terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Um passeio cheio de graça pela vida e obra de Machado de Assis


Um passeio cheio de graça pela vida e obra de Machado de Assis
(Neide Medeiros Santos – Crítica FNLIJ/PB)

O Tempo inventou o almanaque... E choviam almanaques, muitos deles entremeados de figuras, de versos, de contos, de anedotas, de mil coisas recreativas.
(Machado de Assis).

O almanaque é um livreto muito antigo e já circulava, no Brasil, na época de Machado de Assis. Apresentava assuntos variados, curiosidades, contos, poemas, matéria humorística e recreativa. As pessoas mais antigas guardam lembranças dos velhos almanaques que eram distribuídos, gratuitamente, nas farmácias brasileiras.
Nas primeiras décadas do século XX, Monteiro Lobato criou a história de Jeca Tatu, veiculada no Almanaque do Biotônico Fontoura. Jeca Tatu era vítima de “amarelão”, doença causada pela “ancilostomíase” e Lobato recomendava que o personagem tomasse Biotônico Fontoura para curar a doença. Lobato foi, assim, o maior divulgador do “santo remédio”.
Luiz Antônio Aguiar se inspirou nos antigos almanaques, no que se refere à diversidade de assuntos, para escrever o Almanaque Machado de Assis – vida, obra, curiosidades e bruxarias literárias (Editora Record, 2008), A respeito desse livro, Anna Maria Rennhack, Gerente de Relações Institucionais da Editora Record, assim se expressou:
Almanaque Machado de Assis, de Luiz Antonio Aguiar, tem objetivos ambiciosos. O primeiro, despertar o leitor iniciante para o mundo do escritor, através de informações sobre vida, obra e outras curiosidades. O segundo, levar os leitores que já conhecem a obra de Machado de Assis a reler seus títulos e reviver deliciosas passagens de seus textos.
Luiz Antonio Aguiar divide o livro em duas fases. A primeira compreende dados biográficos do autor, atividades literárias e curiosidades machadianas. A segunda se detém na análise das principais obras de Machado de Assis e nas bruxarias literárias. Na última parte, há citações e breves comentários sobre biografias e estudos críticos a respeito do autor de Dom Casmurro.
Vamos iniciar o passeio seguindo a ordem de apresentação do livro. Conta-se que Memórias Póstumas de Brás Cubas nasceu em Nova Friburgo para onde Machado fora passar uma temporada com a esposa com o objetivo de curar-se de uma terrível crise intestinal e de uma infecção ocular. Incapaz de escrever, Machado ditara o livro ou partes dele para sua mulher.
A denominação “Bruxo do Cosme Velho” adveio do último e definitivo endereço de Machado de Assis no Rio de Janeiro. Rua Cosme Velho, 18, Laranjeiras. A casa era um sobrado com um jardinzinho na frente e havia um plantio de rosas. Machado gostava de cuidar das rosas do jardim.
O excerto do poema de Drummond, “A um bruxo com amor”, inserido no livro “A vida passada a limpo”, é outra referência feita por Luiz Antonio que remete para a leitura integral do poema de Drummond e sugere também um mergulho na obra machadiana. São tantas as citações de Drummond à galeria de personagens criadas pelo bruxo de Cosme Velho que o leitor fica querendo conhecer um pouco mais das obras de Machado de Assis.
O sentimento de vazio, após a morte de Carolina, companheira de 35 anos de casamento, se revela no trecho da carta enviada por Machado ao amigo Joaquim Nabuco:
Note que a solidão não me é enfadonha, antes me é grata, porque é um modo de viver com ela, ouvi-la, assistir aos mil cuidados que essa companheira de 35 anos de casados tinha comigo, mas não há imaginação que não acorde, e a vigília aumenta a falta da pessoa amada. (Almanaque M. de Assis, p. 54).
Quatro anos depois da morte de Carolina, Machado parte, e entre os amigos que presenciaram a sua morte estava José Veríssimo. Foi este quem ouviu de Machado a sua última frase:
A vida é boa!
No capítulo “Mapa da obra”, com o título “Não deixe de ler”, o autor recomenda algumas leituras imprescindíveis dentro do universo machadiano: crônicas, contos, romances, poesia, crítica e teatro.
Para quem gosta de citar frases e aforismos de Machado de Assis, aconselhamos a leitura do capítulo “Assim falou Machado de Assis...” (p.189-195). Nessa parte se encontram frases, pensamentos e relíquias machadianas.
A Fase II se abre com “Poções Machadianas” e aparecem excertos de contos e romances comentados por Luiz Antonio Aguiar e por outros críticos de Machado de Assis. Ainda, no espírito da Fase II, Luiz Antonio Aguiar dá indicações sobre biografias e a fortuna crítica do autor de Dom Casmurro.
Não poderia faltar nesse livro o dilema: Capitu – culpada ou inocente? E vêm as diferentes opiniões dos críticos.
As fotografias que aparecem no livro, todas em tom sépia, retratam o sobrado da Rua Cosme Velho, ruas do Rio na época de Machado de Assis, objetos pertencentes ao escritor, retratos de Machado e da esposa Carolina em diferentes fases da vida, retratos de companheiros e amigos de Machado de Assis e uma pequena galeria de quadros, entre estes “A Dama do Livro”, quadro de Roberto Fontana que lhe foi presenteado por amigos.
Almanaque Machado de Assis: vida obra, curiosidades e bruxarias literárias pode ser lido em conta-gotas, cada dia um pouquinho. É uma leitura para “conhecer, pensar e se divertir”. Esse bruxo é mesmo “Indispensável”. Com sua fina ironia, Machado de Assis diverte, zomba e brinca com o leitor.
Este livro de Luiz Antonio Aguiar, fruto de pesquisas de mais de vinte anos, conforme declaração do próprio autor no Salão do Livro (2008), traz uma boa contribuição para a fortuna crítica de Machado de Assis no ano do centenário de sua morte. É um convite à leitura.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Nas Trilhas de Clarice e Beatriz


