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sábado, 4 de outubro de 2008

Linguagem poetica de Bartolomeu Campos de Queiros
















Artigo - A linguagem poética de Bartolomeu Campos de Queirós
"Do diálogo entre o sonhado e o desejo que se atreve é que inventamos a vida." (Bartolomeu Campos de Queirós)
Neide Medeiros Santos, Professora e Crítica Literária - FNLIJ/PB
Bartolomeu Campos de Queirós já escreveu cerca de 50 livros. É um escritor de valor reconhecido no Brasil e no exterior, muitos de seus livros já foram traduzidos. Entre os prêmios internacionais recebidos pelo autor, destacam-se: Diploma de Honra IBBY (Londres), Prêmio Rosa Blanca (Cuba), Quatriéme Octogonal (França) e Finalista do Prêmio Andersen 2008 (IBBY, Copenhague). No Brasil, ganhou inúmeros prêmios e, mais recentemente, Jabuti (2008), com o livro "Sei por ouvir dizer" (Ed. Edelbra, 2007).
Mas o que será que torna este escritor tão querido e amado pelos leitores espalhados por diferentes regiões do Brasil?
Atribuímos a boa receptividade de seus livros à poeticidade da linguagem. Se o menino do dedo verde tinha o poder de transformar tudo que tocava em verde, Bartolomeu tem o poder de transformar toda e qualquer palavra em poesia.
O crítico Fábio Lucas, conhecedor dos meandros da literatura, define, assim, o texto desse escritor singular:
"O que há de invulgar no texto de Bartolomeu Campos de Queirós é uma leveza, uma transparência que não se traduz em superficialidade. Antes, constitui abertura para regiões profundas da comunicação poética. Ler o seu texto é envolver-se de imediato com a magia das palavras, é seduzir-se com a beleza e a musicalidade da prosa". (In: Longe do mar inventa-se um oceano).
Para o leitor que ainda não conhece os livros de Bartolomeu, recomendamos aqueles que têm o signo pássaro como motivo condutor - "Para criar passarinho" (Ed. Miguilim, 2000) foi considerado Altamente Recomendável pela FNLIJ/2001 e selecionado entre os cinco finalistas do Prêmio Jabuti - CBL/2001 e "Até passarinho passa" (Ed. Moderna, 2003) que recebeu, entre outros prêmios, FNLIJ - Prêmio Ofélia Fontes (2004), Prêmio da ABL e Menção Honrosa Jabuti (2004).
Com relação à comovente história "Até passarinho passa", podemos dizer que vem revestida de poeticidade, de lições de vida, de reflexões filosóficas. Se encontrar um amigo é encontrar um tesouro, o que dizer se esse amigo é cauteloso, constante, fiel? Como suportar a dor da partida desse amigo? De forma sutil, o autor leva o leitor a refletir sobre a efemeridade da vida, a alegria do encontro e a tristeza da partida.
Em 2007, Bartolomeu Campos de Queirós publicou três livros: "Para ler em silêncio (Ed. Moderna), "Sei por ouvir dizer" (Ed. Edelbra) e "O ovo e o anjo" (Ed. Global)".
"Para ler em silêncio" integra a série "A palavra é sua". Neste livro, o autor relata as experiências de um narrador-personagem quando criança e discorre sobre a arte de ouvir o silêncio, sobre o tempo da infância que desconhece ainda o ler e o escrever. Cada capítulo se inicia com um poema que se entrecruza com o texto em prosa e, diante de tanta beleza poética, o leitor perguntará: onde está a verdadeira poesia - na prosa ou nos versos? Está em tudo.
Há alguma coisa inusitada neste livro, depois da palavra FIM aparece um capítulo conclusivo de teor memorialista em que o narrador-personagem fala sobre as folhas do seu primeiro livro - "a parede da casa do avô" e as folhas do seu primeiro caderno - "os muros da casa do avô". (A casa do avô é tema recorrente em outros textos de Bartolomeu). O menino cresceu, freqüentou a escola e houve o encontro com os livros de verdade - "O livro de Lili", na escola primária; os de literatura, no ginasial, aí o menino grande criou gosto pela leitura e conclui: "Hoje todo livro literário me alfabetiza". (p. 64)"Sei por ouvir dizer" (Prêmio Jabuti 2008), na categoria infantil, apresenta como protagonista uma senhora com três idades distintas: uma idade passada, uma idade presente e outra idade futura, ela tinha três óculos - um para ver o longe, outro para ver o perto e um terceiro para procurar os dois óculos. Havia um menino no meio dessa história que fez uma visita a casa dessa senhora e resolveu ficar com os três pares de óculos e um dia eles também desapareceram, mas o menino já tinha aprendido a olhar a vida.
Suppa fez as ilustrações do livro com um colorido bem forte, vibrante, e predomínio da cor azul celeste. Em algumas ilustrações, a senhora está com os olhos fechados, em outras passagens os olhos estão bem abertos, instigantes, como se estivesse procurando algo perdido. Os óculos? O tempo?
No nível do parecer, é um livro jocoso, lúdico e as ilustrações seguem esse caminho; no nível do ser, apresenta uma proposta filosófica, é uma reflexão sobre a própria vida.
"O ovo e o anjo" é constituído de pequenos poemas que trazem a marca do lúdico, mas um ludismo que, como bem afirma Peter O´Sagae, em texto publicado em Dobras da Leitura, "desperta espantos do ninho das palavras - e, então vai acalentando o cotidiano e a imaginação como se fossem feitos da mesma matéria.".
Helena Alexandrino ilustrou o livro com cegonhas, anjos e paisagens tingidas de verde-água. A leveza do vôo dos pássaros e dos anjos combina com a leveza poética dos versos.
A ensaísta Stella de Moraes Pelllegrini, no livro "Caminhos e encruzilhadas: percursos poético e político de Bartolomeu Campos de Queirós, da formação do leitor à formação de leitores" (Ed. RHJ, 2005), ressalta que os textos de Bartolomeu Campos de Queirós são poéticos, políticos e revelam uma profunda preocupação com a formação de leitores e a construção de uma escola leitora.
Depois desses comentários certamente o leitor vai bisbilhotar livrarias, bibliotecas, estante da sua escola, casa do (a) amigo (a), e procurar livros desse escritor/passarinho e, com toda certeza, irá encontrá-los. Eles (os livros) têm alma, passeiam por livrarias, bibliotecas, por sebos culturais e pelas casas daquelas pessoas que gostam de poesia, estão apenas esperando por um leitor que leia em silêncio, entre "o sonho e o desejo

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