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sexta-feira, 14 de maio de 2010

Senhor Augustin: uma personagem quixotesca


Senhor Augustin: uma personagem quixotesca
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária da FNLIJ/PB)

A expressão quixotismo incorporou-se ao vocabulário de todas as línguas para designar o comportamento daqueles que se sobrepõem a fantasia à realidade, o idealismo ao realismo, o desprendimento às conveniências.
(Ferreira Gullar – Nota de Ferreira Gullar para o livro Dom Quixote de La Mancha).

A literatura de todos os tempos está povoada de personagens quixotescas. Senhor Augustin (Ed. Cosac Naify, 2009), de Ingo Schulze, ilustrações de Julia Penndorf, é um bom exemplo deste modelo de personagem.
Ingo Schulze nasceu em Dresden, na Alemanha. Estudou Filologia Clássica em Iena. Trabalhou como dramaturgo e editor de jornais. Seus livros receberam diversos prêmios. Atualmente vive em Berlim e dedica-se a escrever para o público infantojuvenil.
Julia Penndorf nasceu em Altenburg, na Alemanha. Estudou ilustração na Faculdade de Artes Aplicadas de Praga. Recebeu o prêmio de “Mais belo livro alemão de 2008” por suas ilustrações para o livro” Senhor Augustin”.
Julia Pendorf sabe muito bem que ilustrar não significa complementar o texto verbal, mas sugerir possíveis leituras. Neste livro premiado, pingos de chuva coloridos, guarda-chuvas e chapéus se espalham pelas páginas do livro, criando um clima lúdico e cheio de fantasia.
Antes da apresentação de Senhor Augustin, consideramos oportuno registrar a opinião do poeta Thiago de Mello a respeito do livro de Ingo Schulze.
Thiago de Mello apresentou este livro às crianças do rio Andirá, no coração da floresta amazônica, e elas gostaram tanto que lhe pediram para contar a história outra vez.
Se o poeta e as crianças do rio Andirá gostaram, isso prova a universalidade da história. Foi escrita por um alemão, com uma realidade distinta da nossa, mas foi compreendida e amada por crianças que estavam separadas por quilômetros de distância.
Aproximemos do Senhor Augustin. Quem é esse senhor?
Senhor Augustin é um aposentado que gosta de olhar a vida. Uma das suas manias é ficar parado em frente à porta de sua casa observando as pessoas que passam apressadas, crianças que vão para a escola, mães que empurram carrinhos de bebês. Está sempre de chapéu e se utiliza da mesma saudação para cumprimentar as pessoas: “Prazer em vê-lo”
O que mais caracteriza seu Augustin é a distração – às vezes usa meias de cores diferentes, cabo de vassoura no lugar do guarda-chuva, o braço direito na camisa, o esquerdo no casaco. Tem um cacoete: costuma passar a mão na cabeça para comprovar se o chapéu está no devido lugar.
Por suas excentricidades, Senhor Augustin, algumas vezes, é ridicularizado pelas crianças. Quando isso acontece, ele fica bravo e lá vai pedra...
Retratado como uma personagem diferente, Senhor Augustin foge dos padrões convencionais. Está sempre em conflito com o mundo, está próximo de Vitorino Papa-Rabo e de Policarpo Quaresma.
Ingo Schulze se considera parecido com Seu Augustin – é muito distraído, perde as coisas e sempre as encontra em lugares que jamais imaginaria. Perdeu tantas vezes seu guarda-chuva, um guarda-chuva bonito, com cabo de madeira, presente dos amigos, que ele já aprendeu o caminho de casa, volta sozinho. Os dois (autor e personagem) se assemelham a Dom Quixote - são distraídos e sonhadores.
Dom Quixote encontrou um amigo – Sancho Pança. Senhor Augustin encontrou a menina Clara que, depois de insultá-lo e receber uma pedrada tornou-se sua amiga. Não existe um cavalo na história, mas aparece um cachorro que lhe faz companhia.
Concluímos esta breve história de Senhor Augustin com palavras do poeta Thiago de Mello:
Dá vontade de ser um pouco como o Augustinho, pessoa generosa e solidária, mas que sabe jogar pedra contra quem zomba da bondade humana. Ele leva uma queda e aproveita, estirado no chão, para olhar a beleza azul do céu.

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