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terça-feira, 1 de setembro de 2009

Para criar passarinho revisitado






LIVROS &LEITURAS
Para criar passarinho revisitado
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil – FNLIJ/PB)
e-mail: neidemed@gmail.com

Três vezes passa por perto da gente a felicidade.
(Guimarães Rosa. Desenredo. In: Tutaméia).

Para criar passarinho, de Bartolomeu Campos de Queirós, editado pela Miguilim, chegou às minhas mãos, pela primeira vez, na primavera de 2001. Li, reli, me apaixonei pelo livro. Um dia resolvi emprestá-lo a uma amiga. O passarinho gostou tanto da nova companhia que não voltou mais. Senti-me abandonada, triste. Como ousara trocar a sua antiga dona por um novo amor?
Vasculhei livrarias, sebos e nada, tomara mesmo “chá de sumiço”, o danadinho.
Os anos se passaram. Em 2004, passeando pelas alamedas da Bienal do Livro, em São Paulo, deparo-me com uma nova edição do livro, igual àquela que tinha antes. Meu coração bateu mais forte, comprei dois exemplares, dei um de presente e fiquei com o outro, guardado a sete chaves. Nada de empréstimo. Aprendi a lição.
Agora, recebo uma nova edição. O livro vem cheio de novidades – novo formato, novas ilustrações, apenas o conteúdo é o mesmo. Examino-o carinhosamente e sinto uma imensa saudade da edição antiga que tenho à minha frente, e pergunto: Onde estão as belas ilustrações de passarinhos de Walter Lara?
Uma voz fraquinha de passarinho responde:
- Foram todas substituídas por desenhos geométricos: quadrados, losangos, triângulos, circunferências. Algumas páginas coloridas em amarelo, verde e azul lembram as cores de passarinhos. Só isso, nada mais.
Repito baixinho: “never more”...”never more”.
O único consolo, caro leitor, é que o poético texto de Bartolomeu Campos de Queirós está lá, inteirinho, imutável.
Quem não conheceu as edições anteriores poderá se contentar com esta nova e percorrer, página por página, o belíssimo (é superlativo mesmo) texto de Bartolomeu Campos de Queirós.
Mas nem tudo está perdido no país de Pindorama. O bom projeto editorial e a criativa capa de Guto Lacaz minoram a dor da partida dos pássaros de Walter Lara. Pássaros gostam de voar. Certamente estão pousados em algum lugar seguro, livre de poluição.
Para criar passarinho é um livro para crianças?
É um livro para pessoas que têm sensibilidade poética e que amam a natureza e os pássaros.
Mas quem é realmente Bartolomeu Campos de Queirós?
É um escritor mineiro que mora em Belo Horizonte. Já recebeu os mais significativos prêmios brasileiros: Jabuti, Selo de Ouro da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil. Foi indicado, em 2008, para o prêmio Hans Christian Andersen e recebeu, em dezembro de 2008, no México, o Prêmio Ibero-Americano SM de Literatura Infantil e Juvenil.
A professora Marisa Lajolo integrou o júri do Prêmio Ibero-Americano e, em texto transcrito para Notícias 11, novembro de 2008, Boletim da FNLIJ, assim se expressou sobre a obra de Bartolomeu Campos de Queirós:
“Sua estréia na literatura deu-se em 1974, com a obra O peixe e o pássaro. Já esse seu primeiro livro ganhou de imediato um dos mais importantes prêmios brasileiros para livros infantis: o Selo de Ouro outorgado pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, a seção brasileira do IBBY. Este livro já fala dos espaços largos, da beleza da vida, do miúdo e do cotidiano de que continua, até hoje, a ocupar-se sua literatura” (p.6).
No conto “Desenredo”, Guimarães Rosa conclui com estas frases:
“Três vezes passa por perto da gente a felicidade. [...] E pôs-se a fábula em Ata.”
Para criar passarinho passou por mim três vezes, mas apenas duas vezes vi a cor da felicidade.
Em tempo: O livro de Bartolomeu Campos de Queirós foi reeditado em 2009 pela Editora Global. É um texto poético/filosófico como costumam ser muitos livros do escritor mineiro.

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