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terça-feira, 14 de outubro de 2008

DILA - O ARTISTA DO POVO, O POETA DA MAO


DILA – O ARTISTA DO POVO, O POETA DA MÃO 
Neide Medeiros Santos 

O poeta popular Dila adota vários nomes – José Soares da Silva, José Cavalcanti Ferreira e Dila José Ferreira. Sua biografia vem envolvida de um certo mistério: antes de se estabelecer em Caruaru (PE), ele afirma que teria sido um dos integrantes do grupo de Lampião ou irmão de Lampião. Nasceu em 1937, na cidade de Bom Jardim (PE), sinal de que a sua afirmativa é fruto de fértil imaginação.
Como poeta popular, já publicou inúmeros folhetos, quase todos voltados para a temática do cangaço. Na sua tipografia, que funciona na casa onde mora com a mulher e os filhos, em Caruaru, Rua Antônio Satu, 36, conserva, sobre Lampião e cangaceiros, exemplares de folhetos de sua autoria que somam mais de cem títulos. Em alguns folhetos, além do seu próprio nome, Dila José Ferreira da Silva, acrescenta outros, como Barba Nova, no folheto Zé Baiano; e Marechal do Cordel do Cangaço, no folheto Viver de Cangaceiro.
O professor e pesquisador de literatura popular, Roberto Câmara Benjamin(1), um profundo conhecedor da arte do xilógrafo, faz uma pertinente observação a respeito das ilustrações que aparecem nas capas de seus folhetos: Dila se auto-retrata nas capas dos folhetos em trajes de cangaceiro. Examinando mais de cinqüenta folhetos do autor, atestamos a validade da observação do pesquisador. No livro Guriatã: um cordel para menino (2), livro de poemas do poeta pernambucano Marcus Accioly, Dila faz um auto-retrato em uma das páginas do livro e, nesse auto-retrato, não está vestido de cangaceiro, o que constitui uma raridade.
Como poeta da palavra, Dila está distante de Leandro Gomes de Barros ou mesmo de Manoel Camilo dos Santos: falta-lhe sopro poético. Escreve versos, geralmente em sextilhas, e as histórias não obedecem a uma seqüência lógica. Aproveita os versos das capas dos folhetos para fazer propaganda de sua tipografia e de outros estabelecimentos comerciais de Caruaru.
É como poeta da mão, e aqui usamos uma expressão de Bachelard (2) que o trabalho de Dila se destaca. No ensaio Matéria e Mão, Bachelard analisa o trabalho do gravador e averba: A gravura é a arte que não pode enganar. É pré-histórica, pré-humana.
Os desenhos feitos por Dila apresentam as características mencionadas por Bachelard – são primitivos e ligam-se a um tempo pré-histórico. Os animais (bois, touros,cães) e os instrumentos de corte ( faca, facão, quicé, lâminas), que ilustram o livro Guriatã: um cordel para menino, trazem a marca da gravura primitiva.
O professor Roberto Benjamin (3), na comunicação apresentada no IX Encontro Nacional de Pós-Graduação em Letras e Lingüística, com o título Em torno do texto- aparatos dos livros populares - Dila editor popular, chama-nos a atenção para algumas técnicas empregadas pelo xilógrafo que o tornam um artista singular. Dentre as técnicas inovadoras, Benjamin destaca a introdução da borracha como matéria prima em substituição à madeira. Sem recorrer a sofisticados processos químicos, Dila obtém resultados semelhantes à impressão off-set, daí Benjamin denominá-la folk-off-set. Outra técnica utilizada por Dila na produção de xilogravuras é a impressão das capas de folhetos e álbuns em cores. Benjamin atribui esse recurso à grande aceitação popular dos folhetos editados pela Luzeiro de São Paulo, com capas em policromia industriais. Dila procurou competir com a tipografia Luzeiro, oferecendo aos leitores de cordel capas também coloridas.
Em Guriatã: um cordel para menino, Dila não utilizou o recurso das cores. A xilogravura impressa em quase todas as páginas do livro segue o caminho tradicional ( preto e branco). O poeta da mão procurou traduzir plasticamente a linguagem verbal: Accioly vai descrevendo paisagens, animais, mitos populares e Dila vai procurando dar sopro de vida a esses seres que povoam a mata norte de Pernambuco. Podemos dizer, portanto, que houve uma feliz união entre os poemas de Accioly e a xilogravura primitiva do poeta da mão.

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