Nas Trilhas de Clarice e Beatriz

 

(Neide Medeiros Santos – Crítica literária da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil na Paraíba)

 

As palavras vão e vêm levando

sentimentos e afetos. Estamos tão longe, e, ao mesmo tempo,

tão perto!

(Eloí Elisabete Bocheco)

 

Eloí Elisabete Bocheco é professora e escritora de livros infanto-juvenis. Durante 13 anos, publicou crônicas no jornal “A Notícia”, de Joinville (SC). Algumas dessas crônicas foram reunidas em livro e publicadas com o título “Pedras Soltas” pela Editora da Universidade Federal de Santa Catarina. São textos revestidos de muita poeticidade. Peter O´Sagae, editor de “Dobras da Leitura”, foi muito feliz no comentário que fez sobre este livro: 

“As crônicas mostram seu bordado: não vem à toa nenhuma frase, por mais travestida de non-sense que se pareça: a linha evola da referência local e da prisão do tempo. São como mimos de coral, ou riscos de groselha, em que o precioso e o efêmero provocam espanto”.

Eloí Elisabete e Zenilde Durly são responsáveis pelo jornal de literatura infantil e juvenil “O Balainho”, uma publicação da Universidade do Oeste de Santa Catarina (Unoesc). “O Balainho” tem divulgado autores nordestinos que trabalham com a literatura infantil.

 Em 2003, Eloí foi vencedora do Concurso “Leia Comigo”, da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, com a bonita história ”Não vá embora, Clarice!”, um relato ficcional que prende o leitor do inicio ao fim do texto.

Antonio Candido, no livro “Personagem de Ficção”, fala sobre o processo de criação de personagens e afirma que todo escritor se revela um pouco através de seus personagens. Eloí Bocheco coloca muito de sua vivência nessa poética história de Clarice, uma professora que faz um trabalho de leitura com as mulheres que varrem a rua e freqüentam a Praça XV. Não sabemos onde fica a Praça XV, pode ser em Curitiba, Rio, Florianópolis ou qualquer cidade do Nordeste brasileiro, mas a Praça XV do relato de Eloí é uma praça especial. É lá que a professora Clarice vai encontrar as mulheres que varrem a rua e começa o seu trabalho de ler histórias para aquelas mulheres de vida tão simples. O interesse pela literatura começa a crescer, de simples ouvintes elas passam a ser leitoras, mas chega o momento da partida de Clarice, e elas (as mulheres leitoras) fazem esse apelo comovente: “Não vá embora, Clarice! “

Beatriz em trânsito (Ed. Dimensão, 2006) recebeu vários prêmios no Brasil e até no exterior. O livro foi selecionado para o catálogo White Ravens, da Biblioteca de Munique, com crítica de Ninfa Parreiras. No Brasil, foi o vencedor do prêmio Casa da Cultura Mário Quintana (RS), e consta do Acervo Básico da FNLIJ (2006).  

Na entrevista, concedida à Assessoria de Imprensa da Secretaria de Educação e Cultura do Rio Grande do Sul, indagada a respeito do possível leitor de “Beatriz em trânsito”, a escritora respondeu: “é uma obra para todas as idades”.   

Aliando os dois lados de sua vida – professora/escritora, Eloí gosta de escrever sobre livros, leitura e professores. “Beatriz em trânsito” não foge dessa temática. Aqui vamos encontrar a protagonista, uma menina de 10 anos, que descobre o mundo através dos livros.

Beatriz é uma menina inteligente, mora com os avós e está sempre de mudança, não tem um pouso certo, daí o título do livro – “Beatriz em trânsito”, mas no meio dessas mudanças acontecem coisas interessantes, como conhecer vários amigos e, entre eles, o menino Samuel que anda em cadeiras de rodas e a menina Mariana, mais uma vez aparece uma professora – Guiomar – que cada semana traz uma novidade para a classe.  Além do armário cheiinho de livros, há o mural com textos escritos pelos alunos, textos que falam sobre medos, tristezas, alegrias, sonhos.

