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sexta-feira, 2 de outubro de 2009

caminhos de santiago


CAMINHOS DE SANTIAGO
( Neide Medeiros Santos – Crítica literária – FNLIJ/PB)
Se cada um de vós abrisse um livro de poemas...
Faria uma verdadeira viagem...
(Mário Quintana. Invitation au Voyage)

O caminho de Santiago de Compostela, na Espanha, tem dado origem a muitos diários e a inúmeras publicações. De S. Jean Pied de Port (caminho francês) a Santiago de Compostela (terras de Espanha) há um longo percurso a ser trilhado (cerca de 800 km). Escritores que fizeram essa viagem deixaram registros em diários e livros. Só, no Brasil, já foram publicados mais de cem livros com essa temática.
Não sabemos se o poeta García Lorca foi peregrino dessa rota, mas deixou um belo poema “Santiago:balada ingênua “ que conta, de modo sucinto e teatral, a história lendária do apóstolo Santiago.
“Santiago”, com ilustrações do artista plástico espanhol Javier Zabala, selo da Editora WMF Martins Fontes (2009), é um poema que integra “Livro de poemas”., um dos primeiros livros publicados por García Lorca ( 1921).
O subtítulo “balada ingênua” remete o leitor para um tipo de composição poética – balada. Na opinião de Massaud Moisés (Dicionário de Termos Literários: 1974), a balada esconde duas formas líricas convergentes e algo distintas.
A primeira tem origem folclórica, popular ou tradicional e não se prende a qualquer literatura européia. Está presente entre os povos anglo-saxões, eslavos, gregos, romenos, espanhóis e portugueses.
Na segunda concepção, com base nos postulados teóricos de Lawrence J. Zillmam, vem a explicação: “ Na verdade, trata-se de forma literária mista, pois reúne elementos de poesia dramática e lírica bem como narrativa. Mas em geral pode ser descrita como uma breve canção-história (...). ”
O processo dramático da balada vem acompanhado de perguntas e respostas, de um diálogo que é utilizado para desenvolver a fabulação.
Entre os poetas modernistas brasileiros, lembramos de duas baladas lidas, recitadas e bem conhecidas do público leitor de poesia: “Balada das três mulheres do sabonete Araxá”, de Manuel Bandeira, e “Balada das duas mocinhas de Botafogo, de Vinicius de Moraes. Esta última, pelo alto grau de dramaticidade, foi transformada em peça teatral.
Deixemos as divagações poéticas, e retornemos ao livro de Federico García Lorca – “Santiago”.
O poema “Santiago” não conta a história da peregrinação do apóstolo em sua totalidade, são fragmentos da passagem do santo por terras da Espanha. Para dar uma melhor visão da história, seguem-se alguns diálogos entre o narrador e a velhinha que testemunhou a passagem do apóstolo.
- Quem viu o apóstolo Santiago?
“ Uma velha que vive muito pobre
na parte mais alta do arraial
que possui uma roca imprestável,
(...) (p. 11)

- Quando a velhinha viu o apóstolo?
“(...) numa noite distante
como esta, sem ruídos nem ventos” (p.13)
(...)
- Como ia vestido?
“- Com bordão de esmeraldas e pérolas
e uma túnica de veludo.” (p.15)
(...)
“- E, comadre, não lhe disse nada?
- perguntam-lhe duas vozes ao mesmo tempo.”(p.16)

Responde a velhinha:
“- Ao passar me olhou sorridente
e uma estrela deixou-me aqui dentro. “ (p.16)

“- Continue, continue,velha comadre.

Aonde ia o glorioso viajor? ‘ (p.19)

“- Perdeu-se por aquelas montanhas
com minhas pombas brancas e o cachorro.
Mas cheia deixou-me a casa
de roseiras e de jasmineiros,
e as uvas verdes da parreira
amadureceram, e meu copo cheio
encontrei na manhã seguinte. “ (p. 21 )
(...)
O encontro do apóstolo com uma personagem do povo, uma velha fiandeira, vem revestido de fantasia e beleza, parece que estamos no país de São Saruê, descrito de modo utópico pelo poeta popular Manuel Camilo dos Santos.
Não contei tudo, deixei o resto para os leitores amantes de poesia e, principalmente, da poesia de García Lorca.
Ainda uma palavrinha – olhem com atenção o livro, vejam as bonitas ilustrações de Javier Zabala, ilustrador detentor de vários prêmios de ilustração na Espanha, leiam as informações sobre o poeta gitano que aparecem nas últimas páginas do livro. Boa leitura!

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