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sábado, 7 de fevereiro de 2009

Raízes míticas da literatura indígena para crianças







Raízes míticas da literatura indígena para crianças

Feliz de quem entende que é preciso mudar muito para ser sempre o mesmo. (Dom Hélder Câmara. *7/02/1909 - Centenário de nascimento).

Neide Medeiros Santos, Crítica literária da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil/Paraíba

O mitólogo americano Joseph Campbell, na entrevista concedida a Moyers, que se encontra no livro "O Poder do Mito", afirma que foi lendo os livros sobre os índios americanos, quando criança, que descobriu os mitos, pois nessas histórias estavam presentes "criação, morte e ressurreição". Vamos seguir a orientação de Campbell e viajar pelos caminhos do mito na literatura infantil indígena produzida para crianças no Brasil.

Quando falamos em literatura indígena para crianças no Brasil, século XXI, desponta o nome de Daniel Munduruku. O primeiro livro deste autor - "Histórias de índio" - foi editado pela Companhia das Letrinhas, em 1996. Em 2001, Daniel publicou "Meu vô Apolinário" (Studio Nobel: 2001) e explica como surgiu este livro. Ele tem dois amigos que costumam dizer que os índios têm uma coisa que o brasileiro não tem - "ancestralidade" e foi pesquisando sobre essa palavra que ele descobriu um significado muito bonito - ancestralidade que dizer raízes.

Meditando sobre esse significado, Daniel Munduruku concluiu que ser índio é ter raízes e foi buscar, na memória dos seus antepassados, no caso deste livro, o avô, a história de seu povo e, a partir dessa consciência, como ele bem afirma, surgiu "a poesia da sabedoria dos nossos anciãos e como eles têm destaque dentro de nossa sociedade e de nossos corações" (2001:38).

Os índios, os primeiros habitantes do Brasil, têm uma rica tradição mítica, o que estava faltando era um escritor que transformasse em livros essas histórias contadas pelos mais velhos às gerações mais novas, aos curumins, às crianças brasileiras do século XXI.

Alguém poderia dizer: e os livros indianistas de José de Alencar, os poemas indianistas de Gonçalves Dias e os textos de outros escritores que procuraram retratar os índios brasileiros, onde colocaríamos? Existiu, realmente, no século XIX, na literatura brasileira, uma preocupação em apresentar, de forma idealizada, os nossos índios, mas só no século XXI, nos livros de Daniel Munduruku e nos livros escritos por outros índios e descendentes indígenas eles deixaram de ser idealizados, passaram a ter voz. O índio é autor e ator da sua própria história.

Há um livro de Daniel Munduruku posterior a "Meu vô Apolinário" - Os Filhos do Sangue do Céu e outras histórias indígenas de origem (2005: Landy Editora) que apresenta algumas histórias indígenas relacionadas com o mito da criação, embora Daniel afirme que essas histórias não são lendas, sequer são mitos, são histórias que devem ser lidas com o coração, e é com o coração que vamos fazer a leitura dessas histórias e passar para vocês um pouco desse sentimento de ternura que elas despertam.

Para escrever este livro, Daniel recolheu histórias de quatro povos indígenas: Tariano, Apinajé, Tembé, Caiapó. Na apresentação, o autor fala que os textos não são lendas nem mitos, mas no subtítulo de cada história aparece a palavra mito - tem razão, portanto, o poeta Fernando Pessoa quando diz: "o mito é o nada que é tudo".

Vamos percorrer as trilhas desses contos que se ligam todos à origem da criação. O primeiro texto traz o mesmo título do livro - Os Filhos do Sangue do Céu - um mito do povo Tariano.
Quem são os tarianos?

Os tarianos estão presentes no Amazonas, mais precisamente no Alto Rio Negro, mas também na Colômbia. Pertencem ao tronco lingüístico Aruak e somam uma população de duas mil pessoas (2005:14).

Este conto fala sobre como nasceram as pessoas tarianas, elas teriam surgido de um grande trovão que explodiu, partiu-se em dois, transformou-se em carne, jorrou sangue e da divisão dos pedaços de carne apareceram os tarianos. Para conquistar seu espaço, eles lutaram muito, enfrentaram outros povos até se estabelecerem na região escolhida.

