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sábado, 15 de janeiro de 2011

Vida, Morte e Ressurreição de um papagaio




LIVROS & LITERATURA
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB)

Vida, Morte e Ressurreição de um papagaio

A grande ambição da arte é superar a dor, a morte e reinventar a vida.
(Eucanaã Ferraz)


“História da ressurreição do papagaio” (Cosac Naify, 2010) foi escrita, ilustrada e traduzida por três grandes artistas – Eduardo Galeano, escritor uruguaio, Antonio Santos, artista plástico e escultor espanhol/catalão, Ferreira Gullar, tradutor e poeta brasileiro/nordestino.
Eduardo Galeano escolheu o Ceará como cenário de sua história. Um folheto de cordel, ouvido em um mercado público, no Ceará, foi o ponto de partida para escrever a morte de um papagaio; Antonio Santos se inspirou no artesanato nordestino para fazer as ilustrações do livro (esculturas coloridas em madeira) e o poeta Ferreira Gullar traduziu, com “engenho e arte”, o texto de Eduardo Galeano.
O cordel é um manancial inesgotável de inspiração para escritores e ilustradores. O Nordeste, com suas tradições, seu modo de ser e de fazer, está todo presente nos folhetos dos cordelistas brasileiros. Ângela Lago e Ricardo Azevedo, para citar apenas dois autores, têm utilizado, com muita freqüência, textos de natureza popular para escrever e ilustrar seus livros.
De forma diferente dos contos tradicionais e populares, a história do papagaio começa de modo direto, sem delongas:

“O papagaio caiu na panela que fumegava
Subiu nela, ficou tonto e caiu.
Caiu de curioso, e se afogou na sopa quente.”

Diante da tragicidade do fato, a menina, que era sua amiga, chorou. Em seguida, aparece uma vasta enumeração de coisas que se associam à dor da menina:
“A laranja se despiu de sua casca
e lhe ofereceu consolo.”

“O fogo que ardia sob a panela
se arrependeu e se apagou.”

“A árvore, inclinada sobre o muro,
estremeceu de pena.”

“Quando o vento soube do que ocorrera,
soltou um sopro. ”

O céu não ficou indiferente. Ao tomar conhecimento da má notícia, empalideceu. O homem emudeceu.
Um oleiro cearense quis saber como tudo tinha acontecido. O homem, que havia recuperado a fala, contou todos os detalhes. O oleiro reuniu toda aquela tristeza e resolveu ressuscitar o morto.
Deu colorido ao papagaio com plumas amarelas da cor do fogo e da laranja, plumas azuis do céu e plumas verdes da árvore. O papagaio ganhou palavras do homem para falar e água das lágrimas da menina para beber e se refrescar. Por fim, apareceu uma janela aberta e o papagaio voou ao sopro do vento.
Se deixarmos reunidos um escritor criativo, um artista plástico e um poeta o resultado só pode ser este – um livro que encanta pela poeticidade da linguagem e beleza das ilustrações.
Eucanaã Ferraz, em nota apensa ao livro, afirma que; “Muito além da geografia, essa história trata de sentimentos universais, compaixão, ternura, amizade”.
Recorremos à Cecília Meireles para externar o sentimento que esse livro nos despertou:
“Mas a vida, a vida, a vida
a vida só é possível
reinventada.”
(Reinvenção. Vaga Música)

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