A maneira inovadora de a professora Guiomar ensinar, leva Beatriz a dizer: “A Guiomar é uma grande misturadora de aula e de vida”. (p.33)

Com sentimento e muito afeto, recebi o último livro de Eloí Bocheco – “Gaitinha tocou, bicharada dançou” (Ed. Paulinas, 2008). É um livro indicado para crianças que estão se alfabetizando. 

Antes de se encantar em passarinho, Elias José fez a apresentação deste livro com palavras cheias de fantasia e falou de forma carinhosa sobre a bruxinha Elisa, personagem sempre presente nos livros da autora catarinense.

“A bruxinha Elisa renova. É bruxa, criança e fada. Ela se envolve com a natureza, com árvores, peixes, pássaros e outros bichinhos. (...) Fica na memória afetiva do leitor, mesmo não sendo descrita pela autora, que prefere contar com a imaginação de quem lê.”

Ouso parafrasear Elias José e aposto: leiam “Pedras Soltas”, “ Não vá embora, Clarice!” “ Beatriz em trânsito” e as histórias da bruxinha Elisa. Se vocês começarem a ler os livros de Eloí Bocheco  vão gostar, é só começar. 

sábado, 15 de novembro de 2008

uma casa povoada de poesia



Artigo - Uma casa povoada de poesia

E o carteiro todo dia leva um pouco de menino envelopando curiosidades onde se lê apenas o silêncio. 
(André Neves. A Caligrafia de Dona Sofia)

Neide Medeiros Santos, Professora e Crítica Literária - FNLIJ/PB

André Neves nasceu em Recife e atualmente está morando em Porto Alegre, escreve e ilustra livros para crianças, já ganhou muitos prêmios literários. Seus livros circulam pelo mundo, viajaram para a Feira de Ilustração de Livros Infantis da Bolonha, na Itália, e estiveram presentes na Feira de Livros da Bratislava, na Eslovênia.

A Caligrafia de Dona Sofia (Ed. Paulinas) teve uma 2ª edição em 2006 e foi indicado pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil para compor o Acervo Básico. A indicação de um livro para o Acervo Básico significa ser distribuído para todas as bibliotecas públicas do Brasil, é um livro, portanto, que será lido por um número muito grande de leitores. A respeito desse livro, Elias José escreveu um belo texto que só os poetas sabem escrever e fez o maior elogio que se pode fazer a um escritor:

É um livro que a gente lê e diz com uma invejinha positiva: por que não fui eu quem o escreveu? Que ideia genial: criar uma velha que ama, copia, decora sua casa e, mais ainda distribui poemas pela cidade toda, conquistando amigos, dinamizando e enchendo de luz e cores a sua vida antes tão pacata.

Ao examinar a orelha do livro, encontramos dois oferecimentos - um para Badida, que tem uma casa toda escrita e outro para Elma, a irmã do escritor, que tem uma caligrafia tão bonita quanto a de Dona Sofia.

André me fez um oferecimento também carinhoso e me autorizou a entrar na casa de dona Sofia com estas palavras: Professora Neide, por favor entre, a casa já é sua e sem cerimônias eu vou entrando. A casa me atraiu por vários motivos: localização - está situada na parte mais alta da cidade, em uma colina; tem um belo jardim com muitas flores; é toda decorada com poesias espalhadas pelas paredes e pelos móveis. Os livros estão guardados nos armários, nas estantes, em cima da cômoda do quarto, em todos os cantos da casa. Para espalhar poesia para uma cidade inteira, mesmo sendo pequenina, é preciso ler e reler muitos livros.

Mas precisamos primeiro conhecer Dona Sofia. Quem é Dona Sofia? Convidamos o narrador para fazer a apresentação:

Dona Sofia era uma professora aposentada que durante toda a vida se dedicara a ensinar. Ela conhecia os segredos, os sonhos, as sensações e as emoções que as palavras dos poetas despertam no coração de cada um. Agora, cultivava flores em seu jardim para serem vendidas na cidade, garantindo assim algum dinheiro, além do que recebia de sua fraca aposentadoria. (...) Lia romances, contos, crônicas e, principalmente, poesias. (p.8)

Agora que já sabemos quem é Dona Sofia, vamos dar um ligeiro passeio por sua casa. Era uma casa diferente de todas as outras - as paredes estavam decoradas com poesias, não havia mais lugar para colocar os poemas, assim ela decidiu fazer cartões decorados com flores prensadas, colhidas no seu próprio jardim, escrever, com letra bem caprichada, versos de seus poetas preferidos e enviá-los para os habitantes de sua cidade. Muitos poemas foram resgatados de sua memória, do tempo em que era professora, pesquisou também nos livros de poesias que tinha em casa e contratou Seu Ananias, o único carteiro da cidade, para fazer a entrega dos cartões poéticos.