O segundo conto fala sobre o surgimento do milho entre os índios e aparece com este título - Como surgiu o milho - um mito do povo Apinajé.

Mas antes vejamos quem são os apinajés.

Os apinajés estão presentes no Estado de Tocantins. São falantes do Jê e somam uma população de mais aproximadamente mil pessoas. (2005:28).

O conto apresenta a história da origem do milho. Um homem muito moço perdeu a mulher, sua tristeza era tão grande que deixou os cabelos crescerem e decidiu dormir nas moitas ao lado da casa. Uma noite, olhando o céu, ele viu uma estrelinha muito bonita que lhe chamou a atenção, durante muito tempo ficou olhando para a estrela até que adormeceu. A estrela aparece depois em forma de uma rã e se transforma em uma linda moça. A princípio, a jovem vivia escondida dentro de um pote, depois de algum tempo ele apresenta a moça aos familiares e resolve casar com ela. A moça/estrela mostrou aos índios a árvore que dava milho, todos passaram a gostar do novo alimento e até hoje os Apinajés gostam muito de comer milho.

O penúltimo conto está também ligado à origem de outro alimento - a mandioca. Como surgiu a mandioca e outra aventura dos filhos das onças. Um mito do povo Tembé.

Os Tembé estão presentes nos Estados do Pará e Maranhão. São falantes do Tupi, da familia linguística tupi-guarani. Sua população é de aproximadamente 1.500 pessoas. (2005: 40)

Neste conto aparece a figura de um pajé poderoso, Maíra, que é detentor do segredo da mandioca, ele sabe como plantar, como colher. Onças, com atitudes humanas, também estão presentes, elas falam e agem como pessoas. É um conto cheio de aventuras, de viagens, de abandono e de reencontro.

O último conto traz o título Como apareceu o fogo, um mito do povo Caiapó.

Os Kayapó (Caiapós, Kaiapós, Kubenkokré) se autodenominam Mebemokré, que significa "gente do fundo do rio". Esse povo - que vive no sul do Pará - acredita que seus primeiros pais, seus antepassados, saíram de dentro do rio para povoar a terra. Mas acreditam também que são filhos das estrelas segundo o mito de origem.

São falantes de uma língua pertencente à família linguística jê e têm uma população de aproximadamente cinco mil pessoas. (2005:50)

O surgimento do fogo está muito ligado aos mitos da criação e, neste conto, um animal, uma onça macho, é a portadora do fogo, é ela quem ensina a um menino do povo kaiapó o lugar onde se encontra o fogo e a partir do conhecimento do fogo os kaiapós passaram a cozinhar seus alimentos.

Os Filhos do Sangue do Céu e outras histórias indígenas de origem reúne quatro contos, quatro histórias, quatro lendas, quatro mitos.

SAIBA MAIS

Daniel Munduruku é diretor-presidente do INBRAPI - Instituto Indígena Brasileiro para Propriedade Intelectual e tem procurado difundir, divulgar a boa literatura produzida por índios e descendentes indígenas. Que venham mais e mais livros, histórias e mais histórias e que as gerações futuras sintam um dia o orgulho de ser descendentes dos índios.
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3 comentários:

Líllian Castelo disse...

Professora estou fazendo mestrado em Letras e meu projeto é sobre literatura indígena, por gentileza, se puder entre em contato comigo, estou precisando de muita ajuda, e como sabemos os estudos referente a essa literatura ainda é muito vago! Um grande abraço!

Líllian (li_castelo@hotmail.com)

cris disse...

boa noite
profesor
sou estudante de Pedagogia e meu TCC é sobre literatura infantil mas quero focar nas literaturas infantis indigenas que busque algo com a afetividade a ludicidade as brincadeiras preciso muito conheser sobre essas litaraturas é como a lillian disse é muito vago essas literaturas. é dificil falar algo que quase não existe
muito obrigado

Cida Borges disse...

Estou no último ano de Pedagogia, e meu TCC é sobre Litertura Indígena. Amei saber que temos tantos escritores indígenas, especialmente Daniel Munduruku. Meu sonho é conhecê-lo um dia...Sempre que posso compro um livro desse escritor maravilhoso.