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sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Sebastiana e Severina: um drama nordestino


LIVROS&LITERATURA
Neide Medeiros Santos – crítica literária FNLIJ/PB

Sebastiana e Severina: um drama nordestino

Fazes renda de manhã
E fazes renda ao serão,
Se não fazes senão renda,
Que fazes do coração?
(Fernando Pessoa. Quadras ao gosto popular. 261)

O escritor e ilustrador pernambucano André Neves publicou, em 2002, pela editora DCL, o livro Sebastiana e Severina. A história trata de um drama amoroso que envolve duas moças rendeiras, moradoras da cidade São Sebastião de Umbuzeiro (PB), um moço forasteiro e uma feiticeira.
O tempo havia passado e as duas rendeiras já não dispunham da beleza da juventude, mas tinham um sonho: desejavam encontrar “um príncipe encantado” para casar. A chegada de Chico à cidade de Umbuzeiro, um homem bonito, alto e inteligente, despertou logo o interesse das duas moças.
Para cativar o coração do visitante valia tudo: cantar belas canções, fazer a renda mais bonita da festa, invocar os poderes mágicos de Dona Zefinha, a grande feiticeira da cidade. A disputa foi acirrada e a receita para conquistar Chico envolvia “pestanas de leão’, “unhas de anão”, “fígados de rato’, ‘bigodes de gato”.
O texto é apresentado em prosa e verso e o leitor entra no clima festivo do padroeiro da cidade de Umbuzeiro, São Sebastião. Valores culturais, comidas típicas, cantigas populares, artesanato, “o saber e o fazer” nordestinos são retratados por quem entende do “risco do bordado”.
Almofadas, bilros, rendas, retratos de São Sebastião e a paisagem nordestina/sertaneja passeiam pelas páginas do livro, dando um colorido especial à história.
O relato termina em tragédia. Sebastiana e Severina encontraram Chico, em uma noite de lua cheia, nas margens do açude, nos braços de Dona Zefinha. As duas moças foram traídas pela velha feiticeira. Resolveram, então, entrar em um barco, atravessar o açude para ir ao encontro do amado. O barco estava furado, foi se enchendo de água. Como não sabiam nadar, morreram afogadas, abraçadas uma à outra. Seus corpos sumiram nas águas escuras e profundas do açude, nenhum vestígio foi encontrado. Desapareceram para sempre. Na opinião de André Neves, só restou: “ a imaginação e encanto para criar as cores e as palavras deste livro”.
“Sebastiana e Severina” traz bonitas ilustrações. Cores fortes e vibrantes podem ser associadas ao sol nordestino e ao amor ardente que as duas moças devotavam a Chico. Nas últimas páginas, o azul profundo das águas e a cor cinza conotam morte e dor.
Este livro foi adaptado para o teatro pelo próprio autor. Duas atrizes participaram do elenco – Cristina Britto como Severina, e Karla Konká como Sebastiana. As duas atrizes se revezaram e representaram os papéis de Dona Zefinha e do forasteiro. A peça foi apresentada em João Pessoa, no Teatro Santa Rosa.
André Neves vem se dedicando à literatura infantil desde 1996 e desenvolve trabalhos como escritor, ilustrador, arte-educador e contador de histórias. Quando criança, passava as férias escolares de janeiro na cidade de Umbuzeiro, na casa de sua avó, e presenciou muitas festas do padroeiro da cidade. Essa vivência no sertão paraibano foi a base para criar a fantástica história de Sebastiana e Severina.
Não poderíamos deixar de registrar a opinião do editor e livreiro José Xavier Cortez sobre este livro. Cortez foi entrevistado por Marciano Vasques (Revista Palavra Fiandeira, No. 2), novembro de 2009 e deu o seguinte depoimento:
Foi após ter lido um livro infantil que tomei a decisão de investir nesse segmento. Ao ler Sebastiana e Severina, de André Neves, fiquei emocionado. O livro me influenciou e mudou os meus rumos, ampliando os caminhos da nossa editora (...) Um livro infantil fez isso! Toda a minha saudade, todo o meu sentimento, todas as minhas lembranças, a minha própria infância, tudo foi recuperado no livro, então abriu-se, a partir dessa leitura, um outro segmento para a nossa editora.
Julgamos necessário fazer este esclarecimento: A editora Cortez é dirigida por José Xavier Cortez, natural de Currais Novos (RN), e só publicava livros para adultos até 2004. Depois da leitura de Sebastiana e Severina, Cortez resolveu editar livros para crianças e jovens e já conta vitórias. Em 2008, Histórias tecidas em seda, escrito e ilustrado por Lúcia Hiratsuka e Leonardo desde Vinci, de Nilson Moulin, com ilustrações de Rubens Matuck, ganharam prêmios nacionais da FNLIJ.
Em tempo: Histórias tecidas em seda e Leonardo desde Vinci foram livros resenhados no jornal O Norte e integram os textos de Livros à espera do leitor ( Ed. Zarinha Centro de Cultura, 2009).

2 comentários:

Rute disse...

Olá passando aqui para conhecer seu blog, gostei parabéns pelas postagens, estou seguindo seu blog!Beijinhos a vc!
www.rute-rute.blogspot.com

Veruschka Guerra disse...

Neide, adorei o seu blog...gostaria de saber como adquirir o seu livro...não sei se lembra de mim ,nós nos encontramos algumas vezes ...eu fui esposa de André Ricardo Aguiar e ilustrei o livro de Maria Valéria Rezende.Atualmente estou ilustrando um de Ronaldo Monte e por isso me interessei por seu livro .Gostaria muito de lhe mostrar minhas ilustrações,pois a Valéria está me orientando na montagem de um portifólio e queria sua avaliação .Meu email é diario.de.cores@gmail.com . Agradeço antecipadamente sua atenção,Veruschka Guerra.