série “As aventuras do Capitão Cueca”, “Ricky Ricota e Super–Robô”, traduzidos e publicados pela Cosac Naify.
Em 2010, a Cosac Naify publicou mais um livro de Dav Pilkey – “O menino entregador de jornais” (The Paperboy) que recebeu menção honrosa na Medalha Caldecott. No Brasil, o livro foi traduzido por Otávio Frias Filho, autor de livros infantis e diretor de redação do jornal “Folha de São Paulo” desde 1984.
As ilustrações deste último livro são de Dav Pilkey e chamamos a atenção do leitor para as páginas 24 e 25, elas foram inspiradas no quadro de Van Gogh – “Noite estrelada”. Acrescentamos que a ilustração da última página - um menino voando com um cachorro nos braços nos faz lembrar os quadros de Marc Chagall. Isso demonstra o estreito vínculo do escritor com a pintura.
Em nota inserida no livro, ficamos sabendo que a história do menino entregador de jornais é baseada na vida do próprio Pilkey, quando tinha treze anos.
O menino não é identificado pelo nome, é apenas um entregador de jornais. De manhã bem cedo, quando a cidade está escura e as pessoas ainda dormem, o pequeno se levanta bem sutil para não acordar o pai, a mãe e a irmã, chama seu cachorro, pega a bicicleta, arruma os jornais em uma sacola e faz a entrega dos jornais aos assinantes. Cumprida a tarefa, volta para casa e vai dormir.
A história é bem simples. Pilkey utiliza frases curtas, ritmadas. As palavras adquirem um tom poético, como neste exemplo:
“O mundo todo dorme,
menos o menino
e seu cachorro.
E é nessa hora
que eles são mais felizes. (p.24)

A página com este texto traz a ilustração que remete à famosa pintura de Van Gogh – “Noite estrelada” (1889).
A leitura do livro de Pilkey nos levou a uma crônica escrita por Graciliano Ramos em 1915 – “O vendedor de jornais”, publicada no jornal “Paraíba do Sul”, Rio de Janeiro, 20 de maio de 1915.
Nessa crônica, Graciliano descreve o dia a dia de um menino que vende jornais e encontramos afinidades com o texto de Pilkey. A mesma concisão e poeticidade do escritor americano se apresentam no texto graciliânico. Para descrever o menino jornaleiro, o escritor alagoano se esquece da prosa e “penetra surdamente” no reino da poesia. O fragmento que se segue poderia ter sido escrito por Carlos Drummond de Andrade ou Bandeira:

“O vendedor de jornais é o tipo mais despreocupado e alegre do mundo.
Tem uma alma de pássaro.
(...)
Dir-se-ia que tem asas.”
(Linhas Tortas. 2005: p.42)

Os tempos mudaram, hoje os jornais são distribuídos nas bancas de revistas ou entregues por adultos que se utilizam de motos. Ainda é possível encontrar alguns vendedores de jornais, mas em número reduzido. A figura do menino “trêfego, ativo, tagarela como uma pega, travesso como um tico-tico” que cantava o dia inteiro, anunciando grandes acontecimentos está desaparecendo. Felizmente existem os escritores, os poetas, os jornalistas, pintores e escultores que não deixam que essas figuras populares fiquem esquecidas.

sábado, 2 de outubro de 2010

José Jorge Letria e o poder encantatório da palavra.




José Jorge Letria e o poder encantatório da palavra.
( Neide Medeiros Santos – Crítica literária da FNLIJ/PB)

Cada palavra que aprendes
tem o gosto da aventura
e a magia secreta
que há no ato da leitura.
(José Jorge Letria. Versos para os Pais lerem aos Filhos em Noites de Luar)

José Jorge Letria, escritor português, é autor de vasta e diversificada obra. Na literatura portuguesa, tem lugar de destaque como dramaturgo, romancista, poeta, jornalista. Com o ilustrador André Letria, seu filho, publicou, pela Editora Peirópolis (2010), dois bonitos livros de poesia para crianças – “Avô, conta outra vez” e “Versos para os Pais lerem aos Filhos em Noites de Luar”.
O título do livro “Avô, conta outra vez” leva o leitor a pensar que se trata de um texto em prosa. Ledo engano, aí reside pura poesia, tudo perpassado por um lirismo encantatório. O avô se utiliza de versos para explicar ao neto que tem um saco cheio de histórias e no momento oportuno irá contá-las.

“Tenho em casa um saco cheio
de histórias para te contar
e só ando a fazer tempo
para as poderes escutar.

São histórias de outros tempos
que a minha avó me contou
com fadas e lobisomens
que a imaginação guardou.”

O avô e o neto têm um encontro marcado “na esquina de um livro / ou num quadro bem pintado”. O refrão “Ó avô, conta outra vez” aparece de forma reiterada, no decorrer do poema, sempre no último verso da quadrinha.
Não poderia deixar de fazer referência às ilustrações de André Letria. Desenhos e mais desenhos de livros se espalham pelas páginas, coroando os momentos mágicos de enlevo que envolve o contar histórias para o neto. Só quem já vivenciou essa experiência sabe a delícia que envolve esse terno momento.
Em nota da editora, na contracapa, vem esta observação que merece a transcrição: “Um livro para avós, pais e netos se lembrarem sempre do valor e da ternura que é capaz de unir gerações”.
Carlos Drummond de Andrade, no poema “Poesia”, revela o duro ofício de escrever um verso quando diz: “ele está cá dentro/ inquieto/vivo/ e não quer sair.” E prossegue o poeta: “Mas a poesia deste momento/ inunda minha vida inteira”.
Não sabemos se José Jorge Letria teve dificuldades para escrever os poemas do livro “Versos para os Pais lerem aos Filhos em Noites de Luar”, se lutou com as palavras, mas se torna evidente que a poesia inunda todas as páginas do livro. Terá sido influência da noite de luar? Pouco importa a resposta, o importante é a beleza poética do texto.
Se no livro anterior, a preocupação residia nas histórias contadas ao pé do ouvido, aqui esta preocupação está afeita à palavra. O adulto procura ensinar a criança o valor da palavra. Estes versos comprovam o que afirmamos:

“Cada palavra que dizes,
mesmo que seja hesitante,
tem a beleza sonora
da cantilena distante
que te entra no ouvido
vinda de uma tal distância
que, ao procurá-la no mapa,
encontramos a infância.”

E o poeta, pesquisador do significado das palavras, debruça-se sobre o aprender de novas palavras, sobre o ato da leitura, sobre cada palavra escrita.
E onde se guardam os afetos?

“E aquilo que tu sentes
passa de avós para netos,
é o livro onde se guarda
o tesouro dos afetos.”

Letria foi mais ousado nas ilustrações deste último livro – elas extrapolam o texto verbal, permitindo, assim, uma nova leitura.
Ler esses dois livros inundou, também, a minha vida de poesia.