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sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Memórias de um menino poeta -vinicus menino




LIVROS & LEITURAS
Memórias de um menino poeta
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária da FNLIJ/PB)

O primeiro verso que um poeta faz é sempre o mais belo porque toda a poesia do mundo está em ser aquele o seu primeiro verso...
(Mário Quintana. O menino e o poeta).

Doze textos em verso e prosa estão reunidos em Vinicius menino (Cia.das Letras, 2009), idealização e seleção de Eucanaã Ferraz e ilustrações de Marcelo Cipis. Os textos e os poemas foram recolhidos de livros de Vinicius de Moraes que falam, principalmente, da infância do poeta. Alguns são inéditos.
A descrição da casa dos avós paternos traz doces recordações ao menino de ontem. A casa ficava situada na Rua General Severiano, no bairro do Botafogo. A imagem do avô, colocado à cabeceira da mesa grande, com o guardanapo atacado ao pescoço, preparado para comer abacate, está gravada nas suas retinas.
E as leituras do avô? Coincidiam com as do menino – folhetins de Michel Zévaco. Quantos títulos? Não é possível relembrar todos – Os Pardaillan, Buridan, Os amantes de Veneza, A torre de Nesle...
A avó era uma pessoa que irradiava doçura. O cabelo já estava todo branquinho, andava pela casa bem devagar. Ajoelhava-se ao pé do oratório e ficava muito tempo rezando, com os olhos fitos no Menino Deus.
A casa paterna é descrita com muita afetividade. O poeta adulto observa que as salas conservaram “um dorido repouso em suas poltronas”.
O piano fechado transporta-o para a infância quando as mãos maternas tocavam valsas. E vem a recordação das músicas tocadas ao piano por sua mãe. “La cumparsita” e “Caminito” eram as preferidas. De repente, não mais que de repente, chega o fox-trot e o pai traz novas partituras que serão tocadas pela pianista. São tantas lembranças!
Havia grande diferença de idade entre o pai e a mãe. Ele era professor de francês, ela, sua aluna. E o professor se apaixonou pela aluna bonita e inteligente. Casaram-se. O pai continuou um eterno enamorado – escrevia sonetos, odes, rimancetes, baladas, dedicados à mulher amada.
Na antiga casa paterna, como no poema de Manuel Bandeira, tudo estava “impregnado de eternidade”. Na estante, um Tesouro da Juventude, com o dorso puído de fato e de tempo. Foi ali, naquele livro, que o menino descobriu a beleza do verso.
O violão do pai, junto à vitrola, parecia dormir. Nunca mais saíra som de suas cordas. Estava solidário com a ausência e o silêncio de seu antigo dono.
Gaston Bachelard, no livro Poética do Espaço, afirma que a casa é um “corpo de imagens”; através dessas imagens revela-se a alma da casa. As descrições dos cômodos e objetos da casa paterna nos mostram os valores da intimidade. A casa se torna o recanto das lembranças armazenadas. Com estes textos rememorativos, Vinicius demonstra apreço e afeto pela casa dos seus antepassados.
Mas o livro Vinicius menino traz alguns poemas que falam sobre pequenos animais domésticos – formiga, mosquito. O abacate, fruta preferida do avô e apreciada pelo poeta, mereceu um poeminha. Em depoimento a respeito da boa aceitação deste poema entre as crianças, Vinicius revelou: faz grande sucesso entre crianças de mentalidade coprófila e adultos de mentalidade de criança. Entre aqueles que têm mentalidade de criança, ele cita o amigo e compadre Chico Buarque. Vamos ao texto:
ABACATE

A gente pega o abacate
Bate bem no batedor
Depois do bate-que-bate
Que é que parece? – Cocô.
Ô abacate biruta:
Tem mais caroço que fruta!

Neste poema, sente-se a presença do menino “pulante, grimpante, nadante” que, como o menino maluquinho, de Ziraldo, tinha asas nos pés e seus cadernos deviam ser assim: um dever e um desenho/uma lição e um versinho.
O livro Vinicius menino é um resgate de um menino feliz que viveu cercado pelo carinho de seus pais, avós, que conta histórias dos seus antepassados com um gostinho de quero mais.
( Publicado no jornal Contraponto, Caderno B2, 20 a 26 de novembro de 2009).

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