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domingo, 24 de abril de 2011

A presença do cotidiano e da memória nas crônicas de Ignácio de Loyola Brandão


A presença do cotidiano e da memória nas crônicas de Ignácio de Loyola Brandão
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB)

A memória é a cidade localizada na intimidade do cronista. E nós, leitores, somos os transeuntes privilegiados desse mundo fabuloso.
(Regina Zilberman. Apresentação do livro “Ignácio de Loyola Brandão – Crônicas para ler na escola”)

A editora Objetiva publicou, em 2010, três livros de crônicas de escritores brasileiros destinados aos leitores jovens. Com o título “Crônicas para ler na escola”, foram selecionados textos de Ruy Castro, João Ubaldo Ribeiro e Ignácio de Loyola Brandão. Pela leveza dos textos e o tom memorialista, nossa escolha recaiu no livro de Ignácio de Loyola Brandão.
A professora e crítica literária Regina Zilberman escreveu a apresentação do livro e agrupou as crônicas em “Cenas do cotidiano” e “Memória”. Depois de destacar a prosa variada, a perspectiva crítica e consciente do autor diante dos problemas do Brasil, a ensaísta afirma:
“Não é diferente o que se passa em suas crônicas. Nas que estão aqui reunidas, deparamo-nos também com as contradições e problemas do mundo moderno, em especial da sociedade brasileira, que o escritor procura entender e representar”. (p.10)
Quanto ao aspecto memorialístico, Zilberman destaca: “A travessia da memória é, ao contrário do percurso pela cidade, extremamente pessoal”. (p.13)
“Marteladas na cabeça” integra o conjunto de “Cenas do cotidiano”. Nesta crônica, ficamos sabendo como se processa o ato de escrever do escritor. Quando sai para a rua, leva um bloquinho e anota frases ouvidas nos passeios pela cidade, registra os grafites encontrados nos muros. Além disso, possui inúmeros cadernos com anotações dos diálogos de filmes, nomes de pessoas para serem usados em futuros personagens, notícias de jornal. Esses cadernos são uma espécie de diário do escritor.
Para Ignácio de Loyola Brandão, esses cadernos parecem inesgotáveis, “ali está o Brasil, a gente, a fala, e eu no meio”. (p.70)
As crônicas ligadas à memória relembram a infância passada em Araraquara, cidade natal do cronista. “O poder e a glória de paralisar o Brasil” remete aos anos 40 do século XX, durante o período da semana santa. A cidade ficava completamente diferente. A partir do Domingo de Ramos começavam as celebrações. As imagens da igreja eram cobertas com pano roxo. Na quinta-feira santa, não se ligava radio, os carros não buzinavam não se podia brincar, cantar, os sinos da igreja calavam-se. Na sexta-feira santa, era luto total.
No sábado vinha a Aleluia. Cristo iria ressuscitar. Missa da Aleluia. Ao som da campainha, caía o pano negro que cobria o altar-mor. Acendiam-se as luzes da igreja e soltavam-se pombos brancos que ficavam voando pela nave. O sacristão repicava os sinos e todas as locomotivas da EFA (Estrada de Ferro de Araraquara) apitavam. “Mas nada disso aconteceria se eu não tocasse campainha. Era aquele toque que acionava tudo. Sem ele, o luto prosseguiria, não haveria Aleluia. Cristo não ressuscitaria.” (p. 103)
O pequeno coroinha sentia-se dono do mundo, naquela hora era a pessoa mais importante da cidade. O cronista termina o texto lamentando que a semana santa não tenha mais a dramaticidade e a atmosfera de tragédia de antigamente.
Ainda, nos textos memorialísticos, “Os pratos da ferrovia” remontam à infância e às viagens nos trens da Estrada de Ferro Araraquara. Uma visita à feirinha de antiguidades da Praça Benedito Calixto (São Paulo) foi o ponto de partida para rememorar o passado. Estavam expostos para venda os pratos do vagão-restaurante da Estrada de Ferro. O pai do escritor trabalhou na empresa ferroviária e, na visão do futuro escritor, Araraquara possuía a mais espantosa estação de toda a sua infância.
Ler essas crônicas de Ignácio de Loyola Brandão nos transporta para Araraquara da década de 90 do século XX. Conhecemos a estação de trem que perdeu muito do antigo brilho. Atualmente, o trem faz o curto percurso entre Araraquara e São Carlos, apenas 40 quilômetros separam as duas cidades.
Para concluir essas observações, usamos palavras do próprio Ignácio de Loyola Brandão:
“A vida era simples, os prazeres também. Acabamos complicando muito, exigindo demais e nos distanciamos de verdades que se encontram nos pequenos gestos e situações.” (p. 107)



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