Diariamente Seu Ananias montava em sua bicicleta e subia até a colina, percorria aquele caminho cheio de curvas - subia a ladeira vazio de poesias e voltava com a sacola cheia de cartões poéticos. 
Um dia, que não Era domingo... mas um dia de semana qualquer, Seu Ananias teve uma surpresa - havia um cartão para ele e logo reconheceu a bonita letra de Dona Sofia. Seu Ananias pensou: 
Quem já viu? Escrever uma carta para o próprio carteiro! (p.18)

Dona Sofia escolheu um poema bem simples, romântico, de Casimiro de Abreu, para presentear Seu Ananias. Lá estava o poema escrito, com sua letra de professora, as duas primeiras estrofes de Meus oito anos.

No outro dia, o carteiro agradeceu o presente e disse que era a primeira vez que ganhava um cartão com poesia e perguntou a Dona Sofia quem era esse poeta que escrevia versos tão bonitos. Depois da explicação, o carteiro saiu procurando pelas paredes, no sofá, na geladeira, nas cortinas, poesias de Casimiro de Abreu.

Depois desse dia, Seu Ananias recebeu muitos outros cartões de Dona Sofia, com versos de poetas diferentes e aos poucos foi conhecendo mais poetas, ficava emocionado quando lia os poemas. O interesse do carteiro por poesias foi crescendo, crescendo. Dona Sofia começou a falar sobre a vida dos poetas, mostrar as diferenças de estilo e Seu Ananias resolveu escrever também um poema para Dona Sofia. O primeiro poema não parecia muito inspirado, era mais uma forma de agradecer à velha professora o bem que ela havia feito para ele, para toda cidade, quem sabe... de tanto ler poesia, de tanto conversar com Dona Sofia sobre os poetas e as diferentes maneiras de poetar, Seu Ananias não se torne algum dia um verdadeiro poeta.

A cidade hoje está repleta de poesia, todos gostam de receber cartões com poemas e flores, cultivam a boa poesia. Dona Sofia é rigorosa na seleção dos poemas, escolhe criteriosamente poetas e poemas e o povo daquela pequena cidade parece mais feliz e alegre.

João Pessoa é conhecida como a 2ª cidade mais verde do mundo, como seria bom se fosse também conhecida como a cidade dos poetas. Vamos adotar Dona Sofia como modelo e mandar cartões para os amigos povoados de poemas, há tantos bons poetas na Paraíba e, para não desgostar os vivos, cito apenas nosso poeta maior - Augusto dos Anjos.

Fizemos uma entrevista com André Neves que foi publicada no jornal O Balainho, da Universidade Oeste de Santa Catarina, ele confessou que seu gosto pela ilustração adveio do curso que fez com a artista plástica Badida, que mora em Olinda e tem uma casa toda decorada com quadros e poesia. Vale a pena uma visita à casa de Badida. Já estive lá e vi, na sala de visitas, uma cesta com livros e mais livros e entre eles - A Caligrafia de Dona Sofia.

sábado, 25 de outubro de 2008

lista de honra ibby 2008



Lista de Honra IBBY/2008
(Neide Medeiros Santos – crítica literária FNLIJ/PB)

O livro traz a vantagem de a gente poder estar só e ao mesmo tempo acompanhado.
(Mário Quintana. Caderno H).

Dois livros publicados no Brasil – Lampião e Lancelote, de Fernando Vilela (texto e ilustração), da CosacNaify, e Os Corvos de Pearblossom, de Aldous Huxley, editora Record, ilustrações de Beatrice Alemagna, com tradução de Luiz Antônio Aguiar, figuraram na Lista de Honra do 31º. Congresso do IBBY (International Board on Books for Young People), realizado em Copenhague, entre os dias 7 e 10 de setembro de 2008.
O livro de Fernando Vilela já havia conquistado, em 2007, vários prêmios no Brasil – Melhor livro de Poesia da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil 2007, Melhor Projeto Editorial e Melhor Ilustração da mesma Fundação, Jabuti 2007, na categoria de livro infantil. A escolha de Lampião e Lancelote, na lista de Honra IBBY/2008, não causou surpresa entre os especialistas de literatura infantil.
Os Corvos de Pearblossom recebeu, no Brasil, o prêmio de Melhor Tradução pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil em 2007. Luiz Antônio Aguiar é autor consagrado de livros infanto-juvenis e tem feito ótimas traduções na área dos livros destinados a crianças e jovens.
É sobre os dois livros premiados que voltamos nossa atenção.
Para escrever Lampião e Lancelote, Fernando Vilela imaginou um encontro inusitado entre dois cavaleiros – Lancelote (cavaleiro medieval) e Lampião (cangaceiro nordestino).
O cavaleiro medieval considera a luta como uma “justa”; o cangaceiro, “um duelo”. A disputa é ferrenha entre os dois cavaleiros, mas é uma luta de caráter mais cultural do que física, e o embate se verifica, principalmente, entre a linguagem de cavalaria e a linguagem de cordel.
Quem será o vencedor? Quem é o melhor repentista? Cabe ao leitor fazer a leitura do livro e tirar suas conclusões.
Lancelote se utiliza da setilha, versos de sete sílabas para desafiar Lampião, e o cangaceiro empregou a sextilha, a métrica mais tradicional do cordel, para desbancar o cavaleiro medieval.
Texto em prosa e em poesia, espadas, entrecruzar de armas, lanças e flechas atravessam todas as páginas do livro, conferindo um colorido especial e atraente.
Fernando Vilela recorreu aos desenhos que aparecem nos livros da Idade Média para representar Lancelote e as xilogravuras nordestinas e as fotografias da época do cangaço serviram para retratar a indumentária do cangaceiro Lampião. A prata, o cobre e o negro são as cores utilizadas nas ilustrações.
A respeito do livro Lampião e Lancelote, Bráulio Tavares, profundo conhecedor do cordel e ele mesmo autor de cordéis, assim se expressou:
As aventuras de cavaleiros medievais estão no repertório dos livros infantis e juvenis do mundo inteiro. Já as histórias de cangaceiros são um dos ciclos mais populares da literatura de cordel nordestina. Para o ilustrador e autor Fernando Vilela, o encontro entre o cavaleiro Lancelote e o cangaceiro Lampião foi uma idéia irresistível, que lhe permitiu mostrar as semelhanças entre dois universos que parecem distantes. (Contra capa do livro Lampião e Lancelote).
Os Corvos de Pearblossom, como todo livro, tem sua história. Aldous Huxley escreveu este livro para sua sobrinha Olívia Melusine de Haulleville que gostava de visitar os tios que moravam em Llano, no Antelope Valley, deserto de Mojave, Califórnia.
Aldous Huxley e a esposa viviam muito isolados e a sobrinha costumava passar as férias com a família Huxley, eles davam longos passeios com Olívia e contavam histórias para entretê-la. Foi o único livro que Huxley escreveu para crianças. Durante muitos anos a história ficou esquecida, guardada, só depois de três anos da morte do autor, apareceu a 1ª. edição (1967). O livro alcançou sucesso desde a 1ª edição e muitas outras se seguiram. Em 2006, Luiz Antônio Aguiar fez a tradução para o português.
O conto é bem simples – um casal de corvos observa que os ovos que a senhora corvo põe no ninho desaparecem misteriosamente. Certo dia a mãe regressa mais cedo para casa e encontra o ladrão com a “mão na botija”, era uma serpente. A partir dessa descoberta, começa a luta do casal para se livrar de tão terrível animal e a sábia coruja vai ajudá-los na empreitada.
Embora se utilize de poucas cores, Beatrice Alemagna fez belas ilustrações para este livro. O tamanho descomunal da serpente contrasta com os diminutos corvos. Beatrice teve a preocupação de utilizar cores neutras – cinza e tons ocres para representar a região árida do deserto de Mojave.
Estes dois livros, que consideramos objetos de arte, devem constar nas estantes dos bons leitores e como estamos nos aproximando do Natal vamos seguir o exemplo de muitas pessoas – dar presentes de livros. Lampião e Lancelote e os Corvos de Pearblossom serão bem-vindos como presentes de Natal para crianças e adolescentes. São livros-companheiros para toda a vida.





terça-feira, 21 de outubro de 2008

lembranças da revista tico-tico


Lembranças da revista O Tico-Tico
Neide Medeiros Santos – Professora e crítica literária

A criança está perdendo a infância, a infância que eu tive lendo o meu Tico-Tico, Almanaque d´O Tico-Tico.
(Lygia Fagundes Telles)

Para quem nasceu na primeira metade do século passado, a publicação comemorativa do centenário da revista O Tico- Tico (Vinhedo: SP: Opera Graphica Editora, 2005) foi um verdadeiro presente.
No prefácio da luxuosa e bem cuidada edição, Sérgio Augusto afirma que essa revista fez mais pela educação do Brasil do que todos os ministros que disso se encarregaram nos últimos cem anos. (p.6)
A revista O Tico- Tico nasceu em 1905, no dia 11 de outubro de 1905, e durante quase seis décadas educou e divertiu várias gerações de brasileiros, como Francisco Campos, Gustavo Barroso, Assis Chateaubriand e os acadêmicos Josué Montello e Raimundo Magalhães Júnior. Os intelectuais Alceu Amoroso Lima e Gilberto Freyre também foram leitores de O Tico-Tico. Conta-se que Rui Barbosa era leitor assíduo da revista e, certa vez, quando lhe pediram para explicar uma informação que dera, disse: Ora, tirei do Tico-Tico.
Ainda, com relação a Rui Barbosa, Rejane M.M.A. Magalhães, no depoimento do capítulo 24, declara que:
Rui Barbosa todas as semanas comprava O Tico-Tico para os netos, mas era o primeiro a ler a revista. Numa das ocasiões, o Desembargador Palma, seu amigo, encontrou-o mergulhado na leitura e gracejou: “Você virou criança?” Ruy, sério, respondeu: “O espírito tem necessidade de distrações amenas , e nada melhor para conservá-lo jovem do que as leituras infantis.” (p. 185)
O criador da revista foi Luís Bartolomeu de Sousa e Silva que já editava O Malho e Renato de Castro é considerado o pai d´O Tico-Tico. Foi uma revista pioneira nas histórias em quadrinhos no Brasil. Era uma leitura mais destinada para meninos, mas era lido também por meninas.
Na coletânea Memórias Rendilhadas: vozes femininas (João Pessoa: Editora Universitária/UFPB, 2006), as escritoras Mila Cerqueira, Socorro Loureiro, Vitória Lima e Yolanda Limeira fazem referências à revista O Tico-Tico. Socorro Loureiro achava delicioso ler, no Almanaque Tico- Tico, as aventuras de Reco-Reco, Bolão e Azeitona. Dar gostosas gargalhadas com as trapalhadas do casal Zé Macaco e Faustina. (p.77)
Esses depoimentos das mulheres escritoras comprovam a grande aceitação dessa revista pelo público infantil, independente da região e do sexo. O Tico-Tico não conhecia fronteiras, era lido no Sul/Sudeste, Norte/ Nordeste do Brasil.
A edição comemorativa do centenário da revista apresenta, entre outras coisas, uma entrevista com o bibliófilo José Mindlin. Mindlin permitiu que os organizadores do livro consultassem a sua coleção particular de livros e revistas na vasta biblioteca que reuniu através dos anos e fotografassem o 1º. número da revista O Tico – Tico.
A paixão pelos livros do bibliófilo Mindlin transparece em vários momentos dessa entrevista. O cultor dos livros não sente o peso dos anos (91 anos na época da entrevista, 2003) e fala sobre projetos de incentivo à leitura – “Estado Leitor”, uma idéia de transformar o estado de São Paulo em um “estado leitor” através de investimentos na formação dos professores. Outro projeto de Mindlin é instituir nas escolas a hora “Prazer da Leitura”. Nesse caso, a leitura não seria uma obrigação nas aulas, mas uma fonte de prazer. Professores e alunos, em conjunto, comentariam os livros, fariam leitura em voz alta, emitiriam opiniões sobre os livros. Estas sugestões podem ser seguidas por outros estados do Brasil.
Há, ainda, depoimentos de escritores e textos de críticos analisando a revista sob vários ângulos: psicológico, jornalístico, pedagógico, sociológico. Dentro desse rico universo de depoimentos, não poderíamos deixar de citar o belo texto de Moacyr Cirne:
Sou do interior do Rio Grande do Norte, sertão do Seridó, nascido em 1943. Aprendi a ler através de O Tico-Tico, no final dos anos 40. Quem o adquiria era minha mãe, que me ensinou a penetrar em seu mundo vocabular, ao mesmo tempo em que eu “lia” as imagens. Reco-Reco, Bolão e Azeitona, de Luiz Sá, por exemplo, eram personagens que me encantavam vivamente. Confesso: tudo aquilo era muito mágico, era muito envolvente. (Capítulo 6, p. 55).
Para os depoimentos que abrem os capítulos foram escolhidas pessoas que tiveram uma relação emocional com a revista, como José Mindlin, Lygia Fagundes Telles, Moacyr Cirne, Moacyr Scliar, Ziraldo, Érico Veríssimo, Carlos Drummond de Andrade.
Na página 172, capítulo 21, com o título O Tico-Tico e a Cultura Nacional, o leitor encontra a reprodução da crônica de Drummond, publicada no Correio da Manhã – Um passarinho, uma crônica cheia de poesia e de humor, uma homenagem à revista que foi pai e avô de muita gente importante.
É possível descobrir fatos interessantes e pouco conhecidos do público lendo esta edição comemorativa dos 100 anos. Sérgio Buarque de Holanda, mais conhecido como pai de Chico Buarque e autor de Raízes do Brasil e Visões do Paraíso, quando tinha 9 anos compôs a valsa “Vitória Régia” que foi publicada na revista O Tico-Tico. Compor valsinhas é, portanto, uma tradição da família Buarque de Holanda.
Entre os poetas e romancistas que colaboraram com a revista, destacam-se: Coelho Neto, Bastos Tigre, Malba Tahan, Osvaldo Orico, Josué Montello. Figuravam entre desenhistas e cartunistas: Ângelo Agostini, Alfredo Storni, Luiz de Sá, J. Carlos.
Colada na contra capa interna, o leitor encontra uma reprodução integral de O Tico-Tico número 1. É uma edição fac-símile.
Se houve influências americanas e francesas nos quadrinhos da revista O Tico- Tico pouco importa. A revista marcou época e deixou boas lembranças nos assíduos leitores de um tempo em que a leitura era o passatempo predileto das crianças.
Não fui leitora de O Tico-Tico, mas esta edição comemorativa do centenário da primeira revista de quadrinhos do Brasil veio preencher o vazio da leitura que deveria ter sido e que não foi.







marc chagall e suas imagens aladas



Marc Chagall e suas figuras aladas
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB)

“Só é minha
a terra que está
em minha alma.” (...)
(Marc Chagall. Trecho do poema Minha Terra).

Marc Chagall nasceu em 1887, na cidade de Vitebsk, na Rússia. Seu nome verdadeiro era Moshe Segall, mais tarde adotou o nome artístico de Marc Chagall e assim ficou conhecido no mundo das artes plásticas.
Embora tenha vivido grande parte de sua vida fora da Rússia, o bairro judeu de Vitesbsk , sua cidade natal, os músicos, os rabinos, cabras, bois e galinhas estão sempre presentes em seus quadros e murais. Pessoas, animais, objetos são retratados como figuras aladas.
Para conhecer mais sobre a vida aventurosa do precursor da pintura surrealista, encaminhamos o leitor para o bonito livro de Bimba Landmann Como me tornei Marc Chagall (Editora SM, 2007).
Bimba Landmann se utilizou do livro autobiográfico de Chagall (Minha Vida) e conta a história deste pintor que conseguiu alcançar sucesso na França e nos Estados Unidos, recriando o mundo através da pintura. Chagall também escreveu poesias.
Um pintor com alma de poeta, assim o romancista Henry Miller se referia a Marc Chagall.
Certa vez perguntaram a Chagall porque ele pintava cabras e peixes que voavam, violinistas de rosto verde trepados em telhados, casas que boiavam no céu de cabeça para baixo e ele respondeu de forma poética:
“Pintei meu mundo, minha vida
aquilo que vi e aquilo que sonhei:
pintei minha Rússia querida,
a Vitesbsk onde nasci,
o bairro dos judeus pobres onde cresci,
assim como os via quando era criança,
quando meu nome era Moshe Segall”.
Chagall morreu com 97 anos e morou muito anos na França. Em 1963, atendendo a um convite do governo francês, pintou o teto da Ópera de Paris. A respeito desse fato, Jude Welton, no livro Marc Chagall (Ed. Ática, 2006), afirma que alguns críticos foram contra a idéia de um judeu russo decorar esse monumento nacional francês, outros consideravam que a arte moderna era inadequada para um edifício do século XIX. Chagall estava com 77 anos. Quando a pintura ficou pronta, todos concordaram que o resultado foi uma obra-prima. Um crítico escreveu:
“Dessa vez, os melhores lugares do teatro são os mais altos”.
Se livros são destruídos nas guerras, nos regimes totalitários, os artistas (pintores) e seus quadros também são vítimas de perseguições.
Em 1933, foi organizada, na Basiléia, Suíça, uma grande retrospectiva em homenagem a Chagall e, nessa mesma época, na Alemanha, seus quadros foram queimados por ordem do governo nazista. Eram obras de um judeu, foi a justificativa.
Os déspotas não entendem que a Arte desconhece as fronteiras de raça, credo. O Belo deve ser admirado por todos, independente de ideologias.
Chagall era religioso, temente a Deus, e cenas bíblicas aparecem sempre na sua pintura, nos vitrais. Um dos seus quadros mais conhecidos traz o título Solidão. Nesse quadro, Chagall retratou uma vaquinha tranqüila, deitada junto a um violino, casas russas em um plano de fundo e uma enorme figura de um judeu em primeiro plano. O judeu se apresenta como uma pessoa melancólica, pensativa, segurando um rolo de Torá, o livro sagrado dos judeus. Complementando a cena, vemos um anjo voando. Anjos são imagens recorrentes nos quadros de Chagall.
Os vitrais das igrejas foram outra paixão de Chagall e o pintor só começou a se dedicar a essa arte aos 70 anos. O vitral da janela da Catedral de Chichester foi terminado quando Chagall tinha mais de 90 anos.
O crítico brasileiro Ferreira Gullar escreveu um livro que analisa, com bastante lucidez, obras de arte de artistas nacionais e internacionais e Chagall é objeto de análise de um artigo do crítico de arte. O livro de Gullar foi editado pela Cosac&Naify em 2003 e traz o título de “Relâmpagos”. É leitura essencial para quem gosta de Arte.
Para conhecer um pouco da obra de Marc Chagall, indicamos esses dois livros: “Como me tornei Marc Chagall” (Ed. SM) e “Marc Chagall” (Ed. Ática). São livros indicados para um público juvenil e para todo leitor que gosta de Arte. São livros bem escritos, com boa ilustração e que apresentam um pouco da vida e da obra artística desse cidadão do mundo.
No Brasil, é possível admirar alguns quadros de Chagall nos museus MAC-USP, São Paulo; MASP – São Paulo; MAB FAAP – Museu de Arte Brasileira, São Paulo; MNBA – Museu Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro, MAM – Museu de Arte Moderna da Bahia, Salvador.
Se você for a uma dessas cidades brasileiras (São Paulo, Rio e Salvador), aproveite para visitar os museus e procure ver os quadros de Marc Chagall. Enquanto a viagem não chega, a leitura desses dois livros vão suprir a ausência do que os olhos não vêem.
(Em tempo): O crítico brasileiro Antonio Candido, que teve alguns aspectos de sua obra analisada no artigo – Antonio Candido – um mestre da crítica literária no Brasil (O Norte, Show, C4, 02 de agosto de 2008), recebeu, no dia 20 de agosto, o Troféu Juca Pato, Intelectual do Ano, da União Brasileira de Escritores de São Paulo.




















sexta-feira, 17 de outubro de 2008

O gosto de brincar com as palavras





O gosto de brincar com as palavras

 (Neide Medeiros Santos – Ensaísta e Crítica literária – FNLIJ/PB)

 

  Palavras

Gosto de brincar com elas.

Tenho preguiça de ser sério.

(Manoel de Barros. Tratado Geral das Grandezas do Ínfimo).

 

Manoel Wenceslau Leite de Barros, ou simplesmente Manoel de Barros como é conhecido nacionalmente, nasceu em Cuiabá, em 1916, estudou e formou-se em Direito no Rio de Janeiro e por lá trabalhou durante muitos anos.  Na década de 60, aposentado das atividades profissionais, voltou para seu estado natal. Atualmente mora em uma fazenda nas proximidades de Campo Grande.

A carreira literária do poeta teve início na década de 30, com a publicação de livro “Poemas concebidos sem pecado” (1937). Somente nos anos 60, livre de outros compromissos, o poeta se dedicou às atividades agrícolas e, de maneira mais intensa, à poesia.

Ricardo Alexandre Rodrigues, na sua dissertação de mestrado, defendida na Universidade Federal do Rio de Janeiro, em 2006, com o título A Poética da Desutilidade. Um passeio pela poesia de Manoel de Barros afirma que, embora tenha publicado vários livros entre os anos 40 e 70, o reconhecimento do público só aconteceu por volta dos anos 80. O ensaísta lembra que as composições de Manoel de Barros nos despertam para reflexões em torno da poesia e de suas brincadeiras com as palavras. 

 Se fizermos um levantamento em torno da produção literária de Manoel de Barros, iremos constatar que a partir dos anos 80 o poeta intensificou a publicação de livros, mas foi em 2000 que o poeta começou a escrever livros destinados ao público infantil. Será que Exercícios de ser criança (2000), O Fazedor de Amanhecer (2001), Cantigas para um passarinho à toa (2003) e Poeminha em língua de brincar (2007) são livros para crianças? Sabemos que os rótulos nem sempre são fiéis ao conteúdo do texto literário, por isso preferimos dizer que, nesses livros, afloram sentimentos inerentes à criança e o leitor infantil se identifica com o poeta que sabe dar voz às pedras, aos passarinhos, às árvores.

 Exercícios de ser criança recebeu o Prêmio Odylo Costa filho (2000),  na categoria de poesia, da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil e Prêmio da Academia Brasileira de Letras nesse mesmo ano. As belíssimas ilustrações da família Dumont para esse livro formam um rendilhado perfeito entre texto (poemas) e tecido (bordados das irmãs Dumont, sob desenhos de Demóstenes Vargas).

O Fazedor de Amanhecer, com ilustrações de Ziraldo, ganhou em 2002 o Prêmio Jabuti de Literatura na categoria livro de ficção; agora, em 2008, Poeminha em língua de brincar, com ilustrações de Martha Barros, ganhou o Prêmio FNLIJ Odylo Costa filho – O Melhor Livro de Poesia. É sobre este último livro de Manoel de Barros que iremos tecer algumas considerações.

Em Poeminha em língua de brincar, o poeta escolhe, cuidadosamente, cada palavra e vai tecendo uma renda que às vezes é labirinto, como neste exemplo:

Gostava mais de fazer floreios com as palavras do que de fazer idéias com elas.

 Outras vezes é renascença:

 Pois frases são letras sonhadas, não têm peso,

nem consistência de corda para agüentar uma rã em cima dela.

O labirinto é um bordado feito à mão, cheio de floreios; a renascença é uma renda tecida ponto por ponto, muito fina, delicada, leve, muito leve, quase sem peso.

Como as bordadeiras nordestinas que brincam com as linhas e os desenhos, construindo rendas e sonhos, o poeta brinca com as palavras e constrói poemas.  

 Martha Barros fez as ilustrações do livro. A capa se assemelha a um rio com peixes que flutuam em águas alaranjadas, ou será um pauta com notas musicais, povoada de meninos e passarinhos? Talvez o menino travesso saiba responder.

Nas páginas internas do livro, as ilustrações que acompanham os poemas guardam afinidades com desenhos e letras de um menino aprendiz.

As duas linguagens (verbal e pictórica) se enlaçam, se abraçam, caminham pari-passu formando um único texto, rico em simbologias. O poeta e a ilustradora têm uma maneira particular de “transver” o mundo.

Manoel de Barros, em entrevista concedida ao Jornal do Brasil  (Caderno Idéias, 30 de março de 2002) afirmou que trabalha cada letra, cada sílaba, cada palavra para conseguir certa harmonia para o verso ou a palavra. O apuramento na escolha de cada palavra, cada verso em Poeminha em língua de brincar comprova que estamos diante de um poeta comprometido com a linguagem e consciente do fazer